{"id":90,"date":"2011-04-05T03:24:00","date_gmt":"2011-04-05T06:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/04\/a-ajuda-que-voce-precisa-como-lidar-com-pessoas-depressivas\/"},"modified":"2011-04-05T03:24:00","modified_gmt":"2011-04-05T06:24:00","slug":"a-ajuda-que-voce-precisa-como-lidar-com-pessoas-depressivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/04\/05\/a-ajuda-que-voce-precisa-como-lidar-com-pessoas-depressivas\/","title":{"rendered":"A ajuda que voc\u00ea precisa: como lidar com pessoas depressivas."},"content":{"rendered":"<div class=\"separator\" style=\"clear: both;text-align: center\"><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-gr5cBP2PvNY\/TZq1C2tvcRI\/AAAAAAAACVU\/cIYFrktLQKk\/s1600\/Depression+%25281%2529.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" alt=\"\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-gr5cBP2PvNY\/TZq1C2tvcRI\/AAAAAAAACVU\/cIYFrktLQKk\/s200\/Depression+%25281%2529.jpg\" width=\"169\" height=\"200\" border=\"0\" \/><\/a><\/div>\n<p>Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o: voc\u00ea acorda \u00e0s 7 da manh\u00e3 com seu filho de 5 anos dizendo que est\u00e1 com dor de cabe\u00e7a. Voc\u00ea mede a temperatura da crian\u00e7a e v\u00ea que ela est\u00e1 com 39,5 de febre. Voc\u00ea d\u00e1 um pouco de suco de laranja para ela, mas ela n\u00e3o consegue segura-lo no est\u00f4mago e vomita o suco. Percebendo o problema, voc\u00ea senta com a crian\u00e7a no sof\u00e1 da sala e diz: &#8220;<em>Oh filho! N\u00e3o fica assim n\u00e3o. N\u00e3o fica com febre n\u00e3o, t\u00e1 bom?<\/em>&#8221; Ou ent\u00e3o diz o seguinte: &#8220;<em>Oh filho! Voc\u00ea precisa sair dessa febre. Eu sei que \u00e9 ruim, mas voc\u00ea precisa sair dela, t\u00e1 bom?<\/em>&#8221; Ou ent\u00e3o: &#8220;<em>Olha filho, eu sei que est\u00e1 com febre, mas n\u00e3o posso fazer nada por voc\u00ea. Mas sei que voc\u00ea sabe o que fazer! Conto com voc\u00ea!<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Eu acredito que muita gente vai concordar comigo que esses &#8220;m\u00e9todos&#8221; para curar a febre da crian\u00e7a s\u00e3o pouco eficientes. Simplesmente n\u00e3o funcionam. E se voc\u00ea perguntar porqu\u00ea, todo mundo vai saber responder:<\/p>\n<p>(1) febre n\u00e3o depende de voc\u00ea querer ou n\u00e3o.<br \/>\n(2) febre \u00e9 algo &#8220;f\u00edsico&#8221; que ocorre no organismo e n\u00e3o &#8220;algo da sua cabe\u00e7a&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 isso mesmo. Febre n\u00e3o depende de querer e nem \u00e9 algo da nossa cabe\u00e7a. No entanto, quanto se trata de depress\u00e3o, a hist\u00f3ria muda. Existe ainda a cren\u00e7a de que depress\u00e3o se cura &#8220;com conversa&#8221; e que na verdade depress\u00e3o \u00e9 &#8220;tristeza&#8221; da cabe\u00e7a de algu\u00e9m. Parte dessa cren\u00e7a vem da completa falta de conhecimento do que \u00e9 a doen\u00e7a (o que ela afeta e como ela \u00e9 combatida) e da completa falta de conhecimento de como lidar com pessoas depressivas. A minha postagem de hoje tem uma fun\u00e7\u00e3o meio\u00a0<strong>utilidade p\u00fablica<\/strong>: quero te ensinar um pouco sobre a doen\u00e7a e como lidar com pessoas \u00e0 sua volta que t\u00eam depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiro ponto importante: depress\u00e3o, assim como a febre, \u00e9 uma <span style=\"text-decoration: underline\">doen\u00e7a f\u00edsica<\/span>. Apesar de conhecermos ainda pouco sobre todas as causas e sintomas espec\u00edficos da depress\u00e3o, uma coisa podemos dizer com certeza: <em>depress\u00e3o tem uma base f\u00edsica (neurol\u00f3gica) bem fundamentada<\/em>.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a: o c\u00e9rebro humano \u00e9 composto de, mais ou menos, 10 milh\u00f5es de neur\u00f4nios (c\u00e9lulas nervosas). Essas c\u00e9lulas s\u00e3o conectadas entre si. Essas conex\u00f5es que possibilitam que uma c\u00e9lula se comunique com a outra. A comunica\u00e7\u00e3o entre dois neur\u00f4nios ocorre em forma de impulsos el\u00e9tricos &#8212; uma c\u00e9lula envia um impulso el\u00e9trico para uma outra c\u00e9lula atrav\u00e9s da conex\u00e3o entre elas. A base do nosso processamento cognitivo, movimentos, fun\u00e7\u00f5es vitais, emo\u00e7\u00f5es, etc. est\u00e1 nessa constante troca de impulsos el\u00e9tricos (um eletroencefalograma, por exemplo, mede exatamente esses impulsos el\u00e9tricos).<\/p>\n<p>No entanto, quando olhamos essas &#8220;conex\u00f5es&#8221; de perto (usando um microsc\u00f3pio), vemos que, na verdade, um neur\u00f4nio nunca encosta em outro. Existe um <em>espa\u00e7o<\/em> entre uma c\u00e9lula e outra &#8212; chamado sinapse &#8212; e nesse espa\u00e7o existem mol\u00e9culas (enzimas) bem pequeninas chamadas neurotransmissores. S\u00e3o essas mol\u00e9culas que &#8220;transmitem&#8221; um impulso el\u00e9trico de uma c\u00e9lula \u00e0 outra. \u00c9 como se elas pegassem o impulso de uma c\u00e9lula e levassem at\u00e9 a outra (uma esp\u00e9cie de office-boy das c\u00e9lulas). Apesar de pequeninos, esses neurotransmissores t\u00eam um papel muito importante no processamento de informa\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro. Se eles param de funcionar, a comunica\u00e7\u00e3o entre as c\u00e9lulas fica comprometida.<\/p>\n<p>Um desses neurotransmissores &#8212; conhecido como <em>serotonina<\/em> &#8212; est\u00e1 presente em grande quantidade na regi\u00e3o l\u00edmbica do c\u00e9rebro (a regi\u00e3o respons\u00e1vel pelo controle das emo\u00e7\u00f5es e do humor). Esse neurostransmissor est\u00e1 envolvido na estimula\u00e7\u00e3o de batimentos card\u00edacos, na estimula\u00e7\u00e3o do sono, na excita\u00e7\u00e3o sexual, etc. A serotonina \u00e9 um regulador de extrema import\u00e2ncia no funcionamento correto do c\u00e9rebro, principalmente no que diz respeito \u00e0 como controlamos nossas emo\u00e7\u00f5es. Um outro neurotransmissor importante \u00e9 conhecido como <em>noradrelina<\/em>. Esse est\u00e1 relacionado com o sistema que nos mant\u00eam alerta (al\u00e9m de outras fun\u00e7\u00f5es, claro).<\/p>\n<p>Pacientes com depress\u00e3o t\u00eam uma quantidade comprovadamente pequena de <em>serotonina<\/em> e <em>noradrelina<\/em> em suas sinapses nervosas. Em outras palavras, a comunica\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios que precisam desse neurotransmissor \u00e9 extremamente deficiente. E como esses neur\u00f4nios se encontram em grande quantidade no sistema l\u00edmbico do c\u00e9rebro (aquele respons\u00e1vel pelo controle das emo\u00e7\u00f5es e humor), o c\u00e9rebro encontra problemas em &#8220;lidar&#8221; com essas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 como se o sistema l\u00edmbico fosse um escrit\u00f3rio respons\u00e1vel pelo controle das emo\u00e7\u00f5es. Cada neur\u00f4nio (um funcion\u00e1rio do setor) tem uma responsabilidade distinta. Para um perfeito funcionamento do setor, os funcion\u00e1rios precisam se comunicar efetivamente. Imagine que o funcion\u00e1rio <em>A<\/em> envie uma mensagem para o funcion\u00e1rio <em>B<\/em> dizendo como ele deve agir em determinada situa\u00e7\u00e3o (fogo, por exemplo). Se a informa\u00e7\u00e3o do funcion\u00e1rio <em>A<\/em> nunca chega ao funcion\u00e1rio <em>B<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 como o funcion\u00e1rio <em>B<\/em> saber como agir na determinada situa\u00e7\u00e3o de fogo. E essa informa\u00e7\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o chegou ao funcion\u00e1rio <em>B<\/em>, porque o respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o dela (o neurotransmissor) n\u00e3o est\u00e1 presente. De uma forma bem simplista, \u00e9 isso que ocorre!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o? Existe <em>rem\u00e9dio<\/em> para isso? Sim. Sob um ponto de vista puramente biol\u00f3gico, a fun\u00e7\u00e3o do antidepressivo \u00e9 curar esse problema de comunica\u00e7\u00e3o: ele &#8220;regulariza&#8221; o n\u00edvel de serotonina (ou noradrenalina, dependendo do tipo de antidepressivo) nas sinapses nervosas. O <em>Prozac<\/em>, por exemplo, inibe um processo conhecido como &#8220;reutiliza\u00e7\u00e3o&#8221; de serotonina, o que consequentemente aumenta a quantidade de serotonina dispon\u00edvel na sinapse. Um antidepressivo n\u00e3o vai te deixar &#8220;feliz&#8221;, mas vai auxiliar no controle da comunica\u00e7\u00e3o entre dois neur\u00f4nios, de maneira que, diante de uma situa\u00e7\u00e3o em que o controle das emo\u00e7\u00f5es seja necess\u00e1rio, essa comunica\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 de maneira mais efetiva.