{"id":94,"date":"2011-04-15T15:01:00","date_gmt":"2011-04-15T21:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/cognando\/2011\/04\/pra-que-pedir-desculpa\/"},"modified":"2011-04-15T15:01:00","modified_gmt":"2011-04-15T21:01:00","slug":"pra-que-pedir-desculpa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/cognando2\/2011\/04\/15\/pra-que-pedir-desculpa\/","title":{"rendered":"Pra que pedir desculpa?"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-59sJTNOcgLo\/TaiHZyb0RqI\/AAAAAAAACV8\/rlUxUZAGI_s\/s1600\/confianc%25CC%25A7a.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" style=\"border-style: initial;border-color: initial;border-width: 0px\" src=\"http:\/\/2.bp.blogspot.com\/-59sJTNOcgLo\/TaiHZyb0RqI\/AAAAAAAACV8\/rlUxUZAGI_s\/s200\/confianc%25CC%25A7a.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"133\" border=\"0\" \/><\/a><\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edstica humanas que eu mais gosto \u00e9 o eterno descompasso que existe entre o que &#8220;queremos&#8221; fazer e sentir e o que &#8220;realmente&#8221; fazemos e sentimos. Confuso? Eu explico. Se eu pedisse a voc\u00ea que me dissesse o n\u00edvel de tristeza (em uma escala de 1 a 10) que voc\u00ea sentiria se terminasse o seu namoro de 15 anos, provavelmente voc\u00ea diria algo perto de 10. Mas se eu te fizesse a mesma pergunta no dia do t\u00e9rmino do namoro, provavelmente voc\u00ea diria que o seu n\u00edvel de tristeza \u00e9 bem menor.<\/p>\n<div>Isso mesmo. A gente sempre &#8220;exagera&#8221; no n\u00edvel das emo\u00e7\u00f5es que achamos que vamos sentir em acontecimentos futuros. O mesmo acontece com as nossas a\u00e7\u00f5es. Sempre achamos que vamos fazer &#8220;mais&#8221; do que realmente fazemos: falamos que vamos ser mais solid\u00e1rios e, na realidade, n\u00e3o somos. Falamos que vamos ser menos ego\u00edstas, e na verdade, n\u00e3o somos. Falamos que vamos votar melhor, e elegemos Tiriricas e Rom\u00e1rios. E por a\u00ed vai.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00f3s vivemos em uma sociedade em que pedir desculpas \u00e9 uma coisa boa. Aprendemos desde crian\u00e7as que, n\u00e3o importa o tamanho da nossa raiva na hora em que &#8220;sentamos a m\u00e3o no coleguinha que roubou nosso lanche&#8221;, devemos voltar e pedir desculpa. Mas porqu\u00ea? Supostamente, pedir desculpa tem uma fun\u00e7\u00e3o social importante. Ela serve para mostrar o nosso reconhecimento de que &#8220;quebramos alguma regra social&#8221;e serve principalmente para restabelecer a boa intera\u00e7\u00e3o entre o que cometeu o erro e o afetado pelo erro.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Bonito, n\u00e9! No papel.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Estamos carecas de saber que no dia-a-dia a coisa n\u00e3o funciona assim. Erramos, pedimos desculpa e a boa intera\u00e7\u00e3o nunca volta. Conhe\u00e7o casos em que, mesmo ap\u00f3s anos do pedido de desculpa, as pessoas continuam &#8220;se pegando&#8221;, como se nunca tivesse acontecido um pedido de desculpa. Ent\u00e3o a pergunta que fica \u00e9: de que vale pedir desculpas? Ser\u00e1 que o perd\u00e3o \u00e9 apenas mais um desses sentimentos que &#8220;achamos&#8221; que vamos ter quando algu\u00e9m nos pede desculpa, mas que na verdade, nunca temos?<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Recentemente, um grupo de pesquisadores da <em>London Business School<\/em> e da <em>Erasmus University<\/em> investigou exatamente esse ponto. Eles investigaram o que as pessoas se sentiriam se &#8220;imaginassem&#8221; um pedido de desculpa (ap\u00f3s uma ofensa) e o que elas sentiriam caso o pedido de desculpa fosse real.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Os participantes da pesquisa participaram desse &#8220;jogo de confian\u00e7a&#8221; com um outro participante (que era na verdade o pesquisador). No jogo de confian\u00e7a, o participante come\u00e7a com alguma quantidade de dinheiro (R$ 10,00 por exemplo). A instru\u00e7\u00e3o do jogo diz o seguinte: voc\u00ea tem a op\u00e7\u00e3o de ficar com essa quantia ou passar toda ela (ou parte dela) para o seu parceiro. A quantidade que voc\u00ea passar para ele ser\u00e1 triplicada. O seu parceiro ent\u00e3o tem o direito de dividir de volta com voc\u00ea a quantidade que ele quiser. Geralmente o cen\u00e1rio mais &#8220;justo&#8221; \u00e9 o seguinte: o participante d\u00e1 os R$ 10,00 para o parceiro. O parceiro ent\u00e3o receber\u00e1 o triplo (R$ 30,00) e ir\u00e1 dividir a quantia ao meio, de maneira que os dois fiquem com R$ 15,00 no final. Mas como tudo \u00e9 na base da &#8220;escolha&#8221;, \u00e9 preciso confiar ou n\u00e3o no parceiro. Ap\u00f3s eu dar alguma quantia para ele, ele pode decidir me dar apenas R$ 1,00 de volta e pronto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quase todos os participantes do estudo decidiram dar a quantia total para o parceiro. No entanto, o parceiro deu apenas R$ 5,00 de volta (sendo injusto). Para metade dos participantes, os pesquisadores perguntaram como eles se sentiriam se os parceiros pedissem desculpa pela injusti\u00e7a. Para a outra metade, os parceiros realmente pediram desculpa aos participantes.