Super El Niño: o que é, quais os riscos, como enfrentar

Na imagem está um céu em preto e branco no fundo , com nuvens formadas, e a frente uma placa escrito El niño ahead. No à esquerda o título do texto: Super El Niño: o que é, quais os riscos, como enfrentar

Nos últimos meses, o fenômeno El Niño apareceu com frequência nos noticiários, podcasts e redes sociais. Isso porque seus efeitos podem ser sentidos em diferentes partes do planeta, alterando padrões de chuva, temperatura e circulação dos ventos. 

Mas o que exatamente é o El Niño? E por que, desta vez, estamos falando em Super El Niño?

Antes de entender o que torna este episódio diferente, vale voltar um pouco e conhecer o fenômeno.

O Fenômeno El Niño

O El Niño acontece quando há um aquecimento anormal e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Sabe aquele oceano que fica entre a Ásia e as Américas? As mudanças na temperatura de suas águas podem alterar a circulação dos ventos e, consequentemente, a distribuição de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta.

A relação entre essas mudanças no oceano e seus efeitos sobre a costa da América do Sul já era observada por pescadores do Peru e do Chile. Eles percebiam, em determinados períodos, a chegada de águas mais quentes e uma diminuição na quantidade de peixes. O fenômeno recebeu o nome de El Niño em referência ao Menino Jesus, já que essas alterações costumavam ser percebidas próximas ao período do Natal.

Mas os efeitos do El Niño não ficam restritos ao oceano. As mudanças na temperatura das águas interferem na circulação atmosférica e podem modificar o regime de chuvas em diferentes regiões.

No Brasil, os efeitos mais conhecidos são o aumento das chuvas na Região Sul e a ocorrência de períodos mais secos em partes do Norte e do Nordeste. Já em outras regiões, como o Sudeste, os efeitos podem variar de acordo com a intensidade do fenômeno e sua interação com outros padrões climáticos.

O fenômeno oposto ao El Niño é a La Niña, caracterizada pelo resfriamento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial e por mudanças na circulação atmosférica que podem produzir efeitos diferentes. Mas vamos deixar La Niña para outro momento...

Por que “Super”?

Em 2026, não estamos apenas falando de um novo episódio de El Niño. As previsões indicam que este poderá ser um evento excepcionalmente intenso. Por isso, começou a aparecer na imprensa a expressão “Super El Niño”.

Segundo as projeções mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos), há mais de 90% de probabilidade de que o fenômeno seja classificado como muito forte durante a primavera e o verão de 2026–2027.

Mas o que significa, na prática, um El Niño tão intenso?

Quanto maior o aquecimento das águas do Pacífico, maiores podem ser as alterações na circulação atmosférica e nos padrões de chuva e temperatura. Isso não significa que todos os lugares necessariamente terão eventos extremos, nem que seja possível prever exatamente o que acontecerá em cada região. O que os modelos climáticos permitem identificar são mudanças nas probabilidades e nos riscos.

No Brasil, por exemplo, o CEMADEN aponta maior risco de chuvas extremas, enchentes e deslizamentos na Região Sul, enquanto partes do Norte e do Nordeste podem enfrentar agravamento da seca e maior risco de incêndios. Na região central do país, também são esperadas ondas de calor mais frequentes e períodos de baixa umidade.

E há ainda outro elemento nessa história: as mudanças climáticas. O El Niño é um fenômeno natural, mas acontece hoje em um planeta que já está mais quente. O aquecimento dos oceanos se soma às alterações provocadas pelo fenômeno, podendo intensificar alguns de seus efeitos. Em outras palavras, não se trata de escolher entre “El Niño” ou “mudanças climáticas” como explicação. Os dois fenômenos acontecem ao mesmo tempo e podem interagir.

Isso nos leva a uma questão importante: se sabemos que determinados riscos podem aumentar, o que fazemos com essa informação?

Um fenômeno climático não se transforma automaticamente em desastre. Entre a ocorrência de um evento extremo e seus impactos sobre a população existem infraestrutura, planejamento, sistemas de alerta, políticas públicas e condições sociais que podem aumentar ou reduzir a vulnerabilidade.

É por isso que entender o “Super El Niño” não significa apenas saber o quanto o oceano está quente. Significa também perguntar como nos preparamos para os riscos que já conseguimos prever e quais respostas podem ser construídas antes que eles se transformem em desastre.

Os efeitos 

Um evento climático extremo não afeta apenas, e nem necessariamente de forma imediata, a infraestrutura de uma cidade. Seus efeitos podem se prolongar por semanas, meses ou até anos. Por isso, os órgãos públicos precisam estar preparados não apenas para responder ao momento do evento, mas também para antecipar e enfrentar suas consequências.

Quando ocorre uma enxurrada ou um grande alagamento, por exemplo, o problema não termina quando a chuva para ou quando a água baixa. A população pode ficar exposta a doenças transmitidas pela água contaminada, pessoas podem ter tratamentos de doenças crônicas interrompidos, plantações podem ser destruídas e alimentos podem ser contaminados.

Essas perguntas ajudam a entender que os efeitos de um evento climático não são distribuídos igualmente. As características do território e as condições de vida da população podem aumentar ou diminuir sua exposição aos riscos.

O mesmo vale para os períodos de seca ou de alteração no regime de chuvas associados ao El Niño. Agricultores precisam lidar com mudanças que podem afetar o calendário de plantio, a disponibilidade de água e a produtividade das lavouras. Para quem depende da agricultura para sua subsistência, uma alteração no regime de chuvas pode significar muito mais do que uma safra menor: pode representar perda de renda, insegurança alimentar e dificuldade para manter a própria produção.

Como enfrentar

Não são de hoje os alertas a respeito das mudanças climáticas e de suas consequências concretas nas nossas vidas. Nos últimos anos, esses riscos foram ficando cada vez mais escancarados. 

Talvez a pergunta mais importante agora seja outra: o que fazemos diante de um cenário que já está acontecendo?

Os dados produzidos pela ciência podem nos ajudar a antecipar eventos extremos, identificar regiões mais vulneráveis e compreender quais impactos podem acontecer. Mas informação, sozinha, não protege ninguém.

É preciso transformar esse conhecimento em políticas públicas. Isso significa ter sistemas de monitoramento e alerta, infraestrutura adequada para lidar com chuvas intensas, planejamento urbano que considere as áreas de risco, políticas de apoio à agricultura e estratégias para garantir água, alimentação e atendimento à saúde em situações extremas.

Também significa olhar para quem está mais exposto. Os impactos de um mesmo evento climático não são iguais para todas as pessoas. Quem vive em uma área sujeita a alagamentos, depende da agricultura para sobreviver ou não tem acesso adequado a serviços públicos pode enfrentar consequências muito maiores.

E existe uma parte dessa discussão que também passa por nós...

Para saber mais:

https://wmo.int/es/temas/el-nino-la-nina

https://www1.folha.uol.com.br/blogs/politicas-e-justica/2026/09/o-que-falta-para-o-sistema-de-saude-poder-enfrentar-o-super-el-nino.shtml

https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/noticias-cemaden/cemaden-divulga-nova-nota-tecnica-sobre-possivel-el-nino-2026-2027-e-impactos-esperados-no-brasil

Leia Também:

https://www.blogs.unicamp.br/cienciaepolitica/2026/08/19/domphillips-livro/

https://www.blogs.unicamp.br/cienciaepolitica/2025/10/09/do-palco-internacional-ao-congresso-nacional-o-desafio-da-politica-ambiental-brasileira/


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