{"id":74,"date":"2011-02-24T19:09:00","date_gmt":"2011-02-24T22:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/02\/deus-ou-darwin-a-crenca-em-deus-como-um-mecanismo-compensatorio\/"},"modified":"2011-02-24T19:09:00","modified_gmt":"2011-02-24T22:09:00","slug":"deus-ou-darwin-a-crenca-em-deus-como-um-mecanismo-compensatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/02\/24\/deus-ou-darwin-a-crenca-em-deus-como-um-mecanismo-compensatorio\/","title":{"rendered":"Deus ou Darwin: A cren\u00e7a em Deus como um mecanismo compensat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/span>Eu acredito que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, j\u00e1 discutiu com algu\u00e9m sobre as origens do universo, por que estamos onde estamos e por que somos do jeito que somos. Isso por que somos naturalmente curiosos e sempre queremos entender a causa das coisas.<\/p>\n<p>Basicamente, existem tr\u00eas maneiras de explicar essas coisas.<\/p>\n<p>1) Uma delas \u00e9 a teoria Darwiniana da Evolu\u00e7\u00e3o. Segundo Darwin, a sele\u00e7\u00e3o natural das esp\u00e9cies \u00e9 um processo aleat\u00f3rio e pouco estruturado. Pouco estruturado no sentido de que caracter\u00edsticas do seu ambiente &#8212; nem sempre previs\u00edveis &#8212; determinam a maneira como a vida evolui. \u00c9 \u00f3bvio que estou simplificando a hist\u00f3ria toda aqui, mas a id\u00e9ia principal \u00e9 de que, para Darwin, n\u00e3o existe um agente (um ser) que coordena e controla as mudan\u00e7as no mundo e n\u00e3o h\u00e1 como termos controle de tudo o tempo todo.<\/p>\n<p>2) A segunda maneira de entender tudo que nos acontece \u00e9 a cren\u00e7a em um agente controlador de tudo. \u00c9 onde Deus surge, por exemplo. Uma teoria conhecida como Design Inteligente afirma que a forma como o mundo existe e a maneira como o universo funciona s\u00e3o controladas por uma for\u00e7a superior (Deus) que, n\u00e3o somente criou o universo da maneira que ele \u00e9, como tamb\u00e9m o controla permanentemente.<\/p>\n<p>3) Uma terceira maneira (mais recente) de entender a evolu\u00e7\u00e3o e o funcionamento do universo \u00e9 atrav\u00e9s de uma vers\u00e3o modificada da teoria Darwinista. Segundo essa maneira (postulada por Conway Morris), a evoluc\u00e3o carrega uma ordem interna. O processo evolutivo n\u00e3o \u00e9 aleat\u00f3rio, por\u00e9m n\u00e3o existe um agente controlador. A evolu\u00e7\u00e3o segue alguns caminhos naturais e previs\u00edveis.<\/p>\n<p>O mais interssante &#8212; pelo menos em termos psicol\u00f3gicos &#8212; \u00e9 a id\u00e9ia de que a cren\u00e7a em Deus (ou qualquer outra for\u00e7a sobrenatural controladora) \u00e9 fruto de uma for\u00e7a compensat\u00f3ria que busca &#8220;controle&#8221; quando esse est\u00e1 em falta. Uma vez que a id\u00e9ia de falta de controle e aleatoriedade \u00e9 psicologicamente ruim para o ser humano, sempre que estamos em situa\u00e7\u00f5es de falta de controle ou de aleatoriedade, buscamos restabelecer o controle de alguma maneira. A cren\u00e7a em agentes sobrenaturais \u00e9 uma dessas maneiras.<\/p>\n<p>Deixe-me tentar explicar essa id\u00e9ia de falta de controle de uma maneira menos t\u00e9cnica. Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o: voc\u00ea chega um dia no seu trabalho e encontra um dos seus colegas de trabalho dizendo que est\u00e1 morto. Isso mesmo: ele est\u00e1 vivinho da Silva, mas continua dizendo, de maneira insistente, que est\u00e1 morto, que aquele n\u00e3o \u00e9 o corpo dele e que, na verdade, nem \u00f3rg\u00e3os internos ele tem. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que, para o ser humano, pode ser cognitivamente perturbadora. E isso acontece pelo simples fato de que n\u00e3o entendemos (temos controle) o que est\u00e1 acontecendo. E consequentemente ficamos sem saber como agir. Essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de &#8220;falta de controle&#8221;. \u00c9 uma falta de controle cognitivo.<\/p>\n<p>Uma forma de restabelecer o controle (e entender) o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 atribuir esse acontecimento \u00e0 uma for\u00e7a superior controladora. Na verdade, muita gente iria acreditar que a situa\u00e7\u00e3o descrita acima \u00e9 um caso de possess\u00e3o demon\u00edaca, por exemplo. Essa cren\u00e7a \u00e9 uma maneira de fazer com que seu sistema cognitivo retome o controle da situa\u00e7\u00e3o e possa agir de maneira n\u00e3o-aleat\u00f3ria (indicar a pessoa \u00e0 uma igreja, ou fazer uma ora\u00e7\u00e3o para ela, por exemplo).<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que se as pessoas tivessem algum outro tipo de explica\u00e7\u00e3o para a situa\u00e7\u00e3o acima &#8212; uma explica\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m ajuda o sistema cognitivo retomar o controle &#8212; elas deixariam de acreditar em for\u00e7as sobrenaturais ou for\u00e7as superiores? Essa pergunta foi investigada por um grupo de pesquisadores na Holanda (Universidade de Amsterd\u00e3). <em>Batiann Rutjens<\/em>, <em>Joop van der Pligt<\/em> e <em>Frenk van Harreveld<\/em> induziram participantes a ter ou n\u00e3o &#8220;falta de controle&#8221;. Ap\u00f3s essa indu\u00e7\u00e3o, os participantes tinham que escolher qual das teorias apresentadas acima (Darwin, Deus ou Conway Morris) era a mais plaus\u00edvel para explicar os acontecimentos do mundo e das vidas das pessoas.<\/p>\n<p>Os resultados confirmaram o que os outros estudos j\u00e1 haviam mostrado: as pessoas na situa\u00e7\u00e3o de falta de controle preferiram Deus como explica\u00e7ao para os acontecimentos do universo, e depois a teoria de Conway (pois ela n\u00e3o postula nenhum tipo de aleatoriedade &#8212; sinal de falta de controle). Para as pessoas que foram induzidas a ter controle, n\u00e3o houve esse mesmo padr\u00e3o. A parte mais interessante do estudo, no entanto, \u00e9 a que mostra que as pessoas somente acreditaram numa explica\u00e7\u00e3o divina quando n\u00e3o havia uma outra explica\u00e7\u00e3o &#8212; n\u00e3o divina &#8212; que tamb\u00e9m restabelecia o controle cognitivo. Em outras palavras, as pessoas s\u00f3 escolhiam Deus como explica\u00e7\u00e3o quando a teoria de Conway (que tamb\u00e9m estabelece controle) n\u00e3o estava dispon\u00edvel. O estudo ent\u00e3o sugere que Deus (ou qualquer for\u00e7a sobrenatural) n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica for\u00e7a compensat\u00f3ria para buscar controle cognitivo.<\/p>\n<p>Uma vez que religi\u00e3o e cren\u00e7as em seres sobrenaturais s\u00e3o caracter\u00edsticas pervasivas da nossa cultura, \u00e9 muito importante entendermos &#8212; de uma maneira mais sistem\u00e1tica &#8212; como e por que nosso sistema cognitivo se engaja em tais pr\u00e1ticas (e quais os benef\u00edcios e desvantagens disso).<\/p>\n<p>E somente a t\u00edtulo de curiosidade: a situa\u00e7\u00e3o acima descreve um sintoma t\u00edpico de um transtorno neuropsiqui\u00e1trico conhecido como S\u00edndrome de Cotard.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Journal+of+Experimental+Social+Psychology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1016%2Fj.jesp.2010.07.009&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Deus+or+Darwin%3A+Randomness+and+belief+in+theories+about+the+origin+of+life&amp;rft.issn=00221031&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=46&amp;rft.issue=6&amp;rft.spage=1078&amp;rft.epage=1080&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Flinkinghub.elsevier.com%2Fretrieve%2Fpii%2FS0022103110001605&amp;rft.au=Rutjens%2C+B.&amp;rft.au=van+der+Pligt%2C+J.&amp;rft.au=van+Harreveld%2C+F.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Rutjens, B., van der Pligt, J., &amp; van Harreveld, F. (2010). Deus or Darwin: Randomness and belief in theories about the origin of life <span style=\"font-style: italic\">Journal of Experimental Social Psychology, 46<\/span> (6), 1078-1080 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.jesp.2010.07.009\" rev=\"review\">10.1016\/j.jesp.2010.07.009<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu acredito que todo mundo, pelo menos uma vez na vida, j\u00e1 discutiu com algu\u00e9m sobre as origens do universo, por que estamos onde estamos e por que somos do jeito que somos. 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