Quando a ministra entrou na sala

Uma sala cheia de pessoas na COP 30, os palestrantes sentados e o escrito "Quando a ministra entrou na sala em cima da foto"

Na COP30, uma ministra brasileira foi aplaudida de pé por uma plateia internacional. A cena me fez questionar a imagem de Marina Silva com a qual cresci.

Marina Silva é hoje pré-candidata ao Senado por São Paulo. Este é o primeiro texto de uma série de três artigos sobre seu papel na política ambiental brasileira. A série parte de duas experiências distintas: a cobertura da COP30, em Belém, e uma fala posterior da ministra em uma mesa aberta na Unicamp.

Neste primeiro texto, a pergunta é simples:

Quem é a Marina que produz tamanho reconhecimento internacional?

Entre a pesquisadora e a jornalista

Durante a COP30, precisei realizar um exercício constante de aproximação e distanciamento das lentes analíticas.

De um lado, carregava comigo as bagagens das experiências e estudos acumulados como bióloga e pesquisadora. De outro, vivia algo inteiramente novo: o papel de jornalista científica em um dos eventos internacionais mais importantes do mundo.

Durante os dias da conferência, meu caderno de campo me acompanhava por todos os lados. Nele anotei detalhes que me chamavam atenção: a diversidade de sotaques e vestimentas, a grandiosidade dos estandes de alguns países, as negociações acontecendo nos corredores e, em alguns momentos, a emoção de encontrar pessoas pelas quais tenho grande admiração.

Foi justamente uma dessas anotações que deu origem a este texto.

Quando Marina entrou na sala

Um dos momentos que registrei em meu diário de campo foi meu primeiro “encontro” com Marina Silva. Primeiro em uma mesa sobre bioeconomia, depois em uma coletiva de imprensa.

No dia seguinte escrevi:

18/11/2025

“Ontem ocorreu o evento especial sobre bioeconomia com Marina Silva.

Quando a vi, uma alegria.

Para minha surpresa, na sala cheia de estrangeiros, ao ser apresentada e após sua fala, Marina foi ovacionada, aplaudida em pé, como não vi fazerem com outra pessoa durante o evento.

A importância dela na área ambiental, essa grandeza palpável, me parece ser invisível para nós.”

O evento aconteceu em uma das salas da Blue Zone, durante uma sessão especial sobre bioeconomia. O espaço estava lotado. Diplomatas, representantes governamentais, lideranças indígenas, pesquisadores e jornalistas ocupavam as cadeiras enquanto acompanhavam as falas por meio de tradução simultânea.

Participavam da mesa o embaixador brasileiro Maurício Lyrio, o líder indígena Juan Carlos Jintiach, a ministra do Meio Ambiente do Reino Unido, Mary Creagh, o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, e a ministra brasileira Marina Silva.

Quando Marina entrou na sala, foi como assistir à chegada de uma celebridade.

Mas não de uma celebridade comum.

Tratava-se de uma autoridade política reconhecida internacionalmente.

E aquilo me causou estranhamento.

A Marina que eu conhecia

Cresci nos anos 2000 acompanhando as eleições presidenciais pela televisão.

Minhas primeiras lembranças de Marina Silva não estavam associadas aos seus resultados políticos ou às suas contribuições para a agenda ambiental brasileira. Lembro-me, sobretudo, das narrativas que circulavam durante as campanhas eleitorais.

Frequentemente, as discussões giravam em torno de sua aparência física, de sua forma de falar, de suas crenças religiosas ou de seu estilo pessoal.

Com o passar dos anos, porém, meus estudos me colocaram diante de outra Marina.

Aquela do combate ao desmatamento, da construção de políticas públicas ambientais e da defesa da Amazônia nos espaços internacionais.

Ainda assim, a cena da COP30 me surpreendeu.

Porque uma coisa é conhecer sua trajetória teoricamente.

Outra é presenciar o reconhecimento que ela desperta.

Reflexões soltas de uma pesquisadora

Diante daquela cena, me vi fazendo uma série de perguntas.

Será que nossa sociedade realmente se importava menos com as questões ambientais nos anos 2000?

Será que era apenas a distração de uma adolescente?

Será que as questões ambientais eram realmente menos visadas pelo governo na época?

Será que o meio ambiente ainda não era questão central para o noticiário?

A verdade é que eu não vou conseguir responder essas perguntas.

Entre as memórias apagadas, os afetos que se misturam entre aquela que fui e entre essa que me tornei, todas as possibilidades são plausíveis.

O que importa é o estranhamento provocado quando Marina entrou naquela sala. Um estranhamento tão grande que se transformou em uma anotação de campo.

O que eles estavam aplaudindo?

Marina Silva não se tornou uma referência internacional apenas por ocupar o cargo de ministra.

Sua trajetória política começou ao lado de Chico Mendes, nos movimentos dos seringueiros do Acre. Em 1994, tornou-se senadora da República e, anos depois, assumiu o Ministério do Meio Ambiente.

Foi durante sua primeira passagem pelo ministério que surgiu o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), uma das mais importantes políticas ambientais da história do país.

O plano articulou diferentes órgãos e ministérios no combate ao desmatamento e contribuiu para uma expressiva redução das taxas de devastação da Amazônia nos anos seguintes.

Mas talvez exista outro elemento importante para compreender aquela cena.

Um símbolo ambiental

Em 2022 ocorreu a COP27, no Egito. O então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva participou da conferência acompanhado por Marina Silva. 

Após anos de desgaste internacional da política ambiental brasileira, o Brasil chegava à conferência prometendo reconstruir sua agenda ambiental e retomar um papel de liderança no enfrentamento das mudanças climáticas.

Naquele momento, Marina não era apenas uma aliada política de Lula.

Sua presença funcionava como um símbolo.

Sua trajetória, sua credibilidade internacional e sua associação histórica ao combate ao desmatamento ajudavam a comunicar ao mundo que o Brasil pretendia mudar de rumo.

De certa forma, Lula também se beneficiava da imagem construída por Marina ao longo de décadas. Sua presença ao lado do presidente conferia legitimidade à promessa de reconstrução da política ambiental brasileira e de retomada do protagonismo internacional do país.

Após retornar ao Ministério do Meio Ambiente em 2023, Marina passou a liderar a reconstrução institucional da política ambiental brasileira e a retomada da presença do país nas negociações climáticas internacionais.

Esse movimento culminou na realização da COP30, em Belém.

Mas, olhando para aquela sala, comecei a perceber que os aplausos não eram apenas para Marina.

Eles também eram direcionados ao que ela representa.

O combate ao desmatamento.

O combate ao negacionismo climático.

A possibilidade de uma transição ecológica.

E, principalmente, a expectativa de que o Brasil volte a ocupar um papel central na governança ambiental global.

Em um mundo cada vez mais preocupado com as mudanças climáticas, poucos países possuem o peso estratégico do Brasil. Nossa biodiversidade, nossos biomas e a presença de grande parte da Floresta Amazônica em território nacional colocam o país em uma posição singular nas discussões ambientais internacionais.

Nesse contexto, Marina Silva tornou-se uma das principais representantes dessa expectativa.

Talvez tenha sido isso que eu vi naquela sala.

Não apenas uma ministra sendo aplaudida.

Mas uma figura que condensava, ao mesmo tempo, uma trajetória política pessoal e a esperança de que o Brasil exerça uma liderança ambiental compatível com a importância de seus biomas e com a gravidade da crise climática atual.

Conclusão

A mulher que vi ser aplaudida de pé naquela sala não era apenas uma ministra brasileira.

Era uma referência internacional em uma agenda que se tornou central para o século XXI.

Aquela experiência me fez perceber que talvez conheçamos muito bem a figura pública de Marina Silva, mas nem sempre compreendamos a dimensão de sua influência política e ambiental e como essa influência está profundamente ligada ao papel que o próprio Brasil ocupa no cenário internacional.

Talvez a ovação não fosse apenas para Marina.

Talvez fosse também para aquilo que ela representa.

Mas como essa liderança se transforma em políticas públicas concretas?

É essa a questão que conduz o próximo texto desta série, dedicado à forma como Marina Silva pensa, constrói e implementa políticas ambientais.

Para saber mais

Marina Silva – biografia

COP27: ‘Brasil vai dar exemplo e intensificar proteção da Amazônia’, diz Marina Silva no Egito

COP 30: ciência, política e experiência.

Territórios em disputa após a COP30


Uma resposta para “Quando a ministra entrou na sala”

  1. clarita, gostei muito do seu texto. E de fato,nos anos 2000, a preocupação com o meio ambiente, para o meu olhar leigo, ainda eram.muito incipientes. E mesmo durante os governos petista até a Dilma, eram questões menores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *