Todos os posts de Aline Ghilardi

Aline é bióloga, especialista em paleontologia de vertebrados e criadora da rede de divulgação científica "Colecionadores de Ossos". Atualmente é professora adjunta de Paleontologia do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em Natal, RN.

“Simiosauria”: os “répteis-macaco” do Triássico

Simiosauria!!! Isso mesmo. Na imagem do enigma está representada a ponta da cauda de um Simiosauria. Esses bichinhos são répteis típicos do período Triássico  e viveram entre 220-216 milhões de anos atrás. Pouca gente já ouviu falar, mas eles têm tem uma história muito interessante pra contar.

Ainda no início do Era Mesozóica os répteis começaram a dominar todos os cantos do planeta, seja terra, água ou ar. Por mais de 150 milhões de anos, eles seriam reis absolutos de todo ecossistema terrestre. Do seu reinado, os personagens mais famosos são os dinossauros, os pterossauros e os répteis marinhos. Ora, entre tantos gigantes, quem daria atenção algo tão pequeno e discreto quanto um camaleão…? Os Simiosauros não tem quase nenhuma relação com esses répteis da atualidade, mas sabiam fazer muito bem  uma coisa que os camaleões também sabem: escalar árvores!

Os Simiosaurios deveriam ser mestres da escalada. Uma série de adaptações favoreceu a conquista a copa das árvores como a presença de dedos opositores nas mãos – e em alguns casos nos pés – e o auxílio de uma poderosa cauda preênsil (com exceção de uma única espécie, Hypuronector). Foi o inferido comportamento arborícola desses animais, que rendeu o nome ao grupo, que signica, nada mais, nada menos, que “réptil macaco”.

Na ponta da cauda preênsil de pelo menos duas espécies – das seis conhecidas – está uma das mais curiosas modificações: Uma “garra”! Não é uma garra verdadeira. Na verdade as últimas vértebras foram fundidas para formar uma estrutura semelhante a uma garra, cujo formato também lembra muito a do aguilhão dos escorpiões. A função? Possivelmente ajudar a manter o animal firme no alto das árvores.

Fóssil de Drepanosaurus, proveniente do norte da Itália. Clique na imagem para ampliar e ver o detalhe da “garra” na ponta da cauda.

Outra curiosidade sobre os Simiosauria é o formato do seu crânio. Veja bem a imagem ao lado. Lembra muito o crânio das aves. Alguns pesquisadores chegaram inclusive a sugerir que os Simiosauria poderiam ser bons canditados a ancestrais desses animais emplumados. O que mostrou-se um grande engano, todavia.

Evidências mais do que suficientes indicam que os dinossauros são a verdadeira origem aviana. Ou seja, que aves são nada mais que dinossauros com bico, sem dente e penas. O que aconteceu no caso dos Simiosauria é um exemplo de convergência evolutiva. Isso quer dizer: o seu ancestral não é comum ao das aves, mas ambos os grupos desenvolveram características semelhantes independentemente.

Fósseis de Simiosauria são conhecidos da Itália (Megalancosaurus, Drepanosaurus e Vallesaurus),  dos Estados Unidos (Dolabrosaurus e Hypuronector) e há um único registro na Inglaterra. O bicho da foto do enigma só podia ser da Itália, já que os únicos simiossáurios com a tal “garra” na cauda foram encontrados ali..

O estudo mais recente sobre simiossáurios foi publicado em 2010 por Silvio Renesto e colaboradores. No trabalho, a equipe de cientistas descreve uma nova espécie de Vallesaurus e refaz o estudo filogenético do grupo inteiro. Eles destituem o clado Simiosauria e criam um novo,  Drepanosauromorpha, que inclui Elyurosauria e Hypuronector, a espécie mais bizarra das 6 conhecidas (Veja a última figura deste post).

Elyurosauria englobaria as duas espécies de Vallesaurus, além de Dolabrasaurus, Drepanosaurus e Megalancosaurus (Veja imagem abaixo).

Elyurosauria=“réptil de cauda enrolada”.

