{"id":603,"date":"2019-05-18T19:21:31","date_gmt":"2019-05-18T22:21:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapop\/?p=603"},"modified":"2019-05-18T19:24:13","modified_gmt":"2019-05-18T22:24:13","slug":"amor-morte-robos-e-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cienciapop\/2019\/05\/18\/amor-morte-robos-e-cultura\/","title":{"rendered":"Amor, morte, rob\u00f4s e cultura"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Muitas s\u00e3o as an\u00e1lises poss\u00edveis em torno de produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas contempor\u00e2neas. Tais produ\u00e7\u00f5es permeiam nosso cotidiano, colaboram na constru\u00e7\u00e3o de nossas narrativas pessoais e nos ajudam a nos entender como sujeitos. Um dos fen\u00f4menos recentes que v\u00eam sendo parte de nosso cotidiano, rodas de conversa entre familiares e amigos, s\u00e3o seriados em plataformas de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">streaming<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para aqueles que, dentro deste panorama cultural, s\u00e3o f\u00e3s de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e distopias futuristas, h\u00e1 uma nova s\u00e9rie de anima\u00e7\u00f5es, na plataforma Netflix, chamada \u201cLove, Death + Robots\u201d. Esta s\u00e9rie apresenta debates interessant\u00edssimos sobre nossa sociedade! Ela \u00e9 composta por epis\u00f3dios independentes. Suas hist\u00f3rias passam-se em cen\u00e1rios ficcionais, cujos temas relacionam-se aos pilares centrais que nomeiam a s\u00e9rie: amor, morte e rob\u00f4s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No epis\u00f3dio &#8220;Os tr\u00eas rob\u00f4s&#8221; somos apresentados, obviamente, a tr\u00eas rob\u00f4s! Eles est\u00e3o em um contexto p\u00f3s apocal\u00edptico. Os humanos, por sua vez, foram extintos e as antigas cidades s\u00e3o pontos tur\u00edsticos para estas m\u00e1quinas \u201csobreviventes\u201d. O interessante deste epis\u00f3dio \u00e9 que estes rob\u00f4s descrevem e analisam a cultura humana a partir desta visita tur\u00edstica. Tal como um antrop\u00f3logo estudando uma cultura a que n\u00e3o pertence. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como nerd que t\u00eam buscado refer\u00eancias no campo dos Estudos Culturais, este epis\u00f3dio espec\u00edfico me fez pensar em v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es com o que venho estudando. Em especial, a quest\u00e3o da centralidade da cultura, abordado por Stuart Hall, como objeto de estudo e an\u00e1lise a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O autor aponta que os seres humanos podem ser compreendidos como seres interpretativos. Isto \u00e9, n\u00e3o apenas <\/span><b><i>estamos no mundo<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, mas vivemos a partir de como agimos e &#8211; especialmente &#8211; pensamos este mundo. Desta forma, entender nossas pr\u00e1ticas envolve entender os variados sistemas de significado utilizados para definir nossas condutas em sociedade. Este conjunto de significados, sistemas e c\u00f3digos que d\u00e3o sentido \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es \u00e9 o que definimos como \u201ccultura\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cena que pode ser pensada a partir desta no\u00e7\u00e3o de cultura \u00e9 quando [cuidado, cont\u00e9m spoiler] estes tr\u00eas rob\u00f4s encontram uma bola de basquete, que \u00e9 referida por um deles como \u201cesfera de entretenimento\u201d. Para qualquer ser humano minimamente inclu\u00eddo na cultura ocidental, uma bola de basquete remete aos mais diversos significados e seu uso tem objetivos claros nas disputas esportivas. Quic\u00e1-la parece o \u00f3bvio e tentar arremess\u00e1-la em uma cesta \u00e9 o que todos fariam. No entanto, estas m\u00e1quinas ao executarem esta a\u00e7\u00e3o, a concebem como enfadonha. Eles narram que n\u00e3o conseguem entender como n\u00f3s, seres humanos, pod\u00edamos passar tanto tempo entretidos com a\u00e7\u00f5es como esta. Isto \u00e9, as interpreta\u00e7\u00f5es dos rob\u00f4s para estas a\u00e7\u00f5es concretas n\u00e3o fazem sentido dentro do sistema de significados da sua cultura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste caso, a fic\u00e7\u00e3o inventa uma cultura pr\u00f3pria para os rob\u00f4s, que se diferencia completamente da nossa. Isto nos mostra que o \u201cbasquete\u201d s\u00f3 pode ser \u201cbasquete\u201d dentro da nossa cultura. Fora deste \u00e2mbito, muitos outros significados poderiam ser atribu\u00eddos \u00e0 pr\u00e1tica de quicar uma bola: inclusive nenhum. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de entretenimento vai al\u00e9m de &#8220;quicar uma bola e arremess\u00e1-la&#8221;, mas parte de uma atividade que \u00e9 interativa e considerada <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">divertida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> quando executada em um grupo social, seja para criar la\u00e7os, seja para competir, seja para torcer para algum time espec\u00edfico. Isto \u00e9, quicar uma bola e arremessar configuram-se como parte de um conjunto maior de significados, que para estes rob\u00f4s da s\u00e9rie, nem s\u00e3o mencionados por n\u00e3o serem <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sua cultura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Posteriormente, os rob\u00f4s v\u00e3o a uma lanchonete e uma discuss\u00e3o a respeito de alimenta\u00e7\u00e3o se inicia. Eles n\u00e3o conseguem entender para qu\u00ea fazemos isso! Os rob\u00f4s se interrogam sobre as raz\u00f5es de colocarmos, por exemplo, um hamb\u00farguer em nossos \u201corif\u00edcios\u201d para transform\u00e1-los em uma pasta, a partir das a\u00e7\u00f5es que ocorrem em uma parte interna do corpo que cont\u00e9m \u00e1cido, simplesmente para gerarmos energia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com esta descri\u00e7\u00e3o, eles questionam: \u201cqual o sentido disso para seres que usam baterias?\u201d \u201cPor que simplesmente n\u00e3o depositamos estes alimentos em um balde de \u00e1cido e evitamos todo este custo com estruturas internas?\u201d. Estas s\u00e3o perguntas que s\u00f3 fazem sentido em uma cultura diferente da nossa. Por tal motivo, nunca seria feita por um ser humano!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A anima\u00e7\u00e3o apresenta bem o seu papel em colocar a humanidade no centro de uma nova vis\u00e3o de mundo que s\u00f3 seres que \u201cvivem\u201d de maneira completamente diferente da nossa podem ter. Isto \u00e9, mostra que at\u00e9 o mais \u201cbiol\u00f3gico\u201d dos atos s\u00f3 pode ser interpretado dentro da nossa rede de significados culturais. \u201cComer\u201d para a nossa cultura n\u00e3o \u00e9 simplesmente gerar energia. Uma gama de outros sentidos acompanham este ato que normalmente vemos como \u201cnatural\u201d. Alimentar-se \u00e9 um h\u00e1bito cultural. Como assim? \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o vivenciada coletivamente, parte de uma rotina. Assim, mais do que nutrientes, envolve prazer, conviv\u00eancia, pausas em dias de trabalho, motivos de reuni\u00f5es familiares e entre amigos, tradi\u00e7\u00e3o, etc. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Retomemos a ideia de cultura, abordada anteriormente. Compreendo que n\u00e3o \u00e9 cab\u00edvel estudar as a\u00e7\u00f5es humanas sem localiz\u00e1-las dentro de um conjunto de regras espec\u00edficas que em que uma pessoa, ou um grupo social, est\u00e1 inserida. Ou seja: sem observar sua cultura! Isto n\u00e3o significa que as a\u00e7\u00f5es concretas n\u00e3o existam! Mas, simplesmente, que as suas interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o arbitr\u00e1rias. Desta forma, o que entendemos, por exemplo, como \u201cbom\u201d ou \u201cmau\u201d, &#8220;divertido&#8221; ou &#8220;enfadonho&#8221;, s\u00f3 s\u00e3o classificados desta forma devido \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas que damos a cada ato! <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E este epis\u00f3dio tem muito mais detalhes legais de nossa cultura &#8211; urbana e ocidental, ao menos. Mas&#8230; Por enquanto, chega de spoilers. Se me empolgar, logo come\u00e7o a falar da cena dos gatos (ops\u2026).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800000;\"><b>Para saber mais<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">HALL, Stuart. <a href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/educacaoerealidade\/article\/download\/71361\/40514\">A centralidade da cultura: notas sobre as revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso tempo<\/a>. <\/span><b>Educa\u00e7\u00e3o &amp; realidade<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, v. 22, n. 2, 1997.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">MILLER, Tim. <\/span><b>Love Deaths + Robots. <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Netflix,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">2019. [indica\u00e7\u00e3o 18 anos]<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas s\u00e3o as an\u00e1lises poss\u00edveis em torno de produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas contempor\u00e2neas. 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