{"id":489,"date":"2012-09-22T19:24:31","date_gmt":"2012-09-23T01:24:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/?p=489"},"modified":"2012-09-22T19:24:31","modified_gmt":"2012-09-23T01:24:31","slug":"quanto-mais-dificil-de-ler-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2012\/09\/22\/quanto-mais-dificil-de-ler-melhor\/","title":{"rendered":"Quanto mais dif\u00edcil de ler, melhor!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2012\/09\/quanto-mais-dificil-de-ler-melhor\/quadro\/\" rel=\"attachment wp-att-491\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft  wp-image-491\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2012\/09\/quadro.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"202\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2012\/09\/quadro.jpeg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2012\/09\/quadro-300x202.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>J\u00e1 tem bastante tempo que leciono estat\u00edstica e an\u00e1lise quantitativa de dados. Lembro uma vez que estava falando com meus alunos sobre processos estoc\u00e1sticos, Cadeia de Markov (<em>MCMC<\/em>), etc. e, depois de alguns minutos de explica\u00e7\u00e3o e exemplos no quadro, perguntei a eles quem tinha alguma pergunta e\/ou coment\u00e1rio. Uma aluna levanta a m\u00e3o e diz: &#8220;<em>Esse trem j\u00e1 \u00e9 muito complicado e, pra dificultar mais, sua letra \u00e9 muito feia. N\u00e3o consigo entender nada que voc\u00ea escreve<\/em>&#8220;. Achei digno! Mas ser\u00e1 que letra feia de professor realmente atrapalha o aprendizado do aluno?<\/p>\n<p>Geralmente a dificuldade associada \u00e0 forma como percebemos certos est\u00edmulos influencia diretamente a forma como processamos o conte\u00fado desse est\u00edmulo. T\u00e1 bom, eu explico: imagine um texto impresso em uma fonte super dif\u00edcil de ler. A dificuldade associada a leitura dessa fonte vai fazer com que voc\u00ea goste menos do texto, <em>independentemente<\/em> do assunto dele. Outro exemplo: se algu\u00e9m tenta te convencer que o Atl\u00e9tico Mineiro \u00e9 o melhor time do Brasil e para isso usa um texto escrito em uma fonte mais dif\u00edcil de ler, as chances de voc\u00ea acreditar nesse fato s\u00e3o bem pequenas, ao passo que se a mesma informa\u00e7\u00e3o for oferecida em uma fonte mais clara e f\u00e1cil de ler, as chances de voc\u00ea &#8220;comprar&#8221; a ideia s\u00e3o bem maiores. Ent\u00e3o, apesar de saber que aluno sempre culpa o professor pelo p\u00e9ssimo desempenho, \u00e9 poss\u00edvel sim que letra feia do professor fa\u00e7a com que gostemos menos da disciplina (ou do assunto) que ele ensina.<\/p>\n<p>No entanto, existem algumas pesquisas mostrando que informa\u00e7\u00f5es oferecidas com algum n\u00edvel de dificuldade perceptual &#8212; uma fonte mais dif\u00edcil de ler, por exemplo &#8212; s\u00e3o processadas de maneira menos intuitiva, ou seja, s\u00e3o processadas de forma mais anal\u00edtica e menos superficial. Imagine o seguinte problema: <em>uma bala e um pirulito custam juntos R$ 1,10. O pirulito custa R$ 1,00 a mais que a bala. Quanto custa a bala?<\/em> Quando utilizamos a intui\u00e7\u00e3o para resolver tal problema, temos a tend\u00eancia de responder que a bala custa R$ 0,10. No entanto, se engajamos em um pensamento mais anal\u00edtico, percebemos que, na verdade, a bala custa R$ 0,05. O que as pesquisas mostram \u00e9 que, quando um problema desse tipo \u00e9 apresentando com uma fonte mais dif\u00edcil de ler, as pessoas pensam mais analiticamente e acertam mais, ao passo que quando o mesmo problema \u00e9 apresentado com uma fonte mais f\u00e1cil, as pessoas pensam mais intuitivamente e erram mais.<\/p>\n<p>Todos sabemos que para aprender alguma coisa precisamos engajar em pensamentos mais anal\u00edticos, ou seja, precisamos processar informa\u00e7\u00e3o de maneira mais profunda e menos superficial. E se uma fonte mais dif\u00edcil influencia essa forma de pensar, fontes mais dif\u00edceis de ler devem fazer com que as pessoas aprendam mais do que fontes mais claras e f\u00e1ceis. Para testar essa hip\u00f3tese louca, <em>Connor Diemand-Yauman<\/em> (Universidade de Princeton), <em>Danny Oppenheimer<\/em> (agora na Escola de Neg\u00f3cios da UCLA) e <em>Erikka Vaughan<\/em> (da Universidade de Indiana) testaram o aprendizado e a mem\u00f3ria de pessoas quando expostas a fontes f\u00e1ceis e dif\u00edceis de ler.<\/p>\n<p>No primeiro experimento, eles apresentaram aos participantes descri\u00e7\u00f5es de uma s\u00e9rie de &#8220;animais&#8221; desconhecidos. Cada um desses animais possu\u00eda certas caracter\u00edsticas que os participantes tinham que ler e lembrar mais tarde. Metade dos participantes viram as descri\u00e7\u00f5es em uma fonte clara e f\u00e1cil de ler. A outra metade viu as mesmas descri\u00e7\u00f5es, mas com uma fonte mais dif\u00edcil e menos clara. Os resultados mostraram que, ap\u00f3s 15 minutos da leitura das descri\u00e7\u00f5es, os participantes que leram a fonte mais dif\u00edcil lembraram mais caracter\u00edsticas do que os participantes que leram as descri\u00e7\u00f5es na fonte mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Para replicar esse efeito em um ambiente mais natural\u00edstico, os pesquisadores testaram alunos de um col\u00e9gio em Ohio. Eles pediram aos professores que enviassem para eles os materiais que utilizariam para ensinar certos conte\u00fados (qu\u00edmica, ingl\u00eas, hist\u00f3ria, etc.). Os pesquisadores ent\u00e3o modificaram a fonte desses materias, colocando uma fonte mais dif\u00edcil de ler. Metade dos alunos receberam o material no original &#8212; \u00a0com uma fonte mais clara &#8212; e a outra metade recebeu o material com a fonte mais dif\u00edcil. Ao final do ano letivo, os pesquisadores compararam o desempenho dos alunos nos dois grupos. Os alunos que receberam o material com fonte mais dif\u00edcil tiveram um desempenho significativamente superior aos alunos que receberam o mesmo material escrito com uma fonte mais f\u00e1cil. Intrigante, n\u00e3o?<\/p>\n<p>O que esses estudos sugerem \u00e9 que se seu professor tiver a letra feia, isso na verdade pode ajudar voc\u00ea a aprender melhor a mat\u00e9ria que ele ensina &#8212; ou pelo menos vai fazer com que voc\u00ea processe a informa\u00e7\u00e3o de maneira mais anal\u00edtica e menos superficial. Obviamente, isso s\u00f3 vai acontecer desde que o material possa ser lido para come\u00e7o de conversa. E dando uma olhada nas notas daquela minha turma, a aluna que disse que minha letra era feia ficou entre os alunos com melhor desempenho na turma (top 10%).<\/p>\n<p>Sigam o Cognando no <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\">Twitter<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognandoo\">Facebook<\/a> e <a href=\"https:\/\/plus.google.com\/116765862286813546775\/posts\">Google+<\/a><\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Cognition&amp;rft_id=info%3Apmid%2F21040910&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Fortune+favors+the+bold+%28and+the+Italicized%29%3A+effects+of+disfluency+on+educational+outcomes.&amp;rft.issn=0010-0277&amp;rft.date=2011&amp;rft.volume=118&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=111&amp;rft.epage=5&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Diemand-Yauman+C&amp;rft.au=Oppenheimer+DM&amp;rft.au=Vaughan+EB&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Diemand-Yauman C, Oppenheimer DM, &amp; Vaughan EB (2011). Fortune favors the bold (and the Italicized): effects of disfluency on educational outcomes. <span style=\"font-style: italic\">Cognition, 118<\/span> (1), 111-5 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/21040910\" rev=\"review\">21040910<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 tem bastante tempo que leciono estat\u00edstica e an\u00e1lise quantitativa de dados. 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