Clique para ampliar!
Megaloncosaurus por Emilio Rolandi. Visite o Portifolio: http://rolandi.deviantart.com/
O estranho Hypuronector por Alain Beneteau. Visite o Portifolio: http://dustdevil.deviantart.com/

Esses animais possivelmente se alimentavam de insetos e tinham um bote poderoso a julgar pelo pescoço flexível e as vértebras fusionadas  sobre os ombros, que formavam um tipo de corcova fornecendo uma superfície ampla para a fixação dos músculos cervicais. Essa adaptação permitiria uma movimentação rápida e precisa na hora de capturar a presa.

Devido ao fato de quase todas as espécies apresentarem um certo nível de achatamento caudal e serem encontradas unicamente em depósitos lacustres, chegou-se a propor – no início dos estudos – um hábito de vida aquática para esses animais. Essa hipótese hoje é absolutamente descartada, frente o melhor conhecimento anatômico do grupo.

Espero que tenham gostado! Enquanto isso, fiquem espertos e se preparem para o próximo paleo-enigma!!
Para saber mais:
Renesto, S., Spielmann, J.A., and Lucas, S.G. (2009). “The oldest record of drepanosaurids (Reptilia, Diapsida) from the Late Triassic (Adamanian Placerias Quarry, Arizona, USA) and the stratigraphic range of the Drepanosauridae.” Neues Jahrbuch für Geologie und Paläontologie Abhandlungen252(3): 315-325. doi: 10.1127/0077-7749/2009/0252-0315.

Renesto, S. (2000). “Bird-like head on a chameleon body: new specimens of the enigmatic diapsid reptile Megalancosaurus from the Late Triassic of northern Italy.”Rivista Italiana di Paleontologia e Stratigrafia106: 157–180. Abstract

Senter, P. (2004). “Phylogeny of Drepanosauridae (Reptilia: Diapsida).” Journal of Systematic Palaeontology2(3): 257-268.

Colbert, E. H., and Olsen, P. E. (2001). “A new and unusual aquatic reptile from the Lockatong Formation of New Jersey (Late Triassic, Newark Supergroup).” American Museum Novitates, 3334: 1-24.

Renesto, S. (1994). “Megalancosaurus, a possibly arboreal archosauromorph (Reptilia) from the Upper Triassic of northern Italy.” Journal of Vertebrate Paleontology14(1): 38-52.

Silvio Renesto, Justin A. Spielmann, Spencer G. Lucas, and Giorgio Tarditi Spagnoli. (2010). The taxonomy and paleobiology of the Late Triassic (Carnian-Norian: Adamanian-Apachean) drepanosaurs (Diapsida: Archosauromorpha: Drepanosauromorpha). New Mexico Museum of Natural History and Science Bulletin. 46:1–81

O antigo post do Colecionadores de Ossos sobre Simiosauria está AQUI.

Mais um capítulo da novela "Fósseis brasileiros vendidos no exterior"…

Nos capítulos anteriores: Paleontólogos brasileiros urgem em defesa do Brasil e do patrimônio fossilífero da nação! ,  Fósseis brasileiros a venda no E-bay e Qual a forma legal de pesquisar fósseis no Brasil …

Agora é a vez de uma excêntrica alemã vender fósseis do Araripe, de qualidade extraordinária, pelo seu site pessoal. Ignorância quanto as leis brasileiras ou muita “cara-de-pau”?

Acredito que a mudança vem com a insistência (nunca com a desistência!). Apesar de não termos conseguido NENHUMA, repito N.E.N.H.U.M.A mudança com relação ao status DESTE FÓSSIL – que CONTINUA a venda no e-bay (obrigada autoridades!!! Sim, isso é sarcasmo) – é importante continuar lutando.

Como paleontóloga brasileira confesso que as vezes me canso. Parece uma luta invencível. Todavia, ainda acredito que ‘a semente da mudança é o conhecimento’. Disseminar o conhecimento é parte fundamental do processo de formação de uma sociedade saudável: autônoma e capaz de refletir sobre a sua condição e as formas de resolver os seus problemas.

Cada um que lê essa notícia, por exemplo, funciona como um vetor ou um pequeno inseto faminto devorando a estrutura doentia na qual se baseia a sociedade moderna: a ignorância em prol do controle.

