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Você conhece a Geomitologia?

Olá caros colecionadores! Hoje trago o texto do aluno Rodrigo Lima Veloso que cursa especialização em Geologia do Quaternário pelo Museu Nacional/UFRJ. Neste texto Rodrigo explica o que é Geomitologia e traz alguns exemplos de como essa ciência nos ajudou a compreender melhor os povos pretéritos.


Desde pequenos nós nos encantamos com histórias fantásticas de mitos e heróis, sejam da antiguidade ou de heróis de histórias atuais como nos livros de Harry Potter e Percy Jackson, que geralmente se baseiam em antigas lendas. Mas você já parou para pensar de onde vêm essas histórias?
Geomitologia foi o termo empregado pela primeira vez em 1968 pela geóloga Dorothy Vitaliano (Figura 1) como sendo o estudo que tentava evidenciar algum tipo de relação entre os eventos geológicos e a mitologia. Esse estudo nos últimos anos tem servido como base para se especular e procurar entender o tipo de relação que os humanos da antiguidade tinham com o ambiente ao seu redor e como o compreendiam.

Vitaliano
Figura 1: Foto de Dorothy Vitaliano. Fonte: Google Imagens.

 
Dentro das áreas de estudo da geomitologia os fósseis são uma das principais evidências de como esses mitos podem ser mais bem contextualizados à época e compreendidos de forma mais completa por nós atualmente. Muitos são os exemplos destes vestígios orgânicos sendo coletados e interpretados durante toda a história da humanidade. Em seu livro “The First Fossil Hunters” (Figura 2), Adrianne Mayor relata diversas histórias que poderiam mostrar a interação seres humanos com fósseis, sendo alguma delas datadas desde o Egito Antigo até o Império Romano. Acredita-se que a relação desses povos com os fósseis seja muito maior do que imaginávamos.
Mayor tem como foco de seu trabalho mostrar que as relações e a compreensão de alguns conceitos naturais que hoje compreendemos nem sempre foram tão deixados de lados pelos antigos povos que viveram a milhares de anos atrás como seria de se imaginar. Algumas ideias como a de extinção de espécies ou como a de Delos, que propôs a existência de um ciclo natural contínuo de quase imperceptíveis transgressões marinhas e formações de áreas terrestres, são surpreendentemente acuradas em relação ao que sabemos hoje e que sempre fomos levados a acreditar que eram entendimentos “modernos”.
De acordo com Horner e Dobb (1997 apud Mayor, 2000), as populações antigas tinham uma percepção maior do ambiente que as rodeava, e que a interação entre o fato e a imaginação é a chave para a verdadeira compreensão da mitologia que conhecemos hoje. Os antigos gregos e romanos, por exemplo, acreditavam que todas as espécies estavam encolhendo porque eles encontravam ossos gigantes que não condiziam com o tamanho de nenhum animal que lhes fosse conhecido.
Figura 2: Capa de “The First Fossil Hunters” de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um crânio fóssil representado em uma pintura de um vaso.
Figura 2: Capa de “The First Fossil Hunters” de Adrienne Mayor, mostrando o que parece ser um crânio fóssil representado em uma pintura de um vaso.

 
A ideia de animais gigantes que haviam sido extintos de alguma maneira também eram comuns, histórias como a das “Neades” que falavam sobre monstros enormes que tinham habitado a região de Samos na Grécia e que haviam sido engolidos pela Terra sem deixar nenhum vestígio para trás. A ilha de Samos na Grécia é um local onde ocorreram muitos terremotos e até hoje são encontrados fósseis como o do Samotherium por exemplo. Com isso fica fácil compreender de onde vêm as ideias contrárias ao fixismo e mais do que isso, coincidentemente ou não, chegam perto dos processos tafomômicos pelos quais esses fósseis passaram. Quando relacionadas, às informações a que temos acesso hoje e as lendas nos mostram que o poder de observação que indivíduos tinham do mundo era muito grande
Porém, em alguns casos, os fósseis influenciaram na descrição de animais com os quais eles acreditavam coabitar a Terra. Atualmente, o caso mais famoso é o dos grifos (Figura 3), esses animais, diferente do que já citamos, não eram considerados animais míticos que haviam existido apenas em tempos pretéritos, eram considerados animais reais que coexistiam com os humanos. A história dos grifos começa no deserto de Gobi, na Mongólia e China, onde mercadores e mineiros citas passavam durante suas caravanas de comércio, e de onde prospectavam ouro. Esses nômades contavam histórias sobre um animal terrivelmente territorialista e protetor com seus ninhos, e que portanto atacava sem piedade quem quer que se aproximasse do ouro, que de acordo com os nômades era encontrado em ninhos de grifos. Acredita-se que esses mineiros haviam se deparado com fósseis que são extremamente comuns no Deserto de Gobi, os fósseis de Protoceratops (Figura 3) que são expostos naturalmente no deserto e muitas vezes associados ao ouro. Esses homens então começaram a espalhar as histórias sobre essa criatura com a intenção de proteger o ouro que era encontrado no lugar afugentando pessoas que conhecessem a história dos grifos, mas o curioso, é que diversos autores da antiguidade descreviam inúmeras características desses animais, não se questionava a sua existência ou não, eles realmente acreditavam que eles existissem.
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Figura 3: Na parte superior representado um esqueleto de um indivíduo do gênero Protoceratops, na parte inferior uma representação de um grifo segundo os padrões dos romanos (Lorena Pontes Lima).

 
Um caso em particular da mitologia egípcia também pode ser usado para ilustrar a importância de se buscar a compreensão do que pode estar por trás dos mitos. Grande parte do panteão das divindades egípcias é representado por seres antropozoomórficos, ou seja, eram parte humanos e parte animais. Não coincidentemente, os animais com os quais essas divindades dividiam as suas características eram todos animais comumente encontrados na região e que tinham alguma relação com o que o deus em questão representava. Como por exemplo, Sobek era a personificação do rio Nilo e era representado por um homem com cabeça de crocodilo. Porém, um dos deuses sempre deixou os pesquisadores intrigados, também conhecidos por sua antropozoomorfia característica, o deus Set nunca se assemelhou a nenhum animal vivente da região do Egito. Essa representação pode ser explicada com bases paleontológicas, visto que crânios de girafídeos são encontrados nas áreas fossilíferas egípcias, e o crânio desses animais assemelha-se às representações da cabeça de Set que os egípcios faziam (Figura 4). Set no panteão egípcio era considerado a personificação do deserto, das tempestades e da violência, e comumente fósseis são expostos nos desertos justamente após grandes tempestades, fazendo com que a associação entre ambos seja mais crível.
Figura 4: A esquerda a representação de Set de acordo com os antigos egípcios e à direita o desenho de um crânio de um espécime de girafídeo (Lorena Pontes Lima).
Figura 4: A esquerda a representação de Set de acordo com os antigos egípcios e à direita o desenho de um crânio de um espécime de girafídeo (Lorena Pontes Lima).

 
Todos esses são pequenos exemplos de como a nossa história é influenciada por pequenos detalhes que quando mal interpretados nos levam a crer que o estudo e interpretação da paleontologia são relativamente recentes, quando na verdade, eles vêm sendo interpretados das mais diversas formas. De acordo com Oakley (1971 apud Fernandes, 2005), os primeiros registros de coleta de fósseis por humanos datam de cerca de 100.000 anos atrás. Não temos como afirmar se a produção dessa peça foi ou não proposital, mas já é um começo para que possamos entender a evolução da percepção humana quanto ao ambiente ao seu redor.
Mas nem sempre, o fóssil dá origem ao mito, alguns mitos foram responsáveis por servir de inspiração para a nomeação alguns fósseis, podemos citar aqui, por exemplo, o caso dos amonitas, que recebem esse nome pela similaridade aos cornos do deus Júpiter Ammon (Taylor, 2016) como está explicitado na Figura 5.
Figura 5: Á esquerda uma representação de Júpiter Ammon e à direita um amonita.
Figura 5: Á esquerda uma representação de Júpiter Ammon e à direita um amonita.

 
A geomitologia ainda é uma ciência pouco explorada, nos últimos anos, inúmeras histórias vêm sendo estudadas por especialistas, mas ainda há uma necessidade muito grande de maior interdisciplinaridade entre as diversas áreas como arqueologia, zooarqueologia, paleontologia e história. Uma maior interação faria com que fosse cada vez mais fácil de ver por trás dos mitos como apenas histórias fantasiosas, trazendo os fatos marcantes para aquela sociedade e que serviram de base para as crenças de um povo. Conseguir compreender que as pessoas da antiguidade, mesmo com tantas limitações tecnológicas, conseguiam ter vislumbres, por vezes muito precisos de eventos que demoraram séculos para serem explicados. Podendo assim evidenciar o interesse por esses eventos que muitas vezes passaram despercebidos por estudiosos e pesquisadores ao longo dos anos.
Referências
FERNANDES, A.S.F. 2005. Fósseis: Mitos e Folclore. Anuário do Instituto de Geociências – UFRJ, v. 28, p. 101-115.
MAYOR, A. 2000. The first fossil hunters. Paleontology in greek and roman times. Princeton, Princeton University Press. 361 p.
TAYLOR, P. D. 2016 Fossil Folklore: Ammonyte. Deposits Magazine, nº 46 20-23.
VITALIANO, D. 1968. Geomythology: the impact of geologic events on history and legend, with special reference to Atlantics. Journal of the Folklore Institute (Indiana University), 5: 5-30.


26905858_2007696039247755_2080243137_oRodrigo Lima Veloso
Graduado em Ciências Biológicas/Licenciatura em 2014 pelo Centro de Ciências da Saúde (CCS) do Centro Universitário Serra dos Órgãos (Unifeso). Na mesma universidade foi aluno bolsista do Programa Pet-Saúde no período entre 2012 e 2014. Atuou como professor de ciências da rede estadual no município de Carmo – RJ de 2015 até 2017, atualmente cursa uma especialização em Geologia do Quaternário pelo Museu Nacional/UFRJ. Tem interesse em continuar seus estudos nas áreas de evolução, paleontologia e curadoria.

Hipóteses filogenéticas dos Amniotas e a importância dos fósseis na compreensão da evolução da vida

Olá caros leitores, depois de um breve periodo de pausa nas postagens, voltamos com grande estilo. Hoje apresento a vocês um interessante texto redigido pelo Mestrando em Zoologia do Museu Nacional/UFRJ Geovane Alves de Souza, O assunto abordado se refere as primeiras discussões históricas sobre as hipóteses filogenéticas dos Amniotas (grupo que tradicionalmente inclui os répteis, aves e mamíferos e suas formas relacionadas) e a importância dos fósseis para um melhor entendimento da evolução das espécies. Então,  sem mais delongas, vamos ao texto!
 
editado em 19/08/2018.


Em plena Era da Filogenômica, na qual o DNA possui papel central na busca pela compreensão da evolução da vida na Terra, é comum pensarmos nos fósseis como uma fonte de dados um tanto quanto ultrapassada, trabalhosa e que demanda muito tempo para estudar. A diretora do Jurassic World, Claire Dearing (encenada pela atriz Bryce Dallas) enfatiza isso muito bem em sua fala: “Aprendemos mais com a genética em 10 anos do que em um século, escavando”. Hoje é consenso no meio acadêmico a importância dos vestígios da vida pretérita, os fósseis (para melhores detalhes acerca de sua definição veja aqui), quando inferimos relações de parentesco dos organismos viventes. Contudo, nem sempre os fósseis tiveram sua importância reconhecida e passando por momentos de glória e queda ao longo dos últimos séculos.
Após a publicação da obra A Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural por Charles Darwin em 1859, no qual o autor defendia as teorias de Evolução Biológica, Seleção Natural e Ancestralidade Comum, os fósseis passaram a desempenhar um papel chave na compreensão de como a vida evoluiu. Contudo, foi na metade do século XX, que o registro fóssil enfrentou uma queda brusca de sua supremacia. O responsável foi o advento de uma nova maneira de se estudar a evolução: a Sistemática Filogenética de Willi Hennig (1950). A nova metodologia e filosofia da sistemática nos seus primeiros anos de existência não exigia a necessidade de determinar uma dada espécie fóssil conhecida como ancestral entre duas linhagens. Podíamos estudar a evolução das espécies viventes, tratando o ancestral comum entre elas como uma espécie hipotética. Esse modo de vislumbrar as árvores filogenéticas (diagramas ramificados que representam a evolução de uma linhagem e que são gerados a partir de uma análise computacional ou análise filogenética), conhecido como Modelo Cladogenético, é antagônico ao antigo modelo vigente, o Anagenético. De fato, determinar em qual ponto exato da evolução de uma linhagem uma espécie fóssil esta inserida não é uma tarefa fácil, eu diria que um tanto quanto impossível, a menos que tenhamos uma maquina do tempo para voltarmos e acompanharmos o passo a passo da evolução de determinada linhagem ao longo dos milhares de anos. Muitas críticas contra o uso dos fósseis foram levantadas na época. O próprio Hennig reconhecia que os dados fósseis poderiam ser uteis na hora de conduzir uma análise filogenética. Contudo, devido à tamanha incompletude do registro fóssil, ou seja, tanta informação biológica era perdida no processo de formação de um fóssil, que estes deveriam ser preferivelmente menos utilizados na hora de reconstruir as relações de parentesco.
Petterson (1981) mostrou, através de vários exemplos, o quanto os fósseis prejudicavam a compreensão sobre as hipóteses de evolução dos animais. Ax em 1987 defendeu em seu livro The Phylogenetic System que os dados fósseis são tão incompletos que as árvores deveriam ser construídas com base apenas nos grupos viventes e só depois que a análise computacional fosse feita é que se deveriam adicionar os fósseis. Dessa maneira e com muito sucesso, os críticos rapidamente conseguiram marginalizar o uso dos dados paleontológicos nos estudos da evolução das linhagens de organismos viventes.
A Hipótese Clássica da evolução dos Amniotas
Inúmeras árvores foram construídas ao longo dos anos seguintes, a maioria delas ignorando as informações provindas dos fósseis. O estudo que mais me chamou a atenção foi o trabalho clássico de Gardiner em 1982, no qual este autor tentou reconstruir a até então, pouco compreendida história evolutiva dos amniotas. Amniota é um grupo de animais vertebrados que possuem, dentre muitas características, uma membrana extraembrionária ao redor do feto chamada de amnion, membrana a qual é fundamental para a independência da água do ambiente durante o desenvolvimento do filhote no ovo, permitindo que estes animais colonizassem completamente o habitat terrestre. Estamos falando então da maioria esmagadora de vertebrados terrestres (e os que secundariamente retornaram ao ambiente aquático) que dominaram a Terra: desde as formas extintas famosas como dinossauros, pterossauros, ictiossauros, plesiossauros até as espécies contemporâneas de tartarugas, crocodil­os, lagartos, serpentes, aves e mamíferos.
Gardiner utilizou vários dados morfológicos dos cinco grupos de amniotas viventes em suas análises (tartarugas, lagartos, jacarés, mamíferos e aves). Gardiner observou que as aves e os mamíferos eram evolutivamente relacionados, sendo agrupados por uma série de características que eram adaptações às suas altas taxas metabólicas (metabolismo alto leva a uma temperatura corpórea alta, sendo estes animais equivocadamente chamados de animais de “sangue quente”).
Gardiner ressuscitou o antigo termo Haeomothermia para nomear o grupo de animais de “sangue quente” formado por aves e mamíferos (o termo vem de homeotermia, do grego homo: igual, thermia: temperatura; que é como chamamos os animais que possuem temperaturas corporais constantes). Haemothermia, por sua vez era relacionado evolutivamente com o Crocodylia (crocodilos, jacarés e gaviais) formando o grupo Thecodontia. Tartarugas, cágados e jabutis (Chelonia) eram mais aparentados com Thecodontia (Crocodylia+(Aves+Mammalia)). Por fim, o grupo mais basal de Amniota era Lepidosauria, o qual abrange tuataras, serpentes e lagartos (Figura 1).

Fig.1. Árvore Gardiner recent
Fig. 1. Relações entre as cinco assembleias de amniotas viventes defendida por Gardiner (1982; ver também Lovtrup, 1985) modificado de Gauthier e colaboradores (1988)

 
O trabalho experimental de Gauthier
 Os resultados de Gardiner se baseam exclusivamente em animais viventes, conforme já foi dito e ecoaram por quase uma década. Lovtrup (1985) publicou um trabalho no qual afirmou ter encontrado maior suporte à hipótese de Gardiner. Até que, em 1988, um célebre manuscrito chegou para revolucionar a visão que a comunidade científica da época tinha sobre os dados paleontológicos. Gauthier e seus colegas (1988), baseados na hipótese de filogenia dos amniotas proposto por Gardiner, publicaram o primeiro estudo demonstrando empiricamente (ou seja, através de experimentos práticos e não calcados apenas em conjecturas) que os fósseis poderiam contribuir e muito na elucidação das hipóteses de parentesco dos seres vivos atuais. Para isso, eles conduziram uma nova análise, só que dessa vez incluindo espécies extintas, obtendo uma árvore marcadamente diferente e depois a submeteram a alguns testes para confirmar sua validade. Para entendermos como os autores chegaram a suas conclusões precisamos compreender os experimentos que a equipe realizou. Gauthier partiu de uma pergunta: os Fósseis poderiam alterar as nossas hipóteses de parentesco entre as biotas recentes? Para responder isso, ele conduziu um estudo em três etapas.
(1) Primeiramente, antes de rodar uma nova análise incluindo os fósseis, os pesquisadores destrincharam e reviram todas as características utilizadas por Gardiner e perceberam que havia alguns equívocos e erros na interpretação dos caracteres. Gardiner afirmara, por exemplo, que um coração dividido em quatro câmaras é homólogo (mesma origem; para melhor entendimento desta terminologia veja aqui) em crocodilos, aves e mamíferos, o que reforçava a relação de parentesco entre eles. Contudo, quando acompanhamos o desenvolvimento embrionário do septo interventricular destes animais, vemos que nos mamíferos ele se desenvolve a partir de uma crista de tecido endocárdico na parede de trás do ventrículo, enquanto que nas aves e nos crocodilos o septo surge de varias protuberâncias musculares pouco recobertas por endocárdio na lateral do ventrículo. Apesar de serem estruturas semelhantes nos adultos, elas não possuem a mesma origem no embrião, ou seja, não são homólogas. Logo, os equívocos nas interpretações de Gardiner o levaram a estabelecer homologias entre mamíferos e aves que não condiziam com a realidade.
(2) Depois de corrigir a lista de características, Gauthier rodou duas análises, uma contendo apenas os dados morfológicos dos cinco grupos viventes de Gardiner e outra incorporando 29 espécies de amniotas extintos. Foi então que uma nova hipótese começou a tomar forma.
A análise com dados dos animais viventes
A árvore filogenética obtida utilizando apenas os cinco grupos de amniotas viventes se assemelhou à hipótese clássica de Gardiner de 1982, com apenas uma pequena diferença: os crocodilos e não os mamíferos eram mais relacionados com as aves, trazendo dúvidas quanto a validade do antigo grupo Haemothermia (Ver figura 2). Isso implica em inferências importantíssimas para nossa compreensão da evolução da homeotermia. Primeiro, que um jacaré é o parente mais próximo das aves do que qualquer outro animal vivo hoje. Além disso, muitas características que antes eram vistas como homólogas entre aves e mamíferos e que estariam presentes no suposto ancestral comum destas duas linhagens, na verdade surgiram duas vezes independentemente na árvore da vida dos vertebrados. Talvez em resposta provavelmente as mesmas pressões evolutivas.
Fig. 2. Arvore Gatuhier recent
Fig. 2. Árvore obtida da análise de Gauthier (1988) apenas com amniotas viventes. Note que ela se assemelha à árvore anterior de Gardiner (1982), contudo as aves estão mais relacionadas com crocodilos do que com os mamíferos.

 
A análise com dados combinados (animais viventes + extintos)
Na segunda análise na qual Gauthier acrescentou os fósseis, uma árvore completamente diferente surgiu (ver figura 3). Não só aves e crocodilos estavam agrupados juntos, mas lagartos e serpentes (Lepidosauria) agora estavam mais relacionados a Aves + Crocodylia do que as tartarugas. O mais estranho foi que os mamíferos agora estavam na base da árvore, formando uma grande dicotomia inicial: Mamíferos e todos seus parentes extintos de um lado versus lepidossauros, quêlonios, crocodilos, aves e todos seus parentes extintos relacionados do outro. Ao primeiro grupo, chamamos de Synapsida (amniotas que apresentam uma fenestra temporal no crânio) e ao segundo, Reptillia (que compreende tanto amniotas que possuem duas ou nenhuma fenestra temporal, Diapisida e Anapsida, respectivamente). Contudo, não bastava obter uma árvore completamente diferente, ela precisava ser mais bem justificada.
Fig. 3. Árvore obtidida por Gauthier (1988) combinando tanto espécies fósseis quanto viventes. Note que há uma dicotomia basal, separando mamíferos e seus parentes extintos (Synapsida) de um lado versus todos os répteis atuais + Aves (Reptilia) do outro.
Fig. 3. Árvore obtidida por Gauthier (1988) combinando tanto espécies fósseis quanto viventes. Note que há uma dicotomia basal, separando mamíferos e seus parentes extintos (Synapsida) de um lado versus todos os répteis atuais + Aves (Reptilia) do outro.

 
Análises posteriores – Esmiuçando a nova hipótese obtida
Na última etapa do estudo (3), uma serie de experimentos computacionais foram conduzidos por Gauthier, alguns serão explicados mais adiante e que culminaram em um achado esperançoso, principalmente para nós paleontólogos: Fósseis são fundamentais para elaboração das hipóteses de relação entre as espécies viventes.
Gauthier e seus colegas queriam saber o porquê que as árvores diferiram tanto nas análises com e sem os fósseis. Para isso, eles fizeram algumas análises posteriores, contudo só irei detalhar três delas neste texto que acredito serem mais interessantes para nossa discussão. Primeiro, os autores compararam o índice de consistência de sua nova árvore com o índice da árvore de Gardiner. Este índice mostra o quão robusto e conciso estão seus resultados, no caso, sua hipótese de evolução de uma linhagem. O interessante foi que mesmo adicionando várias espécies fósseis na sua análise, Gauthier encontrou um valor de índice de consistência semelhante ao de Gardiner, mostrando que mesmo os fósseis alterando drasticamente a hipótese, a árvore continuava tão confiável quanto uma utilizando apenas espécies viventes.
Numa análise posterior, Gauthier e colaboradores removeram todos os grupos fósseis do lado “sinapsídeo” da árvore, deixando apenas os animais viventes desse ramo (mamíferos) junto com todos do lado “Reptillia” (viventes e extintos) e rodaram a análise. Paralelamente, foi feito o oposto, todas as linhagens extintas de Reptillia foram retiradas deixando apenas seus representantes viventes e o lado “sinapsídeo” da árvore (viventes e extintos) e rodaram a análise. Os autores viram que não importava qual fóssil de Reptillia fosse retirado, a árvore final não se alterava. Porém,  quando os fósseis de sinapsídeos eram retirados, a árvore adquiria o novo padrão proposto por Gardiner (1982; Figura 3). Gauthier então percebeu que os principais responsáveis pela nova topologia da árvore eram os fósseis de sinapsídeos. Mas por que isso?
De acordo com os autores, quanto mais antiga é a origem de uma linhagem e quanto mais derivada for a morfologia de seus representantes atuais (como é o caso dos mamíferos), mais os fósseis serão importantes para elucidar sua evolução. Basta compararmos os mamíferos atuais com seus parentes extintos, os “pelicossauros” como Casea, Ophiacodon, Edaphosaurus, Sphenacodon (figura 4) para ver o “abismo morfológico” que separam essas linhagens. Quando observamos os mamíferos atuais, dificilmente conseguimos relaciona-los com outro grupo de animal vivente e quando tentamos, certamente estaremos fadados ao erro, assim como Gardiner, em 1982 equivocadamente agrupou Aves e Mammalia no antigo grupo Haeomothermia. Porem, quando olhamos para os fósseis vislumbramos um mundo completamente “novo”. As formas extintas possuem combinações únicas de características basais e derivadas que frequentemente se apresentam numa serie gradual de mudanças, que nos permitem acompanhar suas histórias evolutivas de maneira tal que possamos observar espécies diferentes ficando cada vez mais semelhantes conforme voltamos no tempo. Os fósseis são uma das poucas evidências diretas da evolução e é por isso, que os dados paleontológicos se tornam tão fundamentais para elucidar as relações evolutivas dos grupos viventes. Principalmente quando o objeto de estudo são animais tão diferentes como seu cachorro e um pardal na janela de casa.
Outro experimento que a equipe de Gauthier conduziu consistiu basicamente em retirar todas as linhagens viventes da matriz de características e fazer uma nova análise. Apesar de ser um experimento simples, o resultado obtido foi revelador: a nova hipótese representada na figura 3 veio à tona novamente, porem sem os animais viventes. Este resultado, associado à análise inicial das características utilizadas no trabalho de Gardiner (1982) derruba os argumentos dos críticos a respeito da incompletude do registro fóssil. De fato a informação que provem dos fosseis é mais incompleta do que as que podemos retirar dos animais viventes, mas mesmo assim os fósseis estão longe de serem menos informativos em uma análise filogenética. Gauthier demonstrou isso quando retirou todas as espécies viventes da análise e mesmo assim alcançou a nova hipótese.
Além disso, Gauthier enfatizou que incompletude não é exclusiva de fósseis. Ela pode ocorrer naturalmente nos animais. Quatro das características utilizadas na análise de Gardiner eram do osso quadrado, um osso na base do crânio dos vertebrados no qual se articula a mandíbula. Contudo nos sinapsídeos mais derivados, os cinodontes (o qual mamíferos fazem parte), esse osso foi gradativamente sendo reduzido e alocado cada vez mais para trás do crânio junto com uma série de ossos da mandíbula. Esta condição alcançou o extremo nos mamíferos, aonde o osso quadrado e o grupo de ossos que uma vez pertenceram à mandíbula e que vieram juntos, se reduziram e modificaram sua função a ponto de formarem o que hoje são nossos ossículos do ouvido médio (o quadrado dos outros vertebrados é a bigorna nos mamíferos). Logo, aquelas quatro características baseadas na morfologia do osso quadrado, não se aplicam aos mamíferos, pois o quadrado deles se alterou tanto que fica difícil comparar com os outros animais, ou seja, este é um dado naturalmente faltante. Além disso, Gauthier percebeu que Casea (o fóssil mais basal e antigo de sinapsídeo e que consequentemente esperávamos maior incompletude) apresentava 26% de informação faltando, enquanto que os mamíferos atuais tinham em média 15% de dados morfológicos faltando ou difíceis de interpretar. Esses 11% de diferenças são realmente significantes? Gauthier não só provou que não há diferença significante como também nos mostrou que informação incompleta não é exclusiva dos fósseis.
Fig. 4. Outra árvore filogenética, dessa vez apenas com sinapsídeos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um “Pelicossauro”), até os parentes mais próximos dos mamíferos, um cinodonte não-mamífero.
Fig. 4. Outra árvore filogenética, dessa vez apenas com sinapsídeos. Note a variedade de formas desde as mais basais, como Casesauria (um “Pelicossauro”), até os parentes mais próximos dos mamíferos, um cinodonte não-mamífero.

 
A Renascença dos fósseis
Após demonstrar empiricamente quão importante os fósseis são para nossa compreensão da evolução das linhagens viventes, Gauthier deu um solavanco nos sistematas, convidando-os a se debruçarem no assunto. Desde então, estudos importantes vem sendo conduzidos, cada vez mais enaltecendo o uso de dados paleontológicos em reconstruções filogenéticas e desenvolvendo metodologias para minimizar o efeito da incompletude dos dados de organismos tanto viventes quanto extintos, o famigerado missing data que os cladistas tanto abominam (veja Donoghue et al., 1989; Smith, 1998; Wilkinson; Benton, 1995).
Exemplos como estes de Gardiner e Gauthier nos mostram como a Ciência é dinâmica. O que antes era tido como verdade e que hoje é obsoleto, não necessariamente deixa de ser útil. Se Gardiner não tivesse se aventurado nas relações de Amniota, Gauthier e toda uma geração de sistematas não seriam impulsionadas a refletir sobre o assunto e talvez o reconhecimento da importância dos fósseis na reconstrução da evolução da vida na Terra poderia ser ainda mais postergada. Por fim, quando ignoramos as informações contidas no registro fóssil, estamos ferindo o princípio da Evidência Total (um tema que será abordado em postagens futuras do blog). Este princípio pode ser exemplificado com uma ótima analogia que um estimado amigo uma vez me fez: não usar os dados paleontológicos para inferir filogenia é como ter um bebê de colo e joga-lo pela janela só porque ele não é um adulto.
Literatura citada
AX, Peter. 1987. The phylogenetic system: the systematization of organisms on the basis of their phylogenesis.
DARWIN, C. A Origem das Espécies. Hemus – Livraria Editora Ltda, São Paulo, SP.
DONOGHUE, Michael J. 1989. Phylogenies and the analysis of evolutionary sequences, with examples from seed plants. Evolution, v. 43, n. 6, p. 1137-1156.
GARDINER, BRIAN G. 1982. Tetrapod classification. Zoological Journal of the Linnean Society, v. 74, n. 3, p. 207-232.
GAUTHIER, Jacques; KLUGE, Arnold G.; ROWE, Timothy. 1988. Amniote phylogeny and the importance of fossils. Cladistics, v. 4, n. 2, p. 105-209.
HENNIG, Willi. 1950. Grundzuge einer Theorie der phylogenetischen Systematik.
LOVTRUP, Soren. 1985. On the classification of the taxon Tetrapoda. Systematic Zoology, v. 34, n. 4, p. 463-470.
PATTERSON, Colin. 1981. Significance of fossils in determining evolutionary relationships. Annual Review of Ecology and Systematics, v. 12, n. 1, p. 195-223.
SMITH, Andrew B. 1998. What does palaeontology contribute to systematics in a molecular world?. Molecular phylogenetics and evolution, v. 9, n. 3, p. 437-447.
WILKINSON, Mark; BENTON, Michael J. 1995. Missing data and rhynchosaur phylogeny. Historical Biology, v. 10, n. 2, p. 137-150.


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Geovane Alves de Souza, Graduado em licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina. Atualmente é mestrando em Zoologia pelo Museu Nacional/UFRJ. Já desenvolveu pesquisas na área de parasitologia de animais silvestres, hoje conduz estudos de osteohistologia com titanossauros.

Projeto PaleoJr: Paleontologia para a Educação Básica

Olá seguidores do Colecionadores de Ossos! Seguindo no eixo de postagens relacionadas a divulgação científica, trago a vocês mais uma contribuição! Só que dessa vez o projeto de divulgação não está relacionado à um projeto de campo ou ao resultado de trabalhos científicos. Desta vez veremos o relato de um projeto de divulgação feito pelo Laboratório de Mastozoologia da UNIRIO, cujo foco era a educação infantil! A divulgação paleontológica é uma forte ferramenta para encantar e motivar o nascimento de novos pesquisadores, mas, além disso,  criar uma consciência nas crianças de hoje sobre a importância da ciência para o dia-a-dia e sua vida! Com vocês o relato da Dra. Dimila Mothe!


