{"id":1218,"date":"2019-08-08T17:40:31","date_gmt":"2019-08-08T20:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/?p=1218"},"modified":"2019-08-11T02:36:56","modified_gmt":"2019-08-11T05:36:56","slug":"tecnologia-wakanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/2019\/08\/08\/tecnologia-wakanda\/","title":{"rendered":"O progresso tecnol\u00f3gico de Wakanda seria vi\u00e1vel no mundo real?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt\">[Esta \u00e9 uma vers\u00e3o expandida de um texto hom\u00f4nimo que escrevi para a edi\u00e7\u00e3o 357 da Revista Ci\u00eancia Hoje]<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea assistiu ao filme do Pantera Negra deve ter se surpreendido com tamanho avan\u00e7o tecnol\u00f3gico de Wakanda. Toda a tecnologia desse reino \u00e9 baseada no metal fict\u00edcio \u201cVibranium\u201d, encontrado apenas por l\u00e1 e em abund\u00e2ncia. Em <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/2018\/08\/23\/wakanda-paraiso-das-tecnologias-e-terra-da-representatividade\/\">outro texto do Ci\u00eancia Nerd<\/a> j\u00e1 abordei a viabilidade de se produzir o uniforme do Pantera com a nossa tecnologia atual. Neste, vou falar de algo um pouco menos poss\u00edvel de acontecer no mundo real: o super avan\u00e7o cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico de uma sociedade isolada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Inven\u00e7\u00e3o, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o de tecnologia<\/h2>\n<p>Joseph Schumpeter (1883-1950) foi um importante economista austr\u00edaco e um dos primeiros estudiosos a considerar o papel das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas enquanto um dos motores do desenvolvimento do capitalismo e ele elaborou sua teoria econ\u00f4mica inspirado pela biologia evolucionista de Charles Darwin. Uma das teorias atribu\u00eddas ao economista \u00e9 a do ciclo <span style=\"color: #008000\"><strong>\u201cinven\u00e7\u00e3o-inova\u00e7\u00e3o-difus\u00e3o\u201d<\/strong><\/span>.<\/p>\n<p>A <strong>inven\u00e7\u00e3o<\/strong> consiste na concep\u00e7\u00e3o de uma ideia, que ainda n\u00e3o passou pelo crivo do mercado. Por exemplo, antes dos avi\u00f5es serem criados e se tornarem produtos, muitos outros inventores j\u00e1 haviam esbo\u00e7ado estruturas capazes de levar o ser humano aos c\u00e9us.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1221\" aria-describedby=\"caption-attachment-1221\" style=\"width: 328px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1221\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/Leonardo_da_Vinci_helicopter.jpg\" alt=\"\" width=\"328\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/Leonardo_da_Vinci_helicopter.jpg 363w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/Leonardo_da_Vinci_helicopter-300x221.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 328px) 100vw, 328px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1221\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">Esbo\u00e7o de uma esp\u00e9cie de helic\u00f3ptero feito por Leonardo da Vinci<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Leonardo da Vinci, que dentre v\u00e1rias outras coisas era um ex\u00edmio inventor, chegou a desenhar at\u00e9 modelo de helic\u00f3ptero. Mas por ser um g\u00eanio muito \u00e0 frente do seu tempo, era invi\u00e1vel que suas engenhocas fossem produzidas em larga escala naquela \u00e9poca. Paraquedas, rob\u00f4s, trajes de mergulho, asa-delta, tanque de guerra s\u00e3o algumas das inven\u00e7\u00f5es do italiano que s\u00f3 ganharam o mercado tempos mais tarde.<\/p>\n<p>Quando uma inven\u00e7\u00e3o \u00e9 transformada em uma mercadoria que possa ser explorada economicamente ele se torna, ent\u00e3o, uma <strong>inova\u00e7\u00e3o<\/strong>. Geralmente, no processo de transforma\u00e7\u00e3o de uma inven\u00e7\u00e3o em uma inova\u00e7\u00e3o busca-se maior facilidade na aquisi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria-prima; menor custo de produ\u00e7\u00e3o; maior seguran\u00e7a do produto e, consequentemente, maior confiabilidade do consumidor; possibilidade de produ\u00e7\u00e3o em larga escala. Em suma, busca-se tornar essa inven\u00e7\u00e3o comercializ\u00e1vel.