{"id":92,"date":"2011-04-10T14:59:00","date_gmt":"2011-04-10T20:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/04\/quem-acha-que-presidenta-esta-errado-levante-a-mao\/"},"modified":"2011-04-10T14:59:00","modified_gmt":"2011-04-10T20:59:00","slug":"quem-acha-que-presidenta-esta-errado-levante-a-mao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/04\/10\/quem-acha-que-presidenta-esta-errado-levante-a-mao\/","title":{"rendered":"Quem acha que &#8220;presidenta&#8221; est\u00e1 errado levante a m\u00e3o!!!!"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-cISNzE_PZ84\/TaHv1yUykVI\/AAAAAAAACVs\/14XN8aptCj8\/s1600\/tiririca1.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/4.bp.blogspot.com\/-cISNzE_PZ84\/TaHv1yUykVI\/AAAAAAAACVs\/14XN8aptCj8\/s200\/tiririca1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"165\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Houve um per\u00edodo da minha gradua\u00e7\u00e3o em Letras que me tornei extremamente frustrado com a \u00e1rea. Vou tentar explicar o porqu\u00ea. Quando uma pessoa se forma em Medicina, ele recebe uma &#8216;certifica\u00e7\u00e3o&#8217; do Conselho Regional de Medicina. Esse documento simples assegura que somente pessoas certificadas pelo conselho podem exercer a profiss\u00e3o de m\u00e9dico. Apesar das receitas caseiras da mam\u00e3e para curar fur\u00fanculo e dor de cabe\u00e7a, tenho certeza que o CRM n\u00e3o daria \u00e0 ela uma certifica\u00e7\u00e3o para atuar como m\u00e9dica. Ademais, o cara que se forma em medicina passa grande parte da sua vida estudando e se preparando tecnicamente para exercer a profiss\u00e3o. O reconhecimento \u00e9 justo!<\/p>\n<div>Agora a Ling\u00fa\u00edstica! Essa ci\u00eancia (sim: CI\u00caNCIA) trata dos diversos aspectos relacionados \u00e0 linguagem humana. Uma pessoa formada em Lingu\u00edstica supostamente tem o conhecimento t\u00e9cnico dos aspectos que explicam por que uma palavra significa o que ela significa, por que a gram\u00e1tica \u00e9 do jeito que \u00e9, como uma l\u00edngua evolui, etc. Assim como o m\u00e9dico tem conhecimento t\u00e9cnico e profissional para atuar em assuntos de medicina, o ling\u00fcista tem conhecimento t\u00e9cnico e profissional para tratar de assuntos relacionados \u00e0 linguagem.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A minha frustra\u00e7\u00e3o surgiu exatamente por que a coisa n\u00e3o funciona assim na Lingu\u00edstica. O fen\u00f4meno conhecido como &#8220;<em><a href=\"http:\/\/cognando.blogspot.com\/2010\/10\/send-in-clowns-o-triunfo-da-ignorancia.html\">Illusion of Explanatory Depth<\/a><\/em>&#8221; parece ser bem mais proeminente na Lingu\u00edstica. Todo mundo parece ser <em>expert e<\/em>m linguagem. Todo mundo &#8212; principalmente as pessoas formadas em <span style=\"text-decoration: underline\">alguma coisa<\/span> &#8212; sabe tudo sobre Portugu\u00eas, gram\u00e1tica, como que a l\u00edngua evolui, etc. Eis um fato recente que ilustra o que quero dizer.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Come\u00e7ou a circular em Mar\u00e7o pela internet, o seguinte texto que reproduzo na \u00edntegra:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Tenho notado, assim como aqueles mais atentos tamb\u00e9m devem t\u00ea-lo feito, que a candidata Dilma Roussef e seus apoiadores, pretendem que ela venha a ser a<br \/>\nprimeira presidenta do Brasil, tal como atesta toda a propaganda pol\u00edtica veiculada na m\u00eddia.<\/em><br \/>\n<em>Presidenta???<br \/>\nMas, afinal, que palavra \u00e9 essa totalmente inexistente em nossa l\u00edngua?<br \/>\n<\/em><\/p>\n<div><em>Bem, vejamos:<\/em><\/div>\n<\/div>\n<p>No portugu\u00eas existem os partic\u00edpios ativos como derivativos verbais. Por exemplo: o partic\u00edpio ativo do verbo atacar \u00e9 atacante, de pedir \u00e9 pedinte, o de cantar \u00e9 cantante, o de existir \u00e9 existente, o de mendigar \u00e9 mendicante&#8230; Qual \u00e9 o partic\u00edpio ativo do verbo ser? O partic\u00edpio ativo do verbo ser \u00e9 ente. Aquele que \u00e9: o ente. Aquele que tem entidade.<\/p>\n<p>Assim, quando queremos designar algu\u00e9m com capacidade para exercer a a\u00e7\u00e3o que expressa um verbo, h\u00e1 que se adicionar \u00e0 raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte.<\/p>\n<p>Portanto, \u00e0 pessoa que preside \u00e9 PRESIDENTE, e n\u00e3o &#8220;presidenta&#8221;, independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente, e n\u00e3o capela &#8220;ardenta&#8221;; se diz estudante, e n\u00e3o &#8220;estudanta&#8221;; se diz adolescente, e n\u00e3o &#8220;adolescenta&#8221;; se diz paciente, e n\u00e3o &#8220;pacienta&#8221;.