{"id":718,"date":"2017-05-21T15:35:35","date_gmt":"2017-05-21T18:35:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/?p=718"},"modified":"2018-01-26T15:06:46","modified_gmt":"2018-01-26T17:06:46","slug":"heroi-e-narrativas-na-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/2017\/05\/21\/heroi-e-narrativas-na-politica\/","title":{"rendered":"A figura do her\u00f3i e as narrativas na pol\u00edtica (vol. 7, n. 1, 2017)"},"content":{"rendered":"<h1>Como algumas das narrativas de hero\u00edsmo s\u00e3o usadas no contexto pol\u00edtico?<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est\u00e1\u00a0dif\u00edcil evitar o tema pol\u00edtica nesses tempos. Muitos\u00a0esc\u00e2ndalos vindo \u00e0 tona, elei\u00e7\u00f5es presidenciais batendo \u00e0 porta, participa\u00e7\u00e3o ativa das m\u00eddias tradicional e independente, constante uso de narrativas m\u00edticas cl\u00e1ssicas pela comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, crise de descontentamento e total perda de credibilidade dos tr\u00eas poderes, enorme polariza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o e uma (aparente) polariza\u00e7\u00e3o dos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que o assunto n\u00e3o vai ser esgotado aqui. E n\u00e3o pretendo\u00a0citar nenhum caso em particular. O objetivo desse post \u00e9 apenas abordar um pouco\u00a0sobre a constru\u00e7\u00e3o da figura de\u00a0um her\u00f3i e a presen\u00e7a desse tipo de narrativa heroica no contexto pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Entre her\u00f3is e vil\u00f5es<\/h3>\n<p>Sendo um dos doze principais arqu\u00e9tipos\u00a0definidos por Jung, a figura do her\u00f3i \u00e9 uma constante no pensamento coletivo de uma sociedade. Simplificadamente,<\/p>\n<blockquote><p>o her\u00f3i \u00e9 aquele que atende a crit\u00e9rios morais e desejos em comum de um grupo de pessoas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por essa raz\u00e3o os conceitos tanto de her\u00f3i quanto de vil\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticos e nem universais. Eles variam de \u00e9poca para \u00e9poca, de povo para povo, j\u00e1 que dependem intrinsecamente dos valores e desejos de uma sociedade.<\/p>\n<figure id=\"attachment_794\" aria-describedby=\"caption-attachment-794\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-794\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/174242_1348649255_large-225x300.jpg\" alt=\"Lucifer Rising - Uma releitura do Yin Yang por Kirsi Salonen.\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/174242_1348649255_large-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/174242_1348649255_large-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/174242_1348649255_large.jpg 919w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-794\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">Lucifer Rising &#8211; Uma releitura do Yin Yang por <a href=\"https:\/\/br.pinterest.com\/source\/kisalon.cgsociety.org\">Kirsi Salonen<\/a>.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Desde os prim\u00f3rdios da hist\u00f3ria humana\u00a0o her\u00f3i est\u00e1 presente no nosso imagin\u00e1rio. Os deuses gregos, dotados de diversas caracter\u00edsticas humanas, se diferenciavam pelos\u00a0seus super-poderes e a imortalidade. Eram her\u00f3is, cheios de defeitos, mas mesmo assim idolatrados pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a ascens\u00e3o do cristianismo, esses deuses foram sintetizados em dois grandes p\u00f3los: de um lado, a divina trindade, do outro, a figura de L\u00facifer. Com o florescimento de uma mitologia laica, mais pr\u00f3xima do Renascimento, e at\u00e9 o \u00e1pice do positivismo, quem foi assumindo a posi\u00e7\u00e3o de <strong>Bem<\/strong> foi a Raz\u00e3o, enquanto ao <strong>Mal<\/strong> sobrou qualquer coisa que \u00e0 raz\u00e3o se opunha.