{"id":716,"date":"2019-07-20T15:44:40","date_gmt":"2019-07-20T18:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/?p=716"},"modified":"2020-05-11T08:56:14","modified_gmt":"2020-05-11T11:56:14","slug":"a-ciencia-pelos-olhos-da-profa-dra-yara-costa-netto-muniz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2019\/07\/20\/a-ciencia-pelos-olhos-da-profa-dra-yara-costa-netto-muniz\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia pelos olhos da Profa. Dra. Yara Costa Netto Muniz"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Msc. Bruna Bertol<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_726\" style=\"width: 230px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-726\" class=\" wp-image-726\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/07\/Yara1-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"220\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/07\/Yara1-169x300.jpg 169w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/07\/Yara1-576x1024.jpg 576w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/07\/Yara1.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><p id=\"caption-attachment-726\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">Profa. Dra. Yara Muniz. Arquivo Pessoal.<\/span><\/p><\/div>\n<p>\u00c9 com muita alegria e satisfa\u00e7\u00e3o que hoje, na minha estreia como colaboradora do Blog, trago para voc\u00eas um pouco sobre a trajet\u00f3ria e a vis\u00e3o da Professora universit\u00e1ria, bi\u00f3loga e geneticista Dr<sup>a<\/sup>. Yara Costa Netto Muniz.<\/p>\n<p>Yara graduou-se em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2000 e obteve seus t\u00edtulos de Mestrado (2003) e Doutorado (2008) pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Gen\u00e9tica da Faculdade de Medicina de Ribeir\u00e3o Preto (FMRP) \u2013 Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). Posteriormente, realizou 3 p\u00f3s-doutorados: no Brasil pela FMRP\/USP; na Fran\u00e7a pela FMRP-USP em parceria com o Service de Recherches em H\u00e9mato-Immunologie (CEA) e, finalmente, de volta ao Brasil e \u00e0 institui\u00e7\u00e3o onde tudo come\u00e7ou, seu terceiro pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Biologia Celular e do Desenvolvimento (CCB\/UFSC), o que lhe abriu portas para ingressar na universidade como docente ap\u00f3s aprova\u00e7\u00e3o em concurso p\u00fablico. Foi nesta \u00e9poca do p\u00f3s-doutorado na UFSC em que tive o prazer de conhec\u00ea-la, h\u00e1 cerca de 8 anos atr\u00e1s. <strong>Talvez ela n\u00e3o saiba, mas a professora Yara foi e ainda \u00e9 uma grande inspira\u00e7\u00e3o para mim, e teve uma influ\u00eancia enorme na minha carreira cient\u00edfica ao me motivar a buscar por um mestrado na FMRP-USP.<\/strong> Por esta e demais raz\u00f5es \u00e9 que hoje tenho o t\u00edtulo de mestrado e estou atualmente no Doutorado pela mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Atualmente professora efetiva na UFSC desde setembro de 2013 pelo Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Gen\u00e9tica (BEG\/CCB\/UFSC), Yara leciona para os cursos de Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas (Licenciatura, bacharelado e EaD) e Medicina, por\u00e9m, j\u00e1 lecionou para os cursos de Odontologia, Psicologia e Nutri\u00e7\u00e3o. \u00c9 credenciada em dois programas de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (1) Mestrado e Doutorado no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Biologia Celular e do Desenvolvimento (PPGBCD) e (2) Mestrado Profissional em Ensino de Biologia em Rede Nacional (PROFBio). J\u00e1 orientou e orienta atualmente alunos de doutorado, mestrado, inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e Trabalhos de Conclus\u00e3o de Curso (TCC), al\u00e9m de j\u00e1 ter sido escolhida como Professora Homenageada da Turma 18-1 do Curso de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas \u2013 Licenciatura Noturno.<\/p>\n<p>\u00c9 como muito entusiasmo que Professora Yara carinhosamente compartilha conosco suas experi\u00eancias e opini\u00f5es sobre ci\u00eancia, mulheres e o ambiente de trabalho, inspira\u00e7\u00f5es, dificuldades e carreira. Confira abaixo seus coment\u00e1rios na \u00edntegra.<\/p>\n<p><strong>Cientista \u2013 era isso que voc\u00ea queria ser quando crescesse?