{"id":112,"date":"2011-06-30T00:42:00","date_gmt":"2011-06-30T06:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/06\/a-nova-pose-da-myrian-rios\/"},"modified":"2011-06-30T00:42:00","modified_gmt":"2011-06-30T06:42:00","slug":"a-nova-pose-da-myrian-rios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/06\/30\/a-nova-pose-da-myrian-rios\/","title":{"rendered":"A nova pose da Myrian Rios!!!"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-NgY52yVfFO0\/Tgvvm7W9rBI\/AAAAAAAACu0\/ewEkablagFc\/s1600\/270803_168456073220501_100001683290418_462656_913310_n.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-NgY52yVfFO0\/Tgvvm7W9rBI\/AAAAAAAACu0\/ewEkablagFc\/s200\/270803_168456073220501_100001683290418_462656_913310_n.jpg\" alt=\"\" width=\"193\" height=\"200\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p>N\u00e3o me lembro da \u00faltima vez que fui ao circo. Lembro-me vagamente da experi\u00eancia de ficar na arquibancada esperando o show come\u00e7ar. E lembro tamb\u00e9m que apesar de todas as\u00a0atra\u00e7\u00f5es\u00a0dispon\u00edveis no\u00a0espet\u00e1culo\u00a0(malabares, m\u00e1gicos, le\u00e3o, etc&#8230;), o que eu queria mesmo era ver o palha\u00e7o.<\/p>\n<div>Correndo o risco de soar muito clich\u00e9 (fazer o que, n\u00e9?), as palha\u00e7adas da era moderna se concentram em outros lugares, transferindo o picadeiro de lugar. Isso n\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim visto que circos s\u00e3o por excel\u00eancia entidades itinerantes. O problema, na minha opini\u00e3o, \u00e9 que o circo moderno e suas palha\u00e7adas n\u00e3o nos fazem rir tanto. Pelo contr\u00e1rio. As palha\u00e7adas t\u00eam um impacto nocivo, destruidor e, quando a raiva n\u00e3o supera, a vontade \u00e9 mesmo de chorar.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Recebi via e-mail um v\u00eddeo com o depoimento da deputada do PDT Myrian Rios sobre o Projeto de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Fluminense 27\/2003 (de autoria do deputado estadual Gilberto Palmares) que tem como objetivo &#8220;a inclus\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual como direito individual e coletivo dos cidad\u00e3os fluminense&#8221;. Lament\u00e1vel. A fala da deputada foi lament\u00e1vel! N\u00e3o pretendo entrar no m\u00e9rito (ainda) da condi\u00e7\u00e3o p\u00edfia do depoimento da Myrian Rios, mas um fato que me chamou aten\u00e7\u00e3o no discurso dela (e, na verdade, tamb\u00e9m no discurso dos congressistas que votaram contra a legaliza\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o civil entre pessoas do mesmo sexo em Nova Iorque) foi o fato de o argumento sempre buscar um respaldo religioso.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como psic\u00f3logo cognitivo fico numa curiosidade danada para entender por que essas coisas acontecem e por que elas t\u00eam o efeito que t\u00eam. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que existe uma rela\u00e7\u00e3o complexa entre pol\u00edtica e religi\u00e3o. Cognitivamente, no entanto, essas duas &#8216;institui\u00e7\u00f5es&#8217; t\u00eam um efeito muito semelhante na maneira como processamos informa\u00e7\u00e3o. Isso explica um pouco do porqu\u00ea elas, muitas vezes, s\u00e3o vistas como intrinsicamente ligadas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em postagens passadas (<a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2011\/02\/deus-ou-darwin-crenca-em-deus-como-um.html\">clique aqui<\/a>), falei um pouco sobre uma caracter\u00edstica cognitiva peculiar que \u00e9 a nossa necessidade de ter uma constante sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;controle&#8221;. O nosso sistema cognitivo funciona muito mais efetivamente quando temos a sensa\u00e7\u00e3o de controle, ordem e poder preditivo. J\u00e1 existe muita evid\u00eancia emp\u00edrica para isso na psicologia cognitiva (recentemente por exemplo, <em>Cristine Legare<\/em> e eu mostramos que at\u00e9 mesmo a percep\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia de simpatias \u00e9 alterada quando n\u00edveis de controle s\u00e3o alterados: em outras palavras, a sensa\u00e7\u00e3o de incerteza te faz acreditar mais que uma simpatia vai funcionar). O governo e a religi\u00e3o servem como mecanismos externos de busca de controle.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Aaron Kay<\/em>, um psic\u00f3logo da <em>Duke University<\/em> tem v\u00e1rios estudos mostrando uma intera\u00e7\u00e3o muito interessante entre religi\u00e3o e governo no que diz respeito \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de controle que elas oferecem. Geralmente, quando a sensa\u00e7\u00e3o de controle oferecida por uma delas \u00e9 pouca, as pessoas tendem a acreditar mais na outra: se o governo est\u00e1 uma &#8216;meleca&#8217;, as pessoas tendem a se apegar mais \u00e0 religi\u00e3o. E se por algum motivo voc\u00ea for influenciado a pensar que a religi\u00e3o n\u00e3o tem muito poder de oferecer nenhuma sensa\u00e7\u00e3o de controle, voc\u00ea tende a acreditar mais no governo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Em um dos estudos, por exemplo, os participantes foram induzidos a (1) pensar que o governo estava muito inst\u00e1vel e perdendo um pouco das r\u00e9deas do comando do poder p\u00fablico ou (2) pensar que o governo estava no controle e era um governo extremamente firme e est\u00e1vel. As pessoas que viram o governo como inst\u00e1vel mostraram uma cren\u00e7a muito maior em um Deus controlador do que as pessoas que viram o governo como uma institui\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e firme.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Grande parte dos argumentos contra a legaliza\u00e7\u00e3o da uni\u00e3o civil entre pessoas do mesmo sexo, ou sobre a inclus\u00e3o do termo &#8220;orienta\u00e7\u00e3o sexual&#8221; no texto da constitui\u00e7\u00e3o que condena atos discriminat\u00f3rios s\u00e3o argumentos de\u00a0car\u00e1ter\u00a0religiosos. S\u00e3o poucos os argumentos com respaldo cient\u00edfico e\/ou com base em dados advindos de fontes confi\u00e1veis (ou que pelo menos podem ser contestadas). E uma vez que a pol\u00edtica brasileira, em geral, \u00e9 muito fraca na tarefa de oferecer aos cidad\u00e3os uma sensa\u00e7\u00e3o de controle do poder p\u00fablico, \u00e9 esperado (com base em algumas dessas pesquisas emp\u00edricas) que a cren\u00e7a nos pressupostos religiosos aumente de maneira sintom\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 sem motivo que as na\u00e7\u00f5es mais politicamente desenvolvidas do mundo s\u00e3o as que t\u00eam a menor popula\u00e7\u00e3o religiosa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa rela\u00e7\u00e3o curiosa entre religi\u00e3o\/governo e sensa\u00e7\u00e3o de poder n\u00e3o pode, no entanto, ofuscar a gravidade do argumento mal-articulado e horroroso que a deputada Myrian Rios proferiu na Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro. Nenhum dos &#8220;fatos&#8221; que ela cita como problem\u00e1ticos para a aprova\u00e7\u00e3o da emenda t\u00eam algum respaldo emp\u00edrico. Inclusive, qualquer um que ler o texto da PEC na \u00edntegra vai notar que o autor da proposta sim, baseia seus argumentos em pesquisas emp\u00edricas e ainda cita dois estados brasileiros (Mato Grosso e Sergipe) onde o texto j\u00e1 foi alterado. Dessa maneira, se algu\u00e9m deseja argumentar contra essa inclus\u00e3o e verificar empiricamente se a altera\u00e7\u00e3o do texto ir\u00e1 de fato aumentar o n\u00famero de casos de pedofilia ou aumentar o casos de empregadores processados por alega\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o da orienta\u00e7\u00e3o sexual do empregado, basta utilizar esses dois estados como fonte de pesquisa. O que n\u00e3o pode \u00e9 simplesmente alegar que, por princ\u00edpios religiosos, homens e mulheres foram feitos para ficar juntos. Qualquer mente minimamente s\u00e3 sabe que o buraco \u00e9 muito mais embaixo. Bem mais l\u00e1 em baixo, Myrian. T\u00e3o l\u00e1 embaixo que eu acho que voc\u00ea vai precisar descer da <em>Motoka<\/em> para ver e entender.<\/div>\n<p>Siga o ***Cognando*** no <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\">Twitter<\/a> e no <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\">Facebook<\/a>, agora com 2 anos de exist\u00eancia! \ud83d\ude42<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+Personality+and+Social+Psychology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1037%2Fa0015997&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Inequality%2C+discrimination%2C+and+the+power+of+the+status+quo%3A+Direct+evidence+for+a+motivation+to+see+the+way+things+are+as+the+way+they+should+be.&amp;rft.issn=1939-1315&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=97&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=421&amp;rft.epage=434&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fdoi.apa.org%2Fgetdoi.cfm%3Fdoi%3D10.1037%2Fa0015997&amp;rft.au=Kay%2C+A.&amp;rft.au=Gaucher%2C+D.&amp;rft.au=Peach%2C+J.&amp;rft.au=Laurin%2C+K.&amp;rft.au=Friesen%2C+J.&amp;rft.au=Zanna%2C+M.&amp;rft.au=Spencer%2C+S.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Kay, A., Gaucher, D., Peach, J., Laurin, K., Friesen, J., Zanna, M., &amp; Spencer, S. (2009). Inequality, discrimination, and the power of the status quo: Direct evidence for a motivation to see the way things are as the way they should be. <span style=\"font-style: italic\">Journal of Personality and Social Psychology, 97<\/span> (3), 421-434 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1037\/a0015997\" rev=\"review\">10.1037\/a0015997<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me lembro da \u00faltima vez que fui ao circo. Lembro-me vagamente da experi\u00eancia de ficar na arquibancada esperando o show come\u00e7ar. 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