{"id":475,"date":"2012-07-08T21:46:53","date_gmt":"2012-07-09T03:46:53","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/?p=475"},"modified":"2012-07-08T21:46:53","modified_gmt":"2012-07-09T03:46:53","slug":"vous-voulez-parier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2012\/07\/08\/vous-voulez-parier\/","title":{"rendered":"Vous voulez parier?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2012\/07\/vous-voulez-parier\/decision\/\" rel=\"attachment wp-att-476\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-476\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2012\/07\/decision.jpeg\" alt=\"\" width=\"166\" height=\"182\" \/><\/a>Tem muita gente nesse mundo que sabe falar uma l\u00edngua estrangeira. E apesar da grande varia\u00e7\u00e3o no n\u00edvel de profici\u00eancia das pessoas, a verdade \u00e9 que muita gente consegue &#8220;se virar&#8221; sem problemas em uma outra l\u00edngua que n\u00e3o a l\u00edngua materna. Seja em portunhol, em ingl\u00eas tabajara ou o franc\u00eas macarr\u00f4nico, muitas vezes o &#8220;<em>embromation<\/em>&#8221; funciona.<\/p>\n<p>Apesar de existir, para v\u00e1rias l\u00ednguas, testes padronizados que mensuram a profici\u00eancia de falantes n\u00e3o-nativos (e que levam em considera\u00e7\u00e3o v\u00e1rios aspectos que s\u00e3o relevantes linguisticamente), as pessoas leigas costumam medir sua profici\u00eancia de uma forma completamente diferente. E eu acho isso muito curioso! Ontem, por exemplo, eu estava em um caf\u00e9 tendo uma reuni\u00e3o via Skype com alguns colaboradores que tenho em Montr\u00e9al, no Canad\u00e1. A conversa estava sendo toda em franc\u00eas (bom, pelo menos era a l\u00edngua que <em>eles<\/em> estavam falando comigo). Quando desliguei a liga\u00e7\u00e3o, uma senhora na mesa ao lado come\u00e7ou a conversar comigo em franc\u00eas. Quando eu disse a ela que eu n\u00e3o era t\u00e3o proficiente assim, ela logo perguntou: &#8220;<em>Mas voc\u00ea pensa em portugu\u00eas ou em franc\u00eas?<\/em>&#8221; \u00c9 como se pensar em uma outra l\u00edngua fosse o que determinasse o seu n\u00edvel de profici\u00eancia naquela l\u00edngua. E n\u00e3o s\u00f3 isso! Ser\u00e1 que pensamos diferente quando falamos l\u00ednguas diferentes?<\/p>\n<p><em>Boaz Keysar<\/em> e um grupo de pesquisadores no Departamento de Psicologia da Universidade de Chicago fizeram uma s\u00e9rie de estudos para investigar exatamente essa pergunta. Quando temos que decidir alguma coisa, temos basicamente dois tipos de processos cognitivos que podemos utilizar. Podemos utilizar uma forma de pensar mais &#8220;anal\u00edtica&#8221; e\/ou &#8220;sistem\u00e1tica&#8221; ou podemos utilizar uma forma de pensar mais &#8220;intuitiva&#8221; e\/ou &#8220;heur\u00edstica&#8221;. S\u00e3o v\u00e1rios os fatores que influenciam que tipo de pensar utilizamos. Quando estamos cansados, por exemplo, temos uma tend\u00eancia maior a pensar de maneira mais intuitiva, ao passo que quando nos distanciamos emocionalmente do objeto de an\u00e1lise, pensamos de maneira mais anal\u00edtica. Ser\u00e1 que a l\u00edngua que utilizamos tamb\u00e9m modifica a nossa forma de pensar?<\/p>\n<p>Para testar isso, Boaz deu aos participantes da pesquisa uma s\u00e9rie de tarefas de tomada de decis\u00e3o na l\u00edngua nativa deles ou em uma l\u00edngua estrangeira, e depois verificou se havia alguma diferen\u00e7a no padr\u00e3o de respostas das pessoas. Em geral, temos uma tend\u00eancia a tomar decis\u00f5es que evitam perdas. No entanto, as vezes essa tend\u00eancia muda quando mudamos o modo como o problema \u00e9 apresentando. Por exemplo: imagine que eu digo a voc\u00ea que no hospital X existem 600 pessoas doentes. Voc\u00ea precisa escolher o rem\u00e9dio (A ou B) que quer utilizar para essas pessoas. Com o\u00a0<em>rem\u00e9dio A<\/em> voc\u00ea vai salvar 200 vidas e com o <em>rem\u00e9dio B<\/em> voc\u00ea tem uma chance de salvar todas ou nenhuma. Geralmente as pessoas escolheriam o <em>rem\u00e9dio A<\/em>, por uma avers\u00e3o \u00e0 perda. No entanto se eu disser que com o <em>rem\u00e9dio A<\/em> voc\u00ea perde 400 pacientes e com o <em>rem\u00e9dio B<\/em> voc\u00ea pode perder todos ou nenhum, nesse caso as pessoas tendem a preferir o <em>rem\u00e9dio B<\/em>. Note, no entanto, que a quantidade de pessoas que sobrevivem com o <em>rem\u00e9dio A<\/em> \u00e9 a mesma nas duas situa\u00e7\u00f5es. Esse fen\u00f4nemo \u00e9 conhecido como &#8220;<em>efeito de enquadramento<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Boaz deu uma s\u00e9rie de problemas semelhantes a esse na l\u00edngua nativa do participante ou em uma l\u00edngua estrangeira. Os resultados mostraram que esse <em>efeito de enquadramento<\/em>\u00a0simplesmente desapareceu quando os participantes fizeram a tarefa em uma l\u00edngua estrangeira, ou seja, os participantes pareciam estar utilizando um modo de pensar mais anal\u00edtico e n\u00e3o intuitivo. Para explorar essa possibilidade, Boaz fez mais um outro estudo interessante. Ele deu a cada participante um total de $15. Durante o experimento, Boaz apresentava ao participante uma s\u00e9rie de oportunidades (na verdade, 15 oportunidades) para apostar $1 em um jogo de cara\/coroa. Para cada aposta, se o participante ganhasse, ele ficaria com o $1 que ele apostou e ainda ganharia mais $1,50. Se ele perdesse, ele perderia o $1 que apostou e n\u00e3o ganharia nada.<\/p>\n<p>As apostas foram apresentadas na l\u00edngua nativa do participante ou em uma l\u00edngua estrangeira. Os resultados mostraram que as pessoas que ouviram sobre as apostas na l\u00edngua estrangeira apostaram muito mais do que as pessoas que escutaram as apostas na l\u00edngua nativa, ou seja, eles demonstraram uma menor avers\u00e3o a perdas (o que, no caso da tarefa, maximizava os ganhos).<\/p>\n<p>Mas no final das contas, por que isso acontece? Para Boaz, o uso de uma l\u00edngua estrangeira reduz o que os pesquisadores chamam de <em>resson\u00e2ncia emocional<\/em>\u00a0que muitas vezes est\u00e1 associada \u00e0 tomada de decis\u00f5es mais intuitivas e heur\u00edsticas. \u00c9 como se o nosso sistema cognitivo se distanciasse de qualquer influ\u00eancia emocional quando processa uma l\u00edngua estrangeira.<\/p>\n<p>No final das contas, a dica que fica \u00e9: cuidado ao ir \u00e0 Las Vegas se ingl\u00eas n\u00e3o for sua l\u00edngua nativa! \ud83d\ude42<\/p>\n<p>N\u00e3o deixe de seguir o Cognando no <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognandoo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Facebook<\/a>, <a href=\"http:\/\/twitter.com\/cognando\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Twitter<\/a> e <a href=\"https:\/\/plus.google.com\/u\/0\/b\/116765862286813546775\/116765862286813546775\/posts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Google+<\/a><\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F0956797611432178&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+Foreign-Language+Effect+%3A+Thinking+in+a+Foreign+Tongue+Reduces+Decision+Biases&amp;rft.issn=&amp;rft.date=2012&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Boaz+Keysar&amp;rft.au=Sayuri+L.+Hayakawa&amp;rft.au=Sun+Gyu+An&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Boaz Keysar, Sayuri L. Hayakawa, &amp; Sun Gyu An (2012). The Foreign-Language Effect : Thinking in a Foreign Tongue Reduces Decision Biases <span style=\"font-style: italic\">Psychological Science<\/span> DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/0956797611432178\" rev=\"review\">10.1177\/0956797611432178<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem muita gente nesse mundo que sabe falar uma l\u00edngua estrangeira. 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