<\/strong><\/p>\n<p><em>Demorei muito tempo para come\u00e7ar a pensar o que eu queria ser quando crescesse. Fui uma crian\u00e7a muito livre e que aproveitou muito a inf\u00e2ncia. Com 10 anos eu comecei a pensar no que eu n\u00e3o queria ser e que se resumia em \u201cn\u00e3o quero fazer coisas chatas quando eu crescer\u201d. <strong>Por volta dos 14 anos pensei que seria muito legal ser professora.<\/strong> Eu via essa profiss\u00e3o com algo muito especial, eu amava o que meus professores eram capazes de me fazer descobrir. Eu achava isso sensacional! E, tamb\u00e9m cheguei a conclus\u00e3o que a vida de professor n\u00e3o era constitu\u00edda por dias iguais e, portanto, n\u00e3o seria chata. Biologia foi um acaso na minha vida. Foi muito mais uma escolha por exclus\u00e3o e probabilidades emp\u00edricas do que uma escolha emocional. Eu tinha 16 anos e escolhi na fila do banco, do \u00faltimo dia \/ minuto, para fazer a inscri\u00e7\u00e3o para o vestibular (a inscri\u00e7\u00e3o n\u00e3o era on-line, obviamente). Foi quando comecei a faculdade que a minha vida mudou, parece que amadureci da noite para o dia, virou uma escolha racional e emocional, decidi que eu seria o melhor que eu poderia ser, pois aquela escolha seria eu para o resto da vida. Dediquei-me e investi na minha forma\u00e7\u00e3o, fui a melhor estudante que eu poderia ser, participei de dezenas de congressos, organiza\u00e7\u00e3o de in\u00fameros eventos, discuss\u00f5es. Entrei para o PET (na \u00e9poca Programa Especial de Treinamento, hoje Programa de Educa\u00e7\u00e3o tutorial), e recebia uma bolsa para dedica\u00e7\u00e3o exclusiva \u00e0 gradua\u00e7\u00e3o, com obriga\u00e7\u00e3o de atingir o trip\u00e9, Educa\u00e7\u00e3o, Pesquisa e Extens\u00e3o, universit\u00e1rio. Assim, no meu primeiro ano busquei est\u00e1gio de pesquisa em laborat\u00f3rio e descobri que o fazer ci\u00eancia era um caminho que combinava muito comigo. Sendo assim, eu s\u00f3 soube realmente o que eu queria ser, na universidade. Foi quando eu decidi investir todas as minhas for\u00e7as para ser Pesquisadora e Professora, dentro de uma institui\u00e7\u00e3o de ensino p\u00fablico. E hoje eu sou o que eu decidi ser e estou onde exatamente decidi estar, e \u00e9 isso que conto aos meus estudantes no primeiro dia de aula. <strong>N\u00e3o foi e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas a gente tem que lutar todos os dias para ser o que desejamos ser.<\/strong> E eu sou e estou realmente muito feliz, e me apego nessa ideia de ser e estar onde sonhei, para fazer o melhor e lutar pela manuten\u00e7\u00e3o da pesquisa, educa\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o no nosso pa\u00eds, dentro das institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias. Pois ter tido a oportunidade de estudar em uma institui\u00e7\u00e3o que promovia essa liga\u00e7\u00e3o com a pesquisa, e condi\u00e7\u00f5es para dedicar-me, com certeza me fez ver um mundo muito maior, e foi muito impactante na minha forma\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><strong>Algum cientista ou descoberta cient\u00edfica a inspirou na escolha dessa carreira? <\/strong><\/p>\n<p><em>As minhas verdadeiras inspira\u00e7\u00f5es, s\u00e3o as pessoas com quem eu convivi. Come\u00e7ando pelos meus pais (Elza e Milton) que s\u00e3o bi\u00f3logos, geneticistas e professores universit\u00e1rios. E que n\u00e3o me influenciaram de forma direta a seguir os seus passos, mas sempre foi n\u00edtido que amavam o que eram e onde estavam. Minha orientadora de TCC, Prof<sup>a<\/sup>Dr<sup>a<\/sup>Il\u00edada Rainha de Souza, que foi quem me apresentou a gen\u00e9tica molecular, me incentivou fortemente e me ajudou muito a seguir esse caminho (e assim o faz at\u00e9 hoje!). Durante minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia nenhum cientista especial me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Mas eu adorava as minhas aulas de hist\u00f3ria, pois era onde eu aprendia a descobrir explica\u00e7\u00f5es para as realidades expostas. E essa busca de explica\u00e7\u00f5es, sempre foi algo que me fascinava. Lia com alegria enciclop\u00e9dias, na quinta s\u00e9rie li um volume inteiro sobre Biologia (j\u00e1 tinha escolhido as