Ensinar conceitos relacionados à Biologia e Geologia para o público infantil é essencial para despertar a atenção, curiosidade e compreensão inicial sobre os processos naturais que nos cercam. Para tal, é importante realizar divulgação clara e objetiva, com o uso de linguagem acessível e didática, para que a dinâmica e o aspecto recreativo da atividade não se perca. O Projeto PaleoJr (PPJr) foi criado quando Eduardo, um menino de 5 anos muito apaixonado por Jurassic Park e paleontologia, juntamente com sua mãe, contactaram o Núcleo RJ/ES com um pedido inegável: uma conversa entre um paleontólogo do Rio de Janeiro e Eduardo, que tinha muitas perguntas sobre a paleontologia e os dinossauros! Assim, a equipe do Laboratório de Mastozoologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, coordenado pelo Dr. Leonardo Avilla e Dra. Dimila Mothé, se reuniu, contando com a colaboração de alunos de graduação e pós-graduação, e idealizou o “Projeto Paleo Jr”, com os objetivos de apresentar o estudo de fósseis e biodiversidade pretérita a crianças na faixa etária de 4 e 7 anos, em uma abordagem lúdica e didática, propiciando experiências comuns à vida de um paleontólogo.
Apesar do curto tempo entre o primeiro contato e o grande dia de pôr em prática o Projeto, organizou-se uma série de atividades sobre Paleontologia e como ser paleontólogo. Contou-se com a colaboração dos alunos do Laboratório de Mastozoologia na organização e produção das atividades (que envolveu planejamento e execução de pesquisa, trabalho artesanal, montagem da programação, confecção de uniformes e de “kits paleontólogo”) e do paleoartista equatoriano Pablo Lara, criador do logotipo desse projeto (uma ilustração de um filhote do proboscídeoNotiomastodon platensis com uma lupa e chapéu de paleontólogo, que em breve terá o seu nome escolhido em um concurso cultural – Figura 1). Contou-se também, para a realização deste projeto, com o suporte da FAPERJ, através da bolsa “Cientista do Nosso Estado” concedida ao Prof. Dr. Leonardo Avilla.

Figura 1 - Logo do Projeto Paleo Jr, um filhote simpático e curioso do mastodonte sul-americano Notiomastodon platensis.
Figura 1 – Logo do Projeto Paleo Jr, um filhote simpático e curioso do mastodonte sul-americano Notiomastodon platensis.

Foram conduzidas diversas atividades, sendo a primeira delas uma “linha do tempo” feita de tecido (Figura 2), com cerca de 40m de comprimento, na qual faixas de tecidos de diferentes cores e tamanhos foram unidas de acordo com a coluna estratigráfica  (aproximadamente Cenozóico em amarelo, Mesozóico em azul, Paleozóico em verde e Pré-Cambriano – Proterozóico, Arqueano e Hadeano – em vermelho). Nesta grande linha do tempo, as crianças participantes do Projeto Paleo Jr, Eduardo e Caio, aprenderam e exercitaram os conceitos de tempo, antiguidade, origem da vida e extinção, uma vez que a atividade consistia em “posicionar” no tempo uma série de elementos (fotografias), como uma cidade moderna, homem das cavernas, mamutes, pirâmides do Egito, múmias, pterossauros, dinossauros, trilobitas, vulcões gigantes e microorganismos.
Grande linha do tempo trabalhada com as crianças participantes do Projeto Paleo Jr.
Figura 2 – Grande linha do tempo trabalhada com as crianças participantes do Projeto Paleo Jr.

Ainda, um grande quebra-cabeças ilustrado exemplificou o processo de formação dos fósseis (Figura 3), trazendo imagens de processos naturais do ciclo da matéria orgânica e ainda dos processos bioestratinômicos e fossildiagenéticos. Neste momento, cada criança participante ganhou um “kit paleontólogo” que contou com uma bolsa de campo, pá, peneira, pincel e bandeja, preparando-os para a atividade que mais trouxe empolgação e experiência paleontológica: a “escavação”, realizada em uma piscina inflável repleta de areia lavada e seca, com partes desmontadas de dinossauros de madeira de baixa densidade (mdf) cobertos por porcelana fria (pasta de biscuit em duas cores diferentes, para distinguir os dois “indivíduos” soterrados – Figura 4). Conforme encontradas pelas crianças as peças foram “preparadas”, sendo limpas (removendo-se a areia/sedimento com a ajuda de um pincel), identificadas (coluna vertebral, crânio, membros anteriores, posteriores, bacia e cauda – Figura 5) e montadas, formando o dinossauro completo, que cada participante pôde levar consigo para casa como recordação deste dia único. Não é preciso dizer que encontrar o seu primeiro dinossauro (mesmo que réplica) foi o ápice do dia para as crianças participantes do Projeto PaleoJr que ficaram extasiados com a experiência! Além disso, foi um momento extremamente gratificante e comovente para a equipe do Laboratório de Mastozoologia: colaborar com o aprendizado de crianças tão interessadas na paleontologia (Figura 6)!
Figura 3 - Caio (5 anos, esquerda) e Eduardo (5 anos, direita) montando o quebra-cabeças do processo de formação dos fósseis.
Figura 3 – Caio (5 anos, esquerda) e Eduardo (5 anos, direita) montando o quebra-cabeças do processo de formação dos fósseis.

Figura 4 - Eduardo com um dos dinossauros de mdf e porcelana fria, ainda desmontado e com “sedimento”, recém-coletado
Figura 4 – Eduardo com um dos dinossauros de mdf e porcelana fria, ainda desmontado e com “sedimento”, recém-coletado.

Figura 5 - Caio concentrado na limpeza e identificação dos “espécimes” encontrados.
Figura 5 – Caio concentrado na limpeza e identificação dos “espécimes” encontrados.

Figura 6 - Idealizadores e participantes do Projeto Paleo Jr do Laboratório de Mastozoologia da UNIRIO (sentido horário: Dr. Leonardo Avilla, Karol de Oliveira, Dra. Dimila Mothé, Eduardo, Caio, Alline Rotti e Sabrina Belatto)!
Figura 6 – Idealizadores e participantes do Projeto Paleo Jr do Laboratório de Mastozoologia da UNIRIO (sentido horário: Dr. Leonardo Avilla, Karol de Oliveira, Dra. Dimila Mothé, Eduardo, Caio, Alline Rotti e Sabrina Belatto)!

Os conceitos científicos ensinados neste dia, bem como as habilidades trabalhadas durante as atividades do Projeto Paleo Jr, como organização, pensamento crítico, atenção, capacidade de dedução, coordenação motora, entre outras, estão presentes na vida diária dos cidadãos e são extremamente importantes para o desenvolvimento pessoal, educacional e social de qualquer indivíduo. Sendo a Paleontologia uma área da ciência que está em constante expansão e renovação de seu conteúdo (com novas interpretações e achados inéditos sobre a vida pretérita surgindo frequentemente), é essencial que haja diálogo simples (Figura 7), direto e proveitoso com o público, para que a sociedade conheça o que tem sido feito no âmbito científico em seu país e reconheça sua aplicabilidade e importância na geração de conhecimento. Desta forma, aumenta-se o interesse geral e identificação pela ciência, e incentiva-se a criação ou ampliação de uma cultura científica como um todo. O conhecimento científico, em seus diversos aspectos, permeia a vida de todos, e poucas pessoas se dão conta que os mesmos processos naturais que ocorrem atualmente no planeta já ocorriam há milhões de anos, influenciando e impactando a vida de organismos tão complexos quanto nós, seres humanos, quanto de dinossauros, trilobitas e tantos outros que já “reinaram” na Terra. Visto o sucesso desta experiência do Projeto Paleo Jr, a proposta agora em diante é dar prosseguimento ao Projeto, aprimorando as atividades e as expandindo para outras faixas etárias, como forma de incentivar o conhecimento e a paixão dos futuros paleontólogos brasileiros!
Figura 7 - Conversa entre o presente e o futuro: Eduardo esclarece dúvidas e faz perguntas (sobre dinossauros, claro!) para o Prof. Leonardo Avilla.
Figura 7 – Conversa entre o presente e o futuro: Eduardo esclarece dúvidas e faz perguntas (sobre dinossauros, claro!) para o Prof. Leonardo Avilla.


Foto DimilaDra. Dimila Mothé
Formação: Bióloga, Mestre e Doutora em Zoologia (subárea Paleozoologia) pelo Museu Nacional/UFRJ.
Áreas de Estudo: Sistemática, Evolução e Paleoecologia de mamíferos fósseis, principalmente mastodontes, mamutes e elefantes (proboscídeos). 
Atualmente bolsista de Pós-Doutorado Jr (CNPq) e coordenadora do Laboratório de Mastozoologia da UNIRIO.

Município de Coração de Jesus, uma experiência além do tempo

Olá a todos! Seguindo a vertente de postagens relacionadas à divulgação científica e sua importância, temos aqui outra narrativa acerca da divulgação da descoberta do Tapuiasaurus macedoi em sua cidade natal, o município de Coração de Jesus! Este texto, redigido pelo Me. Natan Santos Brilhante, traz uma perspectiva complementar à postagem prévia sobre o assunto (veja aqui). Espero que gostem!


Sob a mira de olhares curiosos e intrigados, forasteiros em um veículo branco com logotipo (representado pela silhueta de um Tamanduá-bandeira) de uma instituição pública conduziram diversas expedições de coleta de fósseis no norte do estado de Minas Gerais. Os trabalhos na região duraram vários anos, mais precisamente de 2005 até 2012. Entretanto, na perspectiva dos habitantes, quais seriam os motivos que trariam por tanto tempo pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP)1 para uma cidade modesta e longínqua?

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Veículo oficial do MZUSP no afloramento. Fonte: Natan Santos Brilhante

Logo MZUSP Atualizado
Logo em evidência, o mesmo visto na porta dianteira do veículo oficial do MZUSP. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Talvez o município de Coração de Jesus seja considerado simples em comparação com as grandes metrópoles brasileiras. Contudo, é uma cidade extremamente rica em cultura, hospitalidade e vivacidade. Em meio a toda a sua diversidade, nunca faltaram pessoas com disposição e prontidão em ajudar, seja para desatolar o veículo quando este enfrentou chuvas torrenciais nas estradas de barro do município, ou para servir com capricho uma boa refeição para toda a equipe depois de um dia exaustivo de trabalho.
 
Outras situações inusitadas fazem parte das boas lembranças, e ocupam as páginas do diário de campo, como o deslocamento de um bloco de grandes dimensões e peso, localizado em área de difícil acesso. Esse material só pôde ser transportado para o alto do barranco graças ao auxílio de um “carro de boi” , gentilmente disponibilizado por José Adão Pereira de Souza, o “Zezinho”, responsável pela descoberta dos primeiros ossos fossilizados expostos na região por ação do intemperismo*.
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“Carro de boi”, comumente usado para auxiliar em atividades de zonas rurais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Moradores do município de Coração de Jesus ajudando a equipe de pesquisa do MZUSP a transportar os materiais. Fonte: Natan Santos Brilhante

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Fragmentos de ossos fossilizados (esbranquiçados) aflorando em meio aos sedimentos por ação do intemperismo. Fonte: Natan Santos Brilhante

E o que falar da amizade do Sr. Israel Cruz e da Sra. Marylene Ferreira que abriram as porteiras da Fazenda Santa Tereza para os pesquisadores trabalharem e que, no entardecer, os acolhia com tanto carinho em sua casa para oferecer um bolo caseiro acompanhado de suco de coquinho azedo***. Vale lembrar ainda do Sr. Amilcar, que nos recebeu em sua residência semelhante a uma “casa de taipa”, a alguns quilômetros dos afloramentos. Sua atitude cordial possibilitou o abastecimento de água para as etapas de coleta, resguardando o uso de recurso potável destinado ao nosso consumo e, consequentemente, evitando a nossa desidratação diante do sol forte e de temperaturas com médias diárias acima dos 40 graus (na sombra). Curiosamente, ele sempre lembrava com precisão o nome de integrantes da equipe que por lá passaram há anos (memória invejável para qualquer taxonomista, não?!).
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Um dos pontos de coleta de fósseis nos domínios da Fazenda Santa Tereza. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Estes foram apenas alguns dos eventos e personagens que fizeram parte das muitas histórias de bastidores que ocorreram durante os trabalhos de campo.
Tal empenho e esforço renderam frutos, ou melhor… fósseis, de dinossauros saurópodes e terópodes, que foram (e continuam sendo) dedicadamente estudados por pesquisadores nacionais e internacionais. Entre as descobertas mais emblemáticas está a espécie Tapuiasaurus macedoi, a partir de um exemplar que detém o mais bem preservado crânio de titanossauro da América do Sul. Essa descoberta recebeu destaque na comunidade científica e na mídia por meio da publicação de um artigo na PLoS ONE4 em 2011 e, mais recentemente, na Zoological Journal of the Linnean Society5 em 2016.
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Coleta de fósseis de dinossauros nos arredores do município de Coração de Jesus. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Equipe de pesquisa do MZUSP protegendo e preparando a retirada dos fósseis no afloramento para serem transportados. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Crânio do espécime MZSP-PV 807 (Tapuiasaurus macedoi). A barra de escala representa 10 cm. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Infelizmente, nem sempre cabem agradecimentos em uma revista científica a cada pessoa que, direta ou indiretamente, colaborou com o desenvolvimento da pesquisa. Eventualmente, estas serão retratadas em outros meios de comunicação, como internet, jornais e rádio. Outra questão recorrente é a falta de acesso e de linguagem adequada a este tipo de conteúdo por público o qual a vida acadêmica não faz parte da sua realidade.
Então, como retribuir o apoio tão caloroso? Como mostrar à população a importância e a seriedade do que está sendo realizado nos arredores da sua cidade? Ou o porquê de estar sendo realizado. Como resposta, cito a seguir alguns dos trabalhos promovidos por alunos, funcionários e professores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, em parceria com o Museu de Ciências da USP – Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária2 e o Instituto Butantan3.
As atividades contaram também com o apoio da Prefeitura local e ocorreram a partir de duas frentes principais:
(1) Montagem da exposição itinerante “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”
Abordou temáticas como Paleontologia, Evolução e Dinâmica da Terra, e foi uma remontagem (e recontextualização) de uma exposição com o mesmo título, montada para o Museu de Zoologia da USP, em 2011.
A exposição permaneceu aberta de terça-feira a domingo, durante todo o dia, entre os meses de maio e agosto de 2012. Adentro, o público pôde contemplar fósseis originais e réplicas de diferentes regiões e contextos geológicos, assim como dioramas, vídeos informativos e “paleoarte”. Entre os vídeos, destaca-se um feito com os depoimentos de algumas pessoas da cidade, sobre suas impressões ou sua participação na descoberta dos fósseis.
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Vista geral da exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”, em sua primeira montagem itinerante. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Painel com informes e material a respeito do vasto universo da Paleontologia. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Após poucos dias de abertura, a exposição já havia recebido milhares de visitantes, alcançando não apenas os Corjesuenses, mas também cidadãos de municípios próximos e de outros estados . Para se ter ideia em números, a exposição foi visitada por mais de 9 mil pessoas, em uma cidade de pouco mais de 20 mil habitantes!
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Dia de visita. Interação entre o público e a exposição. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Acreditamos que este tipo de realização estimule uma prática de grande importância para a região: o turismo. Afinal, a rotatividade intensa de pessoas pode ser uma importante fonte para a economia regional, uma vez que a cidade está distante de grandes centros urbanos e o comércio se restringe basicamente aos seus próprios habitantes.
(2) Projeto de extensão “Paleontologia sob a perspectiva da Educação Patrimonial: aproximando os fósseis da população de Coração de Jesus”
Foi de caráter educativo e teve o intuito de permitir o reconhecimento do patrimônio fossilífero da região, assim como apresentar questões científicas relacionadas à Paleontologia, relevância desta ciência para o mundo e valor do Patrimônio Geopaleontológico. Foram efetivadas as seguintes atividades:
I. Curso de Formação Continuada de Professores – visou um melhor entendimento do patrimônio fossilífero regional e do conteúdo da exposição itinerante por parte de professores, de modo que eles pudessem promover visitas direcionadas com seus alunos, utilizando ferramentas da Educação Patrimonial e o conhecimento obtido a partir de estudos regionais. Esse evento ocorreu em março de 2012, teve duração de uma semana (40 horas) e contou com a participação de 118 professores e funcionários de escolas públicas estaduais e municipais, tanto de áreas urbanas quanto rurais, divididos em duas turmas.
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Curso sendo ministrado para a formação continuada de professores. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

