Como pensar as políticas ambientais em tempos de crise?

Marina Silva sorrindo atrás de uma mesa, com as bandeiras de São Paulo e do Brasil atrás. O escrito "Como pensar as políticas ambientais em tempos de crise?" está acima da foto

Chegamos ao último texto desta série sobre Marina Silva.

No primeiro artigo, acompanhei sua participação na COP 30, realizada em Belém, em novembro de 2025. 

No segundo texto, percorremos algumas das principais políticas de preservação ambiental e combate ao desmatamento fortalecidas sob sua gestão no Ministério do Meio Ambiente.

Hoje, o foco é outro. 

O texto reúne reflexões apresentadas por Marina Silva durante uma mesa de debate sobre políticas públicas e mudanças climáticas na Universidade Estadual de Campinas.

Ao longo da conversa, Marina falou menos sobre programas específicos e mais sobre os princípios que, em sua visão, devem orientar a construção de políticas públicas diante dos desafios atuais.

Suas reflexões evidenciam posições filosóficas, convicções e aprendizados construídos ao longo de uma trajetória de vida dedicada ao meio ambiente. Uma trajetória que oferece importantes pistas para pensar como enfrentar o desafio das mudanças climáticas e construir políticas públicas à altura do nosso tempo.

Vivemos um tempo de crise

Já está claro que vivemos um momento de crise ambiental e climática. Essa crise pode ser vista e sentida nos eventos extremos, na necessidade de pausas para hidratação durante partidas da Copa do Mundo de futebol e até mesmo na mudança dos horários desses jogos. Estamos em uma corrida para encontrar soluções.

Vivemos um tempo de riscos iminentes e, embora saibamos da gravidade do problema, ainda não estão claras todas as suas possíveis consequências.

Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicados em 2021, reforçaram que a crise climática é influenciada pelas atividades humanas e que precisamos tomar decisões rápidas se quisermos frear o aumento da temperatura média global. O IPCC é uma força-tarefa formada por cientistas de diferentes áreas do conhecimento que reúne, avalia e sintetiza as principais evidências científicas sobre as mudanças climáticas. 

A primeira parte do relatório mostrou que o planeta está aquecendo mais rapidamente do que se imaginava. As projeções indicam que o aquecimento global poderá atingir 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais antes do previsto.

IPCC Sixth Assessment Report – Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability trailer

Embora esses números pareçam pequenos, é importante lembrar que estamos falando de uma média global. Isso significa que algumas regiões poderão registrar aumentos muito superiores, enquanto outras sofrerão alterações menores. 

Cada meio grau adicional na temperatura média do planeta aumenta significativamente os riscos de eventos extremos, da perda de biodiversidade, de desequilíbrios nos ecossistemas e de impactos sobre as sociedades humanas.

Desde a publicação do relatório, é possível observar um grande crescimento das discussões sobre o tema, da produção de pesquisas e da busca por soluções. Cada vez mais, governos, pesquisadores e organizações são chamados a construir respostas para enfrentar a crise climática e ambiental.

O Brasil volta ao centro do debate internacional

Apesar do forte movimento negacionista ocorrido entre 2019 e 2022, a partir de 2023 iniciou-se uma retomada do papel do Brasil como liderança ambiental, enquanto um país que pensa sobre o meio ambiente, reconhece sua grande responsabilidade e busca construir respostas para os desafios climáticos.

O Brasil é um dos países mais biodiversos do mundo. Com a Floresta Amazônica ocupando grande parte de seu território e uma enorme diversidade de espécies e ecossistemas é natural que ocupe uma posição central nas discussões ambientais internacionais.

A COP 30

Em novembro de 2025, sediamos a COP 30. Uma conferência internacional sobre mudanças climáticas marcada pelas discussões sobre a importância das florestas e pela necessidade de reduzir o uso de combustíveis fósseis.

Mas o que acontece até chegarmos a esse momento? Quem são as pessoas que estiveram à frente de um evento de tamanha relevância internacional?

Ainda que muitos critiquem a ausência de soluções mais efetivas ou a falta de participação de alguns países nas negociações, é importante reconhecer a potência desse encontro. Durante alguns dias, o mundo parou para discutir o meio ambiente. Governos, pesquisadores, organizações, povos indígenas e representantes da sociedade civil reuniram-se para pensar uma questão que diz respeito a todos.

No meio desse cenário, a figura de Marina Silva ganhou destaque. 

Tornou-se um símbolo para muitos, representando a esperança de mudanças na política ambiental brasileira. Foi justamente essa presença que motivou esta série de textos, dedicada a compreender diferentes aspectos de sua atuação política.

Mas de onde vêm suas ideias sobre políticas ambientais? Quais são suas crenças e como elas revelam seu modo de compreender e governar as questões ambientais? 

Foi buscando responder a essas perguntas que acompanhei a fala de Marina Silva na UNICAMP. Nela, foi possível compreender alguns dos princípios que orientam sua maneira de pensar e construir a política ambiental. 

Políticas territorializadas

Ao longo do debate na UNICAMP sobre meio ambiente e a formulação de políticas públicas, Marina Silva apresentou menos um conjunto de respostas prontas e mais uma forma de pensar a construção de políticas públicas em tempos de crise climática. 

