{"id":58,"date":"2010-12-02T16:05:00","date_gmt":"2010-12-02T19:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2010\/12\/pensamento-analogico-e-nossas-atitudes\/"},"modified":"2010-12-02T16:05:00","modified_gmt":"2010-12-02T19:05:00","slug":"pensamento-analogico-e-nossas-atitudes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2010\/12\/02\/pensamento-analogico-e-nossas-atitudes\/","title":{"rendered":"Pensamento Anal\u00f3gico e Nossas Atitudes"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/div>\n<p>Citei na minha \u00faltima postagem que eu gosto muito de analogias. Elas relevam aspectos interessantes e importantes da nossa cogni\u00e7\u00e3o. Analogias t\u00eam uma influ\u00eancia grande no nosso pensamento e consequentemente, nas nossas a\u00e7\u00f5es. \u00c9 por isso que, j\u00e1 a algum tempo, a Psicologia Cognitiva tem tido um interesse cada vez maior na investiga\u00e7\u00e3o das principais caracter\u00edsticas do pensamento anal\u00f3gico.<\/p>\n<p>O pensamento anal\u00f3gico envolve a representa\u00e7\u00e3o mental que fazemos das rela\u00e7\u00f5es existentes entre objetos e\/ou pessoas. Essas representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o cruciais na vida do ser humano. \u00c9 basicamente o que nos diferencia (em termos cognitivos) das outras esp\u00e9cies de animais. Pare e pense: a nossa capacidade de resolver um problema que nunca vimos antes est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 nossa capacidade de pensar de maneira relacional, ou seja, na nossa capacidade de pensar analogiacamente. Utilizamos o conhecimento que temos sobre uma \u00e1rea espec\u00edfica do conhecimento (a f\u00edsica, por exemplo) para entender melhor uma outra \u00e1rea que temos pouco conhecimento (qu\u00edmica, por exemplo). Mas, \u00e9 necess\u00e1rio que essas representa\u00e7\u00f5es sejam abstratas. Quanto mais abstrata a representa\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o, maior a nossa capacidade de aplicar essa abstra\u00e7\u00e3o em outros dom\u00ednios.<\/p>\n<p>Vamos lembrar o exemplo cl\u00e1ssico de analogia: o Sistema Solar e o \u00e1tomo. Essa analogia existe porque sabemos que em ambos existe uma estrutura central (n\u00facleo no caso do \u00e1tomo e o Sol no caso do Sistema Solar) e estruturas menores que giram em torno dessa estrutura central (el\u00e9trons e planetas). Para entender a analogia, precisamos entender a &#8220;rela\u00e7\u00e3o&#8221; entre n\u00facleo e el\u00e9trons por um lado e Sol e planetas por outro lado. \u00c9 \u00f3bvio, no entanto, que sabemos que o Sol e o n\u00facleo de um \u00e1tomo s\u00e3o estruturas diferentes. Quando fazemos a analogia, n\u00e3o queremos que algu\u00e9m pense que exista vida nas part\u00edculas que giram em torno do n\u00facleo, assim como existe vida em alguns dos planetas que giram em torno do Sol. N\u00e3o se apegar a esses detalhes \u00e9 o que chamamos de abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando pensamos analogicamente, podemos focalizar tanto nos objetos que comp\u00f5em a cena ou situa\u00e7\u00e3o que analisamos quanto nas rela\u00e7\u00f5es entre esses objetos. Por exemplo: imagine que eu te mostre duas fotos. Uma das fotos mostra um rob\u00f4 consertando um carro. Na outra foto, h\u00e1 um rob\u00f4 parecido com o da foto 1 (n\u00e3o o mesmo) sendo consertado por um homem. Se eu pedir a voc\u00ea que me aponte a analogia entre as duas fotos (o que existe de semelhante nelas), voc\u00ea tem duas op\u00e7\u00f5es: se voc\u00ea focalizar nos objetos\/personagens das fotos, voc\u00ea vai me falar que o rob\u00f4 da foto 1 \u00e9 an\u00e1logo ao rob\u00f4 da foto 2. J\u00e1 se voc\u00ea focalizar na rela\u00e7\u00e3o entre os personagens das fotos (carro e rob\u00f4 na foto 1 e homem-rob\u00f4 na foto 2), voc\u00ea vai dizer que a analogia est\u00e1 no rob\u00f4 da foto 1 e no homem da foto 2, pois ambos est\u00e3o consertando alguma coisa. Isso \u00e9 o que os pesquisadores chamam de alinhamento estrutural.