II. Oficinas nas escolas – promoveu monitorias e oficinas para desenvolver dobraduras e desenhos relacionados à Paleontologia, assim como o contato com fósseis e réplicas. Essa etapa incluiu também a iniciativa “Converse com um Paleontólogo”, promovendo o diálogo direto entre alunos das escolas e profissionais e estudantes de pós-graduação em Paleontologia para discutir e esclarecer dúvidas a respeito da atuação do paleontólogo e a relevância da sua área de estudo. Participaram mais de 600 alunos de 10 escolas públicas (urbanas e rurais), em maio de 2012.
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Colaboradores do Laboratório de Paleontologia do MZUSP em diálogo aberto com alunos de escolas públicas. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

III. Formação de Monitores – prestou treinamento técnico para o atendimento ao público na exposição citada acima, de maio a julho de 2012. Os mediadores eram alunos do Ensino Médio, selecionados a partir de uma parceira junto às escolas. O curso abordou conceitos relacionados à Museologia, Paleontologia e Patrimônio Geopaleontológico, totalizando 24 horas.
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Monitores atendendo o público na exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

IV. Curso de Extensão Universitária – foi ministrado para 16 graduandos em agosto de 2012. Para transmitir ideias gerais sobre o que é a Paleontologia, a sua importância, e o quão promissoras são as descobertas regionais.
Foram desenvolvidos também diversos materiais didáticos para complementar, ilustrar e relembrar muitas das informações transmitidas em sala de aula pelos colaboradores do projeto educativo, como o livreto “Cabeça DINOSSAURO – o novo titã brasileiro”.
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Material educativo. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

Além dessas práticas, foram também doadas réplicas do “tapuiassauro” para o Centro Cultural José Alves Macedo, um núcleo histórico-cultural sediado na praça central da cidade. Essa instituição foi fundada e é administrada por Ubirajara Alves Macedo, personagem folclórico e um tanto excêntrico da região, que foi homenageado pela sua colaboração na descoberta e na divulgação inicial dos fósseis com o sobrenome da sua família posto no epíteto específico da espécie supracitada (Tapuiasaurus macedoi).
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A praça central da cidade pode ser facilmente reconhecida pela presença de uma icônica estátua, Sagrado Coração de Jesus, que remete ao nome herdado pelo município. Fonte: Natan Santos Brilhante

Por meio dessas ações de ensino e divulgação, foi possível mostrar à população da cidade de Coração de Jesus a importância dos trabalhos paleontológicos, conscientizando e educando os moradores em como proceder diante de novas descobertas, valorizando assim os ideais de preservação e valorização do patrimônio geopaleontológico. Esperamos com isso resgatar não somente o patrimônio fossilífero, mas também, com empenho, incentivar as futuras gerações de paleontólogos(as) e demais entusiastas da ciência.
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Monitores transmitindo conhecimento aos visitantes da exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

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Alunos de escolas públicas do município de Coração de Jesus durante uma visita à exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”. Nota-se a curiosidade e o entusiasmo em suas expressões faciais ao bordarem a temática Paleontologia. Fonte: Arquivo Laboratório de Paleontologia-MZUSP

* A história mais completa sobre a descoberta dos fósseis no município de Coração de Jesus foi relatada em uma matéria do Estadão, um jornal do estado de São Paulo, o qual, na época (2010), dedicou um caderno especial a essa temática. A reportagem contou também com uma série de entrevistas de alguns dos moradores e dos pesquisadores que estiveram à frente das descobertas na região.
*** Coquinho azedo (Butia capitata): planta típica do cerrado rica em vitamina A, C e potássio.
 
Endereço eletrônico de algumas das reportagens sobre o assunto:
I. http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,um-dinossauro-no-coracao-de-jesus,609332
II. http://topicos.estadao.com.br/tapuiassauro
III. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-o-trabalho-dos-paleontologos,242506
IV. http://tv.estadao.com.br/geral,dinossauros-do-brasil-entrevista-com-alberto-carvalho,244709
Endereço eletrônico das instituições mencionadas:
1 – http://www.mz.usp.br
2 – http://biton.uspnet.usp.br/mc/
3 – http://www.butantan.gov.br
Endereço eletrônico dos artigos científicos a respeito do Tapuiasaurus:
4 – http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0016663
5 – http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zoj.12420/abstract


Natan Santos Brilhante

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Formação acadêmica: Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade do Grande ABC, Licenciatura Plena e Bacharelado; Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Zoologia do Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Experiência profissional: elaboração e execução de exposições, treinamento e medeio de monitores, atendimento ao público, expedições de campo (paleontologia e herpetologia) e outros trabalhos técnicos devido a sua colaboração junto ao Laboratório de Paleontologia e à Museologia do Museu de Zoologia da USP, de 2008 a 2013. Após esse período, ingressou no Museu Nacional/UFRJ e, desde então, segue como colaborador no Setor de Paleovertebrados do Departamento de Geologia e Paleontologia.
Área de estudo: Zoologia, com ênfase em Paleontologia de Vertebrados. Atua principalmente nos seguintes temas: Taxonomia de arcossauros fósseis e recentes, curadoria de coleções, coleta e preparação de fósseis de vertebrados.

Com um frango no quintal

Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar é a de divulgar a ciência, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulgação cientifica possibilita a aproximação de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que é o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulgação os pesquisadores nutrem a esperança de que pelo menos partes do conhecimento cientifico comece a integrar o conhecimento popular (e.g., teoria da gravidade, relatividade, alguns fatos sobre dinosauros, etc). A divulgação cientifica feita pelos próprios cientistas é relativamente rara e no mínimo controversa, visto que pesquisadores divulgadores são vistos como “estranhos no ninho” por seus pares (ver postagem). No entanto, cada vez mais os orgãos de fomento brasileiros estão reconhecendo a importância de divulgar os resultados das pesquisas por eles financiadas. Portanto, vem  se tornando cada vez mais comum a necessidade de direcionar parte do recurso solicitado, via projeto a um destes orgãos, a divulgação direta de seus resultados.
Com o intuito de ilustrar a importância da divulgação da ciência para a comunidade não-cientifica trago os relatos de dois pesquisadores que estiveram envolvidos no projeto de divulgação do Tapuiasaurus realizado em sua “cidade natal”, Coração de Jesus.
Esta primeira postagem foi feita pela doutoranda Mariana Galera Soler e a segunda postagem será uma contribuição do doutorando Natan Santos Brilhante.
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A divulgação da ciência não é uma novidade da nossa sociedade. Desde o século XVIII há extensos registros de ações de profissionais e amadores da ciência buscando apresentar os seus resultados para plateias, muitas vezes selecionadas. Longe de ser uma ação altruísta, o processo de comunicação dos resultados de uma pesquisa é fundamental para a validação desta pesquisa pelo público que, em última instância, atende funções econômicas (financiamento público e privado) e profissionais (formação de novos profissionais e apoio social à pesquisa).
Já na contemporaneidade, a partir da década de 1970 houve um forte movimento intitulado public undestanding of science, que tem resultado nas ações de divulgação que conhecemos atualmente, como centros de ciência mega-interativos, clubes de ciências, jogos, livros, filmes etc. Neste período a divulgação científica passou a ter um caráter de essencialmente educativo. Fala-se no meio acadêmico em letramento científico ou alfabetização científica, ou seja, informar as pessoas de modo que elas possam tomar suas decisões de acordo com os conceitos científicos vigentes. Em uma sociedade imersa em ciência e tecnologia, como vivemos atualmente, parece um discurso coerente.
No entanto, ao mesmo tempo que falamos em sociedade do conhecimento, hiperconectividade, redes sociais, ao abrirmos os jornais nos deparamos com uma chamada “crise dos direitos humanos”, novos muros estabelecendo fronteiras físicas, além dos “fatos alternativos” e da pseudociência. Conhecemos o corpo humano e o universo em um nível de detalhamento que era impensável no século XIX, mas questionamos a ciência que nos deu acesso a estas informações de uma forma que jamais pensávamos no pós-guerra.

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“Vivemos em uma sociedade extremamente dependente de ciência e tecnologia, em que quase ninguém sabe nada de ciência e tecnologia” – Carl Sagan. Fonte da imagem: http://bigthink.com/words-of-wisdom/carl-sagan-on-science-and-technology

 
Então, põe-se em questão: como falar de ciência para públicos que interessados em likes no Instagram?
Atualmente falar de ciência parece cool, então vou focar em exemplos da Paleontologia. Desenhos de dinossauros estampam camisetas e geralmente grandes bilheterias no cinema. Mas, o que é mesmo um fóssil? Um dinossauro é tão antigo quando meu tataravô? Eu posso ter um fóssil em casa? Quando Pedro Alvares Cabral chegou no Brasil ainda existiam preguiças gigantes?
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“Em minhas veias corre o sangue dos Dinossauros. Dos dinossauros eu te digo!”. Um dos meus memes favoritos sobre dinossauros! Por que divulgação científica também pode ser feita com likes e curtidas. Fonte: http://www.ifunny.com/pictures/veins-flows-blood-dinosaurs/

Estas questões podem parecer bobas para quem é da área, mas não são triviais para a maioria das pessoas. No contexto mais óbvio, o escolar, embora sejam assuntos apontados nos parâmetros curriculares de todos os níveis da Educação Básica brasileira, são temas pouco explorados pelos livros didáticos e na formação dos profissionais da Educação, de forma que a informação sobre paleontologia não está evidente e os conteúdos paleontológicos aparecem dispersos nos currículos escolares, quando aparecem.
Espaços para aprender sobre Paleontologia no Brasil também são escassos. Por exemplo, em todo o estado de São Paulo há menos de uma dezena de museus que possuem fósseis em exposição. Há também alguns centros de ciência, como o Catavento Cultural (em São Paulo/SP), Sabina – Parque Escola do Conhecimento (Santo André/SP) ou o Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS (Rio Grande do Sul / RS), mas dada as dimensões brasileiras ainda são ações esparsas. O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro/RJ) é uma instituição diferenciada neste aspecto, dado ao espaço oferecido a uma exposição permanente sobre as diferentes faunas paleontológicas brasileiras, como também por ações educativas desenvolvidas pela equipe e alunos do museu.
Estas são ações pontuais e, geralmente, circunscritas a capitais e regiões de grande circulação de pessoas. No entanto, quem usa t-shirt com a estampa do “T-rex”, em geral, tem acesso a um museu ou a internet e pode descobrir mais facilmente que aquele personagem tão bravo do “Jurassic Park” não passa de um frangão desengonçado e carniceiro. Voltando a sociedade hiperconectada, a informação paleontológica nas redes sociais está disponível, e é possível dar likes no Instagram de diversos museus, seguir canais no Youtube de divulgadores científicos. O desafio é descobrir onde está a informação qualificada sobre a Paleontologia. E, neste sentido, as instituições e os termos “estudos comprovam” apresentam um peso de qualificadores.
No entanto, esta é uma questão já bem explorada por outros textos. Gostaria aqui de discutir uma outra situação: como nos comunicar com quem encontra fósseis nos seus quintais? Com quem está a margem destas grandes instituições, cuja ciência se aprende tanto na prática cotidiana quanto na escola. Como falar em tempo geológico, para aqueles que contam os períodos do ano entre as épocas de chuva e seca?
Para esta questão, trago um outro referencial que ainda é pouco explorado na Paleontologia brasileira, que é o conceito do fóssil como um patrimônio. Embora legalmente reconhecido como tal desde a década de 1940, e esta ser uma legislação bastante conhecida pelos paleontólogos, a dimensão cultural dos fósseis ainda é pouco explorada nas ações educativas.
Entender o fóssil como um patrimônio natural, implica em contextualizar estes materiais por meio de uma linguagem clara e objetiva, buscando estabelecer relações entre as populações locais onde os fósseis foram encontrados e as equipes que pesquisam. Para além questões biológicas e geológicas diretamente relacionas aos fósseis, a utilização do referencial da educação patrimonial em Paleontologia fornece subsídios para que esses materiais façam parte da identidade local e sejam entendidos como um patrimônio natural a ser preservado. Para que sejam efetivas estas práticas, ou seja, para que a população local seja agente na conservação de sítios paleontológicos e também possam compartilhar seu conhecimento, até mesmo indicando novos afloramentos, abrindo suas casas e propriedades ou históricos da região, é fundamental que as ações atendam as demandas específicas dos grupos locais.
Não há apostilas ou fórmulas. Há estudos de caso que demonstram que a parceria entre populações locais e paleontólogos podem ser frutíferas para ambos. Um exemplo ocorreu no ano de 2012, no município de Coração de Jesus (MG). Nesta localidade foram encontrados fósseis de dinossauros terópodes e saurópodes da Bacia São-franciscana que datam do Período Cretáceo Inferior, com idades em torno de 120 milhões de anos. Esta região tem sido objeto de estudo da equipe de paleontologia do Museu de Zoologia da USP (SP), desde 2005.
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Em destaque, município de Coração de Jesus, no norte do estado de Minas Gerais. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Cora%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_(Minas_Gerais)

De forma que, passados sete anos em que a população local convivia com a chegada de uma pick-up branca com emblema de uma universidade de outro estado, pessoas estranhas saiam cedo, iam para a área rural do município e voltavam sujos de terra e com o carro cheios de rochas cobertas por gesso, muitas histórias foram criadas e situações com a equipe. Dizia-se de tudo um pouco: havia um tal dinossauro na cidade, que foi vendido para os EUA há centenas de milhares de reais, os donos das terras onde os fósseis foram encontrados ganharam dinheiro e as equipes de paleontólogos eram apelidados de “osseiros”.  Depois de tanto tempo sem entender bem o que estava acontecendo, as relações entre a população e a equipe começaram a se tornar mais difíceis, ao ponto do prefeito da época ligar para o Museu de Zoologia e pedir explicações.
Bem, tais explicações vieram na forma de um projeto educativo e uma exposição itinerante. Como não era possível levar e fazer uma montagem do fóssil original, foi montada a exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”, ao redor da réplica completa do dinossauro Tapuiassaurus macedoi. As ações educativas seguiram quatro linhas: (i) Curso de Formação Continuada de Professores, em que os conhecimentos gerados a partir dos estudos na região foram compartilhados com professores; também foram abordadas ferramentas da Educação Patrimonial, para que os professores e alunos pudessem explorar a exposição e o patrimônio fossilífero regional. Participaram 118 professores e funcionários das escolas públicas estaduais e municipais, urbanas e rurais. (ii) Oficinas nas escolas, que discutiram o trabalho do paleontólogo, por meio de desenhos, dobraduras, interação com réplicas e fósseis e roda de conversa entre alunos e profissionais, intitulada “Converse com um Paleontólogo”. Em maio de 2012, foram realizadas oficinas para 10 escolas públicas (urbanas e rurais), envolvendo mais de 600 alunos. (iii) Formação de Monitores, como parte da parceria com as escolas, em que foram escolhidos 20 alunos do Ensino Médio os quais atuaram como mediadores na exposição entre os meses de maio e julho de 2012. Estes alunos realizaram um curso de formação (duração de 24 horas), em que se discutiram conceitos relacionados à Paleontologia, museus e patrimônio geopaleontológico. E, (iv) Curso de Extensão Universitária, abordando aspectos gerais da Paleontologia e ratificando a importância científica das descobertas regionais. Participaram do curso 16 estudantes, em agosto de 2012.
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Exposição “Cabeça Dinossauro: o novo titã brasileiro”, em sua primeira montagem itinerante, em Coração de Jesus (MG), maio de 2012. Na foto, um grupo de estudantes da cidade é atendido na exposição por dois monitores (também estudantes da cidade que participaram do projeto educativo). Foto: Mariana Galera Soler