<\/p>\n<p>Um bom exemplo do erro grosseiro seria:<\/p>\n<p>&#8220;A candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta.<br \/>\nEsperamos v\u00ea-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta pol\u00edtica, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, n\u00e3o tem o direito de violentar o pobre portugu\u00eas, s\u00f3 para ficar contenta&#8221;.<\/p>\n<p>Por favor, pelo amor \u00e0 l\u00edngua portuguesa, repasse essa informa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Bobagem! Lembro que postei um coment\u00e1rio obviamente rejeitando o posicionamento do texto, mas recebi uma resposta dizendo que &#8220;foi legal a minha problematiza\u00e7\u00e3o, mas linguagem \u00e9 utilizada como estratagema pol\u00edtico&#8221;.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>??? (<em>whatever that means<\/em>&#8230;.)<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas c\u00e1 pra n\u00f3s, uma vez que a internet \u00e9 terra de ningu\u00e9m e est\u00e1 mesmo cheia de bobagens como essa, n\u00e3o liguei muito! Eis que hoje, vejo a seguinte coluna publicada no jornal <em>O Tempo<\/em> em Belo Horizonte &#8212; quem assina a coluna \u00e9 o jornalista Vittorio Medioli. Reproduzo a coluna na \u00edntegra.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>&#8220;Entre inovar para pior e manter a postura correta, a segunda hip\u00f3tese ser\u00e1 sempre a melhor. Uma marca, uma diferencia\u00e7\u00e3o que a pessoa decida adotar, precisa ser sopesada e analisada por diferentes \u00e2ngulos, especialmente quando se trata de um Chefe-de-Estado &#8211; mais alto exemplo para na\u00e7\u00e3o.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>A presidente da Rep\u00fablica decidiu se apresentar &#8220;presidenta&#8221; Dilma Rousseff. Contrariando regras gramaticais, que destoam at\u00e9 aos ouvidos mais rudes.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>A gram\u00e1tica do nosso vern\u00e1culo \u00e9 clara. Quando se deseja identificar uma pessoa para exercer o que o verbo expressa, devem-se adicionar \u00e0 raiz verbal os sufixos: &#8220;ante&#8221;, &#8220;ente&#8221; ou &#8220;inte&#8221;, independentemente do indiv\u00edduo ser de sexo masculino ou feminino.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Portanto, no caso de Dilma se adota &#8220;presidente&#8221;, com a raiz de presidir e o sufixo &#8220;ente&#8221;.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>H\u00e1 quem defenda o termo como uma esp\u00e9cie de &#8220;licen\u00e7a po\u00e9tica&#8221; &#8211; permiss\u00e3o dada ao autor para transgredir regras gramaticais como concord\u00e2ncia e reg\u00eancia. N\u00e3o cabe a uma defini\u00e7\u00e3o de cargo, recorrer a poesia ou a prosa para transgredir a gram\u00e1tica. Aqui tem o certo ou errado, sem espa\u00e7o para licen\u00e7as e devaneios.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>A defini\u00e7\u00e3o de presidente Dilma, trata-se do uso correto do vern\u00e1culo..<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Para quem tem proximidade e familiaridade com o latim, que originou a l\u00edngua portuguesa, a &#8220;presidenta&#8221; chega a ficar ainda mais estridente, j\u00e1 que depois de tr\u00eas mil anos de hist\u00f3ria e de milh\u00f5es de tratados n\u00e3o se encontra uma variante mais incorreta para uma Chefe de Estado.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Na assessoria da augusta presidente, estranhamente, o erro \u00e9 aceito e repetido. O chefe tem sempre raz\u00e3o! Esse \u00e9 primeiro mandamento quando ele ou ela \u00e9 t\u00e3o resoluto como Dilma.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Se a moda pegar teremos que estender a novidade para in\u00fameras designa\u00e7\u00f5es: mulher gestante ser\u00e1 gestanta, a adolescente, adolescenta, a estudante, estudanta e a parturiente de &#8220;parturienta&#8221;, tudo para rimar com presidenta.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Peguei uma conversa de um apedeuta que conclu\u00eda com marretadas um ign\u00f3bil racioc\u00ednio: &#8220;senadora e deputada acabam com &#8220;a&#8221;, portanto&#8230;.&#8221;. Haja ignor\u00e2ncia. N\u00e3o se tem uma raiz de verbo que leve ao sufixo &#8220;ente&#8221;, ou existe &#8220;senadar&#8221; ou &#8220;deputadar&#8221;? Pode-se e deve-se nesses casos finalizar a palavra com a letra &#8220;a&#8221;, indicando nela a condi\u00e7\u00e3o feminina da ocupante (n\u00e3o ocupanta) do cargo.