{"id":120,"date":"2011-10-03T05:21:00","date_gmt":"2011-10-03T11:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/10\/bilinguismo-vem-de-berco\/"},"modified":"2011-10-03T05:21:00","modified_gmt":"2011-10-03T11:21:00","slug":"bilinguismo-vem-de-berco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/10\/03\/bilinguismo-vem-de-berco\/","title":{"rendered":"Biling\u00fcismo vem de ber\u00e7o!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-yoQnn07chw0\/TolsgHnmRGI\/AAAAAAAAEJE\/aGa-iRRnTbk\/s1600\/headphone-baby.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-yoQnn07chw0\/TolsgHnmRGI\/AAAAAAAAEJE\/aGa-iRRnTbk\/s200\/headphone-baby.jpg\" alt=\"\" width=\"190\" height=\"200\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 2003, ainda quando eu era aluno de gradua\u00e7\u00e3o, eu ajudei uma amiga minha, D\u00e9bora H. Souza &#8212; hoje professora no Departamento de Psicologia da Federal de S\u00e3o Carlos &#8212; a coletar os dados para a pesquisa de doutoramento dela. Foi uma pesquisa bem interessante. Sem entrar em muitos detalhes (posso falar da pesquisa dela em uma outra postagem), basicamente, ela estava interessada na aquisi\u00e7\u00e3o dos conceitos (estados mentais) descritos pelos verbos ingleses <em>think<\/em> e <em>know<\/em>. Em portugu\u00eas, o verbo <em>think<\/em> pode ser traduzido por dois verbos: &#8220;pensar&#8221; (<em>I&#8217;m thinking right now<\/em>) ou &#8220;achar\/n\u00e3o ter certeza&#8221; (<em>I think I&#8217;ll come back later<\/em>). \u00a0O mesmo ocorre com o verbo <em>know<\/em>: pode ser traduzido como &#8220;conhecer&#8221; (<em>I know that guy<\/em>) ou &#8220;saber\/ter certeza&#8221; (<em>I know what&#8217;s inside the box<\/em>). Em termos bem gerais, a D\u00e9bora estava interessada em saber como se d\u00e1 a aquisi\u00e7\u00e3o desses termos em crian\u00e7as brasileiras e americanas.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Semana passada, durante uma &#8220;faxina&#8221; no nosso laborat\u00f3rio, eu encontrei, al\u00e9m de uma caixa de disquetes de instala\u00e7\u00e3o do SPSS (<em>old stuff<\/em>), um CD com os v\u00eddeos utilizados pela D\u00e9bora para a coleta dos dados dela. Nos v\u00eddeos, dois garotos interagiam em uma conversa onde eles utilizavam pseudo-verbos (verbos que n\u00e3o existem) para descrever os estados mentais <em>saber<\/em>,<em> conhecer<\/em>,<em> achar <\/em>e<em> pensar<\/em>. Como a D\u00e9bora coletou dados no Brasil e nos Estados Unidos, essas crian\u00e7as tinham que interagir tanto em ingl\u00eas quanto em portugu\u00eas. Para esses garotos, isso n\u00e3o foi problema: eles falavam portugu\u00eas e ingl\u00eas perfeitamente. Eles eram biling\u00fces. Mais especificamente, eles eram o que chamamos de\u00a0biling\u00fces\u00a0simult\u00e2neos (aqueles que aprendem as duas l\u00ednguas ao mesmo tempo).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Eu acho isso simplesmente fascinante. Acho fant\u00e1stico a maneira como crian\u00e7as expostas a mais de uma l\u00edngua (duas, tr\u00eas, at\u00e9 quatro) conseguem aprender todas as l\u00ednguas de maneira sistem\u00e1tica, sem esfor\u00e7o e se tornam competentes &#8212; falantes nativos &#8212; em todas l\u00ednguas. Mas afinal de contas, onde isso come\u00e7a? Existem muitas pesquisas mostrando que a prefer\u00eancia pela l\u00edngua materna come\u00e7a bem cedo, antes mesmo de nascermos. Isso mesmo. V\u00e1rias pesquisas mostram que, com apenas algumas horas de vida, as beb\u00eas preferem escutar sons da l\u00edngua materna do que sons de l\u00ednguas estrangeiras. Mas ser\u00e1 o que acontece quando existem duas ou mais l\u00ednguas maternas? Ser\u00e1 que beb\u00eas demonstram uma prefer\u00eancia espec\u00edfica?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essa foi a pergunta que um grupo de pesquisadores do Canad\u00e1 e da Fran\u00e7a tentaram responder. <em>Krista Byers-Heinlein<\/em> (Concordia University, Qu\u00e9bec), <em>Tracey Burns<\/em> (Organization for Economic Development, Fran\u00e7a) e <em>Janet Werker<\/em> (University of British Columbia, BC) investigaram a l\u00edngua de prefer\u00eancia de um grupo de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos (com no m\u00e1ximo 5 dias de vida) filhos de m\u00e3es monoling\u00fces e bilingues (Ingl\u00eas-Tagalog\/Filipino). Mas afinal, como se mede prefer\u00eancia de beb\u00eas? Uma t\u00e9cnica bastante utilizada \u00e9 a chamada &#8220;t\u00e9cnica de suc\u00e7\u00e3o&#8221;. Os pesquisadores d\u00e3o ao beb\u00ea uma chupeta especial que grava a press\u00e3o e a frequ\u00eancia com que o beb\u00ea &#8220;suga&#8221; a chupeta. Quanto maior a press\u00e3o e a frequ\u00eancia da suc\u00e7\u00e3o, maior o interesse do beb\u00ea no est\u00edmulo sendo apresentado (no caso dessa pesquisa, as l\u00ednguas Ingl\u00eas e Tagalog).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os pesquisadores encontraram que os beb\u00eas filhos de m\u00e3es monoling\u00fces mostraram uma prefer\u00eancia maior para o Ingl\u00eas do que para o Tagalog. No entanto, os beb\u00eas filhos de m\u00e3es biling\u00fces n\u00e3o mostraram prefer\u00eancia maior por nenhuma das duas l\u00ednguas, ou seja, as duas l\u00ednguas tinham o mesmo grau de prefer\u00eancia. Eles ainda testaram a capacidade dos beb\u00eas de diferenciarem as duas l\u00ednguas e encontraram que tanto os beb\u00eas biling\u00fces quanto os beb\u00eas monling\u00fces foram capazes de diferenciar entre as duas l\u00ednguas. Esse resultado demonstra que apesar de n\u00e3o mostrarem nenhuma prefer\u00eancia, as crian\u00e7as biling\u00fces &#8220;sabiam&#8221; que se tratava de duas l\u00ednguas diferentes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Apesar de ser ainda um dos primeiros estudos sobre percep\u00e7\u00e3o ling\u00fc\u00edstica de beb\u00eas biling\u00fces, os resultados mostram que a experi\u00eancia lingu\u00edstica pr\u00e9-natal de alguma maneira j\u00e1 influ\u00eancia suas prefer\u00eancias. Ou seja, cuidado com o que fala com o seu beb\u00ea, ainda que ele esteja na sua barriga! \ud83d\ude42<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Siga o Cognando no <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\">Facebook<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\">Twitter<\/a> e agora tamb\u00e9m no <a href=\"https:\/\/plus.google.com\/u\/0\/116765862286813546775\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Google +<\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F0956797609360758&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+Roots+of+Bilingualism+in+Newborns&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=21&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=343&amp;rft.epage=348&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fpss.sagepub.com%2Flookup%2Fdoi%2F10.1177%2F0956797609360758&amp;rft.au=Byers-Heinlein%2C+K.&amp;rft.au=Burns%2C+T.&amp;rft.au=Werker%2C+J.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Byers-Heinlein, K., Burns, T., &amp; Werker, J. (2010). The Roots of Bilingualism in Newborns <span style=\"font-style: italic\">Psychological Science, 21<\/span> (3), 343-348 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/0956797609360758\" rev=\"review\">10.1177\/0956797609360758<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2003, ainda quando eu era aluno de gradua\u00e7\u00e3o, eu ajudei uma amiga minha, D\u00e9bora H. 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