 
Durante todo este projeto, que durou cerca de 6 meses, os “osseiros” acabaram sendo pessoas conhecidas na cidade. Quando saíamos nas ruas (e aqui me incluo, pois fui coordenadora deste projeto e também uma das “osseiras” que estava na coleta dos fósseis) éramos convidados para entrar nas casas, conversar com as pessoas sobre o tal dinossauro. De elementos estranhos, passamos a fazer parte da história daquele local, materializado na forma do “tal dinossauro” entrar nas propostas de letra para um novo hino da cidade ou da “explicação” de uma lenda local***.
De porteiras fechadas nas regiões dos afloramentos, fomos recebidos com café e biscoito de toalha e conhecemos uma Coração de Jesus absolutamente nova para nós. Os resultados não foram “apenas” a divulgação dos resultados da pesquisa paleontológica, as pessoas de Coração de Jesus sabiam nossos nomes e se interessavam pelo nosso trabalho, já não éramos mais os “osseiros”. E de muitas histórias que podem ser contadas, uma frase de um professor no último dia do curso registrou fundamentalmente esta parceria: “Obrigado por ter nos ajudado a descobrir que a nossa cidade é mais importante do que parece”.
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Nas visitas as escolas realizávamos diferentes oficinas, entre elas a construção de dinossauros de origamis. Na imagem, um dos alunos das escolas rurais de Coração de Jesus (MG) com seus dinossauros. Foto: Mariana Galera Soler

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Exposição de trabalhos dos alunos em escola rural do município de Coração de Jesus. A atividade de “criar fósseis” com a impressão de folhas em argila foi uma das oficinas propostas para os professores durante o curso. Ao fundo, algumas reconstituições dos animais extintos encontrados na região, também feitas em argila por alunos. Foto: Mariana Galera Soler

Este é apenas um caso, mas existem outros. Embora escassos, projetos focados em populações locais e tratando os fósseis como um patrimônio e em parceria com as pessoas são um caminho possível para além da divulgação da ciência mais óbvia, cheia de fórmulas prontas e high tech de comunicar uma ciência neutra e fechada em si, tratando os fósseis como todos sendo um dinossauro sem penas que corre como um guepardo. Projetos locais e contextualizados são um caminho para a preservação do património fossilífero in situ e para que a ciência não seja apenas um conjunto de resultados empilhados, assépticos e descontextualizados, e produzida por homens brancos, de meia idade e jaleco branco (eventualmente, com a língua de fora).
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Não basta ser monitor tem que participar! Alunos do Ensino Médio foram indicados por seus professores para atuar como monitores na exposição. Para tanto participaram de um curso sobre Paleontologia e também de diversas atividades práticas, entre elas ajudar na montagem da própria exposição. Foto: Marcia Fernades Lourenço

 
*** Coração de Jesus teve nos anos 1960 – 70 certa notoriedade na região e grandes investimentos públicos que geraram, por exemplo, a construção de um espaço esportivo e complexo de piscinas bem estruturados. Contudo, esse projeto foi abandonado e o município voltou a ser apenas mais um dos pequenos lugares na borda do Vale do Jequitinhonha. Para explicar esta “perda de status”, os mais velhos costumavam dizer que no passado alguém havia enterrado a cabeça de um burro na cidade e por isso ela não “ia para frente”. Com a descoberta do crânio (“cabeça”) de um dinossauro (bicho antigo que viveu há muito tempo), diversas pessoas relacionaram o fóssil a “cabeça do burro” e viram nesta descoberta a chance da cidade voltar a progredir.


Mariana Galera Soler

Formação: Bió18109741_1315265438526683_809310084_nloga pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP/RP) e Mestre em Museologia pela USP/SP. Estudante de doutorado em História e Filosofia da Ciência, com especialização em Museologia pela Universidade de Évora / Portugal.
Área de estudo: comunicação e divulgação científica; museus de história natural; exposições e coleções científicas.
 Mas onde entra Paleontologia em tudo isso? Desde a graduação trabalhei o Laboratório de Paleontologia da USP Ribeirão Preto. Depois fui ao Museu de Zoologia da USP / São Paulo, onde trabalhei na curadoria da coleção paleontológica, além de participar de outras atividades do Laboratório de Paleontologia.
Bem tudo isso já faz algum tempo! Também já fui professora de biologia e ciências e, nos últimos seis anos, atuei na coordenação do setor educativo do Museu Biológico do Instituto Butantan. O que não quer dizer que eu deixei a Paleontologia de lado. Continuo trabalhando no gerenciamento da base de dados paleontológicos brasileira LUND (www.lund.fc.unesp.br/lund) e atuei em alguns trabalhos de divulgação e exposições paleontológicas, em que uma das histórias conto aqui nesse texto.
 

She sells seashells on the seashore – Mary Anning, a Colecionadora de Ossos

Olá a todos, hoje 08/03/2017, se comemora o dia internacional da mulher. Uma data criada para concientizar e proporcionar uma concientização da importância do Homo sapiens do sexo feminino (sim… mulheres e homens são da mesma espécie, ao contrário do que certos pesquisadores dizem por ai…) em nossa sociedade. Nada melhor para comemorar esse dia do que relambrarmos um pouco sobre um grande paleontologa que sofreu muito por causa de sua religião, condição financeira e sexo. Estou falando de Mary Anning! O texto abaixo, escrito pelo estimado Giovanne Mendes Cidade (e uma versão deste texto já foi publicada no finado blog do Grupo Fossilis), retrata um pouco sobre a história e contribuições dessa valorosa mulher. Espero que gostem!


Uma pessoa que nasceu numa família pobre do interior, recebeu pouca educação formal e teve que trabalhar desde criança para ajudar a sustentar a família. Este certamente não é o perfil da maioria dos paleontológos, ou mesmo dos cientistas em geral que nós conhecemos. Quando se acrescenta que a pessoa em questão era uma mulher, e que viveu na Inglaterra do século XIX, tudo parece ainda mais estranho. E quando, ainda por cima, ficamos sabendo que os achados dela representam alguns dos mais importantes de todos os tempos para a Paleontologia, isso começa a parecer incrível.
E quando percebemos que, apesar de toda essa história fantástica, muitas pessoas que atuam na área podem nunca ter ouvido falar da pessoa em questão… aí, sim, tudo parece inacreditável.

Figura 1
Figura 1: Mary Anning com seu cachorro, Tray, nos afloramentos de Lyme Regis, Inglaterra (pintura de cerca de 1842)

A pessoa em questão é Mary Anning (1799-1847), considerada por alguns a “maior coletora de fósseis que o mundo já conheceu”. Nascida na pequena cidade da Lyme Regis, no litoral sul da Inglaterra, Mary Anning era filha de um carpinteiro chamado Richard, que teve dez filhos – embora apenas a própria Mary e um irmão, Joseph, sobreviveram até a idade adulta. A família era pobre, e para piorar as coisas a Inglaterra não vivia os seus melhores dias na época. No entanto, a família de Anning tinha um pouco de sorte: a cidade em que viviam, Lyme Regis, era (e ainda é) uma região rica em fósseis. Lá, a Formação Blue Lias, datada do Jurássico, aflora em costões rochosos ao redor da cidade, especialmente perto da praia, com seu sedimento formado principalmente por calcário e folhelho. No século XVIII, a região se tornou um grande destino turístico e, de quebra, os fósseis que apareciam na região começaram a ser explorados em grande escala. Essa exploração, no entanto, era feita principalmente por habitantes da própria região que coletavam os fósseis para vendê-los. A princípio, os fósseis eram vendidos apenas como curiosidades para os turistas; depois, enquanto a geologia e a paleontologia iam se consolidando como ciências, já no século XIX, eles passaram a atrair o interesse dos nobres da época que atuavam como pesquisadores.
Assim, o pai de Mary, Richard, atuou como coletor e vendedor de fósseis para aumentar a renda da família, e ensinou a prática aos filhos. É claro que, nos dias de hoje, comercializar fósseis é uma prática condenável; mas, vivendo em uma época em que a importância dos fósseis ainda não era bem conhecida – e, sobretudo, vivendo em uma época de situação econômica ruim, sendo obrigado a ver a sua família com dificuldades e tendo um dos maiores depósitos de fósseis do fundo dando sopa no seu quintal, com gente interessada em dar dinheiro por eles – quem poderia culpá-los?
No entanto, aconteceu que o pai de Mary morreu em 1800, deixando a mulher e os dois filhos; Joseph com 14 anos e Mary com 11. E é aí que a história de Mary Anning começa a ficar impressionante. Apesar da pouca idade, ela e o irmão continuaram com as atividades do pai. Só que Mary faria muita mais do que apenas coletar fósseis para vender.
Em 1811, Joseph encontrou um crânio de um tipo que eles nunca tinham visto por ali. Meses depois, Mary encontrou todo o resto do esqueleto do mesmo animal. Eles foram vendidos a colecionador por 23 libras (cerca de 88 reais, hoje). Aqueles fósseis representavam, simplesmente, um dos primeiros achados de Ictiossauros do mundo – a espécie Temnodontosaurus platyodon, descrita por Conybeare em 1822 e que continua válida até os dias de hoje. Embora esse não tenha sido exatamente o primeiro fóssil do grupo a ser encontrado, o espécime coletado por Joseph e Mary foi justamente o que primeiro chamou a atenção da comunidade científica para os Ictiossauros, que anos depois viriam a ser reconhecidos como répteis aquáticos.
Depois disso, Joseph se afastou um pouco da atividade de coletas de fósseis, e Mary Anning se tornou praticamente a única responsável pelo “negócio da família” por assim dizer. Nos anos que se seguiram, ela realizou descobertas ainda mais incríveis, entre elas: outro esqueleto do mesmo ictiossauro, Temnodontosaurus platyodon, em 1821; um esqueleto parcial de Plesiosaurus dolichodeirus (novamente descrita por Conybeare em 1824), simplesmente o primeiro plesiossauro a ser descoberto no mundo, entre 1820 e 1821; em 1828, ela encontrou o esqueleto parcial do pterossauro Dimorphodon macronyx , o primeiro pterossauro descoberto fora da Alemanha, descrito formalmente por William Buckland em 1829; e, também em 1829, ela encontrou um fóssil de peixe do gênero Squaloraja, um peixe cartilaginoso descrito por Woodward apenas em 1886 com características intermediárias entre tubarões e arraias, para ficar apenas nos achados que ganharam mais destaque.
Figura 2
Figura 2: Desenho e texto de Mary Anning contendo a descrição do fóssil do Plesiosaurus dolichodeirus (1823).

 
Nos invertebrados, suas contribuições também foram importantes. Nas suas investigações sobre os fósseis dos moluscos belemnitas (que, junto com os amonitas, eram os fósseis mais abundantes da região, e portanto os mais vendidos), Mary descobriu que alguns espécimes ainda preservavam suas bolsas de tinta, mesmo depois de milhões de anos de fossilização. A tinta até chegou a ser usada por Mary e outros como material para fazer desenhos dos fósseis no papel, mas a observação de Mary de que as bolsas dos belemnitas eram muito parecidas com a de moluscos viventes – especialmente as sépias – indicavam que os cefalópodes daquela época, como os de hoje, se utilizavam de ejeções de tinta para se defender. Foi ela também quem primeiro desconfiou que aquelas bolas que de vez em quando apareciam nos afloramentos – e que as pessoas chamavam de “pedras de bezoar” – poderiam ser, na verdade, fezes fossilizadas. Em 1829, William Buckland, baseando-se entre outros fatos nas observações de Mary, batizou essas bolas de “coprólitos”.
Figura 3
Figura 3: Um desenho e um texto feito por Mary Anning sobre um fóssil de Plesiossauro.

 
O exemplo acima mostra como Mary Anning realmente fez muito mais do que coletar fósseis para vender. É claro que ela os continuava comercializando, porque, como vocês já devem percebido, apesar de todo o esfoço que ela fazia, dadas as suas condições de vida, seria muito, mas muito difícil, que ela tivesse um projeto aprovado pelo CNPq para ganhar uma bolsa. Muito menos se ela o escrevesse com a tinta fossilizada dos belemnitas.
Mesmo assim, o fato é que ela desenvolveu um real interesse pelos fósseis que coletava, e mesmo sem nenhum tipo de educação formal em anatomia, taxonomia ou qualquer outra disciplina coisa, ela se esforçou para ler toda a literatura científica que pôde, até adquirir um saber em anatomia e em geologia que apenas os gentleman riquíssimos de sua época poderiam ter; além disso, ela se especializou não só em coletar os fósseis, mas em prepará-los; realizava dissecações de animais viventes, principalmente peixes, para comparar seu esqueleto com os fósseis, e era capaz de desenhar ilustrações dos fósseis que coletava. Em suma, Mary Anning fazia tudo o que um bom paleontólogo faz hoje. Com a única diferença de que ela era uma mulher pobre e sem formação universitária vivendo numa sociedade machista e aristocrática – além de pertencer a uma minoria religiosa que era perseguida pela Igreja Anglicana, os Congregacionalistas.
Isto demonstra uma das lições que a história de Mary Anning pode nos ensinar: sobre como pode ser importante o trabalho de pessoas não-acadêmicas, inclusive nos dias de hoje, no esforço de pesquisa e divulgação científicas.
Figura 4
Figura 4: Uma foto de uma praia de Lyme Regis nos dias atuais, mostrando uma impressão de um fóssil de Amonita em primeiro plano.

E se isso não bastasse, ainda é bom lembrar as condições do local em que Mary Anning coletava seus fósseis. As coletas nos costões rochosos de Lyme Regis eram mais produtivas durante o inverno, quando deslizamentos de terra expunham os fósseis – que tinham que ser coletados rapidamente, antes que as ondas do mar os levassem. As rochas ficavam em contato direto com o oceano, e uma onda mais forte poderia facilmente arrastar qualquer um que estivesse se esgueirando pelos penhascos. E de fato, o cachorro de Mary, Troy – que sempre a acompanhava nas suas coletas – infelizmente encontrou este triste destino, e sua dona quase o acompanhou na ocasião. Isso certamente é uma lição, algo a se pensar para caras como eu, cuja maior dificuldade que já encontrei no campo foi sentir um pouco de calor e perceber que as nossas latas de Coca-Cola já tinham acabado.
Apesar de todos os seus grandes achados e de sua história incrível, o fato é que hoje em dia até um paleontólogo fictício como aquele cara do Friends é mais conhecido do público, e provavelmente entre profissionais da área, do que Mary Anning. Isso se deve, em grande parte, ao fato de Mary nunca ter publicado nenhuma de suas descobertas (a única peça que pode ser considerada como uma publicação científica de Mary Anning é uma carta que ela escreveu à revista científica Magazine of Natural History questionando se um fóssil de tubarão do gênero Hybodus, recentemente descrito naquela revista, representaria efetivamente um gênero novo – veja detalhes em Emling, 2009) e, claro, de ter vendido quase todas elas aos pesquisadores. Porque, apesar de todo o interesse e dedicação mostrados por ela, os fósseis sempre lhe foram, sobretudo, aquilo que garantia o seu sustento. Porém, é importante notar que a maioria dos pesquisadores que publicaram pesquisas sobre fósseis encontrados por ela não teve sequer a decência de citar o seu nome em seus trabalhos. Durante a vida, Mary chegou a vender fósseis, se corresponder e trocar ideias e informações com vários cientistas importantes de sua época, entre eles Richard Owen, Louis Agassiz, Henry de la Beche (cujo desenho Duria Antiquor, considerado o primeiro trabalho de paleoarte da história, foi feito baseado nos fósseis encontrados por Anning), Charles Lyell e Adam Sedgwick – os dois últimos, professores de Charles Darwin.
Figura 5
Figura 5: Na Inglaterra, as famosas “Blue Plaques” são usadas para homenagear lugares em que pessoas ilustres nasceram, residiram ou morreram. Esta placa está no local em que Mary Annig nasceu, em Lyme Regis, e que hoje está convertido em um museu.

 
Todos estes nomes são hoje conhecidos como precursores da geologia e da paleontologia; e todos contaram para isso com os achados de Mary Anning, que por sua vez caiu no esquecimento. E isso é algo que, infelizmente, acontece até hoje; vários fósseis, como se sabe, são encontrados por trabalhadores ou pessoas que estão passando à toa por um determinado lugar, e o pesquisador, depois de pesquisar e publicar seus resultados, se recusa até a citar o nome de quem encontrou o fóssil! Muitos de nós pensamos “Mas o que é que um pedreiro ganha se eu agradecer a ele por ter achado um crânio completo enquanto trabalhava numa obra? Não vai adiantar nada ele colocar isso no Currículo Lattes dele!”.  É evidente que o encontrar do fóssil é uma etapa que faz parte de todo um processo que vai até a publicação. Mas é uma etapa sem a qual, simplesmente, o resto da pesquisa nunca existiria!
Figura 6
Figura 6: “Google Doodle” celebrando o 215º aniversário de Mary Anning, em 2014.