Sob esta perspectiva, o papel da divulgação científica (séria) é fundamental. Trazer assuntos que ficariam confinados ao círculo de discussão de acadêmicos para trato do povo é um dever. O conhecimento dá ao povo armas para lutar: Saber sim é poder. Na verdade, é a principal chave da mudança.

E de qualquer forma, para que existiria a ciência se não estivesse a serviço do povo?

Neste post trago um assunto que não é novo no blog. Na verdade já foi tratado diversas vezes recentemente e abriu espaço para uma saudável discussão.

Meu intuito não é exaurir o tema ou impor um ponto de vista. É esclarecer, expor e colocar em debate.

Venho fazer mais uma denúncia e um apelo:

Como já esclareci em outras oportunidades (aqui e aqui), o comércio de fósseis brasileiros é crime e a exportação dos mesmos é igualmente ilegal de acordo com o DECRETO-LEI 4.146 de 1942. De acordo com este documento, fósseis são considerados bens da união ou partes do patrimônio cultural e natural do Brasil.

Recentemente, todavia, tivemos mais um exemplo de isso não é de fato cumprido.

Por apontamento do colega Renan Bantin, da UFPE, um site veio ao conhecimento da comunidade paleontológica brasileira, “annsus.com” (Acesse o site AQUI). Este sítio virtual, mantido por uma alemã, disponibiliza para o comércio de decoração, mais de uma centena de fósseis brasileiros de qualidade excepcional, incluso alguns espécimes de raridade considerável (e.g. o crânio de pterossauro abaixo, disponível para venda).

Isso por si só não é muita novidade, já que  pelo e-bay ou por outros sites de leilões virtuais é muito comum encontrar fósseis brasileiros a venda (infelizmente). PORÉM… não da mesma forma descarada.

Mesmo que todos saibam que estes fósseis comercializados pela internet tenham sido retirados ilegalmente do país, normalmente os vendedores utilizam-se alguns subterfúgios para escapar de sanções da lei. Como por exemplo, dizer que estes fósseis foram retirados do Brasil antes de 1942! Ora, perfeito, não temos como provar o contrário! Que esperteza a deles (!).

Veja exemplares de fósseis brasileiros ao fundo.

TODAVIA, esta senhora alemã (foto ao lado esquerdo) não se preocupou muito com isso… Já como nossas autoridades não se movimentam muito mesmo, ela não se incomodou em deixar claro o seu negócio:

“For more than 30 years fossils have been my life. It started out as a hobby towards the end of the 1970’s and finally developed into being my full-time job today. After finishing school I started an education as a tax inspector at the fiscal authorities in Frankfurt-Höchst. After my certification I worked in this field for another three years.

Then I decided to become self-employed and started to work with Michael Schwickert. He had started a fossil business three years earlier, excavating and preparing fossils in the German province of Rheinland-Pfalz. At the time, my responsibilities were mainly in the organizational and marketing aspect. Excavations in other parts of Germany as well as in several other countries followed, always searching for rare and unusual specimens. Preparation was done at our own facility, and the finished specimens were then made available to museums, institutes, collections and at international fossil shows. Fossils from our prep lab are now represented world-wide in well-known institutions.” (Fonte: http://www.annsus.com/index_en.html)

“Por mais de 30 anos os fósseis tem sido a minha vida. Isso começou como um hobby no final da década de 1970, mas finalmente tornou-se meu emprego de tempo integral na atualidade. Depois de terminar meus estudos, comecei um curso de inspetor fiscal em Frankfurt-Höchst. Depois de ganhar meu certificado eu trabalhei neste ramo por aproximadamente 3 anos. Então, decidi trabalhar por conta própria e comecei um negócio com Michael Schwickert. Ele entrou no ramo dos fósseis 3 anos antes que eu, escavando e preparando este material na província alemã de Rheinland-Pfalz. Naquela época, as minhas responsabilidades eram basicamente aspectos da organização e do marketing. Escavações em outras partes da Alemanha, assim como em outros vários países se seguiram, sempre procurando por espécimes raros e excepcionais. A preparação era feita no nosso próprio estabelecimento e depois de preparadas, as peças eram disponibilizadas para museus, institutos, coleções e mostras internacionais de fósseis. Fósseis do nosso laboratório de preparação estão representados em instituições renomadas do mundo inteiro.”