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Provavelmente, o apedeuta em quest\u00e3o vive num ambiente em que se adota: chama ardenta, lua nascenta ou carta faltanta. Claro.<\/em><\/div>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div><em>Dilma teve um bom come\u00e7o de mandato, n\u00e3o precisa disso. Ainda d\u00e1 para corrigir.&#8221;<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Agora a coisa ficou s\u00e9ria. A bobagem foi publicada em jornal de grande circula\u00e7\u00e3o e assinada por um&#8230; jornalista. Eis o ponto onde quero chegar. Um linguista certamente n\u00e3o foi consultado acerca do assunto (na verdade foi, mas <em>who cares?<\/em>). Basicamente, qualquer pessoa pode escrever sobre linguagem, l\u00edngua, sem correr o risco de &#8220;exercer uma profiss\u00e3o da qual n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o&#8221;. E isso \u00e9 frustrante. Passar quatro anos na universidade e depois mais alguns de mestrado e doutorado e competir com a grande popula\u00e7\u00e3o leiga \u00e9 frustrante.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas para repudiar a bobagem que o Medioli escreveu, publico na \u00edntegra a resposta \u00e0 mat\u00e9ria dele, escrita por um amigo meu, lingu\u00edstica e que tem todo o respaldo profissional e t\u00e9cnico para falar sobre o assunto:<\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Pedro Perini-Santos (Doutor em Lingu\u00edstica, UFMG\/Univeristy of California)<\/em><\/div>\n<p><em>Realmente n\u00e3o faz parte da minha postura profissional usar da titula\u00e7\u00e3o como mecanismo de argumenta\u00e7\u00e3o. No entanto, dada a discrep\u00e2ncia publicada pelo jornal O Tempo, abro meu coment\u00e1rio assinando-o como &#8220;mestre e doutor em lingu\u00edstica&#8221;, porque o que o articulista Medioli publicou est\u00e1 errado. Interessantemente, o pr\u00f3prio Tempo em 05\/02 deste ano publicou um artigo por mim e por um colega linguista sobre o tema. A forma &#8220;presidenta&#8221; est\u00e1 correta, porque todos n\u00f3s entendemos muito bem; entendemos mais do que entendemos &#8220;apedeuta&#8221;; n\u00e3o ser\u00e3o geradas a partir dela &#8220;estudanta&#8221;, &#8220;eleganta&#8221; ou &#8220;jornal A Tempa&#8221;&#8230; Tudo leva a crer que &#8220;presidenta&#8221;, assim como acontece em outras v\u00e1rias l\u00ednguas, ser\u00e1 uma formula\u00e7\u00e3o cristalizada e que n\u00e3o ser\u00e1 modelo pra outras deriva\u00e7\u00f5es, mas demonstra a import\u00e2ncia de trabalharmos nas Universidades e na Imprensa por um mundo menos machista e menos agressivo. Certamente, &#8220;depois de tr\u00eas mil anos de hist\u00f3ria e de milh\u00f5es de tratados&#8221; h\u00e1 muitos, muitos e muitos erros ou variantes consideradas &#8220;incorretas&#8221;; isso n\u00e3o \u00e9 grave. Grave \u00e9 a agressividade do texto publicado. Posturas assim geram desinteresse pelos estudos gramaticais, inibem a produ\u00e7\u00e3o textual de crian\u00e7as, adolescentes e adultos e fazem com que busquemos algo que nunca existiu e nunca existir\u00e1: um idioma perfeito e regular.<\/em><\/p>\n<div><em><br \/>\n<\/em><\/div>\n<div>Essa informa\u00e7\u00e3o sim, deve ser repassada! \ud83d\ude42<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Siga o Cognando no Facebook (<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\">www.facebook.com\/cognando<\/a>)<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Linguistics&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1515%2FLING.2010.001&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=The+origins+of+grammaticalization+in+the+verbalization+of+experience&amp;rft.issn=0024-3949&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=48&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=1&amp;rft.epage=48&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fwww.reference-global.com%2Fdoi%2Fabs%2F10.1515%2FLING.2010.001&amp;rft.au=Croft%2C+W.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">Croft, W. (2010). The origins of grammaticalization in the verbalization of experience <span style=\"font-style: italic\">Linguistics, 48<\/span> (1), 1-48 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1515\/LING.2010.001\" rev=\"review\">10.1515\/LING.2010.001<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um per\u00edodo da minha gradua\u00e7\u00e3o em Letras que me tornei extremamente frustrado com a \u00e1rea. Vou tentar explicar o porqu\u00ea. Quando uma pessoa se forma em Medicina, ele recebe uma &#8216;certifica\u00e7\u00e3o&#8217; do Conselho Regional de Medicina. 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