<\/p>\n<p>Como lembra Hilda Magalh\u00e3es, nos dias de hoje &#8220;a\u00a0produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, particularmente, a ocidental sobre a figura do her\u00f3i realmente assenta-se no manique\u00edsmo, na unilateralidade e no sucesso do her\u00f3i&#8221;. E podemos complementar dizendo que esse manique\u00edsmo tem fortes influ\u00eancias religiosas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>A rela\u00e7\u00e3o her\u00f3i-vil\u00e3o<\/h4>\n<figure id=\"attachment_757\" aria-describedby=\"caption-attachment-757\" style=\"width: 242px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-757\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/clapping_joker_batman_dark_knight.gif\" alt=\"Cena do filme &quot;Batman - O Cavaleiro das Trevas&quot;. O Coringa funciona como a principal &quot;escada&quot; para a constru\u00e7\u00e3o do personagem Batman.\" width=\"242\" height=\"226\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-757\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">Cena do filme &#8220;Batman &#8211; O Cavaleiro das Trevas&#8221;. O Coringa funciona como a principal &#8220;escada&#8221; para a constru\u00e7\u00e3o do personagem Batman.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>Joseph Campbell, estudioso na \u00e1rea de mitologia e autor da famosa teoria da &#8220;jornada do her\u00f3i&#8221;, defende que o vil\u00e3o \u00e9 o respons\u00e1vel por levar o protagonista ao status de her\u00f3i (ou anti-her\u00f3i).<\/p>\n<p>Por exemplo, \u00e9 muito comum o vil\u00e3o possuir\u00a0uma for\u00e7a e poderes muito superiores aos do her\u00f3i. Se fosse o contr\u00e1rio, n\u00e3o haveria nenhum obst\u00e1culo a ser superado pelo her\u00f3i e sua vit\u00f3ria poderia ser vista como injusta. No entanto, por ser mais fraco o protagonista \u00e9 obrigado a usar outros recursos, que o distinguem do vil\u00e3o: sua <strong>intelig\u00eancia<\/strong>, <strong>destreza<\/strong>, <strong>coragem<\/strong>\u00a0e at\u00e9 mesmo seu <strong>amor<\/strong>. E com essas caracter\u00edsticas, consideradas <span style=\"text-decoration: underline\">muito mais nobres<\/span> que a for\u00e7a bruta, o protagonista supera honradamente o seu opositor, tornando-se her\u00f3i.<\/p>\n<p>\u00c9 quase uma contradi\u00e7\u00e3o o eterno conflito entre her\u00f3i e vil\u00e3o e o fato deles possu\u00edrem essa rela\u00e7\u00e3o mutual\u00edstica (quase simbi\u00f3tica), na qual a exist\u00eancia de um n\u00e3o se justifica sem a exist\u00eancia do outro, como a luz que n\u00e3o existe independentemente da escurid\u00e3o. Apesar dessa aparente contradi\u00e7\u00e3o, os dois, de fato, s\u00f3 existem em pares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Por que personagens de her\u00f3is\u00a0funcionam nas narrativas?<\/h4>\n<p>Transformar uma hist\u00f3ria complexa e profunda numa simples disputa entre duas for\u00e7as &#8211; o <strong>Bem<\/strong> e o <strong>Mal<\/strong> &#8211; torna essa hist\u00f3ria muito mais f\u00e1cil de ser contada e compreendida. Esse manique\u00edsmo entre her\u00f3i\u00a0e vil\u00e3o &#8211; ou anjos e dem\u00f4nios &#8211; \u00e9 amplamente usado no cinema, na m\u00eddia em geral, arriscaria a dizer que at\u00e9 em (alguns?) livros de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-780 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/jornais-300x223.jpg\" alt=\"jornais\" width=\"299\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/jornais-300x223.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/jornais.jpg 580w\" sizes=\"(max-width: 299px) 100vw, 299px\" \/>Por exemplo, para noticiar uma troca de tiros entre <span style=\"color: #0000ff\">policiais <\/span>e <span style=\"color: #ff0000\">traficantes<\/span>, <strong>suponha que<\/strong>\u00a0um jornalista resolva transformar os <span style=\"color: #ff0000\">traficantes\u00a0<\/span>(ou supostos <span style=\"color: #ff0000\">traficantes<\/span>) em <strong><span style=\"color: #ff0000\">vil\u00f5es<\/span> <\/strong>arquet\u00edpicos, enquanto \u00e0 <span style=\"color: #0000ff\">pol\u00edcia<\/span> cabe o papel de <strong><span style=\"color: #0000ff\">her\u00f3i<\/span><\/strong>. Com isso, ao lermos a not\u00edcia, j\u00e1 novelizada, romanceada, roteirizada, temos a mais n\u00edtida certeza de que os <strong><span style=\"color: #ff0000\">vil\u00f5es<\/span>\u00a0<\/strong>est\u00e3o absolutamente errados, t\u00eam motiva\u00e7\u00f5es escusas para seus atos, suas exist\u00eancias ferem a dignidade humana e coloca em risco a vida de inocentes, eles devem pagar pelos seus atos e, por isso, qualquer medida tomada pelos <strong><span style=\"color: #0000ff\">her\u00f3is<\/span> <\/strong>\u00e9 justific\u00e1vel, at\u00e9 mesmo se precisarem matar os <strong><span style=\"color: #ff0000\">vil\u00f5es<\/span><\/strong>.