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Como era de se esperar, as pessoas que apenas imaginaram o pedido de desculpa se sentiram bem melhor do que as pessoas que realmente ouviram o pedido de desculpa. Por mais que achamos que vamos nos sentir bem com um pedido de desculpa, se ele realmente acontece n\u00e3o nos sentimos t\u00e3o bem assim.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Mas pra que realmente pedimos desculpas? Uma das coisas que queremos quando pedimos desculpas \u00e9 que a outra pessoa volte a confiar na gente. No mesmo estudo, os pesquisadores perguntaram aos participantes se eles confiariam novamente nos parceiros. Eis o achado interessante: as pessoas que ouviram a desculpa de verdade perderam a confian\u00e7a no parceiro mais do que o grupo que n\u00e3o escutou a desculpa. Em outras palavras, o parceiro que errou e pediu desculpa perdeu tamb\u00e9m a confian\u00e7a da outra pessoa, ao passo que o parceiro que errou e n\u00e3o pediu desculpa n\u00e3o perdeu tanto assim a confian\u00e7a da outra pessoa.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por que pedir desculpa, ent\u00e3o????<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A id\u00e9ia principal \u00e9 que se algu\u00e9m trai sua confian\u00e7a e n\u00e3o pede desculpa, voc\u00ea vai ficar &#8220;com raiva&#8221; da trai\u00e7\u00e3o e do n\u00e3o pedido de desculpa. Se algu\u00e9m pede desculpa, a raiva que fica \u00e9 apenas a da trai\u00e7\u00e3o. Nesse caso, voc\u00ea tem basicamente duas op\u00e7\u00f5es: (1) continuar com raiva e n\u00e3o fazer nada e (2) tentar restabelecer a sua confian\u00e7a na pessoa, seja atrav\u00e9s de conversa, de a\u00e7\u00f5es, etc. O importante \u00e9 que o restabelecimento da confian\u00e7a \u00e9 responsabilidade sua e n\u00e3o da pessoa que traiu sua confian\u00e7a.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Quanto \u00e0 pessoa que traiu sua confian\u00e7a, basta ela saber que pedir desculpa n\u00e3o ir\u00e1 resolver o problema, n\u00e3o ir\u00e1 fazer com que a pessoa confie nela novamente e certamente n\u00e3o ir\u00e1 acabar com a dor causada pela &#8220;infra\u00e7\u00e3o&#8221; que motivou o pedido de desculpa. \u00c9 importante saber que o pedido de desculpa apenas retira uma das fonte de decep\u00e7\u00e3o e raiva.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Acompanhe o Cognando no <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/cognando\">Facebook<\/a> e no <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/cognando\">Twitter<\/a>. N\u00e3o aceito desculpas depois! \ud83d\ude42<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Refer\u00eancia:<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<p><span class=\"Z3988\" title=\"ctx_ver=Z39.88-2004&amp;rft_val_fmt=info%3Aofi%2Ffmt%3Akev%3Amtx%3Ajournal&amp;rft.jtitle=Psychological+Science&amp;rft_id=info%3Adoi%2F10.1177%2F0956797610391101&amp;rfr_id=info%3Asid%2Fresearchblogging.org&amp;rft.atitle=How+Important+Is+an+Apology+to+You%3F%3A+Forecasting+Errors+in+Evaluating+the+Value+of+Apologies&amp;rft.issn=0956-7976&amp;rft.date=2010&amp;rft.volume=22&amp;rft.issue=1&amp;rft.spage=45&amp;rft.epage=48&amp;rft.artnum=http%3A%2F%2Fpss.sagepub.com%2Flookup%2Fdoi%2F10.1177%2F0956797610391101&amp;rft.au=De+Cremer%2C+D.&amp;rft.au=Pillutla%2C+M.&amp;rft.au=Folmer%2C+C.&amp;rfe_dat=bpr3.included=1;bpr3.tags=Psychology%2CCognitive+Psychology+Linguistics\">De Cremer, D., Pillutla, M., &amp; Folmer, C. (2010). How Important Is an Apology to You?: Forecasting Errors in Evaluating the Value of Apologies <span style=\"font-style: italic\">Psychological Science, 22<\/span> (1), 45-48 DOI: <a href=\"http:\/\/dx.doi.org\/10.1177\/0956797610391101\" rev=\"review\">10.1177\/0956797610391101<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das caracter\u00edstica humanas que eu mais gosto \u00e9 o eterno descompasso que existe entre o que &#8220;queremos&#8221; fazer e sentir e o que &#8220;realmente&#8221; fazemos e sentimos. Confuso? Eu explico. 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