O interesse de contrabandistas – principalmente alemães – pela riqueza fossilífera do Brasil começou entre as décadas de 1980 e 1990. Naquela época, o comércio de fósseis abastecia museus renomados da europa, como o de Hamburgo, Frankfurt e Munique.

Nesse cenário, Michael Lothar Schwickert é um dos maiores contrabandistas de fósseis em atuação no mercado internacional. Sua atuação trouxe prejuízos incalculáveis para o patrimônio paleontológico brasileiro e transformou a região do Cariri, no nordeste do Brasil, num bem organizado núcleo de exportação.

Depois de estabelecer contatos na região, Schwickert implantou um sofisticado sistema de coleta de fósseis no interior do Ceará. Sua organização contava com estação de rádios comunicadores, equipamentos pesados como compressores e técnicas extremamente eficientes de extração nas minas. Ele montava as equipes e trabalhava à noite. As peças eram enviadas para a Europa em caixotes colocados em contêineres despachados sob o disfarce de outro material, como pedras e calcário, nos portos ou aeroportos de Recife, São Paulo e Rio.

Schwickert chegou a ser preso no aeroporto em Fortaleza em 2002, depois de uma longa investigação que começou em meados de 1996. Todavia foi solto porque não portava material fóssil. Foi extraditado e respondeu ao processo em liberdade.

Proprietário da empresa ms-fossil, seu esquema contava com dezenas de colaboradores locais, como Francisco Ronaldo Correia e Euclides Praxedes, que cobriam grande parte da Chapada do Araripe. Muitos  de seus antigos ‘ajudantes’ continuam em atividade ilegal até hoje.

Pelo que podemos observar, Scwickert continua colhendo frutos de seu ‘negócio lucrativo’ até hoje. É por isso que este site  não pode ser considerado simples fruto da ignorância por parte de estrangeiros quanto as leis brasileiras, mas sim, MUITA CARA DE PAU!! Ah, sim, Aproveite, visite o site e faça “um incrível tour 360 graus” em uma das mostras deles na Alemanha (!).

O prejuízo para o país com a exportação deste tipo de material é impossível de ser calculado. Encaixa-se no mesmo quadro da biopirataria. Trata-se da retirada ilegal e comercialização de um aspecto científico-cultural. Um fóssil não é um simples recurso mineral, não é como uma pedra preciosa. São itens únicos. Eles  não são enfeites, mas sim ajudam a elucidar questões ambientais e evolutivas do passado do nosso planeta! São parte de nossa história. Atividades como a do Sr. Schwickert fazem com que este potencial seja perdido para as mãos de colecionadores excêntricos ou museus descontextualizados para com os interesses científicos e avanços feitos por cientistas brasileiros. O fóssil passa a ter uma única função: expositiva. Sem dúvida também são itens para ser apreciados, mas essa não é sua única função!!!

A proteção aos depósitos de fósseis é uma preocupação cada vez maior em âmbito mundial. Em diversos países já existem leis que procuram controlar a extração de material fóssil (leia AQUI – Heritage Auctions: Stop the auction of illegally collected Mongolian dinosaur fossils.). O êxito varia em função do estado ou país onde as leis são aplicadas. Entre as soluções para amenizar o problema estão a ampla divulgação, desenvolvimento de ações educativas e a criação de parques para desenvolvimento da indústria turística paleontológica, que levariam um retorno econômico para a população, afim de coibir o seu envolvimento com o tráfico ilegal (veja o exemplo do GeoPark Araripe, que apesar de ter sido um grande passo nessa batalha, por si só não é suficiente). É sobretudo necessário mostrar a população a importância e os benefícios que o patrimônio paleontológico pode fornecer.

Qual o seu papel como cidadão frente a isso? Denunciar, promover, divulgar, discutir. Participe, isso é cidadania.

Denúncias de venda e extração ilegal de fósseis devem ser reportadas ao DNPM e a Polícia Federal.

Quem quiser se engajar, deixe um recado de repudio aos nossos colegas de “annsus.com” pelo seu próprio site ou pelo e-mail: office@annsus.com. Endereço e telefones também encontram-se disponíveis aqui.

