As últimas palavras de Dom Phillips: Uma leitura imbuída de afetos 

Na imagem se vê a frente de um barco em um rio e uma floresta densa à frente. No topo da esquerda tem o título do texto: As últimas palavras de Dom Phillips:Uma leitura imbuída de afetos 

Em julho deste ano, li pela primeira vez o livro Como Salvar a Amazônia, iniciado pelo jornalista Dom Phillips em suas pesquisas pela Amazônia e terminado por colegas e amigos após seu falecimento.

O sentimento após a leitura foi misto. É estranho ler e se conectar com as palavras de alguém que já partiu, e de uma maneira tão escabrosa e televisionada como foi a tragédia ocorrida com ele e Bruno Pereira.

Este texto será um pouco diferente dos meus escritos neste blog. Aqui trarei os nós no estômago, a boca seca e os olhos molhados que resultaram dessa leitura.

Faz quatro anos que os ativistas foram mortos no Vale do Javari, em um ano de eleição presidencial.

Após quatro anos, estamos aqui. Receosos, inseguros, com a política que há de vir e o que isso significará para a política ambiental brasileira.

Ainda falaremos muito disso nos próximos meses.

Infelizmente, Dom e Bruno não foram as últimas vítimas da guerra política que ocorre pelos interiores da Amazônia. Infelizmente, muitas das vítimas nós nem chegamos a saber.

De forma que receber as palavras justamente de uma delas é tão aterrador (e talvez, esperançoso?).

O livro

O livro Como Salvar a Amazônia se inicia com um Prefácio escrito por amigo de Dom Phillips, que conta sobre o projeto de Dom que o levou ao Vale do Javari em 2022, as motivações de seus colegas continuarem esse livro e de que forma isso foi possível.

Dom Phillips era um jornalista britânico, apaixonado pelo Brasil e que já vivia aqui no país há anos com sua companheira Alessandra Sampaio. Dom não se dedicou em sua carreira exclusivamente aos temas ambientais, mas, com a eleição de 2018 e a crescente angústia que sentia em relação ao futuro da Amazônia, iniciou o empreendimento dessa obra e logo entrou em contato com Bruno Pereira.

Bruno Pereira também vítima, era um indigenista experiente do Vale do Javari. Sei que teria muito mais a falar sobre a bagagem de Bruno, o que ocuparia todo um texto sobre quem ele foi, sobre sua vida e como isso se conecta às condições daqueles que protegem o território e as populações indígenas no Brasil, mas hoje não entrarei a fundo nisso. (Coloquem nos comentários se esse for um tema de interesse).

O livro foi publicado em 2025 pela Companhia das Letras e, quando eu vi sua divulgação, me prontifiquei a comprá-lo. No entanto, apenas um ano após a compra enfrentei o desafio da leitura. De alguma forma, sempre que pensava em qual livro ler depois e olhava para ele, eu não sentia as forças para iniciá-lo. Bom, de alguma forma acho que o li na hora certa, em que eu estava preparada, depois de muito ler e estudar sobre as políticas que ocorrem na Amazônia, depois de ir à COP 30 e ver o território amazônico entre uma rede de discursos (quem sabe em um próximo texto eu não fale sobre essa rede…).

Quando Dom morreu, o livro já estava bem encaminhado, diversos capítulos estavam prontos e o restante do projeto já contava com um roteiro e um encaminhamento. Os primeiros capítulos foram feitos inteiramente com os escritos de Dom, eram capítulos já finalizados, no entanto, os últimos foram finalizados por seus colegas jornalistas a partir das anotações deixadas.

O que consistia o projeto de Dom

Desde 2018, Dom Phillips iniciou a missão de escrever o livro, com a pergunta ambiciosa de: como salvar a Amazônia? Para isso, o jornalista viaja à Amazônia e vai de encontro com lideranças ambientais, com pessoas que pensam a produção de comida, agrícola de forma geral, de uma maneira diferente, com populações indígenas, tentando encontrar alternativas às formas que nós vivemos o mundo e que poderiam auxiliar na busca de soluções para a proteção da Amazônia.

O que ele quer dizer quando fala em salvar a Amazônia

Ao longo do livro fica claro um início de resposta à sua pergunta: como salvar a Amazônia está mais em quem se inspirar e com quem aprender, do que com uma grande solução milagrosa. Mudar a lógica do que se valoriza e o que se recompensa e como. O último parágrafo do livro ilustra bem a missão de Dom ao encontrar agricultores familiares, populações indígenas, ribeirinhos e lideranças ambientais ao longo de sua missão em busca de respostas:

O que fica depois da leitura

Ler o trabalho iniciado por Dom Phillips me fez entender que a rede para enfrentar a crise que enfrentamos é complexa, e que pode parecer muitas vezes inalcançável e inútil. Assim como Dom, eu venho de uma cidade grande, formada por uma universidade distante da floresta e que diz deter o conhecimento necessário. Mas assim que ele narra seu adentrar na floresta com Bruno Pereira e dois meninos Korubo, percebemos todo um conhecimento que falta, um conhecimento do viver, um conhecimento ancestral. É como ele diz logo ao iniciar a sua narrativa:

Quem escutamos falar sobre a Amazônia nos noticiários, na tevê, nas grandes negociações internacionais sobre o meio ambiente? Quais são as vozes que valorizamos ao pensar no futuro da floresta? 

Dom mostra a ausência de quem realmente vive o território nas tomadas de decisões. 

Sempre que ouço as palavras de Davi Kopenawa, me impressiono com sua serenidade, daquele que, apesar da tristeza, sabe como caminhar na floresta. Em sua fala no livro, o líder yanomami fala sobre a importância da cooperação entre populações indígenas, jornalistas e comunicadores. É necessário que os conhecimentos das florestas sejam espalhados, divulgados e, principalmente, ouvidos.

Enquanto nós brancos corremos desesperados e sem esperança para o fim do mundo, as populações indígenas nos chamam a atenção para a ancestralidade, para o contato, para o envolvimento, que perdemos e nos faz necessário. Quero ecoar as palavras de Bruno Pereira:

A experiência de ler Como salvar a Amazônia é bonita, ver colegas jornalistas de Dom Phillips, como Eliane Brum, Tom Phillips, Andrew Fischman, John Lee Anderson e Jonathan Watts, seguindo suas pistas, às vezes iniciando essa caminhada sem entender e sem acreditar no propósito da missão e terminarem se encontrando um pouco com os motivos de esperança de Dom é muito bonito.

Termino com uma frase de Eliane Brum ao finalizar seu capítulo:

“Porque as balas não podem silenciar Dom, seu livro foi terminado”.

Para saber mais

PHILLIPS, Dom. Como salvar a Amazônia: uma busca mortal por respostas. Tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann e Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.

Leia o primeiro capitulo do livro de Dom Phillips

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