 
Outra reflexão que a história de Mary Anning provocou em mim, particularmente, diz respeito ao o que ser um pesquisador realmente significa. Um cientista é, acima de tudo, alguém que trabalha com um método, com a razão, para obter as respostas às perguntas que faz a si mesmo; mas nada disso faz sentido se não há uma emoção envolvida nisso. O cientista deve gostar do que faz, deve ver sentido naquilo que investiga, deve ter uma convicção de que o ele faz é importante. E, na minha opinião, são essas os motivos que devem mover o cientista a fazer o que faz, muito mais do que atingir um número de publicações ou arranjar empregos e financiamentos. É claro que ninguém pode condenar aqueles que colocam isso como prioridade – como ninguém pode condenar Mary Anning por ter vendido fósseis em sua época – mas eu acredito que, mais importante que preencher nossos currículos e nossas vaidades, o cientista deve trabalhar tendo em mente que o que ele faz é importante, faz sentido para o mundo, e que ele é uma pessoa em que todos depositam a esperança de que seu trabalho fará o ser humano entender melhor o mundo. Os títulos acadêmicos, por exemplo, não são uma coisa para se ficar exibindo para as nossas tias mas, ao invés disso, são apenas etapas na formação de um profissional. O maior objetivo de um cientista em formação, e de um cientista formado também, não deveria ser colecionar títulos ou publicações, mas aprendizado e experiência, coisas que dependem muito mais da própria dedicação individual do que de qualquer outra – como provou Mary Anning, há mais de duzentos anos atrás.
E hoje, especificamente em um 8 de março, a história e a trajetória de Mary Anning se tornam ainda mais significativos pelo Dia da Mulher. Hoje, muito diferentemente da época de Mary Anning, as mulheres possuem bastante espaço na comunidade científica, com várias mulheres se destacando como cientistas em várias áreas, incluindo a nossa Paleontologia. No entanto, ainda há muito que pode ser feito, e a história de Mary Anning nos alerta sobre como o conhecimento que a ciência pode proporcionar à humanidade fica prejudicado quando uma mulher é discriminada simplesmente por ser mulher, ou quando qualquer pessoa é discriminada seja por motivo de gênero, etnia, cor da pele, nacionalidade, ideologias, opiniões ou religião. Por isso, neste dia 8 de março, que Mary Anning seja um exemplo de gana de conhecimento, sim, mas também de que o sexo ou gênero de um cientista simplesmente não têm nada – absolutamente nada – a dizer no que diz respeito à sua capacidade como cientistas.
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Figura 7: Reconstituição do desenho Duria Antiquor (1830), de Henry de la Beche, baseado grandemente em fósseis coletados por Mary Anning.

 
Referência bibliográfica:
Emling, Shelley (2009), The Fossil Hunter: Dinosaurs, Evolution, and the Woman whose Discoveries Changed the World, Palgrove Macmillan, ISBN 978-0-230-61156-6
Para saber mais:
http://www.ucmp.berkeley.edu/history/anning.html
https://www.sdsc.edu/ScienceWomen/anning.html
http://www.macroevolution.net/mary-anning.html
Um vídeo contando a história de Mary Anning:
Referências das Figuras:
[1],[3]: http://www.bbc.co.uk/schools/primaryhistory/famouspeople/mary_anning/
[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Plesiosaurus
[4]: http://www.dorsetlife.co.uk/2012/05/from-ancient-to-modern-lyme-regis-fossil-festival/
[5], [6]: http://heavy.com/news/2014/05/mary-anning-215-birthday-google-doodle/
[7]: https://en.wikipedia.org/wiki/Duria_Antiquior


16735619_1201225939972881_1202071666_oGiovanne Mendes Cidade, Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Estuda principalmente crocodilianos fósseis, com ênfase em sistemática, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Também tem interesses diletantes em história da Paleontologia e em filosofia da Ciência como um todo, e da Biologia em particular, além de Evolução. 

Astropaleobiologia: Uma ciência embrionária

 
Esta contribuição foi feita pelo aluno de graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) chamado Rodolfo Otávio dos Santos. Atualmente ele se encontra no 6º período do curso de Ciências Biológicas e está estagiando no Laboratório de Paleontologia da UFU (https://www.facebook.com/PaleoUFU).
Devido ao seu interesse na área e de auxiliar na divulgação sobre tais assuntos, ele seguirá contribuindo com mais postagens sobre os mais variados tópicos. Rodolfo fez sua primeira contribuição tratando sobre a discrepância entre a abundância de dinossauros na Argentina x Brasil (aqui) e sua segunda discutindo sobre quais fósseis reais foram usados como base para os Pokemon fósseis (aqui). Hoje elecomenta brevemente sobre uma ciência que não é nova, mas que nas últimas décadas tem apresentado novas descobertas incríveis. A ciência em questão é a Astrobiologia, bastante em voga nas ultimas semanas devido a descoberta de novos planetas com potencial significativo de haver vida!


Uma forma bastante eficiente de se conhecer uma ciência é saber qual seu objeto de estudo, ou seja, quais perguntas ela busca responder. Dessa forma a Biologia, por exemplo, tem como objetivo final explicar a totalidade das questões relacionadas à vida. Para áreas emergentes da ciência, no entanto, delimitar as questões que as concernem não é uma tarefa muito simples, pois a maioria aborda temas cujo nosso conhecimento atual é demasiadamente pequeno. Podemos citar, como exemplo, estudos sobre a astropaleobiologia, o tema deste texto.
É preciso, de início, definir o termo astropaleobiologia, que é: área da ciência responsável pelo estudo dos fósseis encontrados fora do planeta Terra. Nesse sentido, é válido mencionar que o vocábulo astropaleontologia já era utilizado anteriormente, porém com outros significados, como: o estudo da evolução das estrelas e/ou o estudo de como os eventos astronômicos influenciaram a vida da Terra. Sendo assim, o termo astropaleobiologia é atualmente o mais utilizado para designar a área que estuda os restos de organismos vivos que porventura habitaram outros locais do nosso universo.
A partir do momento que os astrônomos começaram a estimar com maior precisão o tamanho do universo e se depararam com sua grandeza, logo perceberam que as escalas de medidas convencionais eram ineficazes para as distâncias cósmicas. A noção de que o universo é infinitamente grande e antigo fez com que novos questionamentos surgissem. Parece existir uma incongruência entre a quantidade de espaço disponível e o número de formas de vida no universo, conhecida popularmente como Paradoxo de Fermi. Em outras palavras, parafraseando o célebre astrônomo norte americano Carl Sagan: “Seria o universo um grande desperdício de espaço?”.

Fig. 1 (Créditos NASA)
Fig. 1: Foto conhecida como “O ponto pálido azul”, tirada pela espaçonave Voyager 1, a uma distância de 6,4 bilhões de km, próxima da órbita de Saturno. Nela, nosso planeta aparece como um pequeno ponto luminoso, em contraste com a imensidão e escuridão do espaço circundante. (Créditos: NASA)

Quando o assunto é a possibilidade de vida extraterrestre, outro tópico importante é a Equação de Drake. Trata-se de um famoso cálculo, criado por Frank Drake, que busca estimar a quantidade de civilizações presentes na galáxia, partindo do uso de algumas variáveis (até então impossíveis de serem mensuradas na época de sua criação, ainda que hoje algumas delas sejam razoavelmente conhecidas). A equação foi recentemente atualizada, havendo uma substituição de algumas variáveis por outras que atualmente são capazes de serem mensuradas, passando a ser conhecida como Equação de Seager.
Fig. 2 (Créditos Revista Época)
Fig. 2: Comparação entre as duas equações. A mais recente possui variáveis que podem ser mensuradas a partir de dados coletados principalmente pela Sonda Kepler, dando uma estimativa mais aproximada do número de planetas habitáveis. (Créditos: Revista Época)

 
A descoberta de organismos vivos fora da Terra traria implicações para toda nossa sociedade, principalmente para a ciência, filosofia e religião. Por exemplo, a possibilidade de múltiplas origens do que conhecemos como vida, ou o fato dos organismos vivos terem se originado em outros locais do universo e posteriormente terem colonizado a Terra (a famosa panspermia cósmica) revolucionariam toda a Sistemática Filogenética e, consequentemente, o modo como entendemos as relações de parentesco entre os seres vivos.
Mesmo nos dias atuais, não existe um consenso entre os biólogos sobre uma definição universal de vida. A existência de seres extraterrestres, que provavelmente teriam uma bioquímica muito diferente da nossa, poderia fazer com que a resposta para tal pergunta ficasse ainda mais difícil, pois ampliaria o leque de possibilidades para aquilo que definimos como um ser vivo. Em Titã, um dos satélites naturais de Saturno, cientistas têm especulado sobre um possível tipo de vida muito diferente da terrestre, baseado em hidrocarbonetos como o metano, dada a ausência de água líquida nessa lua.
Fig. 3 (Créditos Walter Myers)
Fig. 3: Representação artística de uma sonda explorando os lagos de hidrocarbonetos de Titã. Astrônomos descobriram que existe um ciclo de metano semelhante ao ciclo da água terrestre. Dessa forma, haveriam condições para o desenvolvimento de formas de vida muito diferentes das terráqueas, ainda que muito simples. (Créditos: Walter Myers)

 
Do ponto de vista astropaleobiológico, a hipótese mais interessante seria a de que, tal como ocorre na Terra, as taxas de extinções de seres vivos no universo sejam grandes, de forma que a grande maioria dos organismos já se extinguiram. Dessa forma, para conhecermos de fato essa diversidade inimaginável, teríamos que estudar os vestígios por eles deixados, provavelmente análogos ao que conhecemos como “fósseis”. Portanto, nesse momento, entra em cena a Astropaleobiologia.
Desde o final do século XX, graças às melhorias em nossa tecnologia, foi possível detectar os primeiros exoplanetas (planetas localizados fora do sistema solar). Atualmente, são conhecidos mais de 3000, alguns deles com características semelhantes às encontradas na Terra e consequentemente, os locais mais prováveis de encontrarmos vida fora de nosso planeta. Os radiotelescópios também têm ajudado os astrobiólogos na procura pela vida extraterrestre. Em 2016, a China inaugurou o maior até então já construído, o que pode ser um passo definitivo para respondermos a questão: estamos ou não sozinhos no universo?
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Fig. 4: Radiotelescópio chinês, conhecido como FAST (sigla para Five-hundred-meter Aperture Spherical Telescope). Estes aparelhos captam sinais (ondas de radio), emitidos naturalmente por estrelas, galáxias, quasares e outros objetos. Além disso, podem ser utilizados na procura de eventuais transmissões de civilizações extraterrestres. (Créditos: Nan et al)

 
Apesar do pequeno número de evidências, existem materiais para estudos astropaleobiológicos e, por mais paradoxal que possa parecer, esses materiais foram encontrados em nosso próprio planeta, porém suas origens remontam a um local distante. No passado, corpos celestes chocaram-se contra Marte, fazendo com que rochas marcianas fossem lançadas para o espaço. Eventualmente, algumas delas caíram na Terra e os cientistas, ao estudarem sua composição, perceberam que tais rochas não eram terrestres.
Em 1996, a notícia de que um meteorito (ALH 84001), encontrado na Antártica, continha estruturas muito semelhantes a fósseis de “bactérias marcianas” correu o mundo. Em 2006 cientistas analisaram outro meteorito, encontrado em 1911 no Egito, que possuía estruturas microtubulares, possível evidência de atividade microbiana. Mais recentemente, em 2014, outra rocha marciana (Y000593), encontrada no Japão, ganhou as manchetes por também apresentar microtúbulos, além de pequenas esferas, prováveis resquícios da presença de organismos vivos.
Alguns cientistas alegam que os microtúbulos seriam, na realidade, túneis escavados por estes organismos extraterrestres enquanto se alimentavam, de forma muito semelhante ao que é feito por algumas bactérias terrestres. Outros pesquisadores, entretanto, afirmam que tais estruturas teriam uma origem totalmente abiótica, sendo resultantes de reações físico-químicas desvinculadas de atividade biológica, pois não foram encontrados vestígios de moléculas capazes de se replicar. Há ainda a possibilidade de contaminação do material por organismos terrestres, o que dificulta os estudos.
Fig. 5 (Créditos McKay)
Fig. 5 (Domínio Público)
Fig. 5: Microscopia eletrônica do meteorito ALH 840001, acima, detalhando estruturas muito semelhantes a bactérias fossilizadas. Passado o alvoroço da descoberta, estudos posteriores mostraram que elas poderiam ter se originado a partir de processos físico químicos. Abaixo, microscopia do meteorito Y000593, evidenciando a presença de micro esferas ricas em Carbono no círculo vermelho (prováveis fósseis de “bactérias”), e microtúbulos, no círculo em azul, que teriam sido feitos por atividade biótica (um possível icnofóssil extraterrestre). (Modificado de McKay (1996)).

Porém, de nada adianta os organismos vivos deixarem restos de sua existência para trás se os futuros cientistas não conseguirem ter acesso aos materiais. Em nosso planeta, conseguimos ter acesso aos fósseis pois as camadas em que eles se encontram são soerguidas graças à forças vindas do interior da Terra, possibilitando aos paleontólogos acesso mais fácil aos materiais. Isso só é possível devido ao fato de que a Terra é um planeta geologicamente ativo. No sistema solar, corpos celestes como Vênus provavelmente compartilham essa característica, enquanto outros, como Mercúrio e Marte, são geologicamente inativos, fator que dificultaria, e muito, o trabalho dos futuros astropaleobiólogos.
É importante salientar que as buscas por vida extraterrestre são altamente enviesadas, pois nossa procura se concentra em locais semelhantes à Terra (restrita, portanto, a planetas rochosos e com água). De forma similar, a procura pelos “fósseis” extraterrestres também está limitada ao nosso conhecimento acerca dos processos de fossilização terrestres. Entretanto, muito provavelmente, a imensa biodiversidade universal, ainda oculta, deve carregar consigo uma gama ainda maior de processos que desafiam nosso conhecimento.
Fig. 6 (Créditos NASA)
Fig. 6: Sonda Espacial Kepler, lançada em 2009 e responsável pela descoberta de milhares de exoplanetas. Estimativas feitas por cientistas, com base nos dados por ela obtidos, indicam que podem haver aproximadamente 40 bilhões de planetas rochosos na Via Láctea. (Créditos: NASA)

A busca por organismos extraterrestres, estejam eles já extintos ou ainda vivos, é sobretudo uma forma de conhecermos a nós mesmos, de entendermos qual nosso papel no universo. No futuro, talvez o conhecimento adquirido com o estudo de possíveis “fósseis” extraterrestres, possamos definir e explicar de forma mais satisfatória o fenômeno que denominamos de vida. Quanto aos paleontólogos do presente, resta usar a imaginação, na tentativa de vislumbrar o passado de outros mundos, e aguardar pacientemente o progresso da ciência em sua procura por organismos extraterrestres.
Adendo: Duas descobertas recentes trouxeram grandes avanços para a Astropaleobiologia. A primeira pesquisa revelou a existência de um sistema composto por sete planetas rochosos, distante 39 anos-luz da Terra, orbitando a estrela TRAPPIST-1, dos quais três estão na chamada zona habitável, a região em que, caso exista água, ela se encontra no estado líquido, aumentando as chances de encontrarmos organismos vivos. Foi a primeira vez que um sistema contendo tantos planetas com grande potencial para abrigar vida foi encontrado.
Fig. 7 (Créditos NASA)
Fig. 7: Representação artística do recém-descoberto sistema planetário da estrela anã-vermelha TRAPPIST-1, com seus sete planetas rochosos, mostrados em escala de tamanho em relação ao planeta Terra. (Créditos: NASA)

 
A segunda pesquisa mostrou a existência de fósseis de bactérias com uma idade entre 3,8 e 4,3 bilhões de anos, os mais antigos encontrados até o momento. Os materiais foram encontrados no Nuvvuagittuq Supracrustal Belt, em Quebec. No passado, este local foi um sistema de fontes hidrotermais rico em ferro, elemento que era utilizado no metabolismo dessas bactérias, que deixaram vestígios na forma de pequenos túbulos. Essa descoberta indica que a vida na Terra apareceu pouco tempo após a formação dos oceanos.
Fig. 8 (Créditos Matthew Dodd)
Fig. 8: Fósseis das mais antigas formas de vida até então conhecidas, bactérias que viviam em fontes hidrotermais, numa região onde hoje se localiza o Canadá. (Créditos: Mathew Dodd)

 
Os autores do estudo ainda lembraram que as condições do planeta Marte há 4,3 bilhões de anos eram semelhantes às da Terra primitiva, um forte indício de que a vida possa ter prosperado também no planeta vermelho, ainda que por um curto período de tempo. Considerando tais estudos, a existência de vida extraterrestre ganhou fortes evidências a seu favor e agora é uma questão e tempo até que novas descobertas sobre o assunto sejam encontradas, confirmando a existência de vida extraterrestre.
 
