{"id":88,"date":"2011-03-31T13:47:00","date_gmt":"2011-03-31T16:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/03\/o-poder-implicito-das-palavras\/"},"modified":"2011-03-31T13:47:00","modified_gmt":"2011-03-31T16:47:00","slug":"o-poder-implicito-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/03\/31\/o-poder-implicito-das-palavras\/","title":{"rendered":"O poder impl\u00edcito das palavras"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-U31lX_Ed6bU\/TZSu-6GHpuI\/AAAAAAAACVI\/yOfVWfoaxZE\/s1600\/1245499958_palavras1.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/1.bp.blogspot.com\/-U31lX_Ed6bU\/TZSu-6GHpuI\/AAAAAAAACVI\/yOfVWfoaxZE\/s200\/1245499958_palavras1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"141\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Durante um per\u00edodo da minha gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica, recordo ter ficado extremamente frustrado com a disciplina. A causa da minha frustra\u00e7\u00e3o era simples (apesar de que s\u00f3 fui descobrir muito tempo depois): eu sentia que eu estudava o \u00f3bvio. Sentia que estava &#8220;gastando&#8221; meu tempo na faculdade estudando uma coisa que &#8220;todo mundo&#8221; parecia conhecer t\u00e3o bem. E \u00e9 isso mesmo. O ser humano \u00e9 uma &#8220;m\u00e1quina de explica\u00e7\u00f5es&#8221;. Sempre queremos explicar as coisas do nosso dia-a-dia. \u00c9 natural, ent\u00e3o, que sempre haja uma explica\u00e7\u00e3o para essa coisa que \u00e9 t\u00e3o comum: &#8220;falar&#8221;. Pergunte a qualquer m\u00e3e <strong>como<\/strong>\u00a0que uma crian\u00e7a aprende a falar e ela certamente te dar\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o completa e satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<div>No entanto, existe um fen\u00f4meno muito explorado em psicologia cognitiva conhecido como <em>I<a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2010\/10\/send-in-clowns-o-triunfo-da-ignorancia.html\">llusion of Explanatory Depth<\/a><\/em>. Basicamente \u00e9 o seguinte: sempre achamos (temos a ilus\u00e3o) que sabemos explicar o funcionamento das coisas. Mas se temos que explicar &#8220;com detalhes&#8221; o funcionamento de algo do qual n\u00e3o somos especialistas, sempre temos problemas. Da\u00ed percebemos o qu\u00e3o <strong>n\u00e3o<\/strong> sabemos sobre o funcionamento da maioria das coisas e fen\u00f4menos do nosso dia-a-dia (e isso inclui, obviamente, o funcionamento da nossa l\u00edngua).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Todo mundo diz que palavra tem poder. Minha m\u00e3e sempre me disse: &#8220;cuidado com o que fala, pois palavra n\u00e3o tem mola&#8221;. \u00c0s vezes apenas a maneira como alguma coisa \u00e9 dita muda toda a nossa percep\u00e7\u00e3o das coisas e at\u00e9 mesmo nossas atitudes. O mais interessante, \u00e9 que isso ocorre implicitamente. Isso mesmo. O efeito de &#8220;como&#8221; uma coisa \u00e9 dita afeta a percep\u00e7\u00e3o e atitudes de outras pessoas implicitamente. Exemplo: imagine que voc\u00ea foi convidado(a) para ir ao teatro e deixou seu filho &#8212; Paulinho &#8212; com a bab\u00e1. Assim que voltou para casa, voc\u00ea v\u00ea que seu vaso favorito est\u00e1 quebrado. A bab\u00e1 ent\u00e3o te explica o que aconteceu. Ela tem, basicamente, duas maneiras de explicar para voc\u00ea o ocorrido:<\/p>\n<div><\/div>\n<div>(1) &#8220;<em>O Paulinho estava brincando quando o telefone tocou. Ele levantou para atender e derrubou a sua cer\u00e2mica favorita<\/em>&#8220;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>ou<\/div>\n<div><\/div>\n<div>(2) &#8220;<em>O Paulinho estava brincando quando o telefone tocou. Quando ele levantou para atender, a sua cer\u00e2mica favorita caiu<\/em>&#8220;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Apesar de &#8220;aparentemente&#8221; semelhantes, para qual das explica\u00e7\u00f5es voc\u00ea acha teria uma probabilidade maior de &#8220;punir&#8221; o Paulinho por ter quebrado sua cer\u00e2mica? Um estudo bem legal conduzido em <em>Stanford<\/em> na Calif\u00f3rnia por <em>Caitlin Fausey<\/em> e <em>Lera Boroditsky<\/em> investigou exatamente esse ponto. Como &#8220;pistas&#8221; lingu\u00edsticas influenciam o julgamento (percep\u00e7\u00e3o) de culpa das pessoas? No estudo, ela conta aos participantes a hist\u00f3ria de um restaurante que pegou fogo <em>acidentalmente<\/em>. Ap\u00f3s ouvirem a hist\u00f3ria, as pessoas tinham que decidir o grau de culpa de Mrs. Smith, uma pessoa envolvida no acidente. A forma como a hist\u00f3ria foi contada variou. Um grupo ouviu a descri\u00e7\u00e3o do fato contendo frases &#8220;agentivas&#8221; (tipo: &#8220;<em>Ela derrubou a vela na mesa<\/em>&#8220;) enquanto o outro grupo ouviu a mesma hist\u00f3rias com frases &#8220;n\u00e3o-agentivas&#8221; (tipo: &#8220;<em>A vela caiu na mesa<\/em>&#8220;).<\/div>\n<div><\/div>\n<div>As pessoas que ouviram a descri\u00e7\u00e3o contendo frases do tipo &#8220;<em>Ela derrubou a vela na mesa<\/em>&#8221; atribu\u00edram um grau de culpa muito maior \u00e0 Mrs. Smith do que as pessoas que ouviram o outro tipo de hist\u00f3ria. E mais interessante ainda: at\u00e9 mesmo o valor da multa que a Mrs. Smith deveria pagar pelos danos ao restaurante foi maior para o grupo que escutou a hist\u00f3ria com frases agentivas. Se eles fossem ju\u00edzes, a probabilidade de Mrs. Smith ser acusada pelo inc\u00eandio ao restaurante seria muito maior.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Algu\u00e9m pode pensar: hummm!!! Mas eles n\u00e3o s\u00e3o ju\u00edzes. O que isso tem haver com a vida real? Bom, at\u00e9 1913 houve um total de 197.745 julgamentos na Corte Criminal de Londres. Dos casos que envolveram &#8220;assassinato&#8221;, quando a descri\u00e7\u00e3o do crime envolvia a palavra &#8220;matou&#8221; (termos mais agentivo), o \u00edndice de veredictos finais dizendo &#8220;culpado&#8221; foi significativamente mais alto do que quando as descri\u00e7\u00f5es dos crimes envolviam a palavra &#8220;morreu&#8221; (um termo n\u00e3o-agentivo). Casos reais.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Outra situa\u00e7\u00e3o real: Todo mundo sabe que \u00e0s vezes a forma como falamos com nossos pais, amigos, namorados, etc. implicitamente sugere que os estamos acusando de alguma coisa. E isso muda todo o tipo de relacionamento e tem implica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias. Tenho certeza que n\u00e3o preciso nem dar exemplo disso, n\u00e9?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00e3o deixem de adicionar o ***COGNANDO*** no seu Facebook: <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\">www.facebook.com\/cognando<\/a> e no Twitter: <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\">www.twitter.com\/cognando<\/a><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychonomic+Bulletin+%26+Review&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.3758%2FPBR.17.5.644&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=Subtle+linguistic+cues+influence+perceived+blame+and+financial+liability&amp;rft.issn=1069-9384&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=17&amp;rft.issue=5&amp;rft.spage=644&amp;rft.epage=650&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.springerlink.com%2Findex%2F10.3758%2FPBR.17.5.644&amp;rft.au=Fausey%2C+C.&amp;rft.au=Boroditsky%2C+L.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Fausey, C., &amp; Boroditsky, L. (2010). Subtle linguistic cues influence perceived blame and financial liability <span style=\"font-style: italic\">Psychonomic Bulletin &amp; Review, 17<\/span> (5), 644-650 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.3758\/PBR.17.5.644\" rev=\"review\">10.3758\/PBR.17.5.644<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante um per\u00edodo da minha gradua\u00e7\u00e3o em Lingu\u00edstica, recordo ter ficado extremamente frustrado com a disciplina. A causa da minha frustra\u00e7\u00e3o era simples (apesar de que s\u00f3 fui descobrir muito tempo depois): eu sentia que eu estudava o \u00f3bvio. 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