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1238\" aria-describedby=\"caption-attachment-1238\" style=\"width: 320px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-1238\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/patente-edison.jpg\" alt=\"Tecnologia da caneta el\u00e9trica de Thomas Edison. \" width=\"320\" height=\"370\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1238\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">Patente da caneta el\u00e9trica de Thomas Edison<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma inven\u00e7\u00e3o pode nunca virar uma inova\u00e7\u00e3o. Boa parte das pessoas conhecem Thomas Edison como o inventor da l\u00e2mpada el\u00e9trica, uma inven\u00e7\u00e3o que rapidamente se tornou um produto comercializ\u00e1vel, ou seja, uma inova\u00e7\u00e3o. Mas o empres\u00e1rio norte-americano tamb\u00e9m criou v\u00e1rias outras coisas, como por exemplo a caneta el\u00e9trica de est\u00eancil, que ao inv\u00e9s de tinta possu\u00eda uma agulha que escrevia perfurando o papel. <span style=\"font-size: 1.0625rem\">\u00c0 \u00e9poca, essa caneta n\u00e3o foi capaz de competir com as m\u00e1quinas de datilografia, que eram muito populares, o que impossibilitou sua populariza\u00e7\u00e3o. Mas a<\/span><span style=\"font-size: 1.0625rem\">nos mais tarde, Samuel O&#8217;Reilly fez modifica\u00e7\u00f5es no design da caneta de Edison e chegou ao primeiro modelo da m\u00e1quina de tatuagem, que muito se parece com as atuais.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-1219\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/segway.jpg\" alt=\"Segway PT, exemplo de tecnologia frustada\" width=\"312\" height=\"362\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/segway.jpg 458w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/segway-258x300.jpg 258w\" sizes=\"(max-width: 312px) 100vw, 312px\" \/><\/p>\n<p>Outro exemplo atual de inven\u00e7\u00e3o que quase virou uma inova\u00e7\u00e3o \u00e9 o famoso Segway Personal Transporter,\u00a0um diciclo motorizado com duas rodas bem grandes e um guidom que se movimenta conforme a inclina\u00e7\u00e3o do seu corpo. A promessa de revolucionar o transporte urbano acabou se tornando um enorme fracasso tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mesmo com o aporte financeiro de gigantes, como Jeff Bezos (presidente e CEO da Amazon), o produto encontrou barreiras legais para ser utilizada no dia-a-dia (entre outros problemas) e acabou se tornando um <span style=\"font-size: 10pt\"><del>desnecess\u00e1rio<\/del> <\/span>meio de transporte de seguran\u00e7as de shopping, com pouqu\u00edssimas unidades vendidas.<\/p>\n<p>A terceira etapa do ciclo \u00e9 a <strong>difus\u00e3o<\/strong>, tamb\u00e9m conhecida como \u201cimita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d, que \u00e9 quando outras empresas e pa\u00edses come\u00e7am a produzir imita\u00e7\u00f5es de uma inova\u00e7\u00e3o com t\u00e9cnicas e processos diferentes. \u00c9 comum as pessoas pensarem que esse processo \u00e9 de menor import\u00e2ncia, mas a teoria de Schumpeter mostra que imitar uma tecnologia \u00e9 um processo t\u00e3o importante quanto criar uma inova\u00e7\u00e3o. Alguns autores at\u00e9 afirmam que a imita\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que a pr\u00f3pria inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A import\u00e2ncia da imita\u00e7\u00e3o da tecnologia<\/h2>\n<p>Muitos estudos mostram que a China, segunda maior economia do mundo, viveu um acelerado crescimento baseado na imita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. E o Brasil, assim como outras economias emergentes que n\u00e3o conseguem atuar nas fronteiras do desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, tem a imita\u00e7\u00e3o como atividade crucial para fomentar a produ\u00e7\u00e3o de tecnologias, aumentar a competitividade das empresas e viabilizar aprendizagem e capacita\u00e7\u00e3o de cientistas, engenheiros, etc.<\/p>\n<p>A grande import\u00e2ncia da imita\u00e7\u00e3o reside no fato de que ela n\u00e3o \u00e9 uma simples c\u00f3pia id\u00eantica do produto original. Quando uma tecnologia \u00e9 imitada ela est\u00e1 sendo levada a um novo contexto. A disponibilidade de mat\u00e9ria prima local \u00e9 diferente, a m\u00e3o de obra \u00e9 diferente, o investimento \u00e9 diferente, os custos dos processos s\u00e3o diferentes, as demandas locais da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes, o letramento tecnol\u00f3gico da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o basta apenas copiar. \u00c9 preciso que a tecnologia seja tamb\u00e9m adaptada \u00e0 realidade local. E essas adapta\u00e7\u00f5es muitas vezes acabam se tornando tamb\u00e9m inova\u00e7\u00f5es. As chamadas <strong>inova\u00e7\u00f5es incrementais<\/strong> s\u00e3o pequenas melhorias ou adapta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o alteram substancialmente a din\u00e2mica do produto no mercado. Por serem mais baratas e n\u00e3o-disruptivas (portanto, de f\u00e1cil recep\u00e7\u00e3o pelo consumidor), elas s\u00e3o as mais comuns de acontecerem. E essas inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o essenciais para que tecnologias sejam difundidas e aperfei\u00e7oadas.