{"id":638,"date":"2014-01-22T16:32:09","date_gmt":"2014-01-22T21:32:09","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/?p=638"},"modified":"2014-01-22T16:32:09","modified_gmt":"2014-01-22T21:32:09","slug":"sotaque-ingles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2014\/01\/22\/sotaque-ingles\/","title":{"rendered":"Do you speak English, mo\u00e7o?!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2014\/01\/sotaque-ingles\/tomato\/\" rel=\"attachment wp-att-639\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-639\" alt=\"tomato\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2014\/01\/tomato.jpeg\" width=\"230\" height=\"219\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2014\/01\/tomato.jpeg 230w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/wp-content\/uploads\/sites\/221\/2014\/01\/tomato-24x24.jpeg 24w\" sizes=\"(max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/a>Depois de muitos anos fora do Brasil, acredito que falo ingl\u00eas com uma certa facilidade. Apesar de algumas pessoas falarem que n\u00e3o tenho sotaque estrangeiro muito forte, eu sei que tenho e que um <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Espectrograma\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">espectrograma<\/a> da minha fala revelaria facilmente esse aspecto. Mas isso n\u00e3o \u00e9 problema. Inclusive, v\u00e1rias vertentes da Ling\u00fc\u00edstica Te\u00f3rica e Aplicada t\u00eam apontado para o fato de que a busca de um ingl\u00eas sem sotaque estrangeiro por parte de um falante n\u00e3o-nativo da l\u00edngua \u00e9 algo ut\u00f3pico. Ademais, ter sotaque estrangeiro tem suas <a href=\"http:\/\/travel.cnn.com\/explorations\/life\/worlds-sexiest-accents-130333\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">vantagens<\/a>.<\/p>\n<p>Mas nem tudo s\u00e3o flores. V\u00e1rios estudos em Psicologia Social e Cognitiva apontam para algumas desvantagens de se ter sotaque estrangeiro. Em 2011, por exemplo, alguns pesquisadores da Universidade de Chicago nos Estados Unidos mostraram que falantes nativos de ingl\u00eas acreditavam menos em pessoas que falam ingl\u00eas com sotaque <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/02\/de-onde-vem-a-falta-de-confianca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estrangeiro<\/a>. Alguns outros estudos mostram que, a depender do sotaque regional que a pessoa apresenta, ela \u00e9 mais prop\u00edcia a ser acusada de um crime, ou de ser rejeitada em uma sele\u00e7\u00e3o para emprego.<\/p>\n<p>Mas por que isso acontece? S\u00e3o v\u00e1rias as hip\u00f3teses. Uma delas \u00e9 que o sotaque de algu\u00e9m causa uma demanda cognitiva muito grande para ser processado, e essa demanda maior acaba causando uma sensa\u00e7\u00e3o negativa que \u00e9 espalhada para a imagem que formamos da pessoa como um todo (ou do julgamento que fazemos da informa\u00e7\u00e3o fornecida por aquela pessoa). Uma outra hip\u00f3tese \u00e9 que o sotaque \u00e9 um sinalizador do grupo ao qual a pessoa pertence. Ao perceber o sotaque, trazemos \u00e0 tona tudo aquilo que conhecemos daquele grupo, e julgamos com base nessa percep\u00e7\u00e3o. Nesse caso, o problema n\u00e3o seria o sotaque em si, mas o que ele sinaliza e representa.<\/p>\n<p>Seja qual for o real motivo, quando ser\u00e1 que isso come\u00e7a? A resposta nua e crua \u00e9: <em>bem cedo<\/em>. V\u00e1rios estudos realizados por uma pesquisadora chamada <em>Katharine Kinzler<\/em> (tamb\u00e9m da Universidade de Chicago) apontam para o fato de que esse tipo de vi\u00e9s come\u00e7a quando a crian\u00e7a ainda est\u00e1 bem novinha. Em um dos seus estudos, ela mostrou que beb\u00eas de 5 e 6 meses de idade j\u00e1 mostravam prefer\u00eancia por pessoas que falavam a sua l\u00edngua nativa sem nenhum sotaque estrangeiro. Mas ser\u00e1 que podemos mudar essa intoler\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese seria que pessoas (incluindo crian\u00e7as) que est\u00e3o mais expostas a outras l\u00ednguas, ou pessoas que falam mais de um idioma sejam mais tolerantes \u00e0 presen\u00e7a de sotaque estrangeiro. Eu resolvi testar essa hip\u00f3tese em um estudo que realizei em Montr\u00e9al, no Canad\u00e1. Montr\u00e9al foi um lugar perfeito para esse tipo de estudo uma vez que, apesar de ser uma cidade onde a l\u00edngua oficial \u00e9 o Franc\u00eas, o n\u00famero de crian\u00e7as bil\u00edngues (falantes de ingl\u00eas e franc\u00eas) \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>Nesse estudo, eu apresentava para as crian\u00e7as (5 e 6 anos de idade) v\u00e1rias pessoas. Algumas com sotaque e outras sem sotaque estrangeiro. Da\u00ed eu perguntava para elas de quem que elas gostariam de ser amigas. As crian\u00e7as foram testadas na sua l\u00edngua dominante (ingl\u00eas ou franc\u00eas). A id\u00e9ia era ver se o fato dessas crian\u00e7as serem bil\u00edngues diminuiria a percep\u00e7\u00e3o negativa que t\u00eam de pessoas que falam com sotaque (basicamente elas n\u00e3o teriam nenhuma prefer\u00eancia). No entanto n\u00e3o foi isso que achamos. Mesmo as crian\u00e7as bil\u00edngues mostraram uma prefer\u00eancia significativamente maior pelo falante que falava sua l\u00edngua dominante <em>sem<\/em> nenhum sotaque estrangeiro.<\/p>\n<p>Esse resultado (e os outros) sugerem que esse vi\u00e9s preferencial por pessoas e grupos que s\u00e3o mais parecidos com a gente \u00e9 um vi\u00e9s forte e come\u00e7a de fato muito cedo no nosso desenvolvimento. Percebemos isso em diversas \u00e1reas, n\u00e3o s\u00f3 na \u00e1rea da linguagem (por que vc acha que as pessoas que torcem para um mesmo time geralmente pensam parecido? Mesmo em \u00e1reas que n\u00e3o est\u00e3o diretamente relacionadas ao time em quest\u00e3o?).<\/p>\n<p>Assim, mesmo que a busca por um ingl\u00eas sem sotaque estrangeiro seja algo pouco encorajado pela ci\u00eancia ling\u00fc\u00edstica, \u00e9 importante saber que existem vi\u00e9ses que podem influenciar diretamente nossas intera\u00e7\u00f5es sociais em l\u00edngua estrangeira. <em>Something to think about<\/em>!<\/p>\n<p>N\u00e3o deixe de seguir o Cognando no <a href=\"https:\/\/plus.google.com\/116765862286813546775\/posts\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Google+<\/a> e no <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/andrelesouza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Twitter<\/a>. Se quiser ler o estudo na \u00edntegra, clique <a href=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/jpn63ljl5w6g2n5\/2013%20Souza%26Byers%26PoulinDubois.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de muitos anos fora do Brasil, acredito que falo ingl\u00eas com uma certa facilidade. 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