Suas reflexões partiram de sua própria trajetória, desde a infância como filha de seringueiros e da luta ao lado de Chico Mendes até sua atuação como ministra do Meio Ambiente.

Um dos princípios centrais de sua fala foi a defesa de políticas públicas construídas de baixo para cima, no sentido bottom up. Para Marina, as soluções não podem ser formuladas apenas nos gabinetes. Elas precisam partir dos territórios, das pessoas que vivem neles, conhecem suas transformações, dependem de seus recursos e convivem diariamente com seus problemas. Precisamos de políticas territorializadas.

Afinal, são essas populações que possuem conhecimentos fundamentais para orientar a formulação e a implementação das políticas ambientais, pois estão em contato direto tanto com as potencialidades do ambiente em que vivem quanto com as transformações que nele percebem. O próprio PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), segundo Marina Silva, veio justamente da luta e dos conhecimentos dos seringueiros.

O novo normal

Outro aspecto recorrente em sua fala foi a defesa da ciência como base da tomada de decisões

Marina destacou que as políticas públicas devem ser orientadas pelos dados e pela realidade, e não por crenças ou interesses imediatos. 

Em um dos momentos mais marcantes do debate, afirmou que “os negacionistas negam o princípio da realidade”. 

Enquanto o negacionismo prefere “pagar para ver”, a ciência trabalha a partir do princípio da precaução: quando existem evidências consistentes de um risco não é necessário esperar que o pior aconteça para agir.

Como exemplo, Marina mencionou dados do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil que mostram o aumento do número de municípios brasileiros sujeitos a eventos climáticos extremos. Para ela, essas informações revelam que já não é possível formular políticas públicas pensando em um “velho normal”. 

As mudanças climáticas passaram a constituir uma nova realidade, exigindo novos instrumentos jurídicos, novas formas de planejamento e uma nova maneira de governar.

Essa mudança também exige políticas ambientalmente transversais. Em sua visão, a questão ambiental não pode ser tratada como responsabilidade exclusiva de um ministério. Ela atravessa a economia, a agricultura, a infraestrutura, a educação, a saúde e praticamente todas as áreas da administração pública. 

Marina também ressaltou que políticas públicas precisam sobreviver aos governos. Em democracias, a alternância de poder faz parte do funcionamento das instituições. Por isso, mais importante do que depender de uma liderança específica é fortalecer os órgãos públicos, os sistemas nacionais e os instrumentos de participação social para que continuem existindo mesmo diante de mudanças políticas.

Devemos ser defensores dos nossos conceitos

Ao falar sobre sustentabilidade, Marina chamou atenção para outro aspecto importante. Segundo ela, não basta transformarmos conceitos em adjetivos ou slogans. Sustentabilidade, bem viver e outros termos frequentemente apropriados pelo debate público possuem uma história e uma forma própria de compreender a relação entre sociedade e natureza, uma ontologia. 

É necessário compreender a origem dos conceitos que utilizamos, os conhecimentos que lhes dão sustentação e defendê-los. Não podemos permitir que palavras pelas quais tanto lutamos sejam deformadas por interesses políticos escusos a ponto de confundir a opinião pública e esvaziar seus significados. 

Talvez a frase que melhor sintetize sua visão tenha surgido ao final da conversa. Quando perguntada se era otimista ou pessimista diante do cenário atual, Marina respondeu que não era nenhuma das duas coisas. Era insistente. Para ela, a vida é insistência. Em tempos de crise climática, insistir significa continuar criando políticas públicas, fortalecendo instituições, produzindo conhecimento e imaginando formas de realizar aquilo que hoje ainda parece impossível.

A vida é insistência

Encerro este texto e também esta série falando sobre uma palavra: insistência. Ela é potente e muito bem utilizada por Marina Silva, porque traz de maneira implícita a ideia de ação.

A insistência é diferente da persistência justamente por isso. Enquanto esta resiste, aquela age, enfrenta e não se deixa esmorecer. Não se deixa paralisar pelo otimismo nem pelo pessimismo diante daquilo que ainda não sabemos, mas segue em frente, criando possibilidades.

Essa insistência parece caracterizar a trajetória e o legado de Marina Silva: uma ambientalista que soube utilizar as condições que lhe eram dadas para criar políticas, fortalecer instituições e abrir novos caminhos.

"É necessário continuar tendo a capacidade de acreditar criando, de forma que aquilo que hoje parece impossível vá se tornando possível."

Continuar criando políticas públicas efetivas, capazes de responder aos desafios do nosso tempo, reconhecendo que já vivemos um novo normal marcado pelas mudanças climáticas e que não podemos continuar governando como se estivéssemos no passado.

Segundo Marina Silva, também é necessário deslocar o modelo de prosperidade construído pelo capitalismo, baseado no ter, para outro modo de compreender nossa relação com o mundo. Afinal,

"Há limites para ter, mas não para ser."

Para saber mais…

AR6 Climate Change 2021 – The Physical Science Basis.

NICHI (2021). Tarde demais? Novo relatório da ONU conclui que planeta vai esquentar 1,5ºC uma década antes do previsto.

Leia também:

Marina Silva e a reconstrução da política ambiental brasileira

Quando a ministra entrou na sala



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