<\/p>\n<p>Com isso, percebemos que o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico se d\u00e1 por meio da participa\u00e7\u00e3o de muitos agentes, de diferentes pa\u00edses e empresas. Sem isso, levaria muito mais tempo para que um produto fosse testado em larga escala, para que defeitos e limita\u00e7\u00f5es fossem identificadas, para que aperfei\u00e7oamentos fossem feitos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, para que haja inova\u00e7\u00e3o incremental dentro da pr\u00f3pria empresa, n\u00e3o se configurando como um processo de difus\u00e3o ou imita\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, ainda assim \u00e9 essencial a participa\u00e7\u00e3o de outros atores.<\/p>\n<figure id=\"attachment_1229\" aria-describedby=\"caption-attachment-1229\" style=\"width: 929px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1229\" style=\"font-weight: bold;font-size: 1.0625rem\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/timeline-v3-web-1.jpg\" alt=\"evolu\u00e7\u00e3o da tecnologia dos celulares\" width=\"929\" height=\"226\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/timeline-v3-web-1.jpg 1726w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/timeline-v3-web-1-300x73.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/timeline-v3-web-1-768x187.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/timeline-v3-web-1-1024x249.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 929px) 100vw, 929px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1229\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">Evolu\u00e7\u00e3o dos Iphones. Desde o 2G (2007) at\u00e9 o XR (2018)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 1.0625rem\">Celulares s\u00e3o exemplos de aparelhos que se valem com frequ\u00eancia das inova\u00e7\u00f5es incrementais. Muitos dos incrementos implementados s\u00e3o demandas da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, do mercado, ou de outras tecnologias. Por exemplo, para se criar jogos em realidade aumentada (como o famoso <\/span><em style=\"font-size: 1.0625rem\">Pokemon Go!<\/em><span style=\"font-size: 1.0625rem\">), n\u00e3o basta que se desenvolva o jogo. \u00c9 preciso de aparelhos preparados para receb\u00ea-los, baterias que deem conta de suportar tamanho processamento em tempo real, uma internet m\u00f3vel minimamente razo\u00e1vel, a tecnologia do GPS e do girosc\u00f3pio, etc.<\/span><\/p>\n<p>E apesar de estarmos focando na discuss\u00e3o da tecnologia, vale dizer que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ela que depende dessas intera\u00e7\u00f5es em larga escala. O fil\u00f3sofo da ci\u00eancia Karl Popper (1902-1994) foi claro ao dizer que a <strong>reprodutibilidade<\/strong> \u00e9 um crit\u00e9rio importante em experimentos cient\u00edficos na busca de consensos. Experimentos que s\u00e3o reproduzidos (ou imitados) em diferentes partes do mundo e em diferentes circunst\u00e2ncias adquirem um status de maior confiabilidade cient\u00edfica.<span style=\"font-size: 1.0625rem\">\u00a0E esse elemento \u00e9 t\u00e3o importante que um grupo de cientistas brasileiros, financiados pelo Instituto Serrapilheira, criou a <a href=\"https:\/\/www.reprodutibilidade.bio.br\/\">Iniciativa Brasileira de Reprodutibilidade<\/a>, que visa estimar a reprodutibilidade da ci\u00eancia biom\u00e9dica brasileira. A meta do grupo \u00e9 reproduzir de 50 a 100 experimentos de artigos cient\u00edficos brasileiros em 3 a 5 \u00e1reas diferentes de pesquisa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>E o que isso tem a ver com Wakanda?<\/h2>\n<p>O reino de Wakanda \u00e9 completamente fechado e escondido do resto do mundo, ou seja, praticamente nenhuma tecnologia ou conhecimento cient\u00edfico produzido l\u00e1 \u00e9 exportado. Isso significa que suas tecnologias n\u00e3o passam pelo crivo do mercado global. Como afirma Nathan Rosenberg (1927-2015), um importante economista e historiador das revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, quando se trabalha isoladamente \u00e9 muito dif\u00edcil identificar o potencial mercadol\u00f3gico e econ\u00f4mico de uma tecnologia, ou seja, converter inven\u00e7\u00f5es em inova\u00e7\u00f5es. O mesmo vale para a ci\u00eancia que Wakanda produz, que deveria ser bastante limitada, uma vez que ela n\u00e3o passa pelo crivo de outros cientistas e nem \u00e9 reproduzida em outros lugares e por outras pessoas.