Referências Bibliográficas:
Astropaleobiologia:
COX, G. Astropaleobiology. Disponível em: <https://starscapescientific.wordpress.com/2012/06/09/astropaleobiology/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Paradoxo de Fermi:
NUNES, J. O Paradoxo de Fermi. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/o-paradoxo-de-fermi/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Equação de Drake e Seager:
OLIVEIRA, D. R. A. Equação de Drake para a vida alienígena recebe um upgrade. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/equacao-de-drake-para-a-vida-alienigena-recebe-um-upgrade/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
PONTES, F. A caçadora de extraterrestres: A exótica missão da astrônoma Sara Seager, em busca de planetas habitáveis pelo Universo. Disponível em: <http://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/08/cacadora-de-bextraterrestresb.html>. Acesso em 4 mar. 2017.
Vida em Titã:
HRALA, J. Life “Not as We Know It” Might Be Possible on Titan. Disponível em: <http://www.sciencealert.com/life-on-titan-might-be-completely-different-than-the-life-we-re-familiar-with>. Acesso em 4 de mar 2017.
Radiotelescópio Chinês:
O’NEILL, I. Monster Chinese Telescope the Next ET Hunter?. Disponível em: <http://www.seeker.com/monster-chinese-telescope-the-next-et-hunter-1765285433.html>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Vida em Marte e Meteoritos:
SÉRVULO, F. Como procurar por vida em Marte?. Disponível em: <http://www.universoracionalista.org/como-procurar-por-vida-em-marte>. Acesso em: 4 de mar. 2017.
MCKAY, D. S. et al. Search for past life on Mars: Possible relic biogenic activity in martian meteorite ALH84001. Science, Washington, v. 273, p. 924-930, ago. 1996.
MIKOUCHI, T. et al. Mineralogy and petrology of Yamato 000593: Comparison with other Martian nakhlite meteorites. Antarctic Meteorite Research, Washington, v. 16, p. 34-57, fev. 2003.
MCKAY, D. S. et al. Life on Mars: new evidence from martian meteorites. Proceedings of SPIE Annual Meeting, Bellingham, v. 7441, p. 80-102, ago. 2009.
WARMFLASH, D.; WEISS, B. Dis life come from another world?. Disponível em: <http://www.bibliotecapleyades.net/ciencia/esp_ciencia_life09.htm>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Missão Kepler:
NASA. Importance of Planet Detection. Disponível em: <https://kepler.nasa.gov/Mission/QuickGuide/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
CLARK, S. Kepler space telescope in emergency mode. Disponível em: <https://spaceflightnow.com/2016/04/09/kepler-space-telescope-in-emergency-mode/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Exoplanetas:
SCHNEIDER, J. et al. Defining and cataloging exoplanets: the exoplanet.eu database. Astronomy & Astrophysics. Paris, v. 532, p. 79-90, jul. 2011.
LOPES, M. Métodos de Detecção de Planetas Extrasolares. Disponível em: <http://www.astropt.org/2013/11/20/metodos-de-deteccao-de-planetas-extrasolares/>. Acesso em 4 de mar. 2017.
Planetas geologicamente ativos:
SANCEVERO, S. Vênus é um planeta geologicamente ativo?. Disponível em: <http://www.astropt.org/2016/11/30/venus-e-um-planeta-geologicamente-ativo/>. Acesso em: 4 de mar. 2017.
Planetas em TRAPPIST-1:
BARSTOW, J. K.; IRWIN, P. G .J. Habitable worlds with JWST: transit spectroscopy of the TRAPPIST-1 system?. Monthly Notices of the Royal Astronomy Society, Oxford, v. 461, n. 1, p. 92-96, mai. 2016.
Fósseis mais antigos já encontrados:
DODD, M. S. et al. Evidence for early life in Earth’s oldest hydrothermal vent precipitates. Nature, Londres, v. 543, p. 60-64, jan. 2017.

A História de Franz Nopcsa: o Barão paleontólogo que foi o pai da Paleobiologia

Olá a todos! Após um breve periodo sem postagens finalmente volto com uma grande contribuição de meu estimado colega Giovanne Mendes Cidade. Em seu texto ele apresenta um pouco sobre a história de um renomado e famoso paleontologo,  Franz Nopcsa! Com sua escrita leve e divertida, o Giovanne nos mostra um pouco sobre quais foram as contribuições e dilemas deste paleontologo pioneiro.
Sem mais delongas, vamos ao texto:


Um homem excêntrico, de personalidade difícil. Homossexual, não fazia questão nenhuma de esconder sua sexualidade.
Hoje em dia, esta descrição se encaixa em praticamente todo o paleontólogo que você poderá conhecer um dia. No entanto, entre o fim do século XIX e o começo do século XX, esta descrição, muito provavelmente, levaria qualquer pessoa a pensar em um único nome: o do Barão Franz Nopcsa von Felső-Szilvás – que ficaria mais conhecido no meio científico e paleontológico simplesmente como Franz Nopcsa ou Barão Nopcsa.
E as razões pelas quais ele ficaria conhecido no mundo científico e paleontológico não foram poucas: considerado o pai da chamada Paleobiologia (que, neste sentido, pode ser definida como um ramo da Paleontologia que se dedica a inferir como os animais eram, quando vivos, a partir de seus restos fossilizados, seja em termos de anatomia de tecidos moles, comportamento, fisiologia, entre outros). Portanto, na prática, Franz Nopcsa foi um dos primeiros paleontólogos que tentou “colocar carne nos ossos fossilizados” numa época em que a maioria de seus colegas se preocupava apenas em “reunir” ossos fossilizados e simplesmente lhes dar nomes bonitinhos em latim.

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Figura 1: Franz Nopcsa (1877-1933).

Origens
Nascido de uma família de etnia húngara em 3 de maio de 1877 nas cercanias da vila de Szacsal, na Transilvânia (então parte do chamado Império Austro-Húngaro, ou Áustria-Hungria, mas que hoje faz parte da Romênia), a trajetória de Franz Nopcsa pela paleontologia começaria em 1895, quando a sua irmã, Ilona, descobriu alguns “ossos petrificados” perto da propriedade da família. Ela levou esses materiais ao seu irmão, que se interessou por eles e terminou por levá-los, que no mesmo ano os mostrou a um professor de geologia da Universidade de Viena chamado Eduard Seuss, que os identificou como restos de dinossauros e propôs a Nopcsa que os estudasse, além de incentivá-lo a fazer mais escavações na área em que eles haviam sido encontrados.
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Figura 2: O castelo da família Nopcsa em Szacsal (então Áustria-Hungria, hoje Romênia).

 
De acordo com um artigo de um blog da Scientific American [1], quando Nopcsa perguntou a Seuss por conselhos e literatura sobre osteologia de dinossauros, o professor teria simplesmente respondido “ – Estude-os!” – o que nos dá uma indicação de que as relações entre orientadores e alunos não mudaram substancialmente nos últimos 120 anos.
Apesar de tudo, a descoberta desses fósseis de dinossauros incentivou Nopcsa a se matricular em um curso de geologia na Universidade de Viena em 1897. Ele progrediu em seus estudos rapidamente, apresentando em apenas dois anos a primeira parte de uma planejada série monográfica de 5 volumes sobre os “Dinossauros da Transilvânia”. Embora ele tivesse progredido rapidamente em seus estudos e muitos reconhecessem o seu brilhantismo, Nopcsa também era apontado por muitos como um sujeito um tanto arrogante e dotado de uma personalidade difícil, com quem por vezes se era difícil de conviver.
Nopcsa concluiu seus estudos em 1903 e a partir daí, aproveitando-se da grande riqueza de sua família, que fazia com que ele não precisasse ter um emprego fixo (praticamente a melhor agência de fomento que um pesquisador poderia ter), ele se dedicou quase exclusivamente às suas pesquisas paleontológicas. Suas pesquisas envolveram principalmente uma série de répteis do Mesozoico (de dinossauros a serpentes, envolvendo também crocodilos, pterossauros e tartarugas, entre outros) e aos seus estudos sócio-antropológicos sobre o povo, a cultura, a sociedade e a linguagem da Albânia – um pequeno país da região dos Balcãs, no sudeste da Europa – até 1914: quando começou a Primeira Guerra Mundial. O Império Austro-Húngaro se envolveu na guerra e Nopcsa chegou a atuar como um espião para o seu país, além de arregimentar um grupo de voluntários albaneses para lutar ao lado da Áustria-Hungria.
Paleontologia
O trabalho de Nopcsa abordou vários grupos de vertebrados fósseis sob as variadas perspectivas. Neste artigo, no entanto, se abordará principalmente as contribuições que ele deu através de uma abordagem paleobiológica – ou seja, aquelas em que ele manifestou uma preocupação em utilizar as informações contidas nos fósseis para tentar inferir a anatomia dos tecidos moles, a fisiologia, o comportamento, a ecologia ou as razões para as extinções dos diferentes grupos de vertebrados que ele estudou.
Começando com os dinossauros, grupo com o qual Nopcsa trabalhou mais extensivamente (mais de 40 dos seus 101 artigos científicos em paleontologia são sobre dinossauros [2]), o autor não só descreveu várias espécies novas como trabalhou extensivamente com os Ornitischia (um grupo de dinossauros majoritariamente quadrúpedes e herbívoros cujo arranjo dos ossos cintura lembra o de uma ave). Em 1915, ele defendeu que os ornitísquios que possuíam extensas armaduras ósseas junto à parte externa do corpo, incluindo os famosos Stegosaurus e Ankylosaurus, deveriam ser agrupados em um mesmo grupo, ao qual ele denominou Thyreophora. A ideia dos Thyreophora como um grupo não recebeu muito suporte à época de Nopcsa, mas acabou se tornando aceita entre os paleontólogos a partir de 1970 até hoje, quando Thyreophora passou a ser o nome de um clado (veja o artigo de Thompson et al., 2011 [3]).
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Figura 3: Fósseis de Telmatosaurus transsylvanicus, um dinossauro ornitísquio descrito por Nopcsa em 1899: uma mandíbula esquerda (acima) e algumas vértebras (abaixo).

Nopcsa também foi um dos primeiros a tentar pesquisar sobre como a musculatura e o sistema nervoso dos dinossauros poderia ter sido através de análises dos restos fósseis. Além disso, ele também procurou compreender o comportamento e a ecologia do grupo, sendo um dos primeiros a cogitar, por exemplo, que dinossauros adultos exibiam uma espécie de hierarquia social e cuidado parental; esta última ideia, em particular, só ganharia suporte muito tempo depois – particularmente em 1979, quando da descoberta do famoso dinossauro ornitísquio Maiasaura peeblesorum, cujos fósseis encontrados – que incluíam ninhos contendo ovos com embriões e animais jovens – indicavam, também por evidências histológicas, que esta espécie efetivamente exibia um comportamento de cuidado parental.
E, assim como quase todo mundo, Nopcsa também dedicou um bom tempo e energia para falar de sexo. Particularmente, sexo em dinossauros. Ele foi um dos primeiros a propor que dinossauros poderiam ter estruturas e comportamentos de display sexual (ou seja, uma estrutura utilizada por indivíduos de um dos sexos, mais frequentemente o macho, para atrair indivíduos do sexo oposto). Em um trabalho de 1905, ele chegou a argumentar que um osso previamente identificado como uma clavícula era na verdade uma espécie de osso peniano, que comprovaria a existência de pênis nos dinossauros saurópodes. Esta ideia, no entanto, foi rejeitada por praticamente todos os seus contemporâneos e o continua sendo até hoje, já que, por exemplo, répteis atuais não apresentam ossos penianos, embora crocodilianos atuais possuam pênis que contém cartilagem.
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Figura 4: Uma reconstrução feita por Nopcsa do dinossauro ornitísquio Struthiosaurus (1915).

Porém, outra sugestão de Nopcsa sobre sexo em dinossauros acabou gerando desdobramentos mais interessantes: em uma série de trabalhos a partir de 1915, ele passou a argumentar que algumas diferenças morfológicas presentes em dinossauros, especialmente em ornitísquios do grupo dos Hadrosauridae (os chamados dinossauros de “bico de pato”) eram na verdade caracteres sexuais secundários, e que poderiam ser usados para diferenciar machos de fêmeas. Entre estes caracteres, estavam o formato do crânio, a morfologia das vértebras e o tamanho relativo dos ossos dos membros. Embora muitas dessas observações de Nopcsa sobre caracteres sexuais secundários se revelariam posteriormente incorretas [vejam detalhes em 4], a ideia de que diferenças morfológicas observáveis poderiam ser caracteres sexuais secundários se tornou recorrente nas pesquisas paleontológicas, não só de hadrossaurídeos como de praticamente todos os grupos de vertebrados fósseis em que a existência de sexos diferentes pode ser presumida.
Nopcsa também fez algumas propostas sobre como teria sido a evolução das aves a partir de dinossauros não-avianos. Embora esta ideia não fosse nem um pouco nova – já tendo sido defendida por Thomas Huxley no século XIX –, Nopcsa inovou em propor que as aves teriam surgido de dinossauros que se moviam com as pernas sobre o solo, “correndo”, e que eventualmente, com a evolução das penas, estes animais teriam adquirido a capacidade de voar. Esta teoria contrastava com a teoria predominante até então, que dizia que as aves teriam surgido a partir de dinossauros que habitavam as copas ou as regiões mais altas das árvores, tendo evoluído sua capacidade de voo a partir de uma primordial capacidade de planar, adquirida ao “saltar” dessas regiões mais altas de árvores. A teoria defendida por Nopcsa, chamada às vezes de “ground-up” (“do chão para cima”) também não foi muito defendida ou discutida em sua época, ganhando um pouco de atenção apenas na década de 1960.
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Figura 5: Um desenho feito por Nopcsa de fósseis do lagarto Bavariasaurus dentro da barriga do dinossauro terópode Compsognathus (1903), ambos do Jurássico da Alemanha.

No entanto, descobertas recentes de dinossauros penosos, principalmente na China, têm não só evidenciado a proximidade entre dinossauros a aves (hoje já praticamente consenso na paleontologia de vertebrados) como também têm reforçado a hipótese de que os primeiros dinossauros voadores, que dão origem às aves, eram na verdade habitantes dos altos das árvores ao invés de animais de solo, indo contra a teoria de Nopcsa. Apesar disso, como nota o paleontólogo David Weishampel em [5] “Nopcsa estava fazendo boas perguntas, até mesmo quando ele não conseguia as respostas corretas”, fazendo um tributo à sua curiosidade intelectual.
Ao estudar fósseis de dinossauros vindos de depósitos do Cretáceo Superior de uma região chamada Haţeg, numa área hoje localizada na Romênia, Nopcsa percebeu que, no que dizia respeito aos fósseis encontrados naquela região, “enquanto as tartarugas, crocodilianos e animais similares do Cretáceo Superior atingiam o seu tamanho normal, os dinossauros quase sempre eram de um tamanho menor” se comparados com indivíduos de grupos semelhantes provenientes de outras localidades. Eventualmente, com base nesta e em outras observações, Nopcsa concluiu que a região estudada teria sido uma ilha durante o Cretáceo, enquanto o tamanho menor dos dinossauros representaria um caso do hoje conhecido fenômeno denominado “Nanismo Insular”. Neste, restrições ambientais presentes nas ilhas (como alimento e espaço) fazem com que animais de pequeno porte sejam favorecidos em detrimento de espécies e/ou indivíduos de maior tamanho, o que pode fazer com que animais originalmente grandes terminem por diminuir de tamanho ao longo de sua história evolutiva.
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Figura 6: À esquerda, outro exemplo de nanismo insular ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980 do século passado.