ci\u00eancias biol\u00f3gicas e n\u00e3o sabia), mas o projeto genoma humano, que acontecia enquanto eu fazia gradua\u00e7\u00e3o, me fascinou e essa ideia me fez acreditar que a gen\u00e9tica seria ainda mais fascinante nos anos posteriores. E est\u00e1 sendo! E um pesquisador me chamou muita aten\u00e7\u00e3o, Dr. Luigi Luca Cavalli Sforza, e seus trabalhos de gen\u00e9tica de popula\u00e7\u00f5es, que mostram que a diversidade gen\u00e9tica entre popula\u00e7\u00e3o \u00e9 similar a diversidade dentro de uma mesma popula\u00e7\u00e3o. Essas demonstra\u00e7\u00f5es realmente me impactaram. Al\u00e9m da ideia de que podemos saber muito sobre popula\u00e7\u00f5es (humanas ou n\u00e3o) estudante o DNA \u00e9 algo que para mim \u00e9 simplesmente magn\u00edfico! N\u00e3o \u00e9 o que eu fa\u00e7o hoje, mas \u00e9 o que me fascina. Nos dias de hoje muitos trabalhos cient\u00edficos me inspiram, mas cientistas que me inspiram no dia a dia, s\u00e3o o que eu conhe\u00e7o e est\u00e3o ou que j\u00e1 estiveram ao meu lado, que ajudam a carregar o piano. S\u00e3o esses pr\u00f3ximos que me motivam, me d\u00e3o for\u00e7a e me inspiram.<\/em><\/p>\n<p><strong>De que forma sua trajet\u00f3ria como cientista come\u00e7ou e como se encontra atualmente? Existem dificuldades?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>Minha forma\u00e7\u00e3o foi em gen\u00e9tica de popula\u00e7\u00f5es humanas, \u00e9 a \u00e1rea que eu carrego no cora\u00e7\u00e3o. Hoje trabalho com associa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica com doen\u00e7as autoimunes e c\u00e2ncer. N\u00e3o foi uma escolha, tamb\u00e9m foi um acaso, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma \u00e1rea que gosto muito. Quando terminei meu doutorado tive uma oportunidade de p\u00f3s-doutorado com um projeto de associa\u00e7\u00e3o de polimorfismos de um gene e c\u00e2ncer. E quando passei no concurso, essa era a linha de pesquisa mais promissora, pois eu tinha acesso a amostras e consegui financiamento. <strong>Em quase 6 anos de pesquisa dentro da institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o gastei mais do que 50.000 reais em equipamentos e insumos.<\/strong> Escrevi um projeto, foi aprovado com cortes, recebi o $ com atraso de mais de ano, tive muita dificuldade para gastar o dinheiro recebido e, ao final, passei pela presta\u00e7\u00e3o de contas mais dif\u00edcil da minha vida, que me fez desejar nunca mais passar por isso (mas obviamente n\u00e3o posso me dar a esse luxo. <strong>Projetos eu escrevi, e escrevo, mas apesar do m\u00e9rito, a resposta \u00e9 \u201cn\u00e3o temos dinheiro!\u201d). E esse dinheiro n\u00e3o \u00e9 gasto &#8211; \u00e9 investimento em pesquisa e forma\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/strong> Hoje a verba dispon\u00edvel em 2019 \u00e9 de 200 reais por aluno de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o por semestre.<\/em><\/p>\n<p><em>No meu grupo de pesquisa avaliamos varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas entre indiv\u00edduos que possam explicar a suscetibilidade, ou n\u00e3o, \u00e0s doen\u00e7as. As principais varia\u00e7\u00f5es que estudamos no momento s\u00e3o em um gene que produz uma prote\u00edna que \u00e9 capaz de inibir a resposta imunol\u00f3gica. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que essa inibi\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, pois permite a gravidez, diminu\u00ed os sintomas de doen\u00e7as autoimunes e reduz quadros inflamat\u00f3rios. Por\u00e9m h\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es que essa inibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa, como por exemplo no controle da multiplica\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas cancer\u00edgenas e desenvolvimento de infec\u00e7\u00f5es virais. E entender como diferen\u00e7as entre os indiv\u00edduos podem modificar a regula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o dessa (e de outras) mol\u00e9culas imunorreguladoras \u00e9 muito importante, podendo gerar resultados que permitam diagn\u00f3stico e progn\u00f3sticos mais precisos, tratamentos mais eficazes, maior sobrevida e qualidade de vida.<\/em><\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 enfrentou alguma dificuldade enquanto cientista por ser mulher?