<\/p>\n<p>Sem querer expressar ju\u00edzo de valor sobre a hist\u00f3ria hipot\u00e9tica <span style=\"font-size: 10pt\"><del>(ou n\u00e3o)<\/del><\/span> acima, esse forma de contar hist\u00f3rias \u00e9 chamada por Ren\u00e9 K\u00f6the de <strong>narrativa trivial<\/strong>, e \u00e9 marcada &#8220;pelo automatismo, pela repeti\u00e7\u00e3o e pelos clich\u00eas, em n\u00edvel de enredo, personagens, tem\u00e1rio, valores e final&#8221;. Se voc\u00ea pegar um jornal para ler e tentar identificar esse tipo de narrativa \u00e9 bem prov\u00e1vel que encontre, e se perguntar \u00e0s pessoas que impress\u00f5es tiveram sobre as mat\u00e9rias, vai ver que essa narrativa trivial ainda por cima \u00e9 bastante eficiente.<\/p>\n<h4><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Um personagem um pouco mais complexo &#8211; o anti-her\u00f3i<\/h3>\n<p>Hannibal Lecter, Dexter, Walter White, Rask\u00f3lnikov, Macbeth, Frank Underwood, Pedro Bala, Macuna\u00edma, Capit\u00e3o Nascimento, Aladdin, Michael Corleone, Rorschach&#8230; Nenhum desses protagonistas possuem as virtudes e a moral do her\u00f3i cl\u00e1ssico, muito pelo contr\u00e1rio, t\u00eam todas as caracter\u00edsticas para receberem o crach\u00e1 de vil\u00e3o: furto, homic\u00eddio, latroc\u00ednio, canibalismo, produ\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de drogas, extors\u00e3o, abuso de autoridade, etc.\u00a0Apesar de todas essas imoralidades, s\u00e3o personagens que despertam nossa empatia e nos convencem at\u00e9 a torcer por suas causas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_766\" aria-describedby=\"caption-attachment-766\" style=\"width: 473px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/obviousmag.org\/entre_o_silencio_e_a_escuta\/2016\/meu-querido-anti-heroi.html\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-766\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/dexter-seriado.jpg\" alt=\"O serial killer mais famoso e querido da atualidade, Dexter Morgan. Um, dos v\u00e1rios exemplos de anti-her\u00f3is de sucesso na televis\u00e3o.\" width=\"473\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/dexter-seriado.jpg 1920w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/dexter-seriado-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/dexter-seriado-768x480.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/dexter-seriado-1024x640.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 473px) 100vw, 473px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-766\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">O serial killer mais famoso e querido da atualidade, Dexter Morgan. Um, dos v\u00e1rios exemplos de anti-her\u00f3is de sucesso na televis\u00e3o.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p><a href=\"http:\/\/obviousmag.org\/entre_o_silencio_e_a_escuta\/2016\/meu-querido-anti-heroi.html\">Segundo a psic\u00f3loga Tatiana Souza<\/a> o anti-her\u00f3i \u00e9 t\u00e3o fascinante e conquista as pessoas, porque ele &#8220;\u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o da face obscura da subjetividade existente em todos os seres humanos. Pensemos numa v\u00e1lvula de escape que, de maneira camuflada, possibilita a descarga de todos aqueles impulsos agressivos e sexuais que est\u00e3o inconscientes&#8221;. No entanto, n\u00e3o basta ele ser cheio de defeitos e evocarem o pior que h\u00e1 em n\u00f3s.<\/p>\n<p>O grande sucesso do anti-her\u00f3i mostra que n\u00e3o \u00e9 somente pela gama de\u00a0virtudes do her\u00f3i que n\u00f3s torcemos por eles. Usando as palavras certas e sabendo contar hist\u00f3rias, qualquer pessoa &#8211; tenha ela uma moral ilibada ou seja completamente imoral, ou amoral &#8211; tem potencial de conquistar a empatia do p\u00fablico.