{"id":828,"date":"2019-10-17T00:05:28","date_gmt":"2019-10-17T03:05:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/?p=828"},"modified":"2020-05-11T08:43:20","modified_gmt":"2020-05-11T11:43:20","slug":"celebrando-dra-jane-cooke-wright-cientista-afro-americana-pioneira-no-desenvolvimento-de-quimioterapia-contra-o-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/2019\/10\/17\/celebrando-dra-jane-cooke-wright-cientista-afro-americana-pioneira-no-desenvolvimento-de-quimioterapia-contra-o-cancer\/","title":{"rendered":"Celebrando Dr\u00aa. Jane Cooke Wright \u2013 Cientista afro-americana pioneira no desenvolvimento de quimioterapia contra o c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Sempre tive muito interesse, mesmo antes de ingressar na faculdade, no estudo do c\u00e2ncer, pelo fato de ser uma doen\u00e7a complexa e cheia de particularidades. A condi\u00e7\u00e3o \u00e9 iniciada quando uma c\u00e9lula passa a se proliferar de forma anormal e desenfreada ao perder a capacidade de controlar sua duplica\u00e7\u00e3o celular, dando origem a um tumor. O tumor pode invadir tecidos adjacentes e se disseminar pelo corpo em locais distantes da sua origem. Durante a duplica\u00e7\u00e3o celular, o genoma da c\u00e9lula \u00e9 copiado, no entanto, este processo \u00e9 extremamente propenso a erros, que pode resultar no surgimento de muta\u00e7\u00f5es se os erros n\u00e3o forem corrigidos. Por esse motivo, cada vez que uma c\u00e9lula cancer\u00edgena se duplica, h\u00e1 uma chance de que a c\u00e9lula duplicada adquira novas muta\u00e7\u00f5es. O resultado desse fen\u00f4meno \u00e9 que as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas se modificam continuamente, de forma que tratamentos que matam uma c\u00e9lula podem n\u00e3o funcionar contra outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No in\u00edcio e meados do s\u00e9culo XX, o c\u00e2ncer era tipicamente tratado com uma combina\u00e7\u00e3o de cirurgia e radioterapia (aplica\u00e7\u00e3o de energia\/radia\u00e7\u00f5es ionizantes diretamente no local do tumor). No entanto, embora muitas vezes eficazes, por in\u00fameras raz\u00f5es, alguns tumores s\u00e3o inoperantes e resistentes a radia\u00e7\u00e3o. Adicionalmente, um efeito rebote &#8211; surgimento de tumores mais agressivos &#8211; pode ocorrer com o uso da radia\u00e7\u00e3o. Estes foram as melhores op\u00e7\u00f5es de tratamentos dispon\u00edveis que tivemos por muito tempo, at\u00e9 que cientistas como a Dr\u00aa Wright apareceram para revolucionar a ci\u00eancia que conhecemos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dr\u00aa Wright foi uma m\u00e9dica oncologista de etnia afro-americana, nascida em Manhattan, Nova Iorque, EUA, no dia 30 de novembro de 1919. Ela obteve seu diploma m\u00e9dico, com honras, pela Faculdade M\u00e9dica de Nova Iorque (<em>New York Medical College)<\/em> em 1945. Dr\u00aa Wright descende de uma fam\u00edlia de m\u00e9dicos que desafiou as barreiras raciais em uma profiss\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o dominada por homens brancos. Seu pai, o Dr. Louis Tompkins Wright, foi um dos primeiros graduados negros da Escola de Medicina de Harvard (<em>Harvard Medical School)<\/em> e foi o primeiro m\u00e9dico negro indicado para a equipe de um hospital da cidade de Nova Iorque.<\/p>\n<div id=\"attachment_830\" style=\"width: 377px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-830\" class=\" wp-image-830\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto1-1-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"367\" height=\"256\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto1-1-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto1-1-768x535.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto1-1-1024x714.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto1-1.jpg 1046w\" sizes=\"(max-width: 367px) 100vw, 367px\" \/><p id=\"caption-attachment-830\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\"><span style=\"text-decoration: underline\">Esquerda<\/span>: Jane C. Wright crian\u00e7a (\u00e0 direita na foto) em 1921. Imagem: Sophia Smith Collection, Smith College, reprodu\u00e7\u00e3o <em>National Library of Medicine<\/em>, NIH website. <span style=\"text-decoration: underline\">Direita<\/span>: Jane C. Wright adulta em 1967. Imagem: <em>New York Medical College<\/em>, reprodu\u00e7\u00e3o <em>The New York Times.<\/em><\/span><\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">O trabalho pioneiro de Dr\u00aa Wright se iniciou em 1949 no laborat\u00f3rio de seu pai na funda\u00e7\u00e3o de pesquisa do c\u00e2ncer do Hospital Harlem (<em>Harlem Hospital Cancer Research Foundation),<\/em> ao analisar uma ampla gama de agentes quimioter\u00e1picos, explorando a rela\u00e7\u00e3o entre a resposta do paciente e a cultura de tecidos e desenvolvendo novas t\u00e9cnicas para a administra\u00e7\u00e3o de quimioterapia contra o c\u00e2ncer. Ela e o pai demonstraram que c\u00e9lulas tumorais poderiam ser removidas e estudadas em laborat\u00f3rio a fim de entender seu comportamento e investigar quais terapias funcionariam melhor para combat\u00ea-las. Atualmente, t\u00e9cnicas semelhantes s\u00e3o usadas rotineiramente e servem de base para o desenvolvimento de novas terapias. Ela foi uma das primeiras pesquisadoras a testar e prever a efic\u00e1cia de drogas com a\u00e7\u00e3o quimioter\u00e1pica em c\u00e9lulas cancer\u00edgenas advindas de tumores humanos em laborat\u00f3rio, que produziram resultados efetivos e ajudaram a salvar vidas. Quimioterapia refere-se ao uso de agentes qu\u00edmicos como forma de tratamento. No decorrer de suas pesquisas, eles identificaram v\u00e1rias novas abordagens terap\u00eauticas pass\u00edveis de utiliza\u00e7\u00e3o para tratar diferentes tipos de c\u00e2nceres humanos. Algumas dessas terapias ainda est\u00e3o em uso nos dias de hoje, como \u00e9 o caso do <em>metotrexato<\/em>, medicamento quimioter\u00e1pico utilizado no tratamento de tumores como c\u00e2ncer de mama e leucemia infantil. Al\u00e9m disso, Dr\u00aa. Wright foi uma forte defensora do uso da terapia combinada, na qual mais de um tratamento s\u00e3o usados em uma ordem precisa. Ela entendeu que, uma vez que o c\u00e2ncer est\u00e1 sempre se modificando, uma abordagem m\u00faltipla era necess\u00e1ria a fim de combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 dif\u00edcil mensurar o impacto de seu trabalho na comunidade cient\u00edfica. Dr\u00aa Wright ajudou a desenvolver muitas das ferramentas que usamos para combater o c\u00e2ncer nos dias de hoje, afetando in\u00fameras vidas desde ent\u00e3o. Ao longo de sua carreira, Dra. Wright escreveu mais de 100 publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, foi homenageada com uma nomea\u00e7\u00e3o presidencial para a Comiss\u00e3o de Cardiopatias, C\u00e2ncer e Derrame, ocupou cargos de lideran\u00e7a em diversas associa\u00e7\u00f5es, como o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Sociedade Americana de C\u00e2ncer (<em>American Cancer Society)<\/em> em Nova Iorque. Em 1955, Dr\u00aa Wright tornou-se professora associada de pesquisa cir\u00fargica na Universidade de Nova Iorque (<em>New York University)<\/em> e diretora da <em>Cancer Chemotherapy Research<\/em> no Centro M\u00e9dico da Universidade de Nova Iorque (<em>New York University Medical Center)<\/em>. Foi a \u00fanica mulher dentre 7 homens a fundar a Sociedade Americana de Oncologia Cl\u00ednica (<em>American Society of Clinical Oncology <\/em>&#8211; ASCO) em 1964. Foi a primeira mulher afro-americana a ser nomeada reitora associada de uma institui\u00e7\u00e3o m\u00e9dica reconhecida nacionalmente em 1967 e, na \u00e9poca, era a mulher afro-americana de mais alto n\u00edvel em uma escola de medicina dos EUA. Em 1971, ela se tornou a primeira mulher eleita presidente da Sociedade de C\u00e2ncer de Nova Iorque. Liderou delega\u00e7\u00f5es de pesquisadores de c\u00e2ncer em diversas partes do mundo, ocupou in\u00fameras nomea\u00e7\u00f5es em hospitais e escolas m\u00e9dicas, recebeu in\u00fameros pr\u00eamios acad\u00eamicos e inspirou gera\u00e7\u00f5es de pesquisadores.<\/p>\n<div id=\"attachment_831\" style=\"width: 419px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-831\" class=\" wp-image-831\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto2-1-300x170.jpg\" alt=\"\" width=\"409\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto2-1-300x170.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto2-1-768x435.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto2-1-1024x579.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapelosolhosdelas\/wp-content\/uploads\/sites\/53\/2019\/10\/foto2-1.jpg 1338w\" sizes=\"(max-width: 409px) 100vw, 409px\" \/><p id=\"caption-attachment-831\" class=\"wp-caption-text\"><span style=\"font-size: 10pt\">Jane C. Wright em dois momentos de sua carreira, sem data. Reprodu\u00e7\u00e3o: Imagens postadas em 14 de fevereiro de 2019 pelo site do programa <em>Neighborhood House&#8217;s STUDIO<\/em>, uma parceria com a Universidade de Washington, em celebra\u00e7\u00e3o ao <em>Black History Month<\/em>.