<\/strong><\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 um assunto muito delicado. E tenho refletido muito sobre isso. Talvez seja a pergunta mais dif\u00edcil de responder porque \u00e9 dif\u00edcil aceitar que isso aconte\u00e7a. A n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o leva a nega\u00e7\u00e3o, e, portanto, \u00e9 muito complicado identificar essas dificuldades no dia-a-dia, pela nega\u00e7\u00e3o e pela aceita\u00e7\u00e3o social. Desde pequena eu nunca deixei de fazer algo por ser mulher. E nunca permiti ser podada em algo por esse motivo. Muito cedo percebi que ser mulher n\u00e3o era t\u00e3o legal e eu realmente desejei ter sido menino (e \u00e0s vezes ainda desejo). Eu me sentia livre, mas percebia que se eu fosse menino eu seria bem mais. Por muito tempo, quando me faziam perguntas deste tipo eu respondia que o fato de eu ser mulher nunca tinha gerado dificuldade na minha vida, mas&#8230; (sempre seguia com um por\u00e9m) eu explicava que eu tinha uma vida de certa forma privilegiada e que embora eu n\u00e3o sentisse em mim, sentia por v\u00e1rias outras que sofreram e sofrem muitas dificuldades, simplesmente pelo fato de serem mulheres. <\/em><\/p>\n<p><em>Eu sempre percebi que o mundo de todos n\u00e3o era igual ao meu mundo. Sei que fui privilegiada pela minha situa\u00e7\u00e3o familiar, s\u00f3cio-econ\u00f4mica e racial. Sou mulher, classe-m\u00e9dia, branca, com pais professores universit\u00e1rios que fizeram de tudo para eu estudar, tive excelente escola, fui incentivada a ler muitos livros, a fazer pesquisa, ingl\u00eas, esportes, tive in\u00fameras oportunidades culturais e de lazer e muito apoio emocional e financeiro para continuar minha forma\u00e7\u00e3o, mesmo ap\u00f3s a gradua\u00e7\u00e3o (s\u00f3 consegui o emprego t\u00e3o almejado na universidade, 13 anos ap\u00f3s minha formatura). Sendo assim, eu cheguei aonde cheguei com muito esfor\u00e7o, sim, n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, mas sei que larguei na frente de muita gente. Outros n\u00e3o chegaram academicamente nem na metade do meu caminho, n\u00e3o por incapacidade, mas porque tiveram muito mais barreiras para ultrapassar do que eu tive. <strong>E sei que ser mulher \u00e9 uma das barreiras que precisam ser vencidas, sim.<\/strong> Hoje eu sei que mesmo no meu mundo, e que eu negava (e talvez ainda negue) houve sim, dificuldades e impedimentos. Durante minha P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, foi quando essa percep\u00e7\u00e3o foi muito forte, tomei conhecimento de in\u00fameros casos de desmerecimento feminino. Ou n\u00e3o aconteciam comigo diretamente, ou aconteciam, mas eram muitos leves e eu n\u00e3o percebia. Desde pequena aprendemos a conviver com coment\u00e1rios e a\u00e7\u00f5es que diferenciam pessoas pelo seu g\u00eanero, e muitas destas diferencia\u00e7\u00f5es de t\u00e3o comuns, passam a ser consideradas normais e at\u00e9 corretas. Mas n\u00e3o s\u00e3o. Foi quando eu me inseri no mercado de trabalho como profissional, primeiro em escolas e mais recentemente na universidade, \u00e9 que eu realmente percebi tratamentos profissionais realmente muito diferenciados.<\/em><\/p>\n<p><em>Escutei de diretora que eu deveria tomar cuidado com as minhas a\u00e7\u00f5es e falas, pois a gente (mulher) tem que saber o nosso lugar e dar exemplo as nossas alunas. <strong>Dentro da universidade percebo muitas vezes \u201cmansplaining\u201d (termo em ingl\u00eas que se refere a situa\u00e7\u00e3o em que um homem comenta ou explica algo a uma mulher de uma maneira condescendente, confiante, e, muitas vezes, imprecisa ou de forma simplista) comigo e com colegas.