{"id":34,"date":"2010-07-18T10:19:00","date_gmt":"2010-07-18T13:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2010\/07\/deus-e-o-acaso-sob-uma-perspectiva-cognitiva\/"},"modified":"2010-07-18T10:19:00","modified_gmt":"2010-07-18T13:19:00","slug":"deus-e-o-acaso-sob-uma-perspectiva-cognitiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2010\/07\/18\/deus-e-o-acaso-sob-uma-perspectiva-cognitiva\/","title":{"rendered":"Deus e o Acaso sob uma Perspectiva Cognitiva"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span>&#8220;Nada na vida acontece por acaso&#8221;. Toda vez que algo me acontecia (um problema no trabalho, um resultado negativo de uma prova, etc.), minha m\u00e3e me dizia essa frase. Se era apenas para consolar, eu n\u00e3o sei, mas a verdade \u00e9 que at\u00e9 mesmo a exist\u00eancia dessa frase n\u00e3o \u00e9 por acaso.<\/p>\n<p>N\u00f3s, seres humanos, n\u00e3o gostamos do acaso. Sentimentos de acaso, bagun\u00e7a e caos s\u00e3o sentimentos aversivos. Sentimentos assim incomodam o nosso sistema cognitivo. O ser humano est\u00e1 o tempo todo (desde crian\u00e7a) buscando compreender e estabelecer rela\u00e7\u00f5es causais entre as coisas que acontecem. Dizer que A ou B acontecem por acaso n\u00e3o satifaz nossa cogni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas esses sentimentos existem. E como seres adaptativos, estamos sempre buscando lidar com eles. Uma das tentativas de lidar com os sentimentos causados pela id\u00e9ia do acaso \u00e9 a cren\u00e7a na exist\u00eancia de um Deus controlador, ou uma for\u00e7a espiritual superior que controla e coordena todos os acontecimentos e a\u00e7\u00f5es humanas. Em outras palavras, acreditar em um Deus controlador funciona como uma excelente ferramenta para combater o sentimento aversivo e inc\u00f4modo causado pela id\u00e9ia do acaso.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese foi testada experimentalmente por um grupo de pesquisadores da Universidade de Waterloo no Canad\u00e1. <span style=\"font-style: italic\">Aaron Kay<\/span>, <span style=\"font-style: italic\">David Moscovitch<\/span> e <span style=\"font-style: italic\">Kristin Laurin<\/span> estavam interessados em saber se uma manipula\u00e7\u00e3o experimental (<span style=\"font-style: italic\">prime<\/span>) destinada a eliciar sentimentos sobre o acaso tamb\u00e9m aumentaria a cren\u00e7a em fontes sobrenaturais de controle. Colocado de forma mais simples, a pergunta desses pesquisadores foi a seguinte: se fizermos com que as pessoas sintam que as coisas acontecem por acaso, ser\u00e1 que isso aumenta a cren\u00e7a de que existe uma for\u00e7a sobrenatural (i.e., Deus) que tudo controla?<\/p>\n<p>Para testar essa hip\u00f3tese, os pesquisadores recrutaram pessoas para participarem de um estudo que supostamente investigaria &#8220;os efeitos de um suplemento medicinal nas percep\u00e7\u00f5es de cores&#8221;. Eles falaram com os participantes que eles tomariam uma p\u00edlula (suplemento medicinal) e depois fariam uma s\u00e9rie de atividades de percep\u00e7\u00e3o de cores. No entanto, para metade dos participantes, os pesquisadores disseram que a p\u00edlula poderia causar um pequeno efeito colateral: ansiedade. Para a outra metade, os pesquisadores disseram que n\u00e3o haveria nenhum tipo de efeito colateral. Ap\u00f3s tomar a p\u00edlula, os participantes deveriam responder a um question\u00e1rio (supostamente n\u00e3o-relacionado com o experimento) enquanto esperavam o efeito da p\u00edlula acontencer.<\/p>\n<p>O question\u00e1rio (que na verdade era o experimento propriamente dito) consistia de um grupo de palavras que os participantes tinham que utilizar para formar frases. Para metade dos participantes, as palavras eram palavras relacionadas com a id\u00e9ia do acaso (chance, ca\u00f3tico, sorte, desordem, etc.). Para a outra metade, as palavras n\u00e3o tinham essa conota\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s executar essa tarefa, os participantes responderam a uma s\u00e9rie de perguntas que acessavam a cren\u00e7a deles em Deus e outras for\u00e7as espirituais.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia b\u00e1sica do experimento era a seguinte: o grupo de pessoas que leu as palavras relacionadas \u00e0 id\u00e9ia do acaso ficariam &#8220;ansiosas&#8221; (sentimento causados pela id\u00e9ia do acaso) e isso supostamente aumentaria a probabilidade de que essas pessoas acreditassem em Deus e outras for\u00e7as sobrenaturais. No entanto, se essa ansiedade pudesse ser atribu\u00edda \u00e1 uma outra fonte (a p\u00edlula, por exemplo), a cren\u00e7a em Deus e outras for\u00e7as sobrenaturais seria menor. Em outras palavras, eles queriam saber se quando n\u00e3o sabemos a causa de algum acontecimento (o que elicia sentimentos do acaso), atribu\u00edmos causa \u00e0 uma for\u00e7a espiritual\/sobrenatural maior (Deus \u00e9 a causa. Ele quis assim). Mas se sabemos das causas dos acontecimentos, essa atribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente acontece.<\/p>\n<p>Os resultados que os pesquisadores encontraram foi exatamente esse: no geral, o grupo de pessoas que leu as palavras relacionadas \u00e0 id\u00e9ia do acaso tendeu mais a acreditar em Deus e for\u00e7as sobrenaturais quando comparado com o grupo de pessoas que leu as palavras controle (n\u00e3o-relacionadas com a id\u00e9ia do acaso). No entanto, esse efeito experimental desapareceu quando a causa da ansiedade poderia ser atribu\u00edda \u00e0 p\u00edlula (o grupo que tomou a p\u00edlula e foram informados sobre o efeito colateral). Todas essas diferen\u00e7as foram estatisticamente significativas.<\/p>\n<p>O estudo sugere que a cren\u00e7a em fontes sobrenaturais de controle parece sim funcionar como uma defesa cognitiva ao sentimento aversivo causado pela id\u00e9ia de que as coisas acontecem por acaso. \u00c9 cada vez maior, em Psicologia Cognitiva, o n\u00famero de pesquisas que busca compreender as bases cognitivas que permitem que os seres humanos lidem com as cren\u00e7as no sobrenatural, com pensamentos e atitudes religiosas, com supersti\u00e7\u00f5es e com a id\u00e9ia de que existe uma for\u00e7a superior (Deus, por exemplo) que controla tudo e todos.<\/p>\n<p>Esse estudo, de fato, contribui para esse corpo de pesquisa e, certamente, essa pesquisa n\u00e3o aconteceu por acaso. \ud83d\ude42<\/p>\n<p>Reference:<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+science+%3A+a+journal+of+the+American+Psychological+Society+%2F+APS&amp;rft_id=info%3Apmid%2F20424048&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Randomness%2C+attributions+of+arousal%2C+and+belief+in+god.&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=21&amp;rft.issue=2&amp;rft.spage=216&amp;rft.epage=8&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Kay+AC&amp;rft.au=Moscovitch+DA&amp;rft.au=Laurin+K&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Kay AC, Moscovitch DA, &amp; Laurin K (2010). Randomness, attributions of arousal, and belief in god. <span style=\"font-style: italic\">Psychological science : a journal of the American Psychological Society \/ APS, 21<\/span> (2), 216-8 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20424048\" rev=\"review\">20424048<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Nada na vida acontece por acaso&#8221;. Toda vez que algo me acontecia (um problema no trabalho, um resultado negativo de uma prova, etc.), minha m\u00e3e me dizia essa frase. 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