{"id":32,"date":"2010-03-21T04:03:00","date_gmt":"2010-03-21T07:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2010\/03\/as-vantagens-cognitivas-de-um-programa-de-imersao-em-lingua-estrangeira\/"},"modified":"2010-03-21T04:03:00","modified_gmt":"2010-03-21T07:03:00","slug":"as-vantagens-cognitivas-de-um-programa-de-imersao-em-lingua-estrangeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2010\/03\/21\/as-vantagens-cognitivas-de-um-programa-de-imersao-em-lingua-estrangeira\/","title":{"rendered":"As Vantagens Cognitivas de um Programa de Imers\u00e3o em L\u00edngua Estrangeira"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span>Uma das minhas principais linhas de pesquisa \u00e9 aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem. \u00c9 por isso que uma das coisas que mais gosto de fazer \u00e9 observar a maneira como crian\u00e7as aprendem a falar. \u00c9 ainda mais fascinante para mim &#8212; e super intrigante &#8212; a rapidez com que crian\u00e7as pequenas se tornam proficientes em uma l\u00edngua estrangeira. Com praticamente um ano &#8212; ou at\u00e9 menos &#8212; de &#8220;contato&#8221; com uma l\u00edngua estrangeira, os pequenos j\u00e1 se comunicam na l\u00edngua estrangeira (e obviamente na materna) com uma facilidade e profici\u00eancia que assustam.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>\u00c9 grande, em psicoling\u00fc\u00edstica, o n\u00famero de pesquisas sobre os processos que ocorrem na cabe\u00e7a de um falante bil\u00edngue. Essas pesquisas t\u00eam cada vez mais mostrado evid\u00eancia de que esses falantes ativam as duas l\u00ednguas (L1 &#8211; l\u00edngua materna e L2 &#8211; l\u00edngua estrangeira) simultaneamente durante a leitura, escuta e, surpreendentemente, durante a fala. Basicamente o que essas pesquisas mostram \u00e9 que n\u00e3o existe uma estrat\u00e9gia cognitiva autom\u00e1tica que &#8220;desliga&#8221; uma l\u00edngua enquanto a outra est\u00e1 sendo usada. \u00c9 por isso que falantes bil\u00edngues, na verdade, enfrentam um &#8220;desafio&#8221; cognitivo quando usam uma das l\u00ednguas que sabe. De certa maneira, \u00e9 esse desafio cognitivo enfrentado pelo falante bil\u00edngue que faz com que falantes bil\u00edngues tenham certas vantagens cognitivas (em termos de fun\u00e7\u00f5es executivas) quando comparados com falantes monol\u00edngues. Em outras palavras, falar mais de uma l\u00edngua faz bem traz vantagens cognitivas a longo prazo.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ao mesmo tempo que observamos crian\u00e7as aprendendo uma l\u00edngua estrangeira numa facilidade e rapidez assustadora, notamos que falantes adultos apresentam uma dificuldade muito grande em se tornarem proficientes em uma l\u00edngua estrangeira. Muita gente acredita no que chamamos de &#8220;per\u00edodo cr\u00edtico&#8221;, ou seja, se n\u00e3o aprender uma l\u00edngua estrangeira at\u00e9 uma certa idade, as chances de se tornar proficiente nessa l\u00edngua s\u00e3o poucas, quando nenhuma. \u00c9 como se existisse uma &#8220;ampulheta biol\u00f3gica&#8221; para aprender uma l\u00edngua estrangeira. Uma vez que a areia caiu toda, seu prazo venceu.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No entanto, o que pode criar essa dificuldade na aquisi\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua estrangeira para o adulto, pode n\u00e3o ser um portal biol\u00f3gico que se fecha depois de certo tempo, e sim uma competi\u00e7\u00e3o cognitiva entre as duas l\u00ednguas. Em outras palavras, \u00e9 mais dif\u00edcil para um adulto &#8220;desligar&#8221; a ativa\u00e7\u00e3o da sua L1, dificultando assim o uso da L2.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Muitas pessoas t\u00eam a cren\u00e7a de que para que um adulto se torne proficiente em uma l\u00edngua estrangeira \u00e9 necess\u00e1rio que esse adulto esteja imerso em um ambiente onde a l\u00edngua estrangeira em quest\u00e3o \u00e9 falada o tempo todo. Em outras palavras, um brasileiro adulto se torna mais proficiente em ingl\u00eas se morar nos Estados Unidos ou na Inglaterra, por exemplo. Por que ser\u00e1 que isso ocorre? Uma hip\u00f3tese seria que um ambiente de imers\u00e3o facilita a inibi\u00e7\u00e3o (desligamento) da L1, consequentemente, a ajuda no desenvolvimento da L2.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Jared Linck<\/em>, <em>Judith Krol<\/em>l &#8212; do Departamento de Psicologia da Universidade do Estado da Pensilv\u00e2nia &#8212; e <em>Gretchen Sunderman<\/em> &#8212; do Departamento de L\u00ednguas Modernas da Universidade do Estado da Fl\u00f3rida nos Estados Unidos &#8212; fizeram um estudo (publicado na Psychological Science) para testar essa hip\u00f3tese. Basicamente eles testaram dois grupos de aprendizes de espanhol (falantes nativos de ingl\u00eas): um grupo que estudou espanhol durante seis meses na Espanha e um grupo que estudou espanhol durante seis meses em uma universidade dos Estados Unidos. Cada grupo participou de uma tarefa de compreens\u00e3o conhecida como <em>translation recognition task<\/em> e de uma tarefa de produ\u00e7\u00e3o (<em>verbal fluency task<\/em>). Al\u00e9m disso, os participants fizeram tarefas de mem\u00f3ria (<em>reading-span<\/em>) e de controle inibit\u00f3rio (<em>Simon effect task<\/em>).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A tarefa de compreens\u00e3o consiste na apresenta\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de pares de palavras &#8212; uma na l\u00edngua estrangeira e sua tradu\u00e7\u00e3o na l\u00edngua materna (i.e., <em>cara-face<\/em>). Ao ver o par, o participante deve indicar se a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta ou n\u00e3o. No entanto, durante a tarefa s\u00e3o introduzidos alguns pares que:<\/div>\n<div><\/div>\n<div>(1) apresentam uma tradu\u00e7\u00e3o incorreta, por\u00e9m a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 parecida com a palavra na l\u00edngua materna (i.e., <em>cara-card<\/em>)<\/div>\n<div><\/div>\n<div>(2) apresentam uma tradu\u00e7\u00e3o incorreta, por\u00e9m a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 semanticamente relacionada com a palavra na l\u00edngua materna (i.e., <em>cara-head<\/em>)<\/div>\n<div><\/div>\n<div>(3) apresentam uma tradu\u00e7\u00e3o incorreta, por\u00e9m a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 fonologicamente semelhante a tradu\u00e7\u00e3o correta na l\u00edngua estrangeira (i.e., <em>cara-fact<\/em>)<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Pesquisas mostram que falantes proficiente em uma l\u00edngua estrangeira s\u00e3o menos sens\u00edveis a distratores do tipo (3). Isso ocorre pois falantes proficientes devem ser mais capazes de &#8220;inibir&#8221; a l\u00edngua materna.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A tarefa de produ\u00e7\u00e3o verbal consiste na produ\u00e7\u00e3o de o m\u00e1ximo de palavras poss\u00edveis de uma dada categoria. Por exemplo, em 30 segundos, os participantes tinham que falar o maior n\u00famero poss\u00edvel de animais. Pesquisas mostram que falantes bil\u00edngues produzem menos palavras por categoria, tanto na l\u00edngua materna quanto na l\u00edngua estrangeira.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A tarefa de mem\u00f3ria (<em>reading-span<\/em>) \u00e9 cl\u00e1ssica e consiste em mostrar os participantes uma s\u00e9rie de frases e palavras para serem lembradas. O n\u00famero de palavras lembradas corresponde ao &#8220;tamanho&#8221; da mem\u00f3ria de curto-prazo. A tarefa de controle inibit\u00f3rio \u00e9 parecida com o famoso <em>Stroop test<\/em>, onde voc\u00ea v\u00ea a palavra VERDE escrita de vermelho e precisa dizer o nome da cor da letra e n\u00e3o o que est\u00e1 escrito. Em outras palavras, voc\u00ea precisa inibir um processo para engajar em outro.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os resultados do estudo mostraram que em todas as tarefas lingu\u00edsticas, o acesso a L1 foi menor para o grupo que participou da imers\u00e3o. Esse padr\u00e3o continuou mesmo ap\u00f3s o controle de outras vari\u00e1veis, tais como profici\u00eancia e experi\u00eancia lingu\u00edstica com a l\u00edngua estrangeira anterior ao programa de imers\u00e3o (vale a pena dar uma olhada no estudo original e na t\u00e9cnica estat\u00edstica utilizada pelos autores &#8212; <em>Multilevel Modeling<\/em>). Muita gente pode pensar que esse resultado ocorreu n\u00e3o por que houve inibi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua materna e sim por que houve uma maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua estrangeira (um efeito de frequ\u00eancia, quase). Para controlar isso, os autores testaram uma amostra dos participantes que fizeram o programa de imers\u00e3o seis meses depois que retornam aos Estados Unidos. O padr\u00e3o dos resultados foi praticamente o mesmo. Se somente o contato com a l\u00edngua estrangeira fosse respons\u00e1vel pelo padr\u00e3o de resultado, esperaria-se que ao retornarem aos Estados Unidos a inibi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua materna seria novamente dificultada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outros controles interessantes e outras an\u00e1lises foram feitas no estudo. Vale a pena dar uma olhada. Basicamente o estudo mostra que, a vantagem que um programa de imers\u00e3o tem para a aquisi\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua estrangeira n\u00e3o est\u00e1 na simples exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 essa l\u00edngua, e sim no impacto que essa exposi\u00e7\u00e3o tem no controle inibit\u00f3rio da sua l\u00edngua materna. Mais uma vez, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 uma l\u00edngua estrangeira traz vantagens cognitivas que nenhuma outra tarefa pode trazer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A mensagem que fica \u00e9: quando n\u00e3o estiver lendo o ***Cognando*** v\u00e1 estudar uma l\u00edngua estrangeira! \ud83d\ude42<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+science+%3A+a+journal+of+the+American+Psychological+Society+%2F+APS&amp;rft_id=info%3Apmid%2F19906121&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Losing+Access+to+the+Native+Language+While+Immersed+in+a+Second+Language%3A+Evidence+for+the+Role+of+Inhibition+in+Second-Language+Learning.&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2009&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Linck+JA&amp;rft.au=Kroll+JF&amp;rft.au=Sunderman+G&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Linck JA, Kroll JF, &amp; Sunderman G (2009). Losing Access to the Native Language While Immersed in a Second Language: Evidence for the Role of Inhibition in Second-Language Learning. <span style=\"font-style: italic\">Psychological science : a journal of the American Psychological Society \/ APS<\/span> PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/19906121\" rev=\"review\">19906121<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das minhas principais linhas de pesquisa \u00e9 aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem. \u00c9 por isso que uma das coisas que mais gosto de fazer \u00e9 observar a maneira como crian\u00e7as aprendem a falar. \u00c9 ainda mais fascinante para mim &#8212; e &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2010\/03\/21\/as-vantagens-cognitivas-de-um-programa-de-imersao-em-lingua-estrangeira\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":552,"featured_media":33,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-32","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2012\/01\/rb2_large_gray13.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/552"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=32"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/32\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/media\/33"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=32"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=32"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=32"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}