{"id":82,"date":"2011-03-17T08:17:00","date_gmt":"2011-03-17T11:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/03\/adoce-a-minha-boca-que-eu-te-perdoo\/"},"modified":"2011-03-17T08:17:00","modified_gmt":"2011-03-17T11:17:00","slug":"adoce-a-minha-boca-que-eu-te-perdoo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/03\/17\/adoce-a-minha-boca-que-eu-te-perdoo\/","title":{"rendered":"Adoce a minha boca que eu te perdoo!"},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-sejqv0bNj74\/TYHtB0hXdrI\/AAAAAAAABWA\/fDXPWQKUTAM\/s1600\/lip.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"https:\/\/lh4.googleusercontent.com\/-sejqv0bNj74\/TYHtB0hXdrI\/AAAAAAAABWA\/fDXPWQKUTAM\/s200\/lip.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"148\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p><span style=\"float: left;padding: 5px\"><a href=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/\"><img decoding=\"async\" style=\"border: 0\" src=\"http:\/\/www.researchblogging.org\/public\/citation_icons\/rb2_mid.png\" alt=\"ResearchBlogging.org\" \/><\/a><\/span>Ontem escutei a hist\u00f3ria de uma mulher (28 anos de idade e &#8220;casada&#8221;) que est\u00e1 insatisfeita com o marido dela. Motivo: ele faz sexo com ela um dia sim e seis n\u00e3o. E, segundo ela, quando ele faz \u00e9 ruim. A solu\u00e7\u00e3o que ela encontrou para isso foi: &#8220;se aventurar&#8221; com outros homens. Conheceu um rapaz pela internet, encontrou-se com ele e fizeram muito sexo (uma tarde inteira). Ap\u00f3s isso, ela se encontrou com um amigo do rapaz da internet e, aparentemente, tamb\u00e9m fizeram muito sexo. Assim que chegou em casa, fez sexo com o marido (ela estava com sorte: era o dia &#8220;sim&#8221; do marido).<\/p>\n<p>O que voc\u00ea sente quando escuta uma hist\u00f3ria como essa? Qual \u00e9 o sentimento que logo vem \u00e0 sua cabe\u00e7a? Algumas pessoas sentem &#8220;nojo&#8221; e classificam tal atitude como altamente imoral e errada. Outras pessoas nem v\u00eaem tanto problema assim. Chegam a julgar que viver assim \u00e9 &#8220;uma del\u00edcia&#8221; e n\u00e3o classificam tal atitude como imoral ou completamente errada. Mas ser\u00e1 por que?<\/p>\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, o fil\u00f3sofo Hume sugeria que nossos julgamentos de moralidade (certo e errado) est\u00e3o diretamente ligados \u00e0s nossas emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, julgamos se algo \u00e9 certo ou errado (moral ou imoral) com base em como esse &#8220;algo&#8221; nos faz sentir. V\u00e1rias pesquisas na \u00e1rea de Psicologia Social tem mostrado que essa liga\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo plaus\u00edvel. Em 2008, por exemplo, um estudo dividiu um grupo de pessoas em dois grupos menores. O primeiro grupo ficou em uma sala em que os pesquisadores coloram um odor de &#8220;peido&#8221;. O segundo grupo foi para uma sala sem odor algum (ou um cheiro neutro). Essas pessoas tinham que julgar o grau de &#8220;imoralidade&#8221; de um conjunto de &#8220;a\u00e7\u00f5es transgressoras&#8221; (tipo: fazer sexo com uma prima). O resultado foi que o grupo que estava na sala com cheiro e peido julgou as a\u00e7\u00f5es como mais imorais do que o grupo que estava na outra sala. Em outras palavras, o estudo sugere que o sentimento de &#8220;nojo&#8221; causado pelo cheiro de peido foi suficiente para influenciar no julgamento de certo ou errado dos participantes.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que somente a sensa\u00e7\u00e3o de nojo que influencia julgamentos de moralidade? Lembro de uma vez (eu devia ter 19 anos de idade) que eu estava na sala e escutei minha m\u00e3e na cozinha dizer para o meu irm\u00e3o: &#8220;nem mexe com o Andr\u00e9, pois hoje ele est\u00e1 super azedo&#8221;. Provavelmente, o que minha m\u00e3e quis dizer foi que, devido \u00e0 minha &#8220;azedura&#8221;, \u00a0eu n\u00e3o seria uma fonte de opini\u00e3o \u00e0 ser considerada. Ser\u00e1 que a sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica (o gosto, mesmo) de azedo \u00e9 suficiente para influenciar julgamentos de moralidade?<\/p>\n<p>Foi exatamente essa a pergunta que <em>Kendall Eskine<\/em>, <em>Natalie Kacinik<\/em> e <em>Jesse Prinz<\/em>, da CUNY, investigaram e publicaram no per\u00edodo <em>Psychological Science<\/em> de Mar\u00e7o\/2011. O estudo foi bem simples. Eles pediram \u00e0 um grupo de participantes que julgassem o grau de imoralidade de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es (dois primos que mantem rela\u00e7\u00f5es sexuais constantes, um homem que comeu o pr\u00f3prio cachorro morto, um deputado que aceita propina, um advogado que busca clientes em hospitais, uma pessoa que rouba no supermercado e, finalmente, um aluno que rouba livros na biblioteca da universidade).<\/p>\n<p>No entanto, antes de julgarem as a\u00e7\u00f5es, um grupo de participantes bebeu um copo de suco docinho, um outro grupo bebeu um copo de suco azedo e um terceiro grupo bebeu um copo com \u00e1gua. A id\u00e9ia era que os participantes que beberam o copo de suco azedo julgaria as a\u00e7\u00f5es como mais graves, erradas e imorais do que os participantes que beberam \u00e1gua ou o suco docinho.<\/p>\n<p>E esse foi exatamente o padr\u00e3o de resultados que eles encontraram. Houve um efeito significativo do tipo de bebida no julgamento de imoralidade das a\u00e7\u00f5es descritas acima. Os pesquisadores ainda inclu\u00edram um outro estudo (do qual n\u00e3o vou falar aqui) em que eles mostraram que esse efeito \u00e9 mais forte para pessoas conservadoras do que para pessoas liberais.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 mais um que corrobora com a id\u00e9ia de que o nosso sistema sens\u00f3rio-motor influencia de maneira significativa o nosso processamento cognitivo de alto n\u00edvel &#8212; id\u00e9ia defendida pela teoria da cogni\u00e7\u00e3o coporificada (leia a postagem <a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2011\/03\/alma-suja-corpo-sujo-corporificacao-de.html\">anterior<\/a>).<\/p>\n<p>De todas as poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es que podemos tirar desse estudo, eu destaco duas:<\/p>\n<p>1) devemos ficar mais atentos aos deputados e pol\u00edticos que est\u00e3o constantemente &#8220;ado\u00e7ando&#8221; nosso paladar. Nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, chupe uma laranja bem azeda ao assistir \u00e0 propaganda eleitoral gratuita.<\/p>\n<p>2) a mulher da hist\u00f3ria que contei no in\u00edcio dessa postagem deve fazer uma &#8220;senhora&#8221; torta de morangos!!!<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<br \/>\n<span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F0956797611398497&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=A+Bad+Taste+in+the+Mouth%3A+Gustatory+Disgust+Influences+Moral+Judgment&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2011&amp;rft.volume=&amp;rft.issue=&amp;rft.spage=&amp;rft.epage=&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fpss.sagepub.com%2Flookup%2Fdoi%2F10.1177%2F0956797611398497&amp;rft.au=Eskine%2C+K.&amp;rft.au=Kacinik%2C+N.&amp;rft.au=Prinz%2C+J.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Medicine%2CCancer%2C+Hematology\">Eskine, K., Kacinik, N., &amp; Prinz, J. (2011). A Bad Taste in the Mouth: Gustatory Disgust Influences Moral Judgment <span style=\"font-style: italic\">Psychological Science<\/span> DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/0956797611398497\" rev=\"review\">10.1177\/0956797611398497<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem escutei a hist\u00f3ria de uma mulher (28 anos de idade e &#8220;casada&#8221;) que est\u00e1 insatisfeita com o marido dela. Motivo: ele faz sexo com ela um dia sim e seis n\u00e3o. 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