– Qual o seu posicionamento quanto a comercialização de fósseis?

Para se informar mais: 
Além dos outros posts aqui do blog sobre essa temática, fortemente aconselho a leitura desta reportagem: Tráfico no parque dos Dinossauros, Mixaria no sertão e ouro no exterior: fósseis brasileiros fazem a fortuna de contrabandistas

Isso não são ovos de dinossauros

Extra, extra! Cientistas descobrem ovos de dinossauro na Rússia!

ERRADO!!

Isso não são ovos de dinossauros!!!!!!!

Essa notícia (“Cientistas encontram ovos de dinossauros na Rússia“) se dissipou não só na internet, mas foi veiculada também noutros principais meios de comunicação do país. Os jornais da globo se deliciaram com o ‘furo jornalistico’, assim como os criacionistas, quando viram mais uma oportunidade para vangloriar sua teoria sobre “fósseis poliestrata” (WTF!).

Nós, paleontólogos, sentimos vergonha alheia pelo colega geólogo da foto quando isso se dissipou por aí. O que a foto mostra, na realidade, são concreções esferoidais. São lindas realmente. Belas amostras geológicas, mas não ovos de dinossauros!

Concreções são formadas em rochas sedimentares pela cimentação diferencial de grãos do arcabouço e matriz, que estejam agregados ao redor de um ‘núcleo precursor’, de origem orgânica ou não. Como assim?!

Bem, o núcleo precursor é que desencadeia o processo de formação  da concreção. Ele geralmente possui afinidade química que favorece a deposição de determinados tipos de cimento no seu entorno… Se o núcleo for de origem orgânica (uma folha, um peixe, um pterossauro, etc.), esse processo de acresção de minerais pode ser favorecido pela ação de bactérias, por exemplo. Sob essa perspectiva, muitas concreções podem conter fósseis… mas essas geralmente não têm formas tão regulares.

O formato das concreções depende principalmente do ambiente e das condições presentes durante a formação dessa estrutura sedimentar, assim como da natureza do núcleo que iniciou o processo.

As concreções concêntricas se formam pela deposição dos minerais de cimentação em camadas sucessivas. Os minerais são acrescidos a superfície das camadas anteriores e a concreção cresce.

Concreções variam em tamanho e forma: Podem ter tamanhos microscópicos ou chegar a escala de metros de diâmetro, pesando dezenas de quilos. Podem ser amorfas ou ter formatos discóides, tubulares, esféricos, piramidais, ou até agregados como bolhas de sabão.

Frequentemente elas têm da mesma coloração da rocha matriz, o que pode ajudar a diferenciá-las de estruturas fossilizadas – em alguns casos

São compostas por uma variedade de minerais e podem ocorrer em uma variedade de rochas sedimentares. Sendo mais comuns, no entanto, em folhelhos, siltitos e arenitos.

A história de confundir essas estruturas com ovos de dinossauros não é nova…. na verdade, esse engano já foi cometido várias vezes….

Quanto a ovos de dinossauros:

SE os elementos esferoidais encontrados na Rússia fossem ovos de dinossauros, logo de cara poderíamos dizer que se tratam de ovos de saurópodes. Não pelo seu tamanho, mas pelo formato.

Os ovos de saurópode têm essa característica esférica (Veja fotografia e imagens a seguir)… PORÉM:

Ovos de saurópode da Índia
Ovo de saurópode da Índia. O ovo está dentro da rocha e em corte lateral. Observe a casca formando um círculo entorno do embrião preservado.
Reconstituição de um saurópode e seu ninho.

Eles dificilmente têm 1 metro (!) de diâmetro, como algumas das concreções descritas.  Os maiores ovos de dinossauros saurópodes já encontrados não chegam nem perto desse tamanho, têm apenas algumas poucas dezenas de centímetros… e olha que entre os saurópodes estão os maiores dinossauros que já pisaram no Planeta Terra!!!

