{"id":1686,"date":"2020-12-18T09:42:14","date_gmt":"2020-12-18T12:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/?p=1686"},"modified":"2021-06-27T22:44:32","modified_gmt":"2021-06-28T01:44:32","slug":"ciencia-pelos-olhos-professora-doutora-mariangela-de-oliveira-abans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2020\/12\/18\/ciencia-pelos-olhos-professora-doutora-mariangela-de-oliveira-abans\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia pelos olhos da Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>A Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans. Arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora minha forma\u00e7\u00e3o seja nas Ci\u00eancias Humanas e Sociais, os primeiros textos que escrevi para o <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/\"><strong>Ci\u00eancia pelos Olhos Delas<\/strong><\/a> tiveram como foco <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/tag\/mulheres-na-astronomia\/\">mulheres que atuaram e atuam na Astronomia e na Astrof\u00edsica<\/a>. Isso se deve a uma influ\u00eancia familiar: meu pai, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/CFvBiH2AyT-\/\">Julio Lobo<\/a>, \u00e9 astr\u00f4nomo no Observat\u00f3rio Municipal de Campinas Jean Nicolini (OMCJN) h\u00e1 mais de 40 anos, e desde&nbsp; pequena eu fui incentivada por ele a olhar para o c\u00e9u estrelado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar disso, at\u00e9 agora eu ainda n\u00e3o havia entrevistado nenhuma cientista da \u00e1rea. Pedi recomenda\u00e7\u00f5es ao meu pai, que prontamente me retornou com um nome: <strong>Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans<\/strong>, sua colega nesses anos de Astronomia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela \u00e9 bacharel em F\u00edsica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (IFUSP) e tem mestrado em Astronomia pela mesma institui\u00e7\u00e3o junto ao Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas (IAGUSP), antigo Instituto Astron\u00f4mico e Geof\u00edsico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fez seu doutorado em Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Itajub\u00e1 (UNIFEI) e trabalha como pesquisadora e coordenadora de Divulga\u00e7\u00e3o e Ensino N\u00e3o Formal no <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\"><strong>Laborat\u00f3rio Nacional de Astrof\u00edsica (LNA)<\/strong><\/a>, \u00f3rg\u00e3o sediado em Itajub\u00e1 (Minas Gerais) e que integra o Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00f5es (MCTI).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma ter\u00e7a-feira \u00e0 tarde quando me \u201creuni\u201d com a Prof\u00aa. Mari\u00e2ngela via Skype para fazer minha primeira entrevista para o Ci\u00eancia Pelos Olhos Delas. Num bate-papo que foi ao mesmo tempo extremamente did\u00e1tico, informativo e empolgante, Mari\u00e2ngela me contou sobre sua trajet\u00f3ria, sua pesquisa, sua atua\u00e7\u00e3o na divulga\u00e7\u00e3o da Astronomia, e refletiu sobre a pandemia e sobre ser mulher na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confira abaixo:<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cientista \u2013 era isso que voc\u00ea queria ser quando crescesse?<\/strong>&nbsp;&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, eu n\u00e3o tinha nenhuma ideia clara do que eu seria quando crescesse. Quando eu era crian\u00e7a, na d\u00e9cada de 50, as meninas iam namorar, casar, formar fam\u00edlia e ter alguma profiss\u00e3o que n\u00e3o envolvesse ci\u00eancias exatas &#8211; isso pouco se cogitava, eram poucas as mulheres que a gente sabia que tinham, como se dizia antigamente, \u201cuma profiss\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed eu cresci, fui para a escola e fiz naquela \u00e9poca o que se chamava de \u201ccient\u00edfico\u201d. Era um ensino m\u00e9dio dedicado a quem gostaria de seguir nas exatas; a\u00ed tinha-se as engenharias, a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a matem\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando fui fazer faculdade, prestei para F\u00edsica, Geoci\u00eancias e Matem\u00e1tica. Entrei em F\u00edsica&nbsp; na USP em S\u00e3o Paulo, capital, e fiquei muito contente. Contudo, isso n\u00e3o era bem o que meus pais queriam que eu cursasse. Quando eu disse pra minha m\u00e3e que eu ia fazer F\u00edsica, ela fez uma cara de estranheza e falou <em>\u201cF\u00edsica, minha filha? Por que voc\u00ea n\u00e3o faz Artes, Arquitetura? Vai fazer L\u00ednguas, Psicologia, qualquer outra coisa, mas F\u00edsica n\u00e3o!\u201d<\/em>.&nbsp; Mas eu bati o p\u00e9 &#8211; <em>\u201ceu quero porque eu quero e eu vou tentar\u201d<\/em> &#8211; e l\u00e1 fui eu!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu cresci tamb\u00e9m experimentando coisas, porque a minha fam\u00edlia sempre me incentivou a aprender sobre tudo. Quando eu era crian\u00e7a, um dos meus tios me ensinou a pintar parede, apertar parafuso, a trabalhar com enxada, a mexer com m\u00e1quinas. Ent\u00e3o, de certa forma, eu estava num processo de descoberta. Era desse lado que eu gostava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Conte-nos sobre a sua trajet\u00f3ria at\u00e9 chegar ao Laborat\u00f3rio Nacional de Astrof\u00edsica (LNA).&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de entrar na faculdade de F\u00edsica, comecei a perceber que eu gostava muito de laborat\u00f3rio e fui fazendo mat\u00e9rias optativas de laborat\u00f3rio mesmo. At\u00e9 nas f\u00e9rias eu estava metida em laborat\u00f3rio, ajudando, fazendo; era muito divertido! De certa forma, minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em f\u00edsica experimental. Como eu j\u00e1 brinquei v\u00e1rias vezes em outras entrevistas, meu neg\u00f3cio \u00e9 apertar bot\u00e3o! Eu gosto de mexer com m\u00e1quinas e instrumentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, comecei a fazer Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Astronomia no Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas (IAGUSP), antigo Instituto Astron\u00f4mico e Geof\u00edsico, e fui gostando; gostava das mat\u00e9rias que eu estava fazendo e da pesquisa que o pessoal trazia para a sala de aula pra gente conhecer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fui me entrosando e fazendo mais mat\u00e9rias, at\u00e9 que comecei a fazer inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, junto com duas colegas da F\u00edsica, orientada por um professor