{"id":54,"date":"2010-11-25T00:07:00","date_gmt":"2010-11-25T03:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2010\/11\/deixem-que-as-criancas-perguntem\/"},"modified":"2010-11-25T00:07:00","modified_gmt":"2010-11-25T03:07:00","slug":"deixem-que-as-criancas-perguntem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2010\/11\/25\/deixem-que-as-criancas-perguntem\/","title":{"rendered":"Deixem Que as Crian\u00e7as Perguntem."},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/div>\n<p>N\u00f3s seres humanos gostamos de saber o porqu\u00ea de tudo. Quem de n\u00f3s nunca conversou com uma crian\u00e7a curiosa em saber por que o c\u00e9u \u00e1 azul, ou por que a luz acende quando apertamos o interruptor? Em outras palavras, desde cedo queremos sempre saber a causa das coisas. E mais interessante ainda, j\u00e1 aos tr\u00eas anos j\u00e1 explicamos as causas das coisas, ou o porqu\u00ea que as coisas acontecem (pergunte a uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos por que o c\u00e9u \u00e9 azul e tenho certeza que ter\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o bem pl\u00e1us\u00edvel &#8212; pelo menos para ela).<\/p>\n<p>Explicar o porqu\u00ea que as coisas acontecem \u00e9, na verdade, uma atividade intelectual muito boa e importante para o desenvolvimento da crian\u00e7a. V\u00e1rios estudos mostram, por exemplo, que as crian\u00e7as apredem matem\u00e1tica muito mais facilmente quando &#8220;explicam&#8221; um conceito, em oposi\u00e7\u00e3o a quando elas apenas &#8220;l\u00eaem&#8221; ou &#8220;escutam&#8221; uma explica\u00e7\u00e3o sobre esse conceito. Por isso \u00e9 importante que desde cedo incentivar o ato de criar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Basicamente, existem dois tipos de eventos que as crian\u00e7as podem explicar. Um evento que \u00e9 consistente com o conhecimento anterior que a crian\u00e7a j\u00e1 possui e um acontecimento que \u00e9 inconsistente com o conhecimento que a crian\u00e7a tem. Um exemplo: imagine que uma crian\u00e7a veja voc\u00ea apertar o interruptor para acender a luz do quarto. Como ela j\u00e1 viu voc\u00ea fazendo isso v\u00e1rias vezes antes, \u00e9 parte do conhecimento pr\u00e9vio dela que a luz vai acenda. Isso \u00e9 um acontecimento consistente com o conhecimento pr\u00e9vio da crian\u00e7a. Imagine, no entanto, que ao apertar o interruptor, a televis\u00e3o ligue. Isso \u00e9 um acontecimento que \u00e9 inconsistente com o conhecimento pr\u00e9vio da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Um estudo recente publicado esse ano no peri\u00f3dico <em>Child Development<\/em> pelos pesquisadores <em>Cristine Legare<\/em>, <em>Susan Gelman<\/em> e <em>Henry Wellman<\/em> investigou que tipo de acontecimento (consistente ou inconsistente) incentiva mais explica\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as. Nesse estudo, as crian\u00e7as viam uma caixa que se acendia (ou n\u00e3o) quando uma outra pe\u00e7a era colocada em cima dela. Os pesquisadores mostravam para a crian\u00e7a duas dessas caixas e mostravam como as caixas funcionavam (por exemplo, se colocar o cubo azul sobre a caixa ela acende, mas se colocar uma outra pe\u00e7a, ela n\u00e3o acende). Logo ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o das duas caixas, as crian\u00e7as tinham a oportunidade de fazer as caixinhas funcionarem. No entanto, quando elas tentavam, uma das caixinhas n\u00e3o funcionava de acordo com o que elas viram antes.<\/p>\n<p>O estudo mostrou que as crian\u00e7as se interessaram muito mais pelos acontecimentos inconsistentes do que com os acontecimentos consistentes. Ou seja, preferiam explica\u00e7\u00f5es que tinham haver com o acontecimento inconsistente. E mais ainda. Os acontecimentos inconsistentes foram muito mais prop\u00edcios a receber uma explica\u00e7\u00e3o causal por parte da crian\u00e7a. Em outras palavras, as crian\u00e7as ficaram muito mais interessadas na &#8220;causa&#8221; do acontecimento inconsistente do que do acontecimento consistente.<\/p>\n<p>O que isso quer dizer? Bom, muitos pais &#8212; principalmente m\u00e3es \ud83d\ude42 &#8212; tem uma mania muito feia de &#8220;preparar&#8221; o ambiente da crian\u00e7a o suficiente para que ela nunca encontre uma situa\u00e7\u00e3o ou acontecimento que seja inconsistente com o que ela ja sabe. Para muitos pais, as crian\u00e7as se sentem mal e n\u00e3o gostam de situa\u00e7\u00f5es inconsistentes e adversas. E com isso controlam tamb\u00e9m as chances que as crian\u00e7as t\u00eam de viver situa\u00e7\u00f5es que incentivem explica\u00e7\u00f5es de natureza mais causal. O interessante de explica\u00e7\u00f5es causais \u00e9 que elas, muitas vezes, n\u00e3o se baseiam apenas em caracter\u00edstica superficiais (apar\u00eancias), o que leva as crian\u00e7as a buscarem as ess\u00eancias dos acontecimentos que vivenciam. Buscar ess\u00eancias acaba sendo uma caracter\u00edstica intelectual importante na vida adulta.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante saber e entender a import\u00e2ncia que nossos comportamentos di\u00e1rios com nossas crian\u00e7as acabam, de uma forma ou de outra, influenciando o desenvolvimento intelectual e social delas.<\/p>\n<p>E para aqueles que eu tenho certeza que ficaram curiosos para saber por que o c\u00e9u \u00e9 azul, aqui vai a explica\u00e7\u00e3o: existe um fen\u00f4meno conhecido como Rayleigh Scattering, que basicamente \u00e9 uma forma de espalhamento da luz e de outras ondas eletromagn\u00e9ticas. A luz do sol \u00e9 formada por v\u00e1rias cores diferentes &#8212; com ondas de diferentes tamanho &#8211;, mas devido \u00e0 algumas subst\u00e2ncias presentes na nossa atmosfera, cores com ondas mais curtas (ex.: azul) s\u00e3o &#8216;espalhadas&#8217; mais facilmente do que cores com ondas mais largas. Mas tenho certeza que vai te dar um pouco de trabalho para explicar isso para seu filho de 4 anos! \ud83d\ude42<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Child+development&amp;rft_id=info%3Apmid%2F20573114&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Inconsistency+with+prior+knowledge+triggers+children%27s+causal+explanatory+reasoning.&amp;rft.issn=0009-3920&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=81&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=929&amp;rft.epage=44&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Legare+CH&amp;rft.au=Gelman+SA&amp;rft.au=Wellman+HM&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Legare CH, Gelman SA, &amp; Wellman HM (2010). Inconsistency with prior knowledge triggers children&#8217;s causal explanatory reasoning. <span style=\"font-style: italic\">Child development, 81<\/span> (3), 929-44 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20573114\" rev=\"review\">20573114<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s seres humanos gostamos de saber o porqu\u00ea de tudo. Quem de n\u00f3s nunca conversou com uma crian\u00e7a curiosa em saber por que o c\u00e9u \u00e1 azul, ou por que a luz acende quando apertamos o interruptor? 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