<\/p>\n<p>O que grande parte das pesquisas mostram \u00e9 que algumas pessoas t\u00eam uma dificuldade muito grande de abstrair o suficiente para enxergar a semelhan\u00e7a relacional entre duas cenas. Em outras palavras, as pessoas se apegam tanto \u00e0 concretude dos objetos envolvidos (que podem ser extremamente distintos entre duas situa\u00e7\u00f5es) que n\u00e3o conseguem ver que as rela\u00e7\u00f5es entre esses objetos s\u00e3o bem semelhantes.<\/p>\n<p>Um estudo bacana publicado recentemente pelos pesquisadores <em>Jonathan Rein<\/em> e <em>Arthur Markman<\/em> na Universidade do Texas nos Estados Unidos explorou a no\u00e7\u00e3o de que o n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o com a qual representamos as rela\u00e7\u00f5es entre objetos influencia a nossa capacidade de transferir essa rela\u00e7\u00e3o para outras situa\u00e7\u00f5es. <em>Jon<\/em> e <em>Art<\/em> mostraram para os participantes do estudo alguns padr\u00f5es relacionais (c\u00edrculos e tri\u00e2ngulos nas mais diversas configura\u00e7\u00f5es &#8212; em linhas verticais ou horizontais, por exemplo) e depois pediram a eles que identificassem outros padr\u00f5es semelhantes. Assim como esperavam, as pessoas mostraram uma tend\u00eancia forte para representar as rela\u00e7\u00f5es e objetos de maneira muito concreta, o que dificultou a identifica\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es semelhantes em outros dom\u00ednios.<\/p>\n<p>O que essa pesquisa sugere em termos pr\u00e1ticos? Eu sempre fico super intrigado pelo fato de que algumas pessoas parecem agir de forma completamente diferente em situa\u00e7\u00f5es que, ao meu ver, s\u00e3o estruturalmente semelhantes. Em outras palavras, \u00e9 como se algu\u00e9m soubesse que 2 laranjas + 3 \u00e9 igual a 5 laranjas, mas n\u00e3o soubesse dizer quanto \u00e9 2 bananas + 3 bananas.<\/p>\n<p>Pense na seguinte situa\u00e7\u00e3o: voc\u00ea est\u00e1 andando pelas ruas da sua cidade quando v\u00ea uma crian\u00e7a sendo explorada por um adulto. Na cena, voc\u00ea tem dois personagens (adulto e crian\u00e7a) cada um exercendo uma &#8220;fun\u00e7\u00e3o&#8221; nessa rela\u00e7\u00e3o: o adulto &#8212; um ser hierarquicamente mais importante que a crian\u00e7a &#8212; exercendo seu poder &#8216;chefe&#8217;, e a crian\u00e7a &#8212; um ser hierarquicamente menos importante &#8212; sendo coibida pelo adulto, portanto explorada (sem muito poder de escolha). Qualquer pessoa que avalia uma cena como essa ir\u00e1 dizer que \u00e9 (1) a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 um absurdo, (2) que crian\u00e7a n\u00e3o pode ser tratada assim, etc. etc. No entanto, a representa\u00e7\u00e3o da cena parece n\u00e3o ser abstrata o suficiente para possibilitar aplicar &#8220;esse modelo de rela\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; explora\u00e7\u00e3o de um ser hierarquicamente superior a outro &#8212; em outras situa\u00e7\u00f5es semelhantes.<\/p>\n<p>Aqui em Belo Horizonte, uma pequena &#8216;empresa&#8217; (atuante no ramo de fabrica\u00e7\u00e3o de placas de autom\u00f3veis) tem a seguinte pr\u00e1tica: muitos de seus funcion\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam a carteira assinada. O hor\u00e1rio e a carga de trabalho s\u00e3o definidos sem qualquer respaldo na CLT. As aus\u00eancias &#8212; mesmos aquelas com justificativas m\u00e9dicas &#8212; s\u00e3o integralmente descontadas do sal\u00e1rio dos funcion\u00e1rios, assim como o valor integral do transporte do funcion\u00e1rio. E no caso de algum funcion\u00e1rio n\u00e3o concondar com essa pr\u00e1tica (como aconteceu ontem), esse funcion\u00e1rio \u00e9 prontamente &#8220;demitido&#8221; sem qualquer tipo de ressarcimento trabalhista.<\/p>\n<p>Em termos relacionais, a hist\u00f3ria da crian\u00e7a \u00e9 muito semelhante \u00e0 hist\u00f3ria da empresa: dois personagens, onde um, hierarquicamente mais baixo que o outro, \u00e9 explorado. Interessante, no entanto, \u00e9 que o impacto da hist\u00f3ria 1 parece ser bem maior e mais proeminente comparado ao impacto da hist\u00f3ria 2. Conversando com alguns funcion\u00e1rios e pessoas que conhecem a empresa, eu notei que muitos deles s\u00e3o condescendentes com a atitude da chefia da empresa: quando um funcion\u00e1rio \u00e9 demitido, por exemplo, outros se juntam para ajudar na fun\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio demitido, minimizando assim o trabalho que teria a diretora para contratar um outro funcion\u00e1rio. Nenhum deles, eu presumo, auxiliaria o adulto da primeira hist\u00f3ria na sua explora\u00e7\u00e3o e nem sequer procurariam entender se h\u00e1, por parte do adulto, alguma justificativa plaus\u00edvel para a atitude dele.<\/p>\n<p>Obviamente, v\u00e1rios fatores parecem influenciar a atitude dos funcion\u00e1rios e da diretoria da empresa. No entanto, uma forma plaus\u00edvel de interpretar a situa\u00e7\u00e3o e a atitude das pessoas envolvidas \u00e9 em termos da dificuldade que as pessoas t\u00eam de representar rela\u00e7\u00f5es de maneira abstrata. Essa dificuldade, por sua vez, gera a dificuldade de pensar em outras situa\u00e7\u00f5es de maneira semelhante. Podemos n\u00e3o perceber, mas a capacidade de formar alinhamentos estruturais &#8212; analogias &#8212; acaba tendo um impacto grande nas nossas atitudes e a\u00e7\u00f5es diante das coisas que vivemos no nosso dia-a-dia.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+experimental+psychology.+Learning%2C+memory%2C+and+cognition&amp;rft_id=info%3Apmid%2F20919782&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Assessing+the+concreteness+of+relational+representation.&amp;rft.issn=0278-7393&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=36&amp;rft.issue=6&amp;rft.spage=1452&amp;rft.epage=65&amp;rft.artnum=&amp;rft.au=Rein+JR&amp;rft.au=Markman+AB&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Rein JR, &amp; Markman AB (2010). Assessing the concreteness of relational representation. <span style=\"font-style: italic\">Journal of experimental psychology. Learning, memory, and cognition, 36<\/span> (6), 1452-65 PMID: <a href=\"http:\/\/www.ncbi.nlm.nih.gov\/pubmed\/20919782\" rev=\"review\">20919782<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Citei na minha \u00faltima postagem que eu gosto muito de analogias. Elas relevam aspectos interessantes e importantes da nossa cogni\u00e7\u00e3o. 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