<\/strong> Em um evento formal fui a \u00fanica a ser apresentada pelo meu primeiro nome (nada contra), no entanto, todos os demais (homens) tiveram sua titula\u00e7\u00e3o (exatamente igual a minha) e nomes completos apresentados. Rapidamente percebi que eu e outras mulheres somos interrompidas com muito mais frequ\u00eancia durante uma fala. Fui tratada de forma bastante agressiva por um posicionamento, o que n\u00e3o ocorreu com uma pessoa masculina com o mesmo posicionamento, no mesmo momento. Sendo eu respons\u00e1vel por uma determinada fun\u00e7\u00e3o administrativa, j\u00e1 recebi e-mail de prestador de servi\u00e7o dizendo que trataria com outro que ia saber responder suas d\u00favidas (obviamente homem e sem me perguntar o que gostaria de saber). Assim, enumerando esses poucos casos (h\u00e1 muitos outros), a minha resposta s\u00f3 pode ser sim a sua pergunta. E percebo que tenho dificuldades at\u00e9 hoje de perceb\u00ea-las, a maior parte dos eventos citados foram outras pessoas que perceberam por mim. \u00c9 infinitamente mais f\u00e1cil identificar essas a\u00e7\u00f5es preconceituosas com a outra, do que comigo mesma. <strong>Sou feminista, tenho um discurso feminista e sei a luta di\u00e1ria que \u00e9 para n\u00e3o negar e, principalmente, n\u00e3o naturalizar a\u00e7\u00f5es machistas.<\/strong> Mas ainda tenho dificuldades de aceitar que acontecem comigo, e nesse sentido tenho dificuldades de agir quando estou em situa\u00e7\u00f5es onde sou discriminada por ser mulher. A luta \u00e9 di\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p><strong>Descreva, em poucas palavras, a ci\u00eancia pelos olhos da Profa. Dra. Yara Costa Netto Muniz.<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>A ci\u00eancia pelos meus olhos \u00e9 a coisa mais linda e intrigante que a humanidade pode fazer!<\/strong> Tenho uma vis\u00e3o idealista da ci\u00eancia pura, do m\u00e9todo cient\u00edfico, da busca de resposta para todas as perguntas, da formula\u00e7\u00e3o de novas perguntas, da possibilidade de contesta\u00e7\u00e3o, do conhecimento pelo conhecimento. A n\u00e3o verdade absoluta \u00e9 talvez a o que mais me aproxima da ci\u00eancia. Essa possibilidade infinita. Essa ideia que eu tenho de que mais importante que as respostas geradas pelos resultados, s\u00e3o as novas perguntas criadas. Essa constante movimenta\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a. A ideia de que a confirma\u00e7\u00e3o ou a nega\u00e7\u00e3o de uma hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 o fim. Os resultados, geram reflex\u00f5es, que geram discuss\u00f5es, que geram explica\u00e7\u00f5es e novas quest\u00f5es. E esses mesmos resultados posteriormente podem geram outras explica\u00e7\u00f5es. E assim vamos gerando conhecimento.<\/em><\/p>\n<p><em>No entanto, sei que a ci\u00eancia \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o humana. E em sendo uma a\u00e7\u00e3o humana, ela \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E a ci\u00eancia \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o muito poderosa, e por isso sofre intenso controle. A forma de controle sobre essa a\u00e7\u00e3o diz muito sobre a sociedade, sobre seus princ\u00edpios e sua moral. Por outro lado, eu tamb\u00e9m acredito que, por meio da ci\u00eancia, podemos modificar a sociedade. N\u00e3o como um molde. Mas como uma forma de fazer ver al\u00e9m, perceber os riscos da homogeneidade de pensamento e a\u00e7\u00f5es, aprender a discutir, aprender a ouvir e ver coisas diferentes, a contestar e entender que as coisas mudam e mudam com a\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o imensamente \u00e0 Profa. Yara pela oportunidade de entrevist\u00e1-la. \u00c9 um prazer enorme divulgar um pouco do seu trabalho e dar visibilidade para mulheres cientistas com tanta paix\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pela ci\u00eancia, mas pela educa\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na entrevista de hoje a Professora Yara compartilha conosco sua vis\u00e3o sobre ci\u00eancia, mulheres e o ambiente de trabalho, dificuldades e carreira.<\/p>\n","protected":false},"author":436,"featured_media":725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[19,111,8,112],"class_list":["post-716","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-pelos-olhos-de","tag-educacao","tag-feminismo","tag-mulheres-na-ciencia","tag-mulheres-professoras"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/07\/yara.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/436"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=716"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1306,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/716\/revisions\/1306"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=716"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}