<\/p>\n<p>Costuma-se pensar que a cadeia <strong>ci\u00eancia, tecnologia e mercado<\/strong> funciona de forma linear e sequencial: pesquisa cient\u00edfica gera tecnologia que, por sua vez, provoca impactos econ\u00f4micos quando (e se) chega ao mercado. Mas essa intera\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais complexa e imprevis\u00edvel. Muitos s\u00e3o os casos em que a tecnologia se desenvolve primeiro, o que causa um impacto no mercado e, posteriormente, a ci\u00eancia investiga explica\u00e7\u00f5es para o funcionamento dessa tecnologia: \u00e9 o caso dos altos-fornos e dos avi\u00f5es, que foram criados muito antes dos cientistas elaborarem as teorias da combust\u00e3o e da turbul\u00eancia. J\u00e1 os transistores, por sua vez, nasceram no meio cient\u00edfico, como teorias, depois se tornaram tecnologias e, por fim, chegaram no mercado, causando uma das maiores revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fazer ci\u00eancia e tecnologia s\u00e3o coisas cada vez mais caras e de longo prazo. Por isso, ambas dependem muito das respostas e necessidades do mercado, que, por sua vez, tamb\u00e9m \u00e9 muito afetado pelo avan\u00e7o das outras duas. O desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico n\u00e3o depende s\u00f3 da mente genial e do esfor\u00e7o de cientistas. Depende tamb\u00e9m de for\u00e7as e motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Assim, nos perguntamos: como o pequeno de restrito mercado de Wakanda dava conta de fomentar a produ\u00e7\u00e3o de inova\u00e7\u00f5es? De onde vinham os investimentos para desenvolver tanta tecnologia?<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1.0625rem\">Al\u00e9m disso, ao longo da hist\u00f3ria, \u00e9 poss\u00edvel observar que eventualmente nos deparamos com alguns gargalos tecnol\u00f3gicos e cient\u00edficos, impedimentos inerentes \u00e0 pr\u00f3pria tecnologia ou \u00e0 ci\u00eancia, que impedem seus avan\u00e7os. Esses obst\u00e1culos, muitas vezes, s\u00f3 s\u00e3o superados mediante processos de focaliza\u00e7\u00e3o em escala global, ou seja, atrav\u00e9s dos esfor\u00e7os de v\u00e1rios pa\u00edses e empresas com o objetivo de fazer a ci\u00eancia e a tecnologia caminharem novamente. Se a solit\u00e1ria Wakanda enfrentasse um gargalo tecnol\u00f3gico similar a qualquer um dos grandes gargalos que a humanidade j\u00e1 viveu, sua supera\u00e7\u00e3o certamente seria muito mais demorada.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1248\" aria-describedby=\"caption-attachment-1248\" style=\"width: 177px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1248\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01.jpg\" alt=\"Tecnologia do transistor\" width=\"177\" height=\"177\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/08\/13689-01-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 177px) 100vw, 177px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1248\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">Um simp\u00e1tico <span style=\"font-size: 8pt\"><del>alien<\/del><\/span> transistor<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 1.0625rem\">E esse processo de supera\u00e7\u00e3o de gargalos \u00e9 t\u00e3o importante, que muitas vezes eles levam a humanidade a grandes transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Por exemplo, a inven\u00e7\u00e3o dos transistores, respons\u00e1veis por desencadear a revolu\u00e7\u00e3o da eletr\u00f4nica, foi fruto de um programa de pesquisa da Bell Telephone na tentativa de superar um gargalo cr\u00edtico nas telecomunica\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 inimagin\u00e1vel que Wakanda fosse capaz de deter tecnologias muito mais avan\u00e7adas do que todo o resto do mundo. Isoladamente, ela n\u00e3o teria os impulsos do mercado, o processo da difus\u00e3o tecnol\u00f3gica, a colabora\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses e empresas na supera\u00e7\u00e3o de gargalos e o crivo de um p\u00fablico consumidor massivo, que s\u00e3o elementos essenciais para o desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico. Feliz ou infelizmente, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia muito grande entre os pa\u00edses, ao menos quando lidamos com ci\u00eancia e tecnologia. Por isso, desconsiderando o prov\u00e1vel ass\u00e9dio e sucateamento que o reino sofreria das grandes pot\u00eancias (como aconteceu com todos os pa\u00edses do continente africano), a melhor pol\u00edtica para Wakanda no quesito cient\u00edfico seria a sua abertura para o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Essas an\u00e1lises sobre a inviabilidade do desenvolvimento da ci\u00eancia e tecnologia de Wakanda diminuem o valor do filme?