{"id":76,"date":"2011-03-06T08:25:00","date_gmt":"2011-03-06T11:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/03\/quanto-mais-nao-sei-mais-eu-gosto\/"},"modified":"2011-03-06T08:25:00","modified_gmt":"2011-03-06T11:25:00","slug":"quanto-mais-nao-sei-mais-eu-gosto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/03\/06\/quanto-mais-nao-sei-mais-eu-gosto\/","title":{"rendered":"Quanto mais n\u00e3o sei, mais eu gosto!"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0pt none\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/div>\n<p>&#8220;Eu gosto de quem eu sei que gosta de mim&#8221;. Essa foi uma das frases que escutei ontem, durante uma conversa com uma amiga que tentava me explicar o div\u00f3rcio recente do marido. Essa frase retrata muito bem um conceito muito estudado em psicologia, conhecido como princ\u00edpio da reciprocidade. Gostamos de quem gosta da gente. Somo gentis com quem \u00e9 gentil com a gente. Somos carinhosos com quem \u00e9 carinhoso com a gente. Al\u00e9m disso, saber que uma outra pessoa gosta de voc\u00ea cria sentimentos positivos e uma percep\u00e7\u00e3o &#8220;boa&#8221; do car\u00e1ter e inten\u00e7\u00f5es da outra pessoa.<\/p>\n<p>Agora, o que acontece quando n\u00e3o temos muita certeza se uma outra pessoa gosta da gente? Imagine uma situa\u00e7\u00e3o em que Ana n\u00e3o tem muita certeza se Mois\u00e9s gosta dela. Ser\u00e1 que Ana vai ent\u00e3o gostar do Mois\u00e9s mesmo assim? Segundo o princ\u00edpio da reciprocidade, n\u00e3o. A Ana vai gostar &#8220;menos&#8221; do Mois\u00e9s, uma vez que ela n\u00e3o tem muita certeza se ele gosta ou n\u00e3o dela. Mas quem disse que nossa cogni\u00e7\u00e3o \u00e9 simples assim?<\/p>\n<p>Na verdade, existem v\u00e1rias pesquisas que mostram que &#8220;incerteza&#8221; com rela\u00e7\u00e3o a alguma coisa, pessoa ou acontecimento aumenta nosso sentimento &#8212; positivo ou n\u00e3o &#8212; com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa coisa, pessoa ou acontecimento. Basicamente, isso acontece pois quando temos certeza de alguma coisa, come\u00e7amos a pensar (ou racionalizar) nos porqu\u00eas. Isso faz com que o sentimento em si, fiquei em segundo plano. Em outras palavras: imagine que voc\u00ea tem certeza de alguma coisa boa que ir\u00e1 acontecer. Uma vez que seu sistema cognitivo n\u00e3o precisa &#8220;se ocupar&#8221; em pensar sobre &#8220;o que&#8221; vai acontecer, ele come\u00e7a a pensar no &#8220;porqu\u00ea&#8221; desse acontecimento, de maneira que o lado &#8220;positivo&#8221; do acontecimento fica em segundo plano. Mas, quando voc\u00ea n\u00e3o tem certeza sobre algum acontecimento, seu sistema cognitivo se engaja em procurar saber &#8220;o que&#8221; vai acontecer e focaliza no sentimento relacionado ao acontecimento.<\/p>\n<p>Sendo assim, ser\u00e1 que n\u00e3o ter certeza se algu\u00e9m gosta de voc\u00ea n\u00e3o aumentaria o seu sentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa pessoa? Essa pergunta foi investigada por Erin Whitchurch, Timothy Wilson (University of Virginia) e Daniel Gilbert (Universidade de Harvard), em um estudo bem interessante, com um design de pesquisa bem criativo.<\/p>\n<p>Todas as participantes da pesquisa (apenas mulheres participaram) tinham um perfil ativo na rede social Facebook. Primeiramente, os pesquisadores disseram a elas que um grupo de rapazes viram o perfil delas no Facebook e deram uma nota, dizendo se, com base no que viram, eles achavam que dariam certo com elas caso tivessem a oportunidade de conhec\u00ea-las pessoalmente. Ap\u00f3s dizer isso, os pesquisadores disseram a elas que elas veriam o perfil de 4 desses rapazes que viram o perfil delas. Para um grupo de meninas, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil dos 4 rapazes que deram as maiores notas pra elas. Para um outro grupo, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil de 4 rapazes que deram uma nota mediana para elas. E finalmente, para um outro grupo, os pesquisadores disseram que elas veriam o perfil de 4 rapazes que n\u00e3o tinham muita certeza se gostaram ou n\u00e3o delas. Em todos os grupos, elas tinham que dizer o grau de atra\u00e7\u00e3o delas pelos rapazes.<\/p>\n<p>Os resultados foram bem interessantes. Eles mostraram que as mulheres se sentiram mais atra\u00eddas pelos homens disseram n\u00e3o ter muita certeza se gostaram ou n\u00e3o delas. Esse resultado confirma a hip\u00f3tese de que incerteza aumenta o sentimento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa de que se tem a incerteza.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 por que isso acontece? Uma explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que, em momentos de incerteza, o seu sistema cognitivo se engaja num processo de tentar &#8220;entender&#8221; a situa\u00e7\u00e3o. E se engaja de tal forma que a pessoa literalmente n\u00e3o sai da sua cabe\u00e7a. E como o nosso sistema cognitivo muitas vezes n\u00e3o sabe discernir sentimentos, ele acaba confundindo a presen\u00e7a permanente dessa pessoa em seu sistema como ind\u00edcio de que ela \u00e9 importante para voc\u00ea e que voc\u00ea, na verdade, gosta muito dela. E o mais interessante \u00e9 que, tentar &#8220;evitar&#8221; certos pensamentos pode ser pior e ter o efeito contr\u00e1rio &#8212; veja <a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2010\/09\/nao-quero-pensar-sobre-isso-evitar.html\">aqui<\/a> porqu\u00ea).<\/p>\n<p>O princ\u00edpio da reciprocidade ainda sim \u00e9 v\u00e1lido e devemos, sempre que poss\u00edvel, buscar gostar e conviver com pessoas que gostam da gente. O bem que isso faz vai al\u00e9m do simples bem-estar emocional.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F0956797610393745&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=%22He+Loves+Me%2C+He+Loves+Me+Not+.+.+.+%22%3A+Uncertainty+Can+Increase+Romantic+Attraction&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fpss.sagepub.com%2Flookup%2Fdoi%2F10.1177%2F0956797610393745&amp;rft.au=Whitchurch%2C+E.&amp;rft.au=Wilson%2C+T.&amp;rft.au=Gilbert%2C+D.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Whitchurch, E., Wilson, T., &amp; Gilbert, D. (2010). &#8220;He Loves Me, He Loves Me Not . . . &#8220;: Uncertainty Can Increase Romantic Attraction <span style=\"font-style: italic\">Psychological Science<\/span> DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/0956797610393745\" rev=\"review\">10.1177\/0956797610393745<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu gosto de quem eu sei que gosta de mim&#8221;. Essa foi uma das frases que escutei ontem, durante uma conversa com uma amiga que tentava me explicar o div\u00f3rcio recente do marido. 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