{"id":78,"date":"2011-03-08T02:49:00","date_gmt":"2011-03-08T05:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/03\/o-erro-fundamental-agora-a-culpa-e-do-carnaval\/"},"modified":"2011-03-08T02:49:00","modified_gmt":"2011-03-08T05:49:00","slug":"o-erro-fundamental-agora-a-culpa-e-do-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/03\/08\/o-erro-fundamental-agora-a-culpa-e-do-carnaval\/","title":{"rendered":"O erro fundamental: agora a culpa \u00e9 do Carnaval."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_large_gray.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" width=\"70\" height=\"85\" \/><\/a><\/span>Tr\u00eas anos atr\u00e1s, um casal de amigos meus sofreu um acidente de carro grav\u00edssimo exatamente no dia do casamento deles. Lembro que na \u00e9poca, escutei coisas do tipo: &#8220;nossa, que pena! Vai ver que foi um sinal para n\u00e3o se casarem!&#8221;, Outras pessoas disseram: &#8220;\u00e0s vezes n\u00e3o estavam ainda preparados e foi uma forma de serem avisados disso&#8221;. O tempo passou, eles se casaram e infelizmente, algum tempo depois se divorciaram. Evidentemente, como \u00e9 de se esperar, muita gente viu o div\u00f3rcio como uma confirma\u00e7\u00e3o da profecia mostrada pelo acidente de carro.<\/p>\n<p>Um tema recorrente que sempre menciono aqui no Cognando \u00e9 a necessidade natural e definidora do ser humano de sempre querer explicar a causa das coisas. Por que sofreram um acidente logo no dia do casamento? Temos uma necessidade, quase visceral, de estabelecer correla\u00e7\u00f5es entre fatos aparentemente isolados, mesmo que n\u00e3o haja qualquer correla\u00e7\u00e3o aparente &#8212; a gente acaba &#8220;inventando&#8221; essas correla\u00e7\u00f5es. No caso acima, as pessoas precisavam estabelecer alguma correla\u00e7\u00e3o entre &#8220;acidente&#8221;, &#8220;casamento&#8221;, &#8220;mesmo dia&#8221; e &#8220;div\u00f3rcio&#8221;.<\/p>\n<p>Aparentemente, isso n\u00e3o tem problema. Digo aparentemente, pois algumas vezes essas correla\u00e7\u00f5es criadas (e s\u00e3o sempre criadas por algum motivo &#8212; mesmo que esse motivo seja simplesmente &#8220;entender&#8221; o que est\u00e1 acontecendo) mascaram as correla\u00e7\u00f5es reais e realmente explicativas do fen\u00f4meno. O div\u00f3rcio do casal, por exemplo, est\u00e1 muito mais ligado ao fato de que eles n\u00e3o tinham uma estabilidade financeira para constituir fam\u00edlia, do que com o acidente que sofreram anteriormente. Mas, uma vez que essa correla\u00e7\u00e3o entre o acidente e o div\u00f3rcio \u00e9 criada, qualquer outra explica\u00e7\u00e3o \u00e9 vista como pouco plaus\u00edvel ou inv\u00e1lida.<\/p>\n<p>Em psicologia social esse fen\u00f4meno \u00e9 conhecido como &#8220;<em>fundamental attribution error<\/em>&#8221; ou (desculpem pela tradu\u00e7\u00e3o &#8216;tabajara&#8217;) &#8220;erro atribucional fundamental&#8221;. Explicando de maneira bem simplista, esse conceito tem haver com a id\u00e9ia de que, sistematicamente, e por motivos variados, atribuimos causa e estabalecemos correla\u00e7\u00f5es entre fatos que, na verdade, n\u00e3o existem.<\/p>\n<p>Eu comecei a semana assistindo \u00e0 um v\u00eddeo que, para mim, \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de tal fen\u00f4meno. Um amigo me enviou por e-mail o v\u00eddeo da jornalista Rachel Sheherazade da emissora TV Tamba\u00fa e apresentadora do Tamba\u00fa Not\u00edcias, onde ela tenta fazer uma cr\u00edtica \u00e0s festividades do Carnaval no Brasil (veja o link para o v\u00eddeo no final dessa postagem). A jornalista &#8220;revela&#8221; algumas verdades com rela\u00e7\u00e3o ao Carnaval e depois tece uma s\u00e9rie de correla\u00e7\u00f5es entre &#8220;pobreza&#8221;, &#8220;falta de estrutura no sistema de sa\u00fade brasileiro&#8221;, &#8220;policiamento&#8221;, &#8220;qualidade das m\u00fasicas que tocam no Carnaval&#8221; e obviamente o &#8220;carnaval&#8221; propriamente dito. Nenhuma dessas correla\u00e7\u00f5es fazem sentido. Nenhum dos fatos tem rela\u00e7\u00e3o causal direta um com o outro &#8212; pelo menos que eu conhe\u00e7a. Apesar de os fatos isoladamente serem bem informativos e, em certa medida, verdadeiros, a rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre eles pela jornalista \u00e9 fundamentalmente in\u00f3cua.<\/p>\n<p>Ainda assim, a grande maioria das pessoas que comentaram no blog pessoal da jornalista &#8212; bem como as pessoas que comentaram na publica\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo &#8212; concordaram com o argumento tal como tecido pela jornalista. Principalmente &#8212; o que n\u00e3o \u00e9 supresa para mim &#8212; as pessoas que n\u00e3o gostam muito das festividades do Carnaval no Brasil. Para mim, um ind\u00edcio da pervasividade do fen\u00f4meno &#8216;erro atribucional fundamental&#8217;.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o isso \u00e9 problem\u00e1tico de duas maneiras. Primeiro, cognitivamente. Feito falei antes, estabelecer essas rela\u00e7\u00f5es falaciosas causam o mascaramento das reais causas e correla\u00e7\u00f5es entre os fatos. Em termos atitudinais, n\u00e3o ter conhecimento &#8212; ou pelo menos uma id\u00e9ia &#8212; das rela\u00e7\u00f5es causais dos fen\u00f4menos que nos cercam nos leva \u00e0 atitudes inadequadas e equivocadas. Segundo, socialmente. O jornalista &#8212; com o papel social de disseminador de &#8220;fatos&#8221; &#8212; deve tentar ser imparcial. Caso isso n\u00e3o seja poss\u00edvel (o que \u00e9 perfeitamente plaus\u00edvel), ele deve tentar ilumiar e desvendar as reais correla\u00e7\u00f5es e causas dos fatos. Isso pode ser feito de v\u00e1rias maneiras, sendo um delas, a pesquisa e o estudo sistem\u00e1tico dos fatos, suas correla\u00e7\u00f5es e causas.<\/p>\n<p>Muita gente concordou com a jornalista quando ela diz que o Brasil n\u00e3o tem um sistema de sa\u00fade que consegue suprir a demanda da popula\u00e7\u00e3o. Muita gente tamb\u00e9m concordou com a id\u00e9ia de que o policiamento e a seguran\u00e7a no Brasil deixam muito a desejar. E certamente, muita gente concordou com ela quando ela disse que as m\u00fasicas que caracterizam o Carnaval no Brasil s\u00e3o de qualidade degradadente. Mas o que tem isso haver com o Carnaval? Ele \u00e9 comemorado, ela mesma diz, em v\u00e1rias partes do mundo, inclusive na Europa. Por que ser\u00e1 que a Europa n\u00e3o apresenta os mesmos problemas sociais que ela aponta como pertencentes ao Brasil? Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o real entre as festividades de Carnaval e os problemas que ela levanta? Ser\u00e1 que se ano que vem n\u00e3o tivermos Carnaval, o policiamento e a seguran\u00e7a p\u00fablica ir\u00e3o aumentar durante o ano?<\/p>\n<p>Eu acredito que a configura\u00e7\u00e3o que o Carnaval tem no Brasil (os &#8220;b\u00eabados de plant\u00e3o&#8221;, &#8220;a viol\u00eancia&#8221;, &#8220;o n\u00e3o acesso do pobre \u00e0 roupinha colorida&#8221;) \u00e9 fruto de outros fatores sociais peculiares ao Brasil. Basta ter acesso a qualquer estudo sociol\u00f3gico, ou at\u00e9 mesmo cognitivo, para ver que a real causa do nosso &#8220;atraso&#8221; n\u00e3o tem nada haver com o Carnaval (veja um exemplo <a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2011\/01\/pobres-criancas-pobres.html\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p>A responsabilidade da seguran\u00e7a nacional, do policiamento das ruas, da qualidade do sistema de sa\u00fade e, principalmente, da educa\u00e7\u00e3o das pessoas \u00e9 do Estado. Se alguma mudan\u00e7a nessas \u00e1reas \u00e9 desejada, ela deve come\u00e7ar pelo Estado e deve ser cobrada do Estado. Mudan\u00e7as s\u00e3o feitas a partir de atitudes. Atitudes adequadas requerem um conhecimento e compreens\u00e3o adequada da situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o ter conhecimento das causas reais e diretas dos fatos nos leva a agir de maneira inadequada. Na minha opini\u00e3o, a jornalista s\u00f3 contribuiu para o mascaramento das reais causas da situa\u00e7\u00e3o social do Brasil &#8212;\u00a0 o que, por sua vez, alimenta uma gama de atitudes inadequadas, inclusive dos que det\u00e9m o poder no pa\u00eds. Em outras palavras, o Carnaval n\u00e3o tem nada haver com os problemas sociais que ela levantou.<\/p>\n<p>O Carnaval, no final das contas, pode at\u00e9 ajudar. Quem sabe no pr\u00f3ximo ano alguma escola de samba de S\u00e3o Paulo n\u00e3o presta uma homenagem ao eleitor brasileiro? Talvez assim, as pessoas entenderiam que o pobre que n\u00e3o tem dinheiro para comprar o abad\u00e1, o b\u00eabado que se mete em confus\u00e3o e o investimento de milh\u00f5es de Reais do dinheiro p\u00fablico em seguran\u00e7a e cuidado m\u00e9dico para os foli\u00f5es, est\u00e3o muito mais diretamente relacionados com o fato de que 1.350.000 brasileiros deram uma cadeira ao <a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2010\/10\/send-in-clowns-o-triunfo-da-ignorancia.html\">Tiririca<\/a> no Congresso Nacional do que com as festividades de Carnaval propriamente ditas. Quem sabe algu\u00e9m n\u00e3o l\u00ea essa postagem para o Tiririca e d\u00e1 essa id\u00e9ia para ele?<\/p>\n<p>V\u00eddeo da jornalista &#8211; clique <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cuadotEn_to\">aqui<\/a><\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=British+Journal+of+Social+Psychology&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1348%2F0144666042037962&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+fundamental+attribution+error%3A+A+phenomenological+critique&amp;rft.issn=01446665&amp;rft.date=2004&amp;rft.volume=43&amp;rft.issue=3&amp;rft.spage=357&amp;rft.epage=369&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fdoi.wiley.com%2F10.1348%2F0144666042037962&amp;rft.au=Langdridge%2C+D.&amp;rft.au=Butt%2C+T.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Langdridge, D., &amp; Butt, T. (2004). The fundamental attribution error: A phenomenological critique <span style=\"font-style: italic\">British Journal of Social Psychology, 43<\/span> (3), 357-369 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1348\/0144666042037962\" rev=\"review\">10.1348\/0144666042037962<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tr\u00eas anos atr\u00e1s, um casal de amigos meus sofreu um acidente de carro grav\u00edssimo exatamente no dia do casamento deles. Lembro que na \u00e9poca, escutei coisas do tipo: &#8220;nossa, que pena! 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