<\/h3>\n<p>De forma alguma! Na realidade, o fechamento de Wakanda para o mundo \u00e9 essencial para a trama e traz muito mais coer\u00eancia para a narrativa. Afinal, \u00e9 bem mais f\u00e1cil nos convencer de que Wakanda foi capaz de se desenvolver daquele modo sozinha do que nos convencer de que haveria diplomacia no mundo capaz de impedir que as suas terras fossem rapidamente colonizadas e degradantemente exploradas pelas grandes pot\u00eancias. Ou seja, se considerarmos o aspecto hist\u00f3rico e geopol\u00edtico, poder\u00edamos dizer que \u00e9 a abertura de Wakanda para o mundo que inviabilizaria seu desenvolvimento cient\u00edfico-tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, o filme tem um grande m\u00e9rito em mostrar, em um pedacinho da \u00c1frica, o que poderia ter acontecido se o continente n\u00e3o tivesse sido completamente sugado pelo imperialismo europeu. E essa \u00e9 uma discuss\u00e3o muito valiosa e necess\u00e1ria, embora geralmente negligenciada pelo cinema.<\/p>\n<p>Esse texto apenas se aproveita de uma oportunidade que o filme nos deixa para discutir essa quest\u00e3o. Mas, assim como n\u00f3s aceitamos os variados &#8220;problemas cient\u00edficos&#8221; dos super-her\u00f3is e seus superpoderes, a inviabilidade de um pa\u00eds do mundo real se desenvolver tal como Wakanda em nada atrapalha a narrativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;<\/p>\n<p>Esse artigo n\u00e3o seria poss\u00edvel sem as valiosas aulas da professora Maria Beatriz Machado Bonacelli, do Instituto de Geoci\u00eancias da Unicamp.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O texto foi baseado na seguinte bibliografia:<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">VIEIRA, R. M. Teorias da firma e inova\u00e7\u00e3o: um enfoque neo-schumpeteriano. <em>Cadernos de Economia<\/em>, 2010.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">ALBUQUERQUE, E. M. Nathan Rosenberg: historiador das revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e de suas interpreta\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. <em>Revista Brasileira de Inova\u00e7\u00e3o<\/em>. Campinas, p. 9-34, 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">POSSAS, M. L. Economia evolucion\u00e1ria neo-schumpeteriana: elementos para uma integra\u00e7\u00e3o micro-macrodin\u00e2mica. <em>Estudos avan\u00e7ados.<\/em> 22 (63), 2008. &lt;http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/ea\/v22n63\/v22n63a21.pdf&gt;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 16px\">ARBIX, G.; MIRANDA, Z. <\/span><span style=\"font-size: 12pt\">Inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica pode ser obtida pela imita\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em: <\/span><span style=\"font-size: 12pt\">&lt;http:\/\/www.techoje.com.br\/site\/techoje\/categoria\/impressao_artigo\/968&gt;<\/span><\/p>\n<p>MOWERY, D.; ROSENBERG, N. <em>Trajet\u00f3rias da inova\u00e7\u00e3o<\/em>. Trad. Marcelo Knobel. 2005.<\/p>\n<p>SCHUMPETER, J. A. <em>Teoria do desenvolvimento econ\u00f4mico<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultura, 1982.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[Esta \u00e9 uma vers\u00e3o expandida de um texto hom\u00f4nimo que escrevi para a edi\u00e7\u00e3o 357 da Revista Ci\u00eancia Hoje] &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":173,"featured_media":1231,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[23,39],"tags":[9,40,70,16,57],"class_list":["post-1218","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ciencias-humanas-e-sociais","category-cinema","tag-ciencia-nerd","tag-cinema","tag-pantera-negra","tag-quadrinhos","tag-super-herois"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2019\/07\/tecnologia-de-wakanda.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/users\/173"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1218"}],"version-history":[{"count":20,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1218\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1259,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1218\/revisions\/1259"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1231"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}