{"id":128,"date":"2011-12-26T05:43:00","date_gmt":"2011-12-26T08:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/12\/ta-com-raiva-nao-decida\/"},"modified":"2011-12-26T05:43:00","modified_gmt":"2011-12-26T08:43:00","slug":"ta-com-raiva-nao-decida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/12\/26\/ta-com-raiva-nao-decida\/","title":{"rendered":"T\u00e1 com raiva? N\u00e3o decida!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-AOlYFkXQwkY\/Tvgt27wZQxI\/AAAAAAAAE6Q\/_nIzIqezfts\/s1600\/angry+baby.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-AOlYFkXQwkY\/Tvgt27wZQxI\/AAAAAAAAE6Q\/_nIzIqezfts\/s200\/angry+baby.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"150\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tenho uma amiga que cursa Letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Semana passada, conversando com ela sobre disciplinas optativas (aquelas que n\u00e3o fazem parte da grade curricular do curso de Letras), sugeri a ela que fizesse alguma disciplina no curso de Psicologia da UFMG. Para ser mais\u00a0exato, sugeri a ela que cursasse a disciplina de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Estat\u00edstica &#8212; disciplina historicamente oferecida no departamento de Psicologia. Como procedimento l\u00f3gico, decidimos verificar o quadro de oferta de disciplinas no curso de Psicologia para o pr\u00f3ximo semestre letivo. Foi ent\u00e3o que come\u00e7amos a &#8220;<em>passar raiva<\/em>&#8220;: entramos na p\u00e1gina do curso de Psicologia com a esperan\u00e7a de encontrar um <em>link<\/em>\u00a0para o tal quadro. <em>Nada<\/em>. A p\u00e1gina do departamento, al\u00e9m de ser visualmente horr\u00edvel e de dif\u00edcil navega\u00e7\u00e3o &#8212; pouco intuitiva &#8212; est\u00e1 extremamente\u00a0desatualizada. Para se ter uma id\u00e9ia, depois de muito procurar, encontramos uma ementa da disciplina de estat\u00edstica ofertada em 1984. Isso mesmo: uma ementa de 27 anos atr\u00e1s (e se eu n\u00e3o estou enganado, essa \u00e9 a mais atual).<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Minha amiga logo desistiu. Eu n\u00e3o. Decidi ligar para o departamento. Obviamente, passei mais raiva: a pessoa que atendeu o telefone (n\u00e3o me lembro o nome do rapaz) parecia nem saber o que \u00e9 matr\u00edcula, disciplina, etc:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>rapaz:<\/strong> <em>essas coisa assim de matr\u00edcula, aula, etc n\u00e3o \u00e9 aqui n\u00e3o. Liga no colegiado.<\/em><\/div>\n<div><strong>eu:<\/strong>\u00a0<em>Ah, ok! Voc\u00ea pode me informar o telefone de l\u00e1?<\/em><\/div>\n<div>[Antes que eu terminasse de falar a palavra &#8220;telefone&#8221;, ele j\u00e1 tinha desligado o dele]<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Encontrei o telefone do colegiado. Liguei e fui atendido pela Magna. Corrigindo: liguei e fui <em>mal-atendido<\/em> pela Magna. Com um &#8220;bom-humor&#8221; invej\u00e1vel, Magna disse que n\u00e3o era poss\u00edvel saber oferta de disciplinas se eu n\u00e3o fosse aluno do curso de Psicologia. Disse que se eu quisesse, que eu fosse l\u00e1 no colegiado e solicitasse uma c\u00f3pia da lista de disciplinas. Super s\u00e9culo XV:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>Magna:<\/strong>\u00a0<em><span style=\"text-decoration: underline\">Pode ser<\/span> que voc\u00ea consiga assim.<\/em><\/div>\n<div>[Antes que eu explicasse que essa op\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria muito vi\u00e1vel para pessoas que n\u00e3o moram no Brasil &#8212; ou em Belo Horizonte &#8212; Magna desligou o telefone]<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Enfim, foram mais de 40 minutos e nada (at\u00e9 hoje n\u00e3o sei a oferta de disciplinas para o curso de Psicologia). Evidentemente fiquei com muita raiva! E agir com raiva n\u00e3o \u00e9 bom. Acabei gastando de 20 a 30 minutos do meu tempo tweetando sobre o incidente e divulgando mensagens de &#8220;raiva&#8221; no meu perfil do Google+.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Tomar decis\u00f5es quando se est\u00e1 com raiva n\u00e3o \u00e9 bom. Existe bastante pesquisa em Psicologia Cognitiva mostrando que nossas emo\u00e7\u00f5es afetam diretamente (e muitas vezes de maneira impl\u00edcita) as nossas decis\u00f5es e nossas a\u00e7\u00f5es. No entanto, muitas dessas &#8220;emo\u00e7\u00f5es&#8221; v\u00eam e v\u00e3o muito rapidamente. Sem contar casos altamente traum\u00e1ticos, muitos de n\u00f3s ficamos com raiva de algo por um per\u00edodo curto de tempo. Depois de algumas horas ou mesmo minutos, j\u00e1 n\u00e3o sentimos mais nada. Mas ser\u00e1 que nossas emo\u00e7\u00f5es (raiva, alegria, tristeza, etc.) s\u00e3o capazes de influenciar nossas decis\u00f5es, mesmo depois que elas se dissipam? Em outras palavras, mesmo depois que a raiva passa, ser\u00e1 que o que decidimos quando est\u00e1vamos com raiva tem alguma influ\u00eancia nas nossas decis\u00f5es futuras? E quais as consequ\u00eancias disso?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Essas perguntas foram investigadas pelos professores\u00a0<em>Eduardo Andrade<\/em>, do departamento de Marketing da <em>Haas School of Business<\/em> na Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley e\u00a0<em>Dan Ariely<\/em> da Universidade de Harvard. Eles pediram a um grupo de alunos que participassem de uma s\u00e9rie de <em>Ultimatum Games<\/em>. Esse jogo \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8220;experimento&#8221; de economia e envolve a divis\u00e3o de uma quantia em dinheiro. No jogo, h\u00e1 dois participantes: um que prop\u00f5e uma divis\u00e3o da quantia e um que aceita (ou n\u00e3o) a divis\u00e3o. Se a divis\u00e3o \u00e9 aceita, cada participante leva a quantia proposta. Se a divis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aceita, ningu\u00e9m leva nada. Exemplo: imagine que eu esteja jogando o <em>Ultimatum Game<\/em> com o <em>Dan Ariely<\/em>. Como proponente, a minha fun\u00e7\u00e3o \u00e9 dividir R$10 entre eu e ele. Eu posso propor qualquer divis\u00e3o que eu quiser (e.g. R$6 para mim e R$4 para o Dan, ou R$9 para mim e R$1 para o Dan). Assim que eu fa\u00e7o a proposta, o Dan tem a oportunidade de aceitar ou n\u00e3o. Se ele aceita, cada um recebe a quantia que eu propus. Se ele nega, eu n\u00e3o ganho nada e ele tamb\u00e9m n\u00e3o. Geralmente, as pessoas tendem a ser justas (R$5 para cada).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No estudo de Eduardo e Dan, eles encontraram que pessoas com raiva tendem a negar propostas injustas (e.g. R$7,50 para o proponente) com mais frequ\u00eancia do que as pessoas sem raiva ou felizes. Em outras palavras, se voc\u00ea est\u00e1 com raiva e algu\u00e9m te oferece apenas R$2,50 no <em>Ultimatum Game<\/em>, voc\u00ea tende a negar a oferta, de maneira que ningu\u00e9m ganha nada. Mas ser\u00e1 que mesmo depois que a raiva passa, essa sua decis\u00e3o de negar a proposta influencia decis\u00f5es futuras? No mesmo estudo, depois que a raiva passou, os participantes jogaram o <em>Ultimatum Game<\/em> novamente, mas dessa vez como proponentes, ou seja, dessa vez eles que propuseram a divis\u00e3o. O resultado foi que a oferta dos participantes que estavam com raiva antes foi mais &#8220;justa&#8221;(e.g., R$5 para cada um) do que a oferta dos participantes que estavam felizes antes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas porque isso aconteceu? E o que isso tem a ver com nossas decis\u00f5es quando estamos com raiva? N\u00f3s seres humanos temos uma tend\u00eancia a agir e tomar decis\u00f5es que sejam <em>consistentes<\/em>\u00a0com nossas com nossas a\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es anteriores. Por exemplo, se em uma segunda-feira algu\u00e9m te convence a usar uma blusa azul &#8212; mesmo que voc\u00ea n\u00e3o goste muito de azul &#8212; a possibilidade de que voc\u00ea seja convencido, na sexta-feira, a usar uma cal\u00e7a azul \u00e9 muito maior. Isso ocorre pois, implicitamente, voc\u00ea est\u00e1 tentando ter um <em>comportamento consistente<\/em>. Em outras palavras, quando estamos com raiva e tomamos uma decis\u00e3o, para manter um comportamento consistente, nossas decis\u00f5es futuras ser\u00e3o influenciadas pela decis\u00e3o que tomamos quando est\u00e1vamos com raiva. No exemplo do experimento, as pessoas que estavam com raiva e <em>negaram<\/em> a oferta injusta &#8212; mostrando que apreciam uma oferta &#8220;justa&#8221;&#8211; quando tiveram a chance de propor a divis\u00e3o, propuseram uma divis\u00e3o justa, pois essa decis\u00e3o \u00e9 consistente com a decis\u00e3o anterior (quando eles estavam com raiva). J\u00e1 as pessoas felizes que aceitaram mais propostas injustas no primeiro jogo, tamb\u00e9m mantiveram a consist\u00eancia e propuseram divis\u00f5es mais injustas no segundo jogo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Basicamente o estudo sugere que nossas emo\u00e7\u00f5es influenciam nossas decis\u00f5es mesmo depois que elas, as emo\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e3o mais presentes. Por isso, \u00e9 importante evitar tomar decis\u00f5es quando estamos com muita raiva, ou muito felizes, ou muito tristes, etc, pois, mesmo depois que essas emo\u00e7\u00f5es passam, a nossa tend\u00eancia em ser consistente nos for\u00e7ar\u00e1 a agir de maneira particular. Pensar bem antes de tomar qualquer decis\u00e3o \u00e9 sempre bom.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Cognando est\u00e1 com algumas novidades para \u00a02012. Para ficar por dentro dessas novidades, fiquem ligados no Cognando pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Twitter<\/a>, pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a> e\/ou pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/plus.google.com\/b\/116765862286813546775\/116765862286813546775\/posts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Google+<\/a>.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O Cognando deseja um 2012 feliz e produtivo para todos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Organizational+Behavior+and+Human+Decision+Processes&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1016%2Fj.obhdp.2009.02.003&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+enduring+impact+of+transient+emotions+on+decision+making&amp;rft.issn=07495978&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=109&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=1&amp;rft.epage=8&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0749597809000211&amp;rft.au=Andrade%2C+E.&amp;rft.au=Ariely%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Andrade, E., &amp; Ariely, D. (2009). The enduring impact of transient emotions on decision making <span style=\"font-style: italic\">Organizational Behavior and Human Decision Processes, 109<\/span> (1), 1-8 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.obhdp.2009.02.003\" rev=\"review\">10.1016\/j.obhdp.2009.02.003<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma amiga que cursa Letras na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 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