Esta ideia de Nopcsa para os dinossauros da região de Haţeg (e também a ideia de que a região era uma ilha) seria reforçada por muitos estudos posteriores, incluindo um estudo muito recente de Benton e colaboradores (2010) [6] que contou até com análises histológicas e concluiu que os indivíduos de dinossauros encontrados na região eram realmente adultos de pequeno tamanho, e não simplesmente animais juvenis.
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Figura 7: Um mapa mostrando onde seria a ilha de Haţeg (indicada com o ponto vermelho) na região da atual Europa no Cretáceo Superior. Imagem retirada de [7].
Outros grupos e outros ramos da ciência
Nopcsa foi um dos primeiros a propor que os pterossauros (conhecido grupo de répteis voadores do Mesozoico) teriam “sangue quente” – isto é, seriam capazes de manter uma temperatura corporal constante e alta, ao invés de possuírem uma temperatura corporal que oscilaria junto com o ambiente. Também esta ideia de Nopcsa, como tantas outras, estava muito à frente de seu tempo: segundo [5], a ideia de que os pterossauros (e também os dinossauros) seriam homeotérmicos não seria consideradamente de maneira séria de novo até a década de 1970.
Com relação aos crocodilomorfos, Nopcsa se destacou por propor que um táxon do Cretáceo Superior do Egito que possui um rostro em formato de “bico de pato”, Stomatosuchus inermis, possuiria uma espécie de “saco gular” no palato inferior, com o qual formaria um tipo de “rede de pesca” para capturar as presas. Esta estrutura (e o comportamento associado com ela), que sem dúvida diferem bastante do que se observa na grande maioria dos crocodilomorfos extintos ou atuais, seria aproveitada por outros pesquisadores para outro grupo de crocodilomorfos do Mioceno da América do Sul, Mourasuchus, o qual é bem distante filogeneticamente de Stomatosuchus, mas desenvolveu uma morfologia bastante parecida com aquele táxon de forma convergente (ou, como também se disse no jargão filogenético, homoplásica).
Além disso, Nopcsa também foi um dos primeiros paleontólogos a se propor a utilizar histologia como ferramenta de análise sobre a fisiologia, a taxonomia e a ontogenia de táxons fósseis, em um tempo onde a obtenção de cortes histológicos certamente era mais difícil do que hoje.
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Figura 8: Trecho de uma carta ao paleontólogo Friedrich von Huene, de 1925, em que Nopcsa desenha e aponta para diferenças nas estruturas histológicas de dois sinápsidos basais do grupo dos Sphenacodontia: Palaeohatteria (esquerda) e Pantelosaurus (direita).

Franz Nopcsa também se interessou pela ciência com a qual a paleontologia sempre se imiscui: a geologia. Nopcsa publicou 35 trabalhos nessa área, mostrando um especial interesse pela tectônica de placas, sendo um dos primeiros cientistas a apoiar a Teoria da Deriva Continental proposta por Alfred Wegener.
Albânia
O outro grande interesse de Franz Nopcsa, além da Paleontologia, foi absolutamente tudo o que envolvia a Albânia – um pequeno país dos Balcãs, na costa leste do Mar Adriático, não muito longe da terra Natal de Nopcsa. O excêntrico Barão percorreu grandes áreas do país entrevistando pessoas e tirando fotografias (uma tecnologia ainda relativamente nova na época) coletando informações que o levaram a escrever muitos volumes sobre a Albânia, seu país e seu povo – muitos dos quais, no entanto, não chegou a ser publicados enquanto ele vivia. Uma coleção das fotos tiradas por Nopcsa nas suas viagens à Albânia pode ser vista em [8].
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Figura 9: Franz Nopcsa enquanto jovem, vestido como um “guerreiro albanês”.

Outra ligação forte entre Nopcsa e a Albânia se deve ao fato de que o seu secretário, melhor amigo – e, segundo todas as fontes, namorado –, o geólogo Bajazid Elmaz Doda, era albanês. Doda e Nopcsa viveram juntos por mais de 20 anos, realizando também várias viagens por toda a Albânia juntos. Nopcsa até chegou a nomear, em homenagem a Doda, uma tartaruga fóssil que ele descreveu do Cretáceo Superior da Romênia: Kallokibotion bajazidi. Foi uma homenagem, com certeza, mas podemos ficar nos perguntando se homenagear o parceiro com uma tartaruga não seria uma espécie de indireta depois de uma DR particularmente difícil.
Seu fascínio pela Albânia era tanto que, quando o país se tornou independente do Império Otomano em 1913, Nopcsa se prontificou a ser um dos candidatos a se tornar o rei do novo país, que seria definido em um Congresso na cidade de Trieste naquele mesmo ano. Nopcsa, no entanto, acabou por desistir de sua candidatura, e um dos fatores mais elencados como motivo de sua desistência foi o fato de ele não só ser um homossexual, como o de não fazer absolutamente nenhuma questão de esconder isso. Na época, muitas pessoas viram isso de maneira negativa, muito embora Nopcsa tenha chegado a declarar que, se ele conseguisse se tornar rei, poderia fazer o sacrifício de se casar com uma mulher rica que aceitasse pagar uma boa soma em dinheiro para se tornar uma rainha. Este dinheiro, então, seria usado para a construção de obras de infra-estrutura que a Albânia tanto precisava, como estradas e hospitais.
No entanto, Nopcsa acabou por desistir mesmo de se tornar rei e nada disso se tornou uma realidade. O que é uma pena, porque a Albânia poderia ter se tornado o único país do mundo em que o orçamento para pesquisas em Paleontologia seria praticamente infinito.
 
Últimos anos, Morte e Legado
Depois que o Império Austro-Húngaro foi derrotado na Primeira Guerra Mundial, em 1918, a área onde ficavam as propriedades de Nopcsa foram transferidas à Romênia, que fez com que todos os nobres de origem austro-húngara perdessem suas terras. Isso forçou o nobre Nopcsa a, pela primeira na vida, procurar um emprego assalariado – e ele acabou arranjando um no Instituto Geológico Húngaro, no recém-criado país independente da Hungria, em 1925.
No entanto, a nova vida de trabalhador assalariado aparentemente não se encaixou bem para Nopcsa. De acordo com as publicações sobre sua vida, Nopcsa distraía-se muito em seu trabalho e eventualmente pediu demissão em 1929. Desempregado, ficou com depressão e acumulou dívidas a ponto de ter que vender sua coleção de fósseis para o Museu de História Natural de Londres e, depois, vendeu também vários livros que possuía. O quadro depressivo foi se acumulando até que, no dia 25 de abril de 1933, Franz Nopcsa cometeu suicídio em seu apartamento em Viena, na Áustria. Antes, porém, ele também assassinou com um tiro seu secretário, amigo e namorado de longa data Bajazid Doda. Em uma carta de suicídio, Nopcsa declarou que a razão de ter matado Doda foi porque ele não queria, ao suicidar-se, abandonar seu companheiro “doente, na miséria e sem um centavo, porque ele acabaria sofrendo muito”, quase como dizendo que matar alguém, às vezes, é apenas uma maneira um pouco peculiar de dizer “eu te amo”.
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Figura 10: Bajazid Elmaz Doda (esquerda) e Franz Nopcsa.

Mas hoje, mais de 80 anos depois de sua morte, o legado de Franz Nopcsa – o pai da Paleobiologia – como paleontólogo (e albanologista) continua vivo – embora não muito frequentemente lembrado – como um dos mais polivalentes, criativos, ousados e dinâmicos cientistas da nossa área.
Referências
[1] Baron Nopcsa: More than just Transylvanian dinosaurs
https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/
[2] Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745
[3] Richard S. Thompson, Jolyon C. Parish, Susannah C. R. Maidment and Paul M. Barrett (2011). “Phylogeny of the ankylosaurian dinosaurs (Ornithischia: Thyreophora)”. Journal of Systematic Palaeontology10 (2): 301–312. doi:10.1080/14772019.2011.569091.
[4] Weishampel, D.B & Wolf-Ernst Reif, W-E. 1984. The Work of Franz Baron Nopcsa (1877-1933): Dinosaurs, Evolution and Theoretical TectonicsJahrbuch der Geologischen Bundesanstalt 127(2):187-203.
[5] Nopcsa, Baron Franz
http://www.glbtqarchive.com/ssh/nopcsa_bf_S.pdf
[6] Benton, M.J., Csiki, Z., Grigorescu, D., Redelstorff, R., Sander, P.M., Stein, K., and Weishampel, D.B. (2010).Dinosaurs and the island rule: The dwarfed dinosaurs from Haţeg Island. Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, 293(3-4): 438–454.
http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0031018210000386
[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island
[8] The Photo Collection of Franz Nopcsa
http://www.albanianphotography.net/nopcsa/
 
Leituras Complementares:
Baron, Scientist, Swashbuckler, Spy: The Colorful Life and Tragic Death of Franz Nopcsa
https://chasmosaurs.blogspot.com.br/2016/04/baron-scientist-swashbuckler-spy.html
History Forgot This Rogue Aristocrat Who Discovered Dinosaurs and Died Penniless

http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/
 
Fontes das Figuras:
[1]: http://www.albanianhistory.net/1907_Nopcsa1/index.html
[2]: Weishampel, D.B & Kerscher, O. 2013. Franz Baron Nopcsa, Historical Biology: An International. Journal of Paleobiology 25:4, 391-544, DOI: 10.1080/08912963.2012.689745
[3, Figura de cima], [4], [9], [11]: http://www.smithsonianmag.com/history/history-forgot-rogue-aristocrat-discovered-dinosaurs-died-penniless-180959504/
[3, Figura de baixo]: https://en.wikipedia.org/wiki/Telmatosaurus#/media/File:Telmatosaurus_transsylvanicus_vertebrae.JPG
[4]  Nopsca, F. (1915). “Die Dinosaurier der siebenburgischen Landesteile Ungarns”. Mit. a. d. Jahrb. d. kgl. ungar. Geolog. Reichsanst.
https://archive.org/stream/cbarchive_109076_nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873/nopcsaf1915diedinosaurierdersi1873#page/n13/mode/
[5]: https://diogenesii.wordpress.com/tag/paleobiology/
[6]: http://seriesedesenhos.com/index.php/series-antigasda-tv/item/672-a-ilha-da-fantasia-1977
[7] http://planetdinosaur.wikia.com/wiki/Ha%C8%9Beg_Island
[8] https://blogs.scientificamerican.com/history-of-geology/baron-nopcsa-more-than-just-transylvanian-dinosaurs/


16735619_1201225939972881_1202071666_oGiovanne Mendes Cidade, Bacharel em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. Estuda principalmente crocodilianos fósseis, com ênfase em sistemática, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Também tem interesses diletantes em história da Paleontologia e em filosofia da Ciência como um todo, e da Biologia em particular, além de Evolução. 

 

TERMOS CIENTÍFICOS (FILOSAFANDO #1)

Olá a todos! Sei muito bem que o Colecionadores de Ossos é um blog de divulgação sobre paleontologia, no entanto, justamente por isso ele é um blog cientifico. Muitas vezes para se entender informações científicas, mesmo em mídias de divulgação isso demanda certo conjunto específico de conhecimentos que associamos a ciência, como por exemplo, anatomia e filosofia. Portanto, venho por meio desta apresentar uma nova sequência de textos que irá tratar de assuntos direta e indiretamente relacionados à Filosofia da Ciência, que carinhosamente apelidei de Filosofando. O intuito dessa série é divulgar, facilitar e ampliar o entendimento em filosofia por parte daqueles interessados em ciências em geral. Recomendarei leituras do tipo para aqueles que veem a filosofia como algo “inútil” ou não vinculado a ciência e, assim espero, conseguir mudar essa visão ou pelo menos fazê-los repensar sobre o assunto.
Como primeira postagem, trago um tema básico que são os termos científicos. Aqui trarei algumas definições de termos que provavelmente vocês já ouviram no dia a dia ou leram em textos tanto de divulgação quanto em artigos científicos. No entanto, como esses mesmos termos possuem inúmeras definições, trarei aqui aquelas que considero como as melhores e que, portanto, serão a base que usarei nas próximas postagens. Convido todos que usam, conhecem ou preferiram outras definições a deixar um comentário para que discutamos sobre o assunto!
A comunicação que está ocorrendo entre minhas palavras escritas nesse texto e sua interpretação como leitor só são possíveis devido à semântica intrínseca de cada palavra aqui usada e dos significados destas retidas em seu cérebro. Sendo assim, o entendimento semântico dos termos usados em qualquer campo cientifico, e obviamente a paleontologia não se difere nisso, deve ser buscado por todos aqueles que praticam ciência. Por isso, existem severas discussões acerca de todos os termos usados buscando sempre haver uma uniformização de suas definições e aplicações para que haja uma otimização na transmissão das ideias produzidas. Quem nunca teve problema com um familiar ou amigo por usar uma palavra que foi interpretada por ele em um sentido diferente da que você usou? Na ciência também temos problemas deste tipo e justamente por isso tais discussões acerca da semântica das palavras é tão relevante. Além disso, o ato de citar autores prévios que forneceram a definição que você esta aplicando é um habito cientifico que seria muito bem aceita em nossa vida cotidiana, pois dessa forma, mesmo que o ouvinte tenha um conhecimento de definição diferente da mesma palavra ele estará contextualizado do sentido que você impôs ao usar tal termo.
Então vamos comparar aqui duas situações: 1) a calçada está molhada as 16:34; e, 2) Fulana é mão de vaca. Em geral, nos referimos a ambas as frases como fatos. No entanto, se valendo das definições do que significa “fato”, apenas a situação 1 pode ser considerada como tal. Para Mahner & Bunge (1997) fato é tanto a existência de algo em determinado estado quanto um evento que ocorreu em uma coisa, sendo, portanto, fato algo que podemos considerar como real/existente independente de nossa interação com ele – ou seja, ele não é uma alucinação e, portanto pode ser percebido pelos sentidos de outras pessoas. Nesse contexto, retomo a situação 1, qualquer pessoa que ver a calçada X as 16:34 perceberá que a mesma se encontra molhada, sendo portanto um fato. Uma propriedade interessante dos fatos é que eles não são passíveis de serem tratados como verdadeiros ou falsos, eles apenas são o que são. Todavia, na situação 2, a frase não é um fato, pois esta foi construída para explicar um fato ou conjunto de fatos que é ou foram a observação da Fulana se negando a pagar determinado valor em um produto. Ou seja, ver Fulana agindo de tal forma com relação a seu dinheiro é um fato perceptível a todos, no entanto, nomear Fulana como mão de vaca é atribuir uma explicação causal ao fato de Fulana ter agido de tal maneira. Sendo assim, a situação 2 na verdade é uma hipótese baseada no fato descrito acima. Mas então qual seria a definição de uma hipótese? Hipóteses são explicações de algum fato ou conjunto de fatos, dando a nós pelo menos um entendimento inicial daquilo que nós percebemos (Fitzhugh, 2008). Portanto, podemos considerar hipóteses como sendo espaço temporalmente restrito. Além disso, diferente dos fatos, as hipóteses são passíveis de falsificação diante de procedimentos conhecidos como testes (que aprenderemos mais em uma eventual postagem futura)! Em suma, diante do fato expresso na situação 1, posso propor uma hipótese explanatória, com caráter causal, que seria “antes das 16:34 choveu nessa região”. Ou seja, diante do fato uma hipótese foi proposta e que por meio desta adquiri certo conhecimento inicial do fato exposto na situação1.
Mas agora, por exemