Educação Ambiental, ética e política: entrevista com Diógenes Valdanha Neto

Na imagem está escrito: educação ambiental, ética e política em azul. O fundo é amarelo. E ao lado da escrita tem uma imagem de duas mãos segurando um globo terrestre.

Em abril de 2026 realizei uma entrevista com o professor Diógenes Valdanha Neto sobre ética na pesquisa em educação ambiental.

O professor Diógenes é biólogo e trabalha no Instituto de Biologia da UNICAMP com a formação de novos profissionais. Fez o mestrado e o doutorado na área de Educação e trabalha com disciplinas de Metodologia de Ensino, Currículo e Educação Ambiental na graduação, além de fazer pesquisa nessas áreas.

O intuito da entrevista foi entender como a ética pode perpassar as pesquisas em educação ambiental.

Ao pensarmos em ética, podemos entender que, de alguma forma, ela perpassa todos os campos da nossa vida em sociedade.

No entanto, quais são as especificidades de cada trabalho ?

A educação ambiental é uma esfera do conhecimento interdisciplinar e, apesar de ser um consenso que se trata do exercício de ensinar para a preservação do meio ambiente, existem muitas discussões sobre o foco da educação ambiental…

Estamos falando do âmbito social? Estamos falando de um conhecimento biológico e dos ecossistemas? Estamos falando de prática pedagógica? Não há um consenso sobre isso. Pelo contrário, há uma série de discussões teóricas sobre a área de educação ambiental (Carvalho, 2001) , além de discussões inclusive sobre o termo meio ambiente.

Quem acompanha meus textos sabe que eu trabalho com a ideia de que meio ambiente é uma esfera da nossa vida perpassada por questões políticas. A educação ambiental também. (Layrargues, 2006).

Dessa maneira, quis entender como a questão social e política aparece na pesquisa em educação ambiental e discutir a ética presente no trabalho do educador ambiental.

Abaixo, trago partes da entrevista com o professor Diógenes Valdanha Neto acerca desses temas.

Entrevista

O trabalho do educador ambiental

Entrevistadora:
Boa tarde, professor Diógenes. Sou Maria Clara Sosa, jornalista do Blogs de Ciência da Unicamp, e eu queria saber quais são as dimensões éticas presentes no teu trabalho?

Professor Diógenes:
Olá, meu nome é Diógenes Valdanha Neto. Sou biólogo e professor de Biologia. Trabalho com a formação de novos profissionais na Unicamp. Sou professor do curso de licenciatura em Ciências Biológicas.

Olha, eu acho que são muitas as dimensões éticas.

Porque eu fico pensando em quais termos éticos a gente pode pensar. Mas, no âmbito da pesquisa, existe uma certa burocratização mais clara do que vem sendo entendido por algumas etapas éticas, né?

O surgimento do comitê de ética, que surge nas Ciências da Saúde, mas nas Ciências Humanas isso vai se fortalecendo. Hoje, isso já é bem explícito com os comitês de ética em Ciências Humanas e Sociais.

Mas eu acho que, na profissão docente, a gente tá constantemente lidando com escolhas éticas. Desde os conteúdos que eu escolho abordar ou dos que eu não vou abordar, até as formas como eu vou abordar esses conteúdos. Eu acho que passam por referenciais éticos do que se espera dessas disciplinas, qual é o papel social dessas disciplinas ou do que eu tô fazendo ali, da minha profissão.

Entrevistadora:
Eu queria saber da educação ambiental. Como a gente pensa a dimensão ética quando a gente tá falando da educação ambiental e da atividade do educador ambiental, pensando que é um tema tão presente e atual, né?

Professor Diógenes:
Uhum! Pensar a ética na educação ambiental eu acho que passa pelo educador, pelas pessoas que vão se apresentar, né, que vão tentar ter práticas de educação ambiental.

Eu acho que passa por você ter um certo traquejo, uma certa dosagem dos seus sonhos de sociedade, uma vez que a educação ambiental quer a transformação social. É uma expressão educacional, digamos assim, que quer que as coisas mudem.

Ela entende que, do jeito que tá, está insustentável a relação das pessoas com o meio ambiente.

Normalmente os educadores têm as suas utopias, os seus sonhos, o que os move, mas, quando a gente vai conversar com outras pessoas e praticar educação ambiental, eu acho que uma postura ética é sempre estar aberto e com uma certa humildade para ouvir as pessoas e como elas pensam aquelas questões, se isso é um problema para elas.

Se elas sentem os problemas que às vezes, para a gente, parecem muito importantes; se as pessoas com quem a gente tá tendo interação entendem esse problema como importante. Eu acho que essa é uma postura ética e que potencializa o trabalho educativo, porque, ouvindo, a gente consegue ter uma interlocução mais potente, digamos assim, educacional.

Dilemas éticos na educação ambiental

Entrevistadora:
É, legal. E você já enfrentou algum dilema ético no teu trabalho? Aí pensando mais no teu trabalho como pesquisador, como cientista da educação.

Professor Diógenes:
Uhum! Já enfrentei, eu acho que vários. Mas, com essa coisa do comitê de ética e na área educacional, a gente se depara com muitas coisas.

Por exemplo, porque o comitê de ética vai trabalhar com ideias que supostamente seriam consensuais da ética, e a gente teria que seguir aqueles protocolos.

Mas, por exemplo, você tem que entregar um papel para as pessoas lerem, ou você pode ler para as pessoas, mas elas têm que assinar que estão consentindo participar da sua pesquisa, os termos de consentimento.

E eu já fiz pesquisas em comunidades isoladas com alto índice de analfabetismo adulto. Então a pessoa não é alfabetizada, quer participar da sua pesquisa, quer ser parte daquilo, tá disposta, mas ela não sabe ler.

E aí você entrega esse documento, você pode fazer a leitura, mas ela precisaria assinar.

E aí você pergunta para os comitês de ética qual é o procedimento.

Eles falam assim: “Ah, ela pode colocar o dedo”, que é um procedimento que as pessoas não alfabetizadas fazem, mas é uma exposição, é um estigma, né?

Ou você lê para a pessoa e ela assina, só que isso é questionável eticamente, porque ela tem que acreditar que é aquilo que tá escrito ali. Você tá pedindo para ela assinar um papel que ela não sabe o que tá escrito.

E, para mim, é um dilema ético.

É uma burocracia da universidade que espera aquilo, mas eu penso que, se a gente fosse pensar na ética enquanto respeito às relações humanas, é inadequado aquele procedimento.

Então, para mim, é um dilema. O que você faz? É um exemplo que me vem à cabeça.

A pesquisa do Professor Diógenes

Entrevistadora:
Legal. Você pode dizer qual é essa comunidade isolada em que você trabalhou? Que pesquisa foi essa?

Professor Diógenes:
No meu mestrado e no doutorado, eu fiz pesquisa de campo em duas comunidades diferentes, mas próximas, em Rondônia, que são comunidades ribeirinhas da Amazônia.

Ali eu vivi muitas experiências que foram importantes para minha formação enquanto educador e pesquisador.

Então, normalmente, quando eu penso em exemplos, são experiências que eu vivi lá, né?

Entrevistadora:
O teu trabalho era com educação ambiental específica em comunidades isoladas?

Professor Diógenes:
Eu trabalhei com comunidades tradicionais. Eram pesquisas de educação ambiental em comunidades ribeirinhas da Amazônia, porque eu quis usar essa lente antropológica também, de entender aquilo como uma cultura diferenciada.

O termo “isolado” eu não usei. Todos os termos podem ser relativizados, né?

Mas, pensando em tempos amazônicos, a comunidade mais próxima ficava a oito horas de barco da cidade de Porto Velho.

Para quem é de São Paulo, muitas vezes a gente pode pensar que é isolado. Pros tempos amazônicos, não é tão longe.

O meu mestrado eu fiz dentro de uma reserva extrativista, chamada Reserva Extrativista do Lago do Cuniã. E a reserva tem uma escola, e eu queria entender como aquela escola dialogava com elementos da cultura tradicional da comunidade. Então, no mestrado, minha preocupação era essa.

Então eu fui olhar para a escola, para a educação escolar de uma comunidade.

E eu fiz um campo. Fui morar na casa de pessoas da comunidade, porque eu queria entender como eles viam a escola da comunidade, o que eles esperavam.

Depois eu fiz um campo dentro da escola. Também fiquei quarenta dias morando lá. Eu morei na casa da diretora da escola, que me acolheu.

Eu fui tentando construir isso, mas acabou dando certo eu morar na casa da diretora da escola, então isso enriqueceu também.

E aí eu ia todos os dias às aulas, observava várias aulas de professores para tentar compreender como esse diálogo acontecia. Também entrevistei os professores.

Entrevistadora:
Legal.

Professor Diógenes:
O mestrado foi isso. O doutorado foi outra história. Foi em outra comunidade próxima, e aí eu não dialoguei com a educação escolar.

Era uma comunidade que tinha sofrido uma enchente, num contexto de construção de duas grandes usinas hidrelétricas.

No primeiro ano em que elas começaram a funcionar, essa comunidade ficou inundada, as pessoas saíram de lá, várias pessoas que eu conhecia e conheço, né?

Foi uma coisa bem dramática, um desastre.

E aí, quando a comunidade começa a se reconstruir, eu faço essa proposta de pesquisa para eles primeiro. Eles toparam, e eu fui tentando entender esses processos de aprendizagem social na reconstrução de uma comunidade tradicional.

Como eles estavam se educando, o que isso foi mudando, o que estavam sentindo de diferente na mudança da relação deles com o território, entre as pessoas, com o poder público. Então, um pouco por aí.

Entrevistadora:
Legal. Então tem a própria ética de serem culturas diferentes, né? A tua cultura como pesquisador e uma cultura diferente mesmo, né, de uma comunidade tradicional que vai se reorganizar de outro jeito. Às vezes, você acredita que existam éticas diferentes?

Professor Diógenes:
Não sei. Acho que sim. Tô pensando aqui, né?

Acho que é possível circular dessa maneira em éticas diferentes.

Por exemplo, uma pessoa vegetariana ou vegana muitas vezes considera antiético consumir ou matar um animal para comer.

Nas comunidades tradicionais, pelo menos algumas dessas que eu vivenciei, as pessoas caçavam, pescavam, a proteína vinha daí.

Então, tô pensando alto aqui, acho que são éticas de relação com o meio diferentes, né?

Agora, são comunidades que não têm uma ética extrativista do capital, é uma ética extrativista da cultura comunitária. São diferentes os impactos que isso gera, né?

As questões políticas da educação ambiental

Entrevistadora:
Sim. Eu acho que a educação ambiental, na verdade, tá cheia de questões éticas, permeada tanto pela questão política, de ideias, quanto pela relação, às vezes, com outras pessoas, porque a gente tá em contato com pessoas o tempo todo ao fazer educação ambiental.

Professor Diógenes:
Uhum. Eu acho que sim. Até o mundo que sonhamos, o que nos move para ser educadores ambientais.

Porque é preciso você achar que o mundo de hoje, em que a gente vive uma extrema desigualdade social e injustiças ambientais, é antiético. É algo que não respeita a humanidade.

Você tem aí concepção de ser humano, concepção de sociedade, concepção ética.

Se eu achar que tudo isso tá tudo bem, que é assim, que isso é natural, aí você não vai ser educador ambiental.

Então acho que sim, acho que as questões éticas estão na base dessas posições.

Que mundo queremos construir?

A educação ambiental é uma esfera profundamente política. Ao nos propormos a estudar e atuar como educadores ambientais, afirmamos uma posição diante do mundo e um descontentamento com muitas das relações estabelecidas na sociedade contemporânea. Como pontuou o professor Diógenes Valdanha Neto, essa já é uma posição ética diante da realidade.

O que entendemos por meio ambiente, como realizamos essa educação, sobre o que decidimos falar e quais problemas escolhemos evidenciar: tudo isso revela formas de nos posicionarmos eticamente no mundo.

Estamos quase na metade de 2026, um ano atravessado por guerras, por disputas discursivas sobre o que é considerado certo ou errado, por eleições marcadas pelo atravessamento cada vez mais agressivo das mídias sociais e também por eventos climáticos extremos. Um ano de El Niño, de aquecimento das águas oceânicas, de grandes chuvas na região Sul e de intensificação das crises ambientais.

Diante desse cenário, pensar a educação ambiental também significa refletir sobre quais futuros defendemos, quais relações queremos construir com o meio ambiente e com a sociedade e por quais projetos de mundo estamos dispostos a lutar. Afinal, as escolhas políticas feitas no presente impactam diretamente as formas como nos relacionamos com os territórios, com os recursos naturais e com a própria vida coletiva.

Para saber mais

Carvalho, I. C. de M. (2001). A invenção do sujeito ecológico: sentidos e trajetórias em educação ambiental [Tese de doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul]. Lume – Repositório Digital da UFRGS. http://hdl.handle.net/10183/3336 

Layrargues, P. P. (2006). Muito além da natureza: Educação ambiental e reprodução social. In C. F. B. Loureiro, P. P. Layrargues, & R. S. Castro (Orgs.), Pensamento complexo, dialética e educação ambiental (pp. 72–103). Cortez. https://www.researchgate.net/publication/242129986_MUITO_ALEM_DA_NATUREZA_EDUCACAO_AMBIENTAL_E_REPRODUCAO_SOCIAL_1 

Sosa, M. C. (2025, julho 31). Meio ambiente é conceito. Especial Política – Blogs de Ciência da Unicamp 

 


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