Uma outro aspecto que devemos atentar é para a forma como as estruturas esferoidais da Rússia foram encontradas: juntas, todas agregadas. Isso logo nos levaria a interpretá-las como produzidas “pelo mesmo animal ou pelo mesmo tipo de animal”, organizadas como em um ninho ou ninhal. TODAVIA, temos que ressaltar uma observação básica: que em uma mesma espécie, os ovos não variam muito de tamanho.. Os descritos na Rússia tinham o mesmo formato, eram encontrados agregados, porém variavam de 25 cm a 1 metro de diâmetro!

Além disso, SE fossem ovos, eles teriam sido provavelmente encontrados depositados juntos em um mesmo estrato, não espalhados pela matriz rochosa…: – Da forma como essas estruturas foram encontradas na Rússia, SE fossem ovos, a preservação só poderia ter acontecido por um retrabalhamento do material pré-depositado ou por uma deposição rápida de sedimentosum fluxo gravitacional, uma corrida de lama, etc -, que carregou os materiais rapidamente em um agregado massivo desordenado e se acomodou numa área rebaixada. Nessas duas opções, todavia, teríamos problemas: Ovos são estruturas delicadas demais para serem preservadas assim. Mesmo assim, a hipótese não pode ser descartada….

Por fim, SE fossem ovos de dinossauro, provavelmente eles teriam uma textura diferente da rocha matriz e isso não é observado no material da Rússia.

Diferentes texturas

Diferentes texturas

Geralmente a casca dos ovos fica preservada e esta possui caracteres bem diferenciados, facilmente observados a olho nu, como poros, perfuraçãoes, rugosidades e ornamentações. Todas essas características são inclusive utilizadas na classificação dos ovos.

Estruturas da casca: a morfologia externa

Quando sobra uma dúvida, todavia (uma má preservação geralmente leva a isso), um corte petrográfico pode rapidamente resolver a questão. A casca do ovo apresenta um padrão característico quando observada ao microscópio (Veja imagem abaixo).

Um corte de uma casca e um casca de ovo de dinossauro observadas no microscópio eletrônico.
Esquema da estrutura interna da casca

O estudo de ovos fósseis é conhecido como Paleo-oologia e sua importância gira em torno de entender processos paleobiológicos, paleoecológicos, paleogeográficos, estratigráficos, paleoambientais e paleoclimáticos. Os ovos guardam mais segredos do que você pode imaginar…

Isso são ovos:


Isso NÃO:

Isso são concreções esferoidais….

Quando o seu entorno é erodido, restam cenários quase extra-terrestres… Essa foto é do Vale da Lua na Argentina.

Paleontólogos brasileiros saem em defesa do Brasil e do patrimônio fossilífero da nação

No início desta semana, uma carta redigida por paleontólogos representantes da Sociedade Brasileira de Paleontologia foi publicada no site da Geological Society em resposta a uma manifestação que causou a indignação e repúdio de todos os profissionais brasileiros da área.

O polêmico paleontólogo inglês David Martill pronunciou-se uma vez mais contra as leis de proteção do patrimônio fossilífero brasileiro. Desta vez, ofendendo não apenas a competência de nossos profissionais, como a soberania da Naçãoveja AQUI.

No final do século XIX e início do século XX era muito comum a exploração de fósseis brasileiros e o seu envio para coleções museológicas e particulares no exterior. Porém, a partir de 1942, o Decreto-lei 4.146 proibiu o comércio e a retirada irregular do país de qualquer material dessa natureza. A partir deste marco, os fósseis passaram a ser entendidos como bens da união e a sua exploração passou a ser regulada por um órgão governamental, o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral)Nas décadas que seguiram, outros instrumentos legais passaram a reforçar e complementar tal decreto e, na atualidade, os fósseis são vistos  como partes do patrimônio cultural e natural da Nação (clique AQUI para ler mais sobre os aspectos legais de proteção ao patrimônio fossilífero brasileiro).

É inegável que os fósseis são itens de valor inestimável cultural e intelectual. Baseado nisso é que as leis de proteção aos mesmos foram criadas no Brasil. Estrangeiros não são proibidos de pesquisar fósseis brasileiros. O que nossas leis garantem, apenas, é que esses fósseis permaneçam no Brasil e sejam estudados em parceria com instituições brasileiras. Porém isso parece irritar David Martill. Ele acredita que essa condição atrapalha o avanço da ciência como um todo e se recusa a aceitar que conhecer e preservar a própria história é direito de um país.

