{"id":737,"date":"2019-08-05T10:40:22","date_gmt":"2019-08-05T13:40:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/?p=737"},"modified":"2019-08-05T10:40:22","modified_gmt":"2019-08-05T13:40:22","slug":"celebrando-ruth-nussenzweig-a-mulher-que-abriu-caminhos-para-uma-vacina-contra-a-malaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2019\/08\/05\/celebrando-ruth-nussenzweig-a-mulher-que-abriu-caminhos-para-uma-vacina-contra-a-malaria\/","title":{"rendered":"Celebrando Ruth Nussenzweig &#8211; a mulher que abriu caminhos para uma vacina contra a Mal\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma das coisas que mais gosto em colaborar no blog \u00e9 a constante oportunidade de conhecer personagens e trajet\u00f3rias t\u00e3o inspiradoras, que muitas vezes est\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximas de n\u00f3s e nem sab\u00edamos. E inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 a palavra chave do que a vida e o trabalho de Ruth Nussenzweig despertaram em mim nestas \u00faltimas semanas em que pude descobrir mais sobre este grande nome da parasitologia para contar aqui.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth Sonntag Nussenzweig nasceu em Viena, na \u00c1ustria, em 20 de junho de 1928, filha dos m\u00e9dicos Eugenia e Barouch Sonntag, ambos de origem judaica. Pouco tempo depois de seu nascimento, a Europa iria testemunhar a ascens\u00e3o e expans\u00e3o do regime nazista, ocorrendo em 1938 o Anschluss &#8211; a anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria pela Alemanha nazista. No ano seguinte, a fam\u00edlia de Ruth, mesmo n\u00e3o sendo religiosa, mudou-se para o Brasil para escapar \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o aos judeus, que s\u00f3 aumentava.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_738\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-738\" class=\"wp-image-738 size-medium\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem2-300x167.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem2-300x167.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem2.png 464w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-738\" class=\"wp-caption-text\">Ruth com colegas (\u00e0 dir., seta) em S\u00e3o Paulo. Imagens: Arquivo pessoal da fam\u00edlia Nussenzweig, reproduzido de Krettli 2018<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth chegou em S\u00e3o Paulo aos 11 anos e ali cresceu. Movida pelo interesse em ser pesquisadora, ingressou na Escola de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em 1948. L\u00e1, conheceu o colega de classe Victor Nussenzweig, nascido no Brasil, filho de judeus poloneses tamb\u00e9m refugiados, que viria a se tornar seu marido e colega de profiss\u00e3o. Segundo o pr\u00f3prio j\u00e1 relatou em entrevistas, seu interesse maior era a pol\u00edtica de esquerda, chegando at\u00e9 a ter sido filiado ao partido comunista, mas que Ruth o convenceu de que a partir da ci\u00eancia ele traria mais benef\u00edcios \u00e0s pessoas do que por meio da pol\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Enquanto universit\u00e1ria, Ruth come\u00e7ou a fazer pesquisa em colabora\u00e7\u00e3o com Victor no departamento de parasitologia da USP. Seus primeiros estudos eram focados no parasita causador da doen\u00e7a de Chagas, o Trypanosoma cruzi. Juntos, eles estabeleceram melhorias no m\u00e9todo de detec\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e descreveram a capacidade do corante violeta de genciana de matar o parasita no sangue sem torn\u00e1-lo t\u00f3xico. Esta descoberta teve grande impacto na preven\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, que pode ser transmitida por meio de transfus\u00e3o de sangue infectado, e por d\u00e9cadas as bolsas de sangue usadas para transfus\u00e3o na am\u00e9rica latina eram azuis devido \u00e0 presen\u00e7a do corante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth e Victor casaram-se no civil em 1952, na biblioteca da Faculdade de Medicina da USP, e graduaram-se um ano depois, em 1953, tornando-se professores associados da USP, ao mesmo tempo em que desenvolviam suas pesquisas de doutorado. Foram por um per\u00edodo de 2 anos para a Fran\u00e7a, retornando para o Brasil em 1960, mas perceberam<\/span>que o pa\u00eds n\u00e3o oferecia condi\u00e7\u00f5es para avan\u00e7arem nos seus trabalhos t\u00e3o r\u00e1pido quanto gostariam, e ent\u00e3o partiram novamente, dessa vez para os Estados Unidos, com bolsa para trabalharem na Universidade de Nova York (NYU).<\/p>\n<div id=\"attachment_739\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-739\" class=\"size-medium wp-image-739\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem3-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem3-300x200.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem3.png 468w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-739\" class=\"wp-caption-text\">Ruth e Victor Nussenzweig (\u00e0 dir.) em cerim\u00f4nia do seu casamento na biblioteca da Faculdade de Medicina da USP. Imagem: arquivo pessoal da fam\u00edlia Nussenzweig<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A vontade de voltar para o Brasil, que ambos sempre consideraram seu pa\u00eds de origem, falou mais forte, e em 1964 eles fizeram uma nova tentativa. N\u00e3o contavam, no entanto, com a ditadura militar rec\u00e9m instaurada no pa\u00eds, e encontraram um ambiente opressor que os obrigou a retornar quase que imediatamente aos Estados Unidos. Em entrevistas, o casal conta como encontraram seus colegas de profiss\u00e3o presos, a Escola de Medicina da USP chefiado por militares e que Victor inclusive chegou a ser levado a interrogat\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth e Victor retornaram \u00e0 NYU. Apesar de suas hist\u00f3rias se sobreporem em muitos aspectos, ambos constru\u00edram carreiras e linhas de pesquisa independentes ao longo da vida. Ruth come\u00e7ou a trabalhar com Mal\u00e1ria, uma doen\u00e7a causada pelo parasita Plasmodium, e foi ent\u00e3o que ela fez uma das descobertas mais importantes da sua carreira cient\u00edfica. A transmiss\u00e3o da Mal\u00e1ria se d\u00e1 pela picada do mosquito Anopheles infectado por uma forma do Plasmodium denominada esporozo\u00edto. Ruth descobriu que a irradia\u00e7\u00e3o por raios X do mosquito infectado enfraquece o esporozo\u00edto, fazendo com que este n\u00e3o seja mais capaz de desencadear a doen\u00e7a, mas ainda suficiente para gerar uma resposta imune de prote\u00e7\u00e3o contra a Mal\u00e1ria em animais de laborat\u00f3rio. Abria-se, ali, o caminho para o desenvolvimento de uma vacina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O trabalho foi publicado na prestigiada revista Nature em 1967. Ruth voltou brevemente ao Brasil para defender seu doutorado em 1968, e continuou com seus trabalhos na \u00e1rea de Mal\u00e1ria na NYU. Posteriormente, em 1980, ela isolou a prote\u00edna do esporozo\u00edto respons\u00e1vel por desencadear a resposta imune, a prote\u00edna CSP, e seus trabalhos serviram de base para se chegar na vacina RTS,S (ou Mosquirix). Apesar de esta diversas vezes ter dado resultados decepcionantes e a efici\u00eancia ser ainda baixa (em torno de 40%), \u00e9 a que hoje demonstra maior potencial contra a Mal\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth construiu uma carreira impactante, ocupando posi\u00e7\u00f5es de prest\u00edgio na NYU e tornando-se a primeira mulher brasileira membro da Academia de Ci\u00eancias dos Estados Unidos. N\u00e3o s\u00f3 ela e Victor constru\u00edram um grande legado para ci\u00eancia, seus filhos Michel, Andr\u00e9 e S\u00f4nia tamb\u00e9m s\u00e3o grandes nomes na comunidade cient\u00edfica, e desenvolvem seus trabalhos na Universidade de Rockefeller (EUA), no NIH\/Instituto Nacional do C\u00e2ncer (EUA) e na USP, respectivamente, sendo Michel da membro da Academia de Ci\u00eancias dos Estados Unidos assim como a m\u00e3e.<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_741\" style=\"width: 237px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-741\" class=\"size-medium wp-image-741\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem4-1-227x300.png\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem4-1-227x300.png 227w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/08\/Imagem4-1.png 470w\" sizes=\"(max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><p id=\"caption-attachment-741\" class=\"wp-caption-text\">O casal Ruth e Victor Nussenzweig, parceiros na vida pessoal e profissional. Imagens: superior: arquivo pessoal da fam\u00edlia Nussenzweig, reproduzido de Krettli 2018; inferior: Fernando Cavalcanti\/Veja.com<\/p><\/div>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar de nunca terem voltaram definitivamente para o Brasil, Ruth e Victor sempre mantiveram rela\u00e7\u00f5es com o pa\u00eds. Em 2013, estabeleceram uma parceria com a Universidade Federal de S\u00e3o Paulo &#8211; UNIFESP e com isso iam para o Brasil a cada 3 meses para acompanhamento do projeto de pesquisa. Mesmo vivendo tantos anos nos Estados Unidos, ela contou em entrevistas que nunca se adaptou, que todos seus amigos estavam no Brasil e n\u00e3o l\u00e1, mas que gostava de como os EUA oferecem facilidades para se fazer pesquisa. Ela tamb\u00e9m j\u00e1 relatou dificuldades na sua trajet\u00f3ria de cientista por ser mulher, e que apesar de dif\u00edcil, a ci\u00eancia \u00e9 uma carreira que pode trazer muita satisfa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ruth faleceu em 1 de abril de 2018, aos 89 anos, em Nova York. Victor, 91, continua morando em Nova York e \u00e9 professor em\u00e9rito da NYU. Em suas pr\u00f3prias palavras, Ruth considerava que a dupla emigra\u00e7\u00e3o pela qual teve que passar &#8211; primeiro da \u00c1ustria para o Brasil, e depois do Brasil para os EUA &#8211; foram uma &#8220;lesson of survival that strengthened my resources and hardened my will to be a scientist&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o literal, uma li\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia que fortaleceram meus recursos e endureceram minha vontade de ser cientista&#8221;). Assim, celebramos essa grande mulher cuja hist\u00f3ria de vida \u00e9 t\u00e3o marcante quanto seu impacto e import\u00e2ncia na ci\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Abaixo deixo os links para duas entrevistas concedidas pelo casal &#8211; uma para a revista Pesquisa FAPESP em 2004, e outra para a revista Science em 2013 (em ingl\u00eas); e uma mat\u00e9ria recente da ONU sobre a aplica\u00e7\u00e3o da vacina RTS,S:<\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2004\/12\/01\/uma-quimica-que-deu-certo\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2004\/12\/01\/uma-quimica-que-deu-certo\/<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.sciencemag.org\/careers\/2013\/06\/fresh-start-back-brazil-85\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/www.sciencemag.org\/careers\/2013\/06\/fresh-start-back-brazil-85<\/span><\/a><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/nacoesunidas.org\/com-apoio-da-onu-nova-vacina-para-malaria-e-usada-em-bebes-no-malaui\/\"><span style=\"font-weight: 400\">https:\/\/nacoesunidas.org\/com-apoio-da-onu-nova-vacina-para-malaria-e-usada-em-bebes-no-malaui\/<\/span><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas que mais gosto em colaborar no blog \u00e9 a constante oportunidade de conhecer personagens e trajet\u00f3rias t\u00e3o inspiradoras, que muitas vezes est\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximas de n\u00f3s e nem sab\u00edamos. 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