indiano que trabalhava com quasares. Eu n\u00e3o sabia bem o que era um quasar, mas parecia ser interessant\u00edssimo; a gente fazia aquele trabalho bem simples, porque n\u00e3o sab\u00edamos nada de Astronomia. Ele inclusive publicou um artigo usando parte das redu\u00e7\u00f5es que a gente tinha feito <em>(um par\u00eanteses aqui: quando a gente fala em reduzir dados, essa express\u00e3o quer dizer pegar os n\u00fameros, os dados, limp\u00e1-los e trabalhar com eles estatisticamente para poder fazer alguma interpreta\u00e7\u00e3o, transform\u00e1-los em algo \u00fatil pra fazer ci\u00eancia)<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois disso, eu j\u00e1 tinha certeza que eu queria fazer mesmo Astronomia: me formei em F\u00edsica e fui fazer mestrado em Astronomia no IAGUSP. Naquela \u00e9poca, eu trabalhei com <strong>nebulosas de reflex\u00e3o<\/strong>, que s\u00e3o grandes <strong>nuvens interestelares<\/strong> formadas de g\u00e1s, poeira e mol\u00e9culas. Quando eu falo em <strong>poeira interestelar<\/strong>, \u00e9 aquilo que voc\u00ea encontra fora de casa, no seu jardim &#8211; s\u00e3o basaltos, silicatos, gelo de \u00e1gua que a gente chama de gelo sujo porque est\u00e1 misturado com os gr\u00e3os de poeira, al\u00e9m de \u00e1tomos, como o hidrog\u00eanio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essas nuvens est\u00e3o perto de ber\u00e7os de estrelas. Elas s\u00e3o nuvens muito frias (\u201c<em>frio\u201d, em Astronomia, <\/em><em>\u00e9<\/em><em> <\/em><em>por volta de menos cento e quarenta graus, cento e oitenta graus Celsius<\/em>), t\u00e3o frias que a luz vis\u00edvel das estrelas que est\u00e3o atr\u00e1s delas n\u00e3o passa, a\u00ed voc\u00ea v\u00ea aquela mancha escura no c\u00e9u.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa \u00e9poca eu estava interessada em responder uma pergunta: <strong>do que s\u00e3o feitos e qual \u00e9 o formato desses gr\u00e3os de poeira<\/strong>? Ent\u00e3o, n\u00f3s t\u00ednhamos um trabalho que era te\u00f3rico e observacional ao mesmo tempo. A teoria era usar diferentes modelos de gr\u00e3os: poderiam ser bolinhas, semi esf\u00e9ricos ou cil\u00edndricos. Eu tinha tabelas com os diversos materiais; queria saber <em>\u201cComo esses materiais refletem a luz, nas diferentes cores, nos diferentes comprimentos de onda?\u201d<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa era a parte te\u00f3rica, eu rodava modelos em computador. E para a parte observacional, que era muito mais legal, eu vinha para o <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/OPD\"><strong>Observat\u00f3rio do Pico dos Dias (OPD)<\/strong><\/a>, gerenciado pelo Laborat\u00f3rio Nacional de Astrof\u00edsica (LNA). E eu vim observar as tais nebulosas de reflex\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"647\" height=\"230\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/observatorio-do-pico-dos-dias.jpg\" alt=\"Observat\u00f3rio do Pico dos Dias (OPD). Cr\u00e9ditos: LNA. Todos os direitos reservados.\" class=\"wp-image-1687\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/observatorio-do-pico-dos-dias.jpg 647w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/observatorio-do-pico-dos-dias-300x107.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 647px) 100vw, 647px\" \/><figcaption>Observat\u00f3rio do Pico dos Dias (OPD). Cr\u00e9ditos: LNA. Todos os direitos reservados.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era o meu sonho trabalhar no LNA e eu vim trabalhar aqui! Quis a vida, n\u00e3o \u00e9? S\u00f3 que no come\u00e7o a equipe daqui me chamava de p\u00e9 frio, porque quando chegava a minha vez de observar, segundo o cronograma de distribui\u00e7\u00e3o de tempo de telesc\u00f3pio, sempre chovia! Peguei muita chuva, mas consegui os dados e terminei meu mestrado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed o que aconteceu? Eu acabei me casando com um astr\u00f4nomo chileno e fui pro Chile. L\u00e1 eu trabalhei em pesquisa com o pessoal da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica em Santiago.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Toda essa minha trajet\u00f3ria s\u00f3 refor\u00e7ou os dois aspectos que eu mais valorizo at\u00e9 hoje: um \u00e9 o da minha pesquisa em Astronomia e o outro \u00e9 o da divulga\u00e7\u00e3o.<\/strong> Isso porque quando eu estava l\u00e1 no mestrado, eu tinha muito contato com o pessoal que dava as aulas nos cursos de ver\u00e3o no IAGUSP e a gente viajava pra mostrar o telesc\u00f3pio e o c\u00edrculo meridiano que a USP tem em Valinhos\/Vinhedo (S\u00e3o Paulo), no Observat\u00f3rio Abra\u00e3o de Moraes, e o radiotelesc\u00f3pio l\u00e1 em Atibaia, o R\u00e1dio Observat\u00f3rio Pierre Kaufmann, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, que hoje \u00e9 operado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais &#8211; INPE\/MCTI &#8211; e que pertence \u00e0 Universidade Mackenzie. E com isso, <strong>percebi que gostava muito de contar para as pessoas sobre Astronomia e sobre ci\u00eancias em geral<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Esse contato com o p\u00fablico externo, certo? Sair do laborat\u00f3rio, da sala de aula.&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exatamente. E \u00e9 um pessoal que gosta muito do assunto! Ent\u00e3o, depois disso, eu descobri que ser cientista ou pesquisadora, na verdade, \u00e9 tamb\u00e9m algo que tem a ver com a forma de ser das pessoas. \u00c9 necess\u00e1rio tirar um pouquinho aquela vis\u00e3o estereotipada que se t\u00eam de que o cientista, principalmente o astr\u00f4nomo, \u00e9 aquele ser que fica em cima de um pedestal de m\u00e1rmore, que o que ele fala \u00e9 o certo absoluto ou que ele vive no mundo da lua e n\u00e3o sabe nem o que est\u00e1 acontecendo aqui embaixo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisamos desmistificar todas essas ideias. Ent\u00e3o, complementando a resposta \u00e0 primeira pergunta, <strong>eu n\u00e3o sabia que eu queria ser cientista, eu descobri que eu queria ser cientista, pesquisadora, pelo caminho<\/strong>. Eu fui sendo guiada pelas minhas experi\u00eancias de vida, pelo que eu conheci de outras pessoas nos lugares que fui, nos congressos que participei, e lendo &#8211; a gente l\u00ea muito, e sobre v\u00e1rios aspectos, n\u00e3o s\u00f3 sobre aquela \u00e1rea na qual trabalhamos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Aproveitando esse gancho, a pr\u00f3xima pergunta se refere justamente a isso: Alguma cientista ou algum cientista ou descoberta cient\u00edfica te inspirou na escolha da sua carreira? Ou, como voc\u00ea estava me dizendo, foi uma conflu\u00eancia de fatores?&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea sabe que, conforme voc\u00ea vai descobrindo que gosta de fazer pesquisa cient\u00edfica, voc\u00ea se d\u00e1 conta de que \u00e9 realmente muito curioso, certo? A gente se interessa por muitas coisas e obviamente n\u00e3o acabamos nos especializando em todas. Ent\u00e3o, eu lia muito sobre tudo que era assunto, como toda adolescente. Eu escrevi poesia, quis ser arque\u00f3loga, paleont\u00f3loga\u2026<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Eu tamb\u00e9m queria ser arque\u00f3loga na inf\u00e2ncia!<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, muita gente com quem eu converso tamb\u00e9m pensou nessas coisas durante a adolesc\u00eancia! E n\u00e3o tem um pesquisador, um cientista, ou uma not\u00edcia que realmente me influenciou tanto. Eu acho que realmente foi o conv\u00edvio com pesquisadores de diversas \u00e1reas, foi a leitura de diversos assuntos, principalmente de Astronomia. Os institutos que eu frequentei, as pessoas com quem eu conversei &#8211; esse seria um bom resumo. <strong>Eu fui me descobrindo ao longo do caminho.&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>E como tem sido a sua atua\u00e7\u00e3o no LNA?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O LNA n\u00e3o \u00e9 um instituto de pesquisa pura; na verdade, ele \u00e9 um prestador de servi\u00e7os. Servimos a comunidade astron\u00f4mica brasileira e nossa miss\u00e3o \u00e9 proporcionar ao astr\u00f4nomo brasileiro telesc\u00f3pios e instrumentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o para a pesquisa que ele resolver fazer. Isso tanto em solo brasileiro, quanto no exterior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dessa forma, somos desenvolvedores de instrumenta\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica. As pessoas nos associam muito ao Observat\u00f3rio do Pico dos Dias, mas ele \u00e9 s\u00f3 um dos nossos departamentos. O nosso nicho de alt\u00edssima tecnologia \u00e9 justamente o projeto, o desenvolvimento e a constru\u00e7\u00e3o de instrumentos para telesc\u00f3pios no Brasil e no exterior, tanto para brasileiros, como para cons\u00f3rcios internacionais. E a nossa <em>expertise<\/em>, como se diz hoje em dia, \u00e9 justamente o uso de fibras \u00f3pticas em Astronomia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"318\" height=\"425\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/laboratorio-de-fibra-optica.jpg\" alt=\"Laborat\u00f3rio de fibras \u00f3pticas. Cr\u00e9ditos: LNA. Todos os direitos reservados.\" class=\"wp-image-1688\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/laboratorio-de-fibra-optica.jpg 318w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/laboratorio-de-fibra-optica-224x300.jpg 224w\" sizes=\"(max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><figcaption><em>Laborat\u00f3rio de fibras \u00f3pticas. Cr\u00e9ditos: LNA. Todos os direitos reservados.<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fibras \u00f3pticas usadas na Astronomia s\u00e3o extremamente delgadas, muito mais do que as de telecomunica\u00e7\u00f5es. N\u00f3s detemos a tecnologia para manipular as fibras, para poli-las e para encaix\u00e1-las em tubinhos, colocar uma lente na frente de cada uma &#8211; n\u00f3s puxamos um cabo de mil e trezentas fibras! N\u00f3s temos a tecnologia para alinh\u00e1-las e obtivemos patentes por desenvolver novos materiais de polimento e por criar e usinar pe\u00e7as para segurar essas fibras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m temos pesquisa pr\u00f3pria porque somos nove astr\u00f4nomos e um f\u00edsico, cada um com um campo de atua\u00e7\u00e3o diferente. Mas como somos poucos, \u00e9 um instituto pequeno, sobra trabalho e falta gente. Assim, alguns de n\u00f3s se dedicam \u00e0 instrumenta\u00e7\u00e3o astron\u00f4mica, outros \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos de computador, \u00e0 programa\u00e7\u00e3o, e alguns trabalham com os cons\u00f3rcios internacionais, com o apoio aos usu\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Eu sou respons\u00e1vel pela parte de Divulga\u00e7\u00e3o e Ensino N\u00e3o Formal.<\/strong> Coordeno alguns estagi\u00e1rios para que a gente atenda visitas, principalmente de escolas p\u00fablicas, ao Observat\u00f3rio do Pico dos Dias, que fica entre os munic\u00edpios de Braz\u00f3polis e Pirangu\u00e7u, e ao nosso querido <strong>Observat\u00f3rio no Telhado<\/strong>, que \u00e9 um observat\u00f3rio pequeno que temos em nossa sede em Itajub\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-577x1024.jpg\" alt=\"Observat\u00f3rio no Telhado. Cr\u00e9ditos: Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans. Todos os direitos reservados.\" class=\"wp-image-1689\" width=\"433\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-577x1024.jpg 577w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-768x1364.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-865x1536.jpg 865w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-1153x2048.jpg 1153w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Observatorio-no-Telhado-scaled.jpg 1441w\" sizes=\"(max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><figcaption><em>Observat\u00f3rio no Telhado. Cr\u00e9ditos: Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans. Todos os direitos reservados.<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a minha equipe tamb\u00e9m desenvolve material did\u00e1tico e experimentos que podem ser emprestados para escolas, e eles viajam em grandes ba\u00fas ou s\u00e3o usados em exposi\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m temos uma cole\u00e7\u00e3o de banners e a <strong>Biblioteca Itinerante de Astronomia<\/strong>, que n\u00e3o \u00e9 enorme, mas que cont\u00e9m livros, desde infantis at\u00e9 em n\u00edvel de gradua\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o emprestados a escolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto do trabalho da minha equipe \u00e9 dar assessoria a professores e estudantes quando eles precisam fazer trabalhos; a gente d\u00e1 palestras no LNA, no OPD, nas escolas, a gente viaja. Temos uma colega que atua na parte de assessoria de imprensa, emitindo notas para a m\u00eddia. Temos todo um trabalho virtual no nosso portal de ensino e divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Agora, com a pandemia da COVID-19, os eventos presenciais deram lugar a uma programa\u00e7\u00e3o virtual peri\u00f3dica.<\/strong> Um dos eventos presenciais era o <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/divulg\/conheca\/eventos-1\/observatorio-no-telhado\"><strong>\u201cS\u00e1bados Crescentes\u201d<\/strong><\/a>: uma vez por m\u00eas, na nossa sede, d\u00e1vamos uma palestra no s\u00e1bado \u00e0 noite, na lua crescente. J\u00e1 h\u00e1 dois anos a gente vinha transmitindo esses S\u00e1bados Crescentes pelo Facebook; agora, com o distanciamento social, eles continuam apenas virtualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eventos como o <strong>\u201cTarde e Noite de Portas Abertas no Observat\u00f3rio do Pico dos Dias\u201d <\/strong>tamb\u00e9m foram para o plano virtual. Esse foi o primeiro ano que a gente fez isso e foi um evento que ultrapassou todas as nossas expectativas &#8211; em termos de p\u00fablico, de visualiza\u00e7\u00f5es, de participa\u00e7\u00e3o; ficamos cinco horas no ar, direto! Foi muito legal porque tivemos rodas de conversa, v\u00eddeos com depoimentos e \u201cViola ao Cair da Tarde\u201d apresentada por um dos nossos colegas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tivemos tamb\u00e9m, ao final, um evento ao vivo online com astr\u00f4nomos amadores de tr\u00eas lugares do Brasil em que eles mostraram o c\u00e9u como os seus telesc\u00f3pios. Contamos com a participa\u00e7\u00e3o de pessoas de todos os lugares do Brasil, foi bem legal e gratificante. <strong>Ent\u00e3o, ano que vem, mesmo que a pandemia tenha passado, a gente vai realmente apostar em eventos presenciais acompanhado dos virtuais<\/strong>. Essa \u00e9 a parte da divulga\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>E a parte da pesquisa?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos de pesquisa, quando entrei no LNA, eu vinha trabalhando com nebulosas planet\u00e1rias, que s\u00e3o objetos que sobraram depois da morte de uma estrela de baixa massa. Quando uma estrela como o nosso Sol morre, ela fica inst\u00e1vel no final e, de repente, d\u00e1 um \u201csuspiro\u201d, ejeta sua atmosfera e seu n\u00facleo se contrai.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu trabalhava com nebulosas planet\u00e1rias junto com o meu marido, \u00e9 a \u00e1rea dele. Com o passar do tempo a gente descobriu outras \u00e1reas e passamos a trabalhar em Astronomia extragal\u00e1ctica, ou seja, com gal\u00e1xias de um tipo especial &#8211; come\u00e7amos&nbsp; trabalhando com <strong>gal\u00e1xias aneladas colisionais<\/strong>, que s\u00e3o gal\u00e1xias que ganham um anel depois de colidirem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00eas j\u00e1 devem ter jogado pedra numa po\u00e7a d&#8217;\u00e1gua, certo? Formam-se aqueles an\u00e9is. Ent\u00e3o, \u00e9 mais ou menos a mesma coisa, voc\u00ea tem uma gal\u00e1xia com um disco, vem uma outra que passa por ela e d\u00e1 esse efeito de abrir um anel. \u00c9 muito legal. Ao ver imagens de uma t\u00edpica gal\u00e1xia anelada, podemos observar, pelas cores, que a por\u00e7\u00e3o azulada representa justamente o anel &#8211; essas s\u00e3o as estrelas mais quentes e, portanto, mais jovens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"800\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional.jpg\" alt=\"Gal\u00e1xia Anelada colisional AM 0644-741. Cr\u00e9ditos: Hubble Heritage Team (AURA \/ STScI), J. Higdon (Cornell) ESA, NASA. Todos os direitos reservados.\" class=\"wp-image-1690\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-24x24.jpg 24w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-48x48.jpg 48w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/galaxia-anelada-colisional-96x96.jpg 96w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption><a href=\"https:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap150419.html\"><em>Gal\u00e1xia Anelada colisional AM 0644-741<\/em><\/a><em>. Cr\u00e9ditos: Hubble Heritage Team (AURA \/ STScI), J. Higdon (Cornell), ESA, NASA. Todos os direitos reservados.<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 no n\u00facleo e no bojo que sobrou ali no meio, enxergamos uma cor amarelada devido \u00e0 presen\u00e7a de estrelas de superf\u00edcie mais fria. E elas existem h\u00e1 muito tempo, s\u00e3o mais velhas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma s\u00e9rie de gal\u00e1xias aneladas: as com dois n\u00facleos, as com v\u00e1rios tipos de an\u00e9is; h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas com o n\u00facleo bem redondo e grande, outras que se assemelham a um anel solit\u00e1rio, e as que s\u00e3o distorcidas. Enfim, tem toda uma s\u00e9rie de morfologias e de apar\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s trabalhamos com dois grandes tipos de observa\u00e7\u00e3o: fotometria e espectroscopia. Fotometria vem de f\u00f3ton, uma por\u00e7\u00e3ozinha de luz. O que a gente estuda? A cor dos objetos. Estudamos quais partes da gal\u00e1xia s\u00e3o mais azuis ou mais vermelhas &#8211; lembrando que a cor indica a temperatura da superf\u00edcie dessas estrelas que estamos observando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m estudamos o espectro (nome t\u00e9cnico do arco-\u00edris) dessas gal\u00e1xias. \u00c9 pelo espectro que tiramos uma s\u00e9rie de informa\u00e7\u00f5es, como a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, a massa aproximada, se a gal\u00e1xia est\u00e1 girando em torno de si mesma, se est\u00e1 se afastando ou chegando perto de n\u00f3s, indo ou vindo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juntando a fotometria e a espectroscopia, posso entender como as estrelas e o g\u00e1s se movem dentro dessas gal\u00e1xias. Se eu estudar o n\u00facleo dessas gal\u00e1xias, a parte mais brilhante, mais compacta, eu posso descobrir se h\u00e1 dois n\u00facleos, ou s\u00f3 um; tamb\u00e9m posso descobrir se esse n\u00facleo \u00e9 \u201cnormal\u201d ou se tem algo \u201cescondido\u201d dentro dele, como um n\u00facleo ativo &#8211; n\u00facleo ativo de gal\u00e1xia \u00e9 a forma gen\u00e9rica pela qual a gente chama gal\u00e1xias que produzem muita energia, talvez pela presen\u00e7a de um buraco negro; essa \u00e9 uma poss\u00edvel explica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a\u00ed tem uma s\u00e9rie de classifica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o existe s\u00f3 um tipo de n\u00facleo ativo, tem v\u00e1rios, e temos descoberto que nessas gal\u00e1xias que se chocam h\u00e1 um n\u00facleo ativo no centro. A intera\u00e7\u00e3o entre essas gal\u00e1xias faz com que a mat\u00e9ria bem l\u00e1 no centro comece a se aglomerar cada vez mais e isso pode gerar um ac\u00famulo de energia que vemos, e que resulta at\u00e9 em emiss\u00e3o de raios-X.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quando eu falo que tais gal\u00e1xias s\u00e3o colisionais, n\u00e3o me refiro \u00e0 ideia de que elas se \u201cbatam\u201d. Imagine duas crian\u00e7as na praia<strong> <\/strong>jogando areia uma na outra; a areia n\u00e3o vai simplesmente bater no meio do caminho e cair, mas os gr\u00e3os v\u00e3o passar uns pelos outros e atingir as crian\u00e7as, passando quase sem se chocar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O espa\u00e7o entre as estrelas, a dist\u00e2ncia entre elas, \u00e9 algo extremamente grande quando comparado ao tamanho das pr\u00f3prias estrelas. Ent\u00e3o \u00e9 pouqu\u00edssimo prov\u00e1vel que haja estrelas se chocando; \u00e9 mais prov\u00e1vel que elas passem umas entre as outras e tenham sua \u00f3rbita e sua trajet\u00f3ria alteradas. Tudo isso acontece por causa da for\u00e7a de atra\u00e7\u00e3o gravitacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, quando as gal\u00e1xias chegam perto, elas j\u00e1 \u201csentem\u201d a presen\u00e7a uma da outra e h\u00e1 intera\u00e7\u00f5es de mar\u00e9, ou seja, essas gal\u00e1xias j\u00e1 come\u00e7am a se deformar um pouquinho por causa da presen\u00e7a da outra. Se realmente chegarem a passar uma pela outra, temos os exemplos que podem ser vistos por meio de imagens feitas pelo telesc\u00f3pio Hubble. O que nos interessa na pesquisa s\u00e3o essas colis\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em resumo, eu trabalho com divulga\u00e7\u00e3o e fa\u00e7o pesquisa em Astronomia extragal\u00e1ctica.<\/strong> Tamb\u00e9m sou gerente nacional do <strong>Telesc\u00f3pio Canad\u00e1-Fran\u00e7a-Hava\u00ed (CFHT)<\/strong>, que \u00e9 um telesc\u00f3pio do qual o Brasil, por acordo, teve tempo de acesso em troca de <em>know-how<\/em> e de pesquisadores visitantes. No momento, nenhum brasileiro est\u00e1 usando o telesc\u00f3pio porque estamos numa fase de reescrita do acordo, mas eu acredito que em 2021 vamos prosseguir nesse sentido e reabilitar o acordo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, \u00e9 muito comum fazer acordos t\u00e9cnico-cient\u00edficos, dando a chance de pesquisadores, jovens ou n\u00e3o, irem de um pa\u00eds pro outro e de uma institui\u00e7\u00e3o para outra. Morar fora, ajudar, aprender. \u00c9 uma forma do LNA formar recursos humanos. Isso aconteceu n\u00e3o s\u00f3 com o CFHT, mas tamb\u00e9m com o <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/gemini\"><strong>Observat\u00f3rio Gemini<\/strong><\/a> e o <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/SOAR\"><strong>Telesc\u00f3pio SOAR<\/strong><\/a>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A pandemia imp\u00f4s novos desafios \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica, como voc\u00ea j\u00e1 havia mencionado. Mas tamb\u00e9m possibilitou novas din\u00e2micas; por exemplo, gente de todo o Brasil passou a se reunir virtualmente com mais frequ\u00eancia para aprender e para compartilhar conhecimento. Voc\u00ea gostaria de fazer mais algum coment\u00e1rio a respeito disso?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve uma mudan\u00e7a de paradigmas muito grande nas<strong> <\/strong>rela\u00e7\u00f5es interpessoais, de trabalho, de educa\u00e7\u00e3o, de ensino e aprendizado. Eu acho que n\u00e3o tem volta no seguinte sentido: agora as pessoas j\u00e1 descobriram esse meio virtual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho dif\u00edcil que o aumento no contato virtual simplesmente desapare\u00e7a depois da pandemia, porque \u00e9 uma facilidade grande em termos de divulga\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma chance muito grande, uma oportunidade que n\u00f3s n\u00e3o podemos perder porque a gente atinge massivamente um p\u00fablico que antes n\u00e3o teria condi\u00e7\u00e3o, por exemplo, de vir at\u00e9 o LNA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes da pandemia, a gente tinha sim um p\u00fablico cativo que \u00e0s vezes viajava tr\u00eas horas para assistir uma palestra no s\u00e1bado \u00e0 noite. Mas a maior parte das pessoas n\u00e3o tem como, ent\u00e3o, dependiam de assistir depois quando ficava gravado nas redes sociais, mas n\u00e3o tinham chance de fazer perguntas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu acho que o p\u00fablico j\u00e1 descobriu que existe essa intera\u00e7\u00e3o e que pode fazer perguntas, porque voc\u00ea n\u00e3o precisa mais ter vergonha de perguntar, e as pessoas respondem na hora! Os pesquisadores participam das lives com muito boa vontade, gostam do que fazem! Divulgar \u00e9 um prazer, ent\u00e3o as pessoas est\u00e3o aproveitando isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo quando acabar a pandemia e as coisas voltarem a ser presenciais, a parte virtual n\u00e3o vai deixar de existir. Eu acho que isso \u00e9 um grande trunfo para quem realmente quer alcan\u00e7ar pessoas de todas as esferas sociais, de todas as idades e em todos os lugares, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com certeza! Eu n\u00e3o tenho problemas na quest\u00e3o salarial porque, como servidora p\u00fablica federal, meu sal\u00e1rio \u00e9 definido por regras, n\u00e3o tem como eu ganhar menos do que um colega do g\u00eanero masculino que esteja na mesma posi\u00e7\u00e3o; e as bolsas das ag\u00eancias de fomento, como o CNPq, t\u00eam valores fixados. Nessa parte n\u00e3o enfrentei dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a faculdade ningu\u00e9m nunca virou as costas pra mim por conta do meu g\u00eanero. No entanto, claro que, ao longo do meu percurso, com muito mais anos de trabalho, a chance de sofrer algum preconceito \u00e9 maior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 passei por epis\u00f3dios em que pessoas achavam que eu n\u00e3o era capaz, por exemplo, de lidar com aqueles gravadores de rolo, de fita, que eram enormes. As pessoas falavam <em>\u201cespera que eu te ajudo, isso \u00e9 complicado\u201d, <\/em>e eu pensava<em> \u201ccomplicado como? \u00e9 s\u00f3 colocar o rolo e tirar o rolo\u201d<\/em> e coisas assim. Mas eu acho que isso tem mais a ver com a mentalidade de alguns indiv\u00edduos, e eu nunca prestei aten\u00e7\u00e3o nisso, nunca dei bola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Eu fiz o que eu quis, escolhi a carreira, fiz a pesquisa e fui em frente<\/strong>; eu acho que essa \u00e9 uma recomenda\u00e7\u00e3o boa para as meninas e adolescentes. Mas com certeza sei de hist\u00f3rias desagrad\u00e1veis com outras colegas, inclusive jovens. N\u00e3o faz muitos anos que aconteceram casos bem lastim\u00e1veis de pessoas querendo tirar proveito de pesquisadoras mais novas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>E durante a sua gradua\u00e7\u00e3o em F\u00edsica, como era a propor\u00e7\u00e3o de homens e mulheres entre os alunos?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olha, eu diria que chegava quase a metade-metade, naquela \u00e9poca. Hoje diminuiu um pouco, e eu tenho lido algumas coisas, conversado inclusive com astr\u00f4nomas mais jovens, e existe o famoso <strong>efeito<\/strong> <strong>tesoura<\/strong>\u00b9, em que na gradua\u00e7\u00e3o h\u00e1 muitas mulheres, e de repente, quando voc\u00ea sobe um degrau pro mestrado, as mulheres come\u00e7am a diminuir de n\u00famero; voc\u00ea sobe mais um degrau pro doutorado, o n\u00famero diminui ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Como voc\u00ea enxerga a inser\u00e7\u00e3o das mulheres na Astronomia e na Astrof\u00edsica atualmente?&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Sociedade Astron\u00f4mica Brasileira tem muitas mulheres, eu n\u00e3o sei te dizer ao certo a porcentagem, provavelmente \u00e9 menos de cinquenta por cento &#8211; pelo menos era assim antigamente. Sobre o efeito tesoura, mesmo na gradua\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea pensar em termos de fam\u00edlia e de sociedade, as meninas j\u00e1 s\u00e3o desencorajadas logo no come\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E \u00e9 por isso que hoje em dia vemos tantas iniciativas de grupos de pesquisadoras que incentivam meninas, al\u00e9m de programas dirigidos a meninas e adolescentes, visando permitir maior equidade &#8211; n\u00e3o igualdade, mas equidade, s\u00e3o palavras sutilmente diferentes.<\/strong> Realmente a quest\u00e3o de g\u00eanero est\u00e1 em discuss\u00e3o e tornou-se uma discuss\u00e3o saud\u00e1vel. E estar atento ao preconceito, seja ele qual for, de ra\u00e7a e\/ou de g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 como se uma nova era estivesse acordando. <strong>Vai ter muita luta pela frente? Vai, claro.<\/strong> Vai ter muita injusti\u00e7a ainda? Vai. Voc\u00ea n\u00e3o muda as coisas do dia pra noite, mesmo porque as pessoas j\u00e1 cresceram, j\u00e1 foram educadas de certa forma. E educadas n\u00e3o s\u00f3 pelo pai e pela m\u00e3e, mas por toda uma cultura.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Aproveitando o t\u00f3pico, eu gostaria de relembrar o trecho de um <\/strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2019\/09\/28\/maritza-soto-e-lia-medeiros-2-mulheres-que-estao-fazendo-a-diferenca-na-astronomia\/\"><strong>texto que publiquei no blog em setembro de 2019<\/strong><\/a><strong>: \u201c<\/strong><strong>Em 2019, a participa\u00e7\u00e3o de meninas na Olimp\u00edada Brasileira de Astronomia e Astron\u00e1utica (OBA) caiu de forma consider\u00e1vel. Segundo informa\u00e7\u00f5es publicadas pela Ag\u00eancia Brasil\u00b2, a quantidade de meninas inscritas vem diminuindo ano a ano desde 2010, tendo ca\u00eddo de 53% para 48% em 2018\u201d. Esse \u00e9 um dado preocupante, certo?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fico surpresa e triste com essa not\u00edcia. \u00c9 preocupante e precisamos descobrir quais s\u00e3o as causas dessa diminui\u00e7\u00e3o, porque a participa\u00e7\u00e3o das meninas ou de qualquer estudante depende fundamentalmente dela\/dele saber que a <a href=\"http:\/\/www.oba.org.br\/site\/\"><strong>OBA<\/strong><\/a> existe e o que \u00e9 a OBA, e que escola e docentes apoiem essa participa\u00e7\u00e3o &#8211; isso porque \u00e9 necess\u00e1rio ter uma professora ou um professor respons\u00e1vel pelos alunos que v\u00e3o participar. Precisamos atuar em v\u00e1rias frentes e descobrir onde o elo sofre um abaixamento de comunica\u00e7\u00e3o que esteja impedindo que todo mundo saiba sobre a OBA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas eu queria falar sobre uma experi\u00eancia que temos aqui no LNA: promovemos todo ano um concurso chamado <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/observatorios\/soar\/concurso-de-astronomia-2018\/concurso2018\">\u201cConcurso de Imagens do SOAR\u201d<\/a> (o <a href=\"http:\/\/lnapadrao.lna.br\/SOAR\"><strong>SOAR<\/strong><\/a> \u00e9 um telesc\u00f3pio brasileiro em cons\u00f3rcio com universidades norte-americanas e fica nos Andes chilenos). A din\u00e2mica \u00e9 a seguinte: estudantes, em dupla ou individualmente, prop\u00f5em um objeto celeste para que o SOAR observe e fa\u00e7a uma imagem. Os alunos, acompanhados de uma professora ou um professor, precisam justificar cientificamente por qual raz\u00e3o essa imagem \u00e9 interessante e explicar qual \u00e9 o m\u00e9rito cient\u00edfico de observar esse corpo celeste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ganhadores s\u00e3o premiados com a imagem que sugeriram que o SOAR fizesse. Um dos nossos astr\u00f4nomos prepara a imagem, que \u00e9 colocada numa moldura, e algu\u00e9m da nossa Coordena\u00e7\u00e3o de Astrof\u00edsica viaja at\u00e9 essa escola para levar o quadro e dar uma palestra sobre o LNA e o objeto celeste da imagem. Alunos de todo o Brasil participam do concurso, inclusive grupos com meninas. Desta forma, as meninas est\u00e3o ali participando e ganhando, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os meninos. Quando d\u00e1vamos palestras em escolas, as meninas compareciam e faziam perguntas, ou seja, elas procuram saber.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E j\u00e1 me aconteceu, quando recebia visitas l\u00e1 no OPD, de aparecer uma jovem falando <em>\u201cMari\u00e2ngela, lembra de mim? Quando eu era mais nova falei com voc\u00ea que eu queria fazer F\u00edsica\u201d<\/em>. Eu lembrei e ela respondeu <em>\u201cPois \u00e9, eu estou fazendo F\u00edsica!\u201d<\/em>. E isso \u00e9 gostoso e gratificante.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Antes de irmos para a pergunta final, eu queria colocar uma quest\u00e3o que me surgiu durante a nossa conversa. Voc\u00ea falou que era incentivada pelos seus familiares durante a inf\u00e2ncia a descobrir coisas novas. Em muitos textos do blog, n\u00e3o s\u00f3 nos de minha autoria, percebo que esse incentivo dos pais desde a inf\u00e2ncia das cientistas \u00e9 mencionado, e n\u00e3o s\u00f3 <\/strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/category\/pelos-olhos-de\/\"><strong>nas entrevistas que fazemos<\/strong><\/a><strong> como tamb\u00e9m nos textos da categoria <\/strong><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/category\/na-historia\/\"><strong>\u201cNa Hist\u00f3ria\u201d<\/strong><\/a><strong>, em que celebramos cientistas de outras \u00e9pocas. Voc\u00ea poderia comentar um pouco sobre isso e falar da import\u00e2ncia de instigar a curiosidade desde cedo?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada pessoa tem uma personalidade; a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 exatamente uma <em>tabula rasa<\/em>, ela n\u00e3o \u00e9 um papel totalmente em branco. Ela tem uma certa capacidade de \u201cser escrita\u201d, e todo e qualquer incentivo que voc\u00ea d\u00ea \u00e9 v\u00e1lido &#8211; eu recebi isso. Meus pais conversaram comigo sobre a natureza e me deram a chance de mexer em coisas; talvez eu j\u00e1 fosse uma grande \u201cmexedora de coisas\u201d e eles simplesmente foram alimentando essa curiosidade, essa capacidade. \u00c9 o que eu chamo de <strong>plantar em terreno f\u00e9rtil<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho dois filhos e desde pequenos eles viram tudo quanto foi bicho, verme, inseto, para que n\u00e3o tivessem nojo; plantamos coisas, tivemos gato, tivemos hamster, e eu deixei eles misturarem vinagre com sal, azeite e detergente para ver o que acontecia, acompanhei eles em pequenos experimentos desse tipo. Ent\u00e3o, eu acho que a gente deve mostrar caminhos. <strong>Acho que, no fundo, esse tamb\u00e9m \u00e9 o papel do professor e do divulgador: mostrar caminhos<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gente acaba n\u00e3o ensinando tudo. Se voc\u00ea ensinar a procurar, j\u00e1 \u00e9 meio caminho andado. Minha fam\u00edlia me deu, sim, um grande incentivo; minha m\u00e3e, por exemplo, me incentivou muito a estudar l\u00ednguas. Como meu av\u00f4 era radioamador, ela ouvia muitas conversas, isso nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, e por pior que ela falasse sem ter estudado, ela sabia um pouco de espanhol, de ingl\u00eas, de franc\u00eas, de italiano, de alem\u00e3o. Ent\u00e3o, em casa, eu tinha esse est\u00edmulo. Ela plantou em terreno f\u00e9rtil, n\u00e9? Aprender idiomas \u00e9 uma das coisas que eu gosto muito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, na minha fam\u00edlia materna havia pintores e artistas. Meu tio era desenhista tamb\u00e9m e minha m\u00e3e me incentivava; essas coisas v\u00e3o entrando na cabe\u00e7a da crian\u00e7a e ela vai se apoderando dessas qualidades. Posso dizer que sa\u00ed da inf\u00e2ncia com uma bagagem muito grande para aproveitar o que mais a escola e a universidade viessem a trazer. Eu acho importante aproveitar o n\u00facleo familiar para criar condi\u00e7\u00f5es para a \u201cefervesc\u00eancia\u201d, dar condi\u00e7\u00f5es para que a criatividade aflore.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E outra coisa: se poss\u00edvel, os pais deveriam levar os adolescentes para visitar uma faculdade e falar com os profissionais sobre o dia a dia da profiss\u00e3o que o jovem almeja seguir. Os pesquisadores nas universidades costumam ser abertos para conversar. Fiz isso com meus filhos: levei pra conversar, agendei encontros e assim voc\u00ea abre os horizontes, que \u00e9 mais ou menos o que eu tamb\u00e9m fiz na faculdade, me matriculei em cursos e abri meus horizontes. Ent\u00e3o esse seria um conselho; complementando, eu sempre digo que o que voc\u00ea sonha em fazer, o que voc\u00ea quer fazer e o que voc\u00ea pode fazer nem sempre s\u00e3o a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Finalmente, descreva a ci\u00eancia pelos olhos da Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans.&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ci\u00eancia \u00e9 uma aventura linda, empolgante e que eu fa\u00e7o quest\u00e3o de compartilhar com as pessoas. A ci\u00eancia que a gente faz no pa\u00eds \u00e9 de primeira linha: \u00e9 um dever do cientista divulgar esse conhecimento, \u00e9 um direito do cidad\u00e3o receber esse conhecimento, porque ele s\u00f3 vai ser um cidad\u00e3o pleno se tiver consci\u00eancia do que existe em ci\u00eancia no pa\u00eds dele, o que est\u00e1 sendo feito, onde \u00e9 aplicado o dinheiro do imposto dele, porque a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o imediata. As ci\u00eancias b\u00e1sicas &#8211; F\u00edsica, Matem\u00e1tica, Biologia, etc. &#8211; s\u00e3o ci\u00eancias que geram conhecimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabe aquelas velhas perguntas desde o tempo das cavernas? <em>\u201cQuem sou eu? O que \u00e9 isso tudo em volta de mim? O que vai acontecer comigo?\u201d<\/em> &#8211; \u00e9 o que o cientista tenta responder. E esse conhecimento que ele acumula, que ele gera, \u00e9 como uma pilha de areia em que voc\u00ea vai formando uma base s\u00f3lida para poder colocar mais areia em cima. Os benef\u00edcios s\u00e3o sentidos na sociedade depois, porque esse conhecimento permite que sejam geradas tecnologias aplic\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A gente hoje fala por celular e tira selfie porque l\u00e1 atr\u00e1s na Astronomia algu\u00e9m precisou inventar a c\u00e2mera digital para avan\u00e7ar nas pesquisas. Meu diretor gosta de falar do leite em p\u00f3, que foi inventado para que os astronautas pudessem consumir durante as miss\u00f5es espaciais. E temos tamb\u00e9m o escaneamento com resson\u00e2ncia magn\u00e9tica &#8211; a interpreta\u00e7\u00e3o dessas imagens de resson\u00e2ncia, esses programas de computador, eles v\u00e3o nascendo na Astronomia, por exemplo, e em outras ci\u00eancias tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, a ci\u00eancia b\u00e1sica reverte em benef\u00edcios para o cidad\u00e3o a m\u00e9dio e longo prazo. Mas se n\u00e3o tivermos ci\u00eancia b\u00e1sica, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma chance de o pa\u00eds avan\u00e7ar. A ci\u00eancia b\u00e1sica \u00e9 muito importante!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E quando eu digo que ci\u00eancia \u00e9 uma aventura, \u00e9 porque \u00e9 empolgante, a gente se entusiasma e ama o que faz! Acho que essa \u00e9 uma das raras profiss\u00f5es em que o profissional se sente realizado, porque no fundo ele est\u00e1, no bom sentido, \u201cbrincando\u201d, ele est\u00e1 fazendo o que gosta. E na ci\u00eancia tem campo para todo mundo, para todos os interesses.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A gente \u00e9 apaixonado pela natureza e pelo universo, principalmente, que \u00e9 o nosso laborat\u00f3rio.<\/strong> \u00c9 o nosso \u201cparquinho de divers\u00f5es\u201d. Eu acho que a ci\u00eancia merece respeito tanto do p\u00fablico, como das autoridades. Tamb\u00e9m devemos ter um certo cuidado ao entrar em contato com o conhecimento cient\u00edfico, porque ele n\u00e3o pode ser tido como absoluto e nem como \u201ca palavra dos deuses\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como a ci\u00eancia caminha nas pernas de v\u00e1rias pessoas, ela tem suas tend\u00eancias e sua forma espec\u00edfica de trabalho, que \u00e9 o famoso m\u00e9todo cient\u00edfico; \u00e9 justamente por essa forma de trabalhar que teorias s\u00e3o revistas, reformuladas ou jogadas fora. \u00c9 assim que o conhecimento avan\u00e7a, \u00e0s vezes descartando o que n\u00e3o explica a natureza e encontrando novas explica\u00e7\u00f5es.\u00a0Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o pode dizer que tal coisa \u00e9 \u201cassim\u201d, que uma estrela nasce e morre desse jeito ou daquele, s\u00f3 porque tem um modelo que est\u00e1 funcionando at\u00e9 o momento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hora em que encontrarmos estrelas cujo comportamento n\u00e3o \u00e9 bem explicado pela teoria, vamos procurar o qu\u00ea? Aperfei\u00e7oar e adaptar a teoria, e outros pesquisadores v\u00e3o checar todos esses dados, todas essas altera\u00e7\u00f5es e replicar os resultados &#8211; \u00e9 assim que a ci\u00eancia avan\u00e7a. Assim sendo, essa \u00e9 a palavrinha de cuidado para quando a gente entra em contato desavisadamente com not\u00edcias que dizem que tal coisa \u00e9 \u201cdesse jeito\u201d. At\u00e9 o momento \u00e9 desse jeito, o que n\u00e3o significa que \u00e9 estanque. E \u00e9 isso que \u00e9 empolgante, <strong>\u00e9 essa aventura que eu adoro<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agrade\u00e7o imensamente \u00e0 Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans por ceder seu tempo para a realiza\u00e7\u00e3o desta entrevista e por generosamente compartilhar conosco suas experi\u00eancias, viv\u00eancias e seu conhecimento te\u00f3rico e emp\u00edrico n\u00e3o s\u00f3 em Astronomia como em Divulga\u00e7\u00e3o e Educa\u00e7\u00e3o N\u00e3o Formal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Siga o LNA no <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/laboratorio.nacional.de.astrofisica\"><strong>Facebook<\/strong><\/a>, no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lna.divulg\/\"><strong>Instagram<\/strong><\/a> e no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UC8X4WUcK-I4YVo_0Nirj1TQ\"><strong>YouTube<\/strong><\/a> para acompanhar a programa\u00e7\u00e3o e os eventos da institui\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Veja abaixo a participa\u00e7\u00e3o da Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela na s\u00e9rie <strong>\u201cA Ci\u00eancia que eu Fa\u00e7o\u201d<\/strong>, projeto realizado pela jornalista Vera Pinheiro:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"A Ci\u00eancia que eu Fa\u00e7o - Mari\u00e2ngela de Oliveira Abans 1\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qeQJ5C0BPqQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption>&#8220;A Ci\u00eancia que eu Fa\u00e7o &#8211; Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans&#8221;. Projeto de Vera Pinheiro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Notas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">\u00b9 Mencionamos o efeito tesoura no texto <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2020\/12\/04\/premio-mentoria-em-ciencia-nature-10-mulheres-laureadas\/\">\u201cO Pr\u00eamio de Pesquisa para Mentoria em Ci\u00eancia da Nature e as 10 mulheres laureadas at\u00e9 hoje\u201d<\/a>. O artigo \u201cGeographic and Gender Diversity in the Brazilian Academy of Sciences\u201d (2017) explora mais sobre o efeito tesoura e a desigualdade de g\u00eanero na ci\u00eancia e na academia brasileira: <a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/pdf\/aabc\/v90n2s1\/0001-3765-aabc-201820170107.pdf\">https:\/\/www.scielo.br\/pdf\/aabc\/v90n2s1\/0001-3765-aabc-201820170107.pdf<\/a>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size wp-block-paragraph\">\u00b2 <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2019-02\/participacao-de-meninas-cai-na-olimpiada-brasileira-de-astronomia\">\u201cParticipa\u00e7\u00e3o de meninas cai na Olimp\u00edada Brasileira de Astronomia&#8221;<\/a>, mat\u00e9ria publicada pela Ag\u00eancia Brasil em 03\/02\/2019.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhe\u00e7a a trajet\u00f3ria e o trabalho da Prof\u00aa. Dr\u00aa. Mari\u00e2ngela de Oliveira-Abans, astr\u00f4noma e pesquisadora no Laborat\u00f3rio Nacional de Astrof\u00edsica (LNA) em Itajub\u00e1 (MG). Al\u00e9m da pesquisa, a Prof\u00aa. Mari\u00e2ngela tamb\u00e9m \u00e9 coordenadora de Divulga\u00e7\u00e3o e Ensino N\u00e3o Formal na institui\u00e7\u00e3o. Durante a conversa, Mari\u00e2ngela falou sobre os desafios impostos pela pandemia, sobre quest\u00f5es de g\u00eanero e sobre a import\u00e2ncia de incentivar a curiosidade e a criatividade das pessoas desde cedo.<\/p>\n","protected":false},"author":403,"featured_media":1693,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[104,109,20,126,108,8],"class_list":["post-1686","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pelos-olhos-de","tag-astrofisica","tag-astronomas","tag-astronomia","tag-mulheres-cientistas","tag-mulheres-na-astronomia","tag-mulheres-na-ciencia"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2020\/12\/Mariangela-de-Oliveira-Abans.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/403"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1686"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1686\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1840,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1686\/revisions\/1840"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}