David Martill é conhecido por ter descrito uma série de fósseis brasileiros suspeitos de tráfico (i.e. suspeitos de terem sido retirados irregularmente do Brasil depois de 1942). A última polêmica gira em torno de Tetrapodophis, uma suposta serpente fóssil com patas proveniente dos depósitos da Formação Santana, Bacia do Araripe, Nordeste do Brasil. A fúria de Martill expressa na carta mencionada acima é referente aos questionamentos que surgiram sobre a legalidade do fóssil de Tetrapodophis, espécime que pertence hoje à um museu particular alemão.

Leia a carta-resposta dos paleontólogos brasileiros à declaração de David Martill:  A reply to Martill – The Bearable Heaviness of Liability

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Leia aqui notícias relacionadas ao tema tráfico de fósseis.

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Fósseis brasileiros sendo vendidos no e-bay – DENUNCIE (Basta clicar em REPORT ITEM, então selecionar: Prohibited and restricted items, Illegal items, Other illegal Activity). Se tiver um tempo, escreva ainda para o DNPM (órgão responsável por averiguar essa questão), ouvidoria@dnpm.gov.br.

http://www.ebay.com/itm/Dinosaur-Fossil-Mesosaurus-Brasiliensis-Group-of-3-RARE-Museum-Quality-/280749447445?pt=LH_DefaultDomain_0&hash=item415df89915#ht_500wt_953 – A ilegalidade está implícita na descrição deste material (“This rare fossil was discovered and acquired in the south of Brazil in the late 1990’s”).

Outros: http://www.ebay.com/sch/i.html?_sacat=0&_nkw=brazil+fossil&rt=nc

Ajude a coibir este tipo de atividade, Denuncie!!

Como os cientistas conseguem reconstituir o passado?

Mesmo com evidências escassas e pistas fragmentadas, paleontólogos conseguem recriar histórias complexas de interação entre seres extintos e povoar mundos perdidos com criaturas de toda sorte e natureza. Como isso é possível?

Afloramentos cretácicos em Sousa, Paraíba, Brasil – Foto por Aline Ghilardi, todos os direitos reservados

Nas mãos de paleontólogos, ossos, mesmo poucos e fragmentados, se tornam poderosas ferramentas e parecem suficientes para esclarecer relações biológicas intrincadas e até mesmo recriar o retrato esquecido de criaturas há muito desaparecidas.

Ao passar os olhos por um afloramento fossilífero, um paleontólogo pode saber exatamente em que período de tempo geológico ele se encontra e – para o espanto de muitos – em que exato tipo de ambiente aquele registro se formou.

Como o passado pode ser tão claro para estes cientistas?

Em tempos modernos, os paleontólogos trouxeram não só o passado, mas muitas de suas criaturas de volta a vida e não foi por meio de uma máquina do tempo sensu strictu, mas através do bom e velho método científico alimentado por uma boa dose de questionamento intelectual.

Para falar a verdade, é como se essas simples ferramentas da ciência fossem verdadeiras máquinas do temposensu lato, desta vez -, permitindo-nos espiar mundos antigos e examinar criaturas cuja existência foi negada. Temos que concordar que são maquinas do tempo muito pouco usuais....

Para viajar ao passado utilizamos teorias, computadores, complexos equipamentos de laboratório e até mesmo experimentos. Porém, mais comumente são utilizadas somente as rochas. As rochas que procuramos são bem específicas. Elas são estratificadas e conhecidas como ‘rochas sedimentares’. Este é o tipo de rocha que contém fósseis e são elas e os fósseis que nos ajudam a explorar o tempo profundo.

As rochas sedimentares contém a melhor informação que temos para estudar o passado. Mas como podemos acessar essa informação?

Qualquer afloramento de rochas sedimentares contendo fósseis apresenta pistas sobre a sua idade e o local de origem do material, que pode ser bem diferente do local aonde as rochas hoje se encontram. – Temos que lembrar, que a superfície do planeta não é estática, mas incansável.

Serra da Capivara – Rochas sedimentares, estratos através dos tempos – Foto por Aline Ghilardi, todo os direitos reservados

Rochas contém pistas sobre a natureza do ambiente aonde elas foram formadas. Algumas das características úteis nesta investigação são o tamanho ou a organização de seus grãos e ainda a qualidade dos mesmos. 

Após serem torturadas, as rochas contam quase tudo! 

É possível descobrir se os materias de que são compostas litificaram (se tornaram rocha) no continente ou em mares rasos, em um clima quente ou frio, seco ou úmido, pobre em oxigênio ou não, entre outras tantas outras variáveis ambientais.

É um ótimo começo, porém nenhuma intervenção científica por si só extrai toda a informação. Muitas ferramentas e técnicas devem ser combinadas. Por isso, “ler” os fósseis também é importante. Eles oferecem informações complementares. O passado é uma rede complexa de interações e temos que estudá-lo em todas as suas dimensões.

Fóssil de peixe, Bacia do Araripe, Fm. Santana, Nova Olinda, Ceará, Brasil – Foto por Aline Ghilardi, todos os direitoss reservados

As rochas informam sobre o ambiente, assim como também os fósseis. O elenco biológico está intimamente ligado ao seu entorno, não é mesmo? Fósseis de peixes, por exemplo, só podem indicar um ambiente aquático.

Os fósseis também ajudam a dar uma resolução temporal, ou seja, eles calibram a máquina do tempo. Determinados organismos funcionam como fósseis guia e indicam períodos específicos do tempo geológico.

Os amonites (cefalópodes com concha, cujo primo ainda vivente é o Nautilus), por exemplo, são indicadores da Era Mesozóica (250 a 65 milhões de anos atrás), período bastante extenso de tempo. Já alguns microfósseis (fósseis de microorganismos), costumam ser indicadores muito mais acurados: Pelo fato de sua taxa evolutiva ser alta, diferentes espécies ou associações de espécies estão representadas em períodos mais restritos de tempo.

Avaliar o passado sob diferentes perspectivas – utilizando diferentes ferramentas -, pode gerar, no entanto, ambiguidades. Isso é comum quando se adicionam muitas variáveis a uma equação…

Veja bem, o passado não existe mais, é apenas uma memória, certo?

Duas pessoas que tenham presenciado o mesmo evento podem guardar lembraças diferentes do que ocorreu. A interpretação do registro fóssil pode ser exatamente assim. Diferentes testemunhas ou diferentes “máquinas do tempo” frequentemente fornecem diferentes perspectivas do acontecido.

Usualmente existem multiplas versões de uma mesma história. Decidir qual representa a verdade pode ser difícil. Mesmo assim, a ambiguidade acaba sendo um aspecto positivo. As pessoas discutem, os argumentos são resolvidos e normalmente o resultado é o progresso científico. A ambiguidade pode ser aceitável quando se investiga o tempo profundo. Afinal, o único material que temos para trabalhar é uma pequena amostragem do todo. Vamos concordar que isso  aumenta a diversão de se empenhar neste tipo de ciência: sempre haverá uma descoberta nova e maravilhosa que vai mudar o rumo do que se conhecia até então.

Nenhuma ‘máquina do tempo’ consegue recriar inteiramente o passado. Cada uma é como uma pincelada ou uma única cor de um quadro complexo. Por si só, carregam muito pouco significado, mas quando combinadas, montam um quadro compreensível daquilo que passou.

O paleobotânico, o paleozoólogo, o palemicrobiologista, o geoquímico, o tafonomista etc., combinam as suas artes para ajudar a espiar um singelo quadro do que teriam sido complexos e maravilhosos ecossistemas enterrados no passado distante. Cada um utiliza a sua ‘máquina do tempo’ – sejam equipamentos complexos ou o humilde e poderoso  ‘poder preditivo da rocha’ – e oferecem assim as suas interpretações mais precisas. O final pode ser sim uma obra de arte…

Painel de Raul Martin ilustrando o Eoceno de Messel, na Alemanha.

Como isso tudo é traduzido para o público? Aí precisamos de outros profissionais, os paleoartistas, mas isso é outra história. Se tiver interesse, continue lendo AQUI.