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que a depress\u00e3o \u00e9 puramente f\u00edsica? Obviamente, n\u00e3o. Ainda se conhece pouco sobre como todos os fatores (biol\u00f3gicos, gen\u00e9ticos e &#8220;sociais&#8221;) que se combinam para criar quadros de depress\u00e3o. Apesar de estar claro os fatores isolados que &#8220;causam&#8221; a depress\u00e3o, ainda estamos em fases bem iniciais na compreens\u00e3o de como esses fatores interagem. Mas ao mesmo tempo, <em>sabemos<\/em> que h\u00e1 uma disfun\u00e7\u00e3o f\u00edsica, de base neurol\u00f3gica, que caracteriza a doen\u00e7a. E isso precisa ser levado em considera\u00e7\u00e3o quando lidamos com pacientes depressivos.<\/p>\n<p>Como lidar com eles ent\u00e3o? Uma vez que voc\u00ea j\u00e1 sabe que existe um componente f\u00edsico e que n\u00e3o depende da vontade do paciente para ser curado, <em>evite achar que pode curar depress\u00e3o com conversa<\/em>. Da mesma forma que n\u00e3o faz sentido &#8220;conversar&#8221; para curar febre, n\u00e3o faz sentido apenas &#8220;conversar&#8221; para curar depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembro que quando tive aulas de primeiros-socorros, uma das primeiras coisas que aprendi foi: &#8220;<em>n\u00e3o tente remover a v\u00edtima, pois voc\u00ea pode piorar a situa\u00e7\u00e3o dela<\/em>&#8220;. Lidar com uma pessoa depressiva \u00e9 muito parecido com lidar com algu\u00e9m que acabou de sofrer um acidente: executar algum procedimento sem &#8220;saber&#8221; o que est\u00e1 fazendo pode seriamente piorar o quadro da pessoa. Da mesma maneira que, ao lidar com algu\u00e9m que acaba de sofrer um acidente, voc\u00ea \u00e0s vezes n\u00e3o pode fazer nada, voc\u00ea n\u00e3o precisa dizer \u00e0 pessoa que ela vai ficar sem a perna. Mais cedo ou mais tarde ela vai precisar saber que vai ficar sem a perna, mas isso n\u00e3o precisa ser dito na hora da agonia do acidente. Ao conversar com pessoas depressivas, evite dizer coisas do tipo &#8220;isso \u00e9 coisa da sua cabe\u00e7a&#8221;, &#8220;voc\u00ea vai sair dessa; s\u00f3 depende de voc\u00ea&#8221;, &#8220;n\u00e3o posso fazer nada por voc\u00ea&#8221;.\u00a0Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o possa fazer nada, diga \u00e0 pessoa &#8220;estou aqui com voc\u00ea e vou procurar ajuda para voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Assim como ocorre com pessoas que sofrem um acidente, a cura para a depress\u00e3o n\u00e3o \u00e9 imediata. Mesmo ap\u00f3s ir para o hospital, a dor das feridas do acidente ainda doem por um tempo. Mesmo depois que a pessoa procurar ajuda (que seja um antidepressivo), a cura ainda demora. O sistema l\u00edmbico precisa se &#8220;reorganizar&#8221; para come\u00e7ar a funcionar normalmente de novo. \u00c9 preciso paci\u00eancia. E paci\u00eancia vem com conhecimento do processo. Nunca se culpe pelo estado depressivo de algu\u00e9m. A sua sa\u00fade mental \u00e9 primordial se quer ajudar algu\u00e9m depressivo. Mas saber como agir \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>No pior das hip\u00f3teses, volte ao guia de primeiros-socorros. Pergunte! Procure saber. Leia sobre o assunto. Pergunte a quem entende. Essa atitude \u00e9 melhor que do que simplesmente agir de qualquer maneira e arriscar machucar ainda mais algu\u00e9m que j\u00e1 est\u00e1 suficientemente machucado a ponto de chegar \u00e0 um quadro depressivo.<\/p>\n<p><em>IMPORTANTE: Muita gente est\u00e1 entrando em contato comigo atrav\u00e9s do formul\u00e1rio de coment\u00e1rio desse post. Se voc\u00ea comentar como an\u00f4nimo, deixe uma forma de contato no corpo do coment\u00e1rio (e-mail, por exemplo). N\u00e3o se preocupe, pois os coment\u00e1rios s\u00e3o filtrados e eu n\u00e3o publicarei nenhuma informa\u00e7\u00e3o pessoal. 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(1982). Depression, illness beliefs and severity of illness <span style=\"font-style: italic\">Journal of Psychosomatic Research, 26<\/span> (2), 247-253 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/0022-3999(82)90043-5\" rev=\"review\">10.1016\/0022-3999(82)90043-5<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine a seguinte situa\u00e7\u00e3o: voc\u00ea acorda \u00e0s 7 da manh\u00e3 com seu filho de 5 anos dizendo que est\u00e1 com dor de cabe\u00e7a. Voc\u00ea mede a temperatura da crian\u00e7a e v\u00ea que ela est\u00e1 com 39,5 de febre. 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