<\/span><\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify\">Dr\u00aa Wright faleceu no dia 19 de fevereiro de 2013 em sua casa em Guttenberg, Nova Jersey, EUA. Ela sofria de dem\u00eancia e tinha 93 anos. De acordo com uma mat\u00e9ria publicada pelo <em>The New York Times<\/em> logo ap\u00f3s o seu falecimento no dia 2 de mar\u00e7o de 2013, a presidente da ASCO na \u00e9poca Dr\u00aa Sandra Swain, declarou, por meio de uma entrevista por telefone, o seguinte:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;O trabalho dela n\u00e3o era apenas cient\u00edfico, mas tamb\u00e9m vision\u00e1rio para toda a ci\u00eancia da oncologia. Ela fez parte do grupo que primeiro percebeu que precis\u00e1vamos de uma organiza\u00e7\u00e3o separada para lidar com os profissionais que cuidam de pacientes com c\u00e2ncer. Al\u00e9m disso, \u00e9 incr\u00edvel para mim que uma mulher negra, em seus dias e idade, tenha conseguido fazer o que fez\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Ainda segundo a mat\u00e9ria do <em>The New York Times<\/em>, apesar de ser uma cientista de renome, Dr\u00aa Wright mencionou em entrevistas que sempre teve consci\u00eancia de que, como mulher negra, era uma presen\u00e7a incomum em institui\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, mas n\u00e3o se recorda de sofrer preconceito racial.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">&#8220;Eu sei que sou membro de dois grupos minorit\u00e1rios, mas n\u00e3o penso em mim dessa forma. Claro, uma mulher tem que tentar o dobro. Mas, preconceito racial? Conheci muito pouco disso&#8230; pode at\u00e9 ser que eu tenha conhecido, mas n\u00e3o fui inteligente o suficiente para reconhec\u00ea-lo&#8221;.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Nesse mesmo sentido, um post sobre a carreira e Legado da Dr\u00aa Jane C. Wright escrito por Victoria Forster (geneticista oncol\u00f3gica) e Elizabeth Wayne (cientista na \u00e1rea de imunoterapia do c\u00e2ncer) e publicado dia 15 de novembro de 2018 no site <em>The New Inquiry <\/em>me chamou muito aten\u00e7\u00e3o, por isso tomei a liberdade de citar um trecho aqui para finalizar este post.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cA ci\u00eancia tem sido historicamente constru\u00edda como uma disciplina masculina branca e permanece hostil \u00e0s mulheres, principalmente \u00e0s mulheres de cor, apesar do n\u00famero crescente de mulheres que escolhem a profiss\u00e3o. A carreira de Dr\u00aa Wright tem muitas das mesmas qualidades que nos ajudam a lembrar homens conhecidos da ci\u00eancia, como a engenhosidade de Stephen Hawking ou a inova\u00e7\u00e3o de Nikola Tesla, mas ela n\u00e3o recebe o mesmo reconhecimento. Dr\u00aa Wright estava na vanguarda da pesquisa sobre o c\u00e2ncer, mas o p\u00fablico se contentou em esquec\u00ea-la, contradizendo o refr\u00e3o popular de que, se as mulheres cientistas realmente s\u00e3o iguais aos homens, suas realiza\u00e7\u00f5es falariam por si mesmas e n\u00f3s as reconhecer\u00edamos. Sua ambi\u00e7\u00e3o, car\u00e1ter e intelecto n\u00e3o devem ser apagados por causa de como pensamos que um cientista deveria parecer. Ela n\u00e3o estava tentando \u2018cal\u00e7ar os sapatos de ningu\u00e9m\u2019 ou se encaixar na estrutura de como deveria ser uma cientista; ela cultivou seu pr\u00f3prio espa\u00e7o e identidade. Sua hist\u00f3ria n\u00e3o deve ser ofuscada por um punhado de hist\u00f3rias sobre famosos cientistas masculinos e femininos brancos. Na comunidade de oncologia, Dr\u00aa Wright \u00e9 lembrada como uma &#8220;vision\u00e1ria&#8221; e j\u00e1 \u00e9 hora de o p\u00fablico reconhec\u00ea-la como uma tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">A luta contra o c\u00e2ncer ainda est\u00e1 em andamento, mas gra\u00e7as a pesquisadores como a Dr\u00aa. Wright, muitas formas de c\u00e2ncer humano s\u00e3o pass\u00edveis de tratamento, e estamos cada vez mais perto de combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-size: 10pt\"><u>Refer\u00eancias<\/u><\/span><\/p>\n<ol>\n<li><span style=\"font-size: 10pt\">New York Medical College. https:\/\/www.nymc.edu\/faculty\/directory\/in-memoriam\/jane-cooke-wright\/<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 10pt\">American Association of Cancer research. https:\/\/www.aacr.org\/Research\/Awards\/Pages\/jane-cooke-wright.aspx<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 10pt\">The New York Times. https:\/\/www.nytimes.com\/2013\/03\/03\/health\/jane-c-wright-pioneering-oncologist-dies-at-93.html<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 10pt\">Helix. https:\/\/blog.helix.com\/jane-c-wright\/<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-size: 10pt\">The New Inquiry. https:\/\/thenewinquiry.com\/blog\/dr-jane-c-wright-and-the-making-of-modern-oncology\/<\/span><\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio e meados do s\u00e9culo XX, o c\u00e2ncer era tipicamente tratado com uma combina\u00e7\u00e3o de cirurgia e radioterapia. 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