<\/p>\n<h4>Resumidamente<\/h4>\n<p>Um personagem <strong>protagonista<\/strong> que tem motiva\u00e7\u00f5es nobres e realiza a\u00e7\u00f5es nobres \u00e9 um her\u00f3i. Um personagem <strong>antagonista <\/strong>que tem motiva\u00e7\u00f5es perversas e realiza a\u00e7\u00f5es perversas \u00e9 um vil\u00e3o. Quando uma figura vilanesca sai do papel de antagonista e ganha o protagonismo ele se torna potencialmente um anti-her\u00f3i, porque passaremos a ver o mundo atrav\u00e9s de seus olhos e ele ter\u00e1 a oportunidade de justificar todas as suas a\u00e7\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es sombrias (chance essa que um vil\u00e3o nunca ter\u00e1).<\/p>\n<p>Por essa perspectiva, \u00e9 poss\u00edvel concluir com seguran\u00e7a que <span style=\"text-decoration: underline\">quem tem o poder de contar a hist\u00f3ria e levar as pessoas a olharem o mundo atrav\u00e9s dos seus \u00f3culos, \u00e9 que ser\u00e1 o her\u00f3i<\/span>. Ou, como diria Orwell:<\/p>\n<blockquote><p>Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado. (1984, George Orwell)<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Como um anti-her\u00f3i inescrupuloso \u00e9 capaz de nos conquistar?<\/h4>\n<p>Para contra-balancear os defeitos morais dos anti-her\u00f3is e torn\u00e1-los fascinantes e merecedores de nossa torcida, os escritores e roteiristas utilizam alguns artif\u00edcios em comum, al\u00e9m de torn\u00e1-los, obviamente, protagonistas da hist\u00f3ria:<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Backstory<\/strong>:\u00a0Quando conhecemos os antecedentes de um personagem seus defeitos se tornam mais compreens\u00edveis e fica bem mais f\u00e1cil aceitar as suas a\u00e7\u00f5es e escolhas, mesmo quando elas envolvem o cometimento de algum crime.<\/li>\n<li><strong>Motivos nobres<\/strong>: Outra maneira de humanizar um anti-her\u00f3i \u00e9 dar a ele motivos nobres, ou em outras palavras, justificar os meios atrav\u00e9s dos fins.<\/li>\n<li><strong>Tra\u00e7os redentores<\/strong>: \u00c9 comum, tamb\u00e9m, os anti-her\u00f3is demonstrarem pequenos momentos redentores, que minimizar\u00e3o todo o mal que ele j\u00e1 cometeu. Uma demonstra\u00e7\u00e3o de sensibilidade ou de empatia, a exposi\u00e7\u00e3o de uma fraqueza, algum tipo de sofrimento pelo qual ele passe, etc.<\/li>\n<li><strong>Coloc\u00e1-lo ao lado de um vil\u00e3o cl\u00e1ssico<\/strong>: Construir um vil\u00e3o que seja muito mais imoral que o anti-her\u00f3i em quest\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 essencial para que ele nos conquiste.<\/li>\n<\/ol>\n<h4>Por exemplo<\/h4>\n<p>Vamos pegar o personagem da s\u00e9rie Dexter (se n\u00e3o conhec\u00ea-lo, tente observar esses 4 pontos na trajet\u00f3ria de outros anti-her\u00f3is). Apesar do fato dele ser um <em>serial killer<\/em> esse seu terr\u00edvel lado n\u00e3o o impediu de ser aclamado pelo p\u00fablico e at\u00e9 visto como um &#8220;<em>serial killer<\/em> do bem&#8221;, e isso se deve (al\u00e9m da excelente atua\u00e7\u00e3o de Michael C. Hall) \u00e0 excelente constru\u00e7\u00e3o do personagem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\"><strong>1)<\/strong> Dexter Morgan tem um passado muito tr\u00e1gico, que envolve a morte de sua m\u00e3e;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\"><strong>2)<\/strong> O personagem desenvolveu um c\u00f3digo \u00e9tico pr\u00f3prio, no qual ele s\u00f3 se permitia assassinar &#8220;pessoas ruins&#8221;. J\u00e1 que ele nunca conseguiu livrar-se do impulso de matar, sua \u00e9tica d\u00e1 a ele uma forma compensar o mal que faz, e funciona como um motivo &#8220;nobre&#8221;;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\"><strong>3)<\/strong> S\u00e3o v\u00e1rios os momentos redentores que cativam o p\u00fablico e humanizam o serial killer: Os momentos com seu filho, sua rea\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a morte da esposa <span style=\"font-size: 10pt\"><del>(\u00e9 spoiler? \u00c9, mas j\u00e1 fazem quase 10 anos, ent\u00e3o n\u00e3o reclamem)<\/del><\/span>, sua rela\u00e7\u00e3o com a irm\u00e3, seus momentos de fraqueza, etc.;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px\"><strong>4)<\/strong> Como dito no item 2, os roteiristas foram muito bem sucedidos em deslocar o papel de vil\u00e3o para as pessoas sob o radar de Dexter. Assassinos, sequestradores, estupradores, ped\u00f3filos, pessoas que fazem mal a inocentes. E assim, o <em>serial killer<\/em> se torna her\u00f3ico ao reservar as l\u00e2minas de sua cole\u00e7\u00e3o de facas para essas pessoas, que dentro de sua \u00e9tica s\u00e3o piores que ele, promovendo uma esp\u00e9cie de limpeza social.<\/p>\n<p>E \u00e9 atrav\u00e9s desse discurso que uma pessoa completamente imoral (ou talvez amoral, no caso de um psicopata) e criminosa consegue erguer-se ao posto de her\u00f3i.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Narrativas heroicas na pol\u00edtica<\/strong><\/h3>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-750\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/1209689879_f.jpg\" alt=\"discurso pol\u00edtico\" width=\"377\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/1209689879_f.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/1209689879_f-300x178.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 377px) 100vw, 377px\" \/>Para citar algumas das narrativas heroicas na pol\u00edtica precisamos apenas deixar duas coisas minimamente estabelecidas. Primeiro, o que estou chamando de <strong>pol\u00edtica<\/strong>.<\/p>\n<p>De forma extremamente resumida, podemos dizer que pol\u00edtica \u00e9 o <span style=\"text-decoration: underline\">ato de mediar interesses<\/span>. \u00c9 tamb\u00e9m o ato de organizar, dirigir e administrar na\u00e7\u00f5es ou estados, mas sempre por interm\u00e9dio do di\u00e1logo, de negocia\u00e7\u00f5es, de rela\u00e7\u00f5es sociais. <span style=\"text-decoration: underline\">N\u00e3o se faz pol\u00edtica sozinho<\/span>, pelo menos, n\u00e3o em uma democracia.<\/p>\n<p>E, em segundo lugar, o que estou chamando de narrativa. Como defini no texto sobre <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/2016\/12\/18\/agradavel-fronteira-entre-fato-e-ficcao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">a fronteira entre fato e fic\u00e7\u00e3o<\/a>,<\/p>\n<blockquote><p><strong>narrar<\/strong> \u00e9 contar uma hist\u00f3ria, atrav\u00e9s de uma sequ\u00eancia de acontecimentos (enredo), onde personagens se movimentam no tempo e no espa\u00e7o.<\/p><\/blockquote>\n<p>E o que isso tem a ver com pol\u00edtica?<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da imagem p\u00fablica de um pol\u00edtico na m\u00eddia se vale dos mesmos recursos narrativos de qualquer hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e0 toa, v\u00e1rias <strong>narrativas e personagens m\u00edticos cl\u00e1ssicos\u00a0<\/strong>tamb\u00e9m s\u00e3o largamente usados na constru\u00e7\u00e3o da figura do pol\u00edtico. Veja\u00a0alguns exemplos:<\/p>\n<h4><\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Narrativa\u00a0do her\u00f3i cl\u00e1ssico<\/h4>\n<p>\u00c9 muito comum pol\u00edticos que tenham discursos salvacionistas, messi\u00e2nicos, her\u00f3icos. Paralelo ao trabalho de comunica\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico, temos tamb\u00e9m uma m\u00eddia que ajuda a fabricar narrativas heroicas, demonizando determinados pol\u00edticos e enaltecendo outros, fazendo-os atender aos desejos e anseios de prote\u00e7\u00e3o, amparo e conforto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_952\" aria-describedby=\"caption-attachment-952\" style=\"width: 229px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-952 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/poster-2.jpg\" alt=\"FanArt do her\u00f3i Cometa, pelo desenhista chapecoense Samicler\" width=\"229\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/poster-2.jpg 381w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/poster-2-223x300.jpg 223w\" sizes=\"(max-width: 229px) 100vw, 229px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-952\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">FanArt do her\u00f3i Cometa, pelo desenhista chapecoense Samicler<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>At\u00e9 mesmo uma pessoa de moral completamente question\u00e1vel pode tornar-se her\u00f3i (ou anti-her\u00f3i) da na\u00e7\u00e3o. E os recursos midi\u00e1ticos usados s\u00e3o aqueles mesmos que citei acima. Falar do passado sofrido da pessoa, dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o um vil\u00e3o que aparente ser muito pior, um motivo nobre e geralmente gen\u00e9rico (como &#8220;acabar com a corrup\u00e7\u00e3o&#8221;).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, um discurso extremamente poderoso \u00e9 o do\u00a0&#8220;<strong>eu tenho a for\u00e7a<\/strong>&#8220;. Se eu digo \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que vou fazer mil e uma coisas para livrar o pa\u00eds de todo o Mal e fa\u00e7o uma s\u00e9rie de promessas, como se eu realmente fosse capaz de cumprir aquilo tudo, eu n\u00e3o terei muita dificuldade de convencer as pessoas. Quantos cidad\u00e3os realmente sabem qual \u00e9 o poder efetivo de um pol\u00edtico em determinado cargo?<\/p>\n<p>Se n\u00e3o temos esse conhecimento, qualquer um\u00a0pode se passar facilmente por\u00a0um her\u00f3i, dando a impress\u00e3o que realmente \u00e9 capaz de fazer tudo que prometeu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Narrativa do pol\u00edtico empres\u00e1rio<\/h4>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-748\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/black-suit-1295853_960_720.jpg\" alt=\"pol\u00edtica\" width=\"174\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/black-suit-1295853_960_720.jpg 360w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/black-suit-1295853_960_720-150x300.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 174px) 100vw, 174px\" \/>Bastante presente na atualidade, essa narrativa tem ganhado cada vez mais for\u00e7a. 1) &#8220;Eu j\u00e1 sou rico, logo n\u00e3o preciso roubar&#8221;, 2) &#8220;O Estado \u00e9 como se fosse uma empresa privada, mas que gasta mais do que arrecada&#8221;, 3) &#8220;Vou gerir o pa\u00eds igual gerencio minhas empresas&#8221;.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o algumas das afirma\u00e7\u00f5es mais usadas para construir a figura do empres\u00e1rio enquanto aquele que poder\u00e1 salvar o pa\u00eds, e elas possuem alguns problemas bastante b\u00e1sicos, apesar de fazerem um aparente sentido.<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong>\u00a0Dizer que n\u00e3o vai roubar n\u00e3o \u00e9 um ponto positivo. Cumprir a lei \u00e9 o m\u00ednimo que qualquer cidad\u00e3o deve fazer. E nem s\u00f3 de dinheiro vivem os pol\u00edticos mais ambiciosos. Em muitas circunst\u00e2ncias, o\u00a0<strong>poder<\/strong> \u00e9 muito mais valioso do que o dinheiro.<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong> O Estado est\u00e1 longe de ser\u00a0uma empresa privada. Para come\u00e7ar, os objetivos s\u00e3o completamente diferentes. Qualquer empresa trabalha pra obter lucro, afinal, se isso n\u00e3o acontecer ela n\u00e3o se sustenta. Mas a fun\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 completamente diferente: manter a ordem, assegurar a defesa e promover o bem-estar e o progresso da sociedade. Querer que o Estado lucre em cima das suas atividades-fim, como essas que citei, \u00e9 perverter a sua real fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong> Al\u00e9m do que j\u00e1 disse no item 2, nenhum pol\u00edtico trabalha sozinho. Um empres\u00e1rio de sucesso certamente n\u00e3o gere suas empresas democraticamente. Se ele fosse aplicar um sistema de freios e contrapesos,\u00a0ouvir os interesses de cada um dos seus funcion\u00e1rios e clientes e levar tudo isso em conta, dificilmente sua empresa fecharia no verde todo m\u00eas. Portanto, \u00e9 imposs\u00edvel\u00a0existir uma gest\u00e3o pol\u00edtica democr\u00e1tica empresarial, porque s\u00e3o conceitos incompat\u00edveis. A gest\u00e3o de uma empresa n\u00e3o \u00e9 representativa e nem democr\u00e1tica, porque isso tamb\u00e9m perverteria o prop\u00f3sito dela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>Narrativa do\u00a0anti-pol\u00edtico<\/h4>\n<p>Diante de uma enorme crise do sistema pol\u00edtico, a popula\u00e7\u00e3o desenvolveu uma avers\u00e3o a tudo que diz respeito \u00e0 pol\u00edtica. Isso propiciou um\u00a0terreno f\u00e9rtil para essa narrativa. Qualquer pessoa que atenda a esse desejo popular de opor-se ao sistema e expressar avers\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica\u00a0\u00e9 capaz de conquistar muita gente e, com isso, se torna uma esp\u00e9cie de her\u00f3i.<\/p>\n<figure id=\"attachment_797\" aria-describedby=\"caption-attachment-797\" style=\"width: 279px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-797 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/04-AntiPolitica1-e1409894404184-300x188.jpg\" alt=\"anti pol\u00edtica\" width=\"279\" height=\"175\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/04-AntiPolitica1-e1409894404184-300x188.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/05\/04-AntiPolitica1-e1409894404184.jpg 533w\" sizes=\"(max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-797\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">Recorte da imagem usada no texto de <a href=\"http:\/\/www.abcdelasemana.com\/2014\/09\/05\/consideraciones-sobre-la-antipolitica\/\">Jos\u00e9 Rafael Herrera<\/a> sobre a anti-pol\u00edtica na Venezuela.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>A anti-pol\u00edtica \u00e9 estrat\u00e9gia de marketing bastante antiga, mas que tamb\u00e9m tem ganhado muita for\u00e7a ultimamente. O grande problema dessa narrativa \u00e9 que ela n\u00e3o \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>Afirmar publicamente uma\u00a0discord\u00e2ncia com o mainstream pol\u00edtico e declarar-se como algu\u00e9m &#8220;fora do sistema&#8221;\u00a0j\u00e1 \u00e9, por si s\u00f3, um posicionamento pol\u00edtico. Al\u00e9m disso, s\u00f3 de estar na posi\u00e7\u00e3o de um pol\u00edtico, ser eleito por esse sistema e utilizar-se dele, j\u00e1 faz de voc\u00ea um pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Quem usa essa narrativa sabe o qu\u00e3o bem ela pode funcionar e, sem nenhuma d\u00favida, conhece muito bem o sistema pol\u00edtico no qual est\u00e1 se inserindo.\u00a0 \u00c9 como se o dono de uma empresa de carnes dissesse que \u00e9 contra o abate de bois, al\u00e9m de um contrassenso, o que seria isso sen\u00e3o\u00a0uma tentativa consciente e deliberada de nos enganar e confundir?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Por que isso tudo est\u00e1 acontecendo e como minimizar esse problema?<\/h3>\n<p>Vivemos <span class=\"Object\">hoje<\/span> num governo t\u00e3o desacreditado, perdemos tanto a f\u00e9 na boa pol\u00edtica, que est\u00e1 se tornando cada vez mais f\u00e1cil emplacar narrativas heroicas que conquistem a popula\u00e7\u00e3o. Dizer-se um n\u00e3o-pol\u00edtico, avesso \u00e0 pol\u00edtica, apresentar-se como um empres\u00e1rio de sucesso que vai salvar o Estado, vilanizar outros pol\u00edticos para minimizar as suas pr\u00f3prias imoralidades, entre outras, s\u00e3o estrat\u00e9gias muito antigas, mas extremamente eficientes, para elevar-se ao posto de her\u00f3i e ganhar a aten\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 desprezando o nosso sistema e apostando em\u00a0atua\u00e7\u00f5es individuais que as coisas ser\u00e3o resolvidas. Como disse, pol\u00edtica depende de di\u00e1logo e n\u00e3o existe messianismo em uma democracia. Um her\u00f3i no poder tem tudo para ser um grande ditador e seus super-poderes, o fato dele ser &#8220;o escolhido&#8221; e sua capacidade sobre-humana, ser\u00e3o algumas das justificativas usadas para que ele continue exercendo seu poder.<\/p>\n<figure id=\"attachment_350\" aria-describedby=\"caption-attachment-350\" style=\"width: 198px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-350\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/02\/Eletrolux-261x300.jpg\" alt=\"\" width=\"198\" height=\"228\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/02\/Eletrolux-261x300.jpg 261w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/wp-content\/uploads\/sites\/113\/2017\/02\/Eletrolux.jpg 653w\" sizes=\"(max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-350\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 8pt\">Imagem de uma mulher usando Antolhos (aqueles que os cavalos usam para ter a vis\u00e3o limitada)<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00c9 evidente que aprender mais sobre pol\u00edtica e saber as atribui\u00e7\u00f5es de cada cargo pol\u00edtico, j\u00e1 nos torna um pouco menos sujeitos a alguns dos discursos mais utilizados. Lutar contra a enorme\u00a0<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/ciencianerd\/2016\/11\/19\/anarquia_na_internet\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">redu\u00e7\u00e3o da anarquia na internet<\/a>\u00a0\u00e0 qual estamos sujeitos contribui para que, pelo menos, conhe\u00e7amos um pouco melhor o lado daquele que encaramos como vil\u00e3o (e os podres daqueles que tomamos como her\u00f3is).<\/p>\n<p>Desconstruir a figura do vil\u00e3o pol\u00edtico \u00e9 tamb\u00e9m desconstruir a figura do her\u00f3i pol\u00edtico. Como j\u00e1 disse, uma democracia n\u00e3o precisa de um Messias, de um her\u00f3i. Precisa \u00e9 de participa\u00e7\u00e3o popular e de pol\u00edticos que realmente representem os interesses daqueles que os elegeram.<\/p>\n<p>Podemos tentar enxergar os personagens do mundo pol\u00edtico, e as narrativas constru\u00eddas pela m\u00eddia em torno deles, de maneira mais cr\u00edtica, tendo em mente que o manique\u00edsmo religioso de anjos e dem\u00f4nios (ou her\u00f3is e vil\u00f5es) n\u00e3o existe no mundo real. Todos t\u00eam motiva\u00e7\u00f5es boas e ruins, realizam a\u00e7\u00f5es boas e ruins, e essas v\u00e1rias nuances e complexidades n\u00e3o podem ser reduzidas a um \u00fanico t\u00edtulo de Bem ou Mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;&#8211;<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e3o os principais materiais que usei de refer\u00eancia.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Artigo cient\u00edfico de Cl\u00e9a Valle e Ver\u00f4nica Telles:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.revistadoisat.com.br\/numero2\/01_O_Mito_do_Conceito_de_Heroi_Clea_e_Veronica.pdf\">O mito do conceito de her\u00f3i<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Artigo cient\u00edfico de Hilda Magalh\u00e3es e equipe:\u00a0<a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1806-58212007000300003\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Do her\u00f3i ficcional ao her\u00f3i pol\u00edtico<\/a>.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Cr\u00f4nica de Rennan Torres:\u00a0<a href=\"http:\/\/www20.opovo.com.br\/app\/jornaldoleitor\/noticiassecundarias\/cronicas\/2016\/09\/12\/noticiajornaldoleitorcronicas,3658315\/politicos-e-super-herois-o-que-ha-em-comum.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pol\u00edticos e Super-her\u00f3is, o que h\u00e1 em comum?<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Texto do Blog do roteirista portugu\u00eas Jo\u00e3o Nunes:\u00a0<a href=\"http:\/\/joaonunes.com\/2013\/guionismo\/como-escrever-um-anti-heroi\/\">Como escrever um anti-her\u00f3i<\/a>\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt\">Texto\u00a0de Vict\u00f3ria Ferreira (ECA-USP):\u00a0<a href=\"http:\/\/www.usp.br\/cje\/jorwiki\/exibir.php?id_texto=310\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O Coringa: A narrativa por tr\u00e1s da constru\u00e7\u00e3o do vil\u00e3o carism\u00e1tico<\/a><\/span><\/p>\n<p>Curso no site site JurisWay de <a href=\"https:\/\/www.jurisway.org.br\/v2\/vermenu.asp?id_curso=275\">Teoria Geral do Estado<\/a><\/p>\n<p>S\u00e9rie de v\u00eddeos do professor Andr\u00e9 Azevedo:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=oubTXEY7iyw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Introdu\u00e7\u00e3o aos estudos de mitologia pol\u00edtica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como algumas das narrativas de hero\u00edsmo s\u00e3o usadas no contexto pol\u00edtico? &nbsp; Est\u00e1\u00a0dif\u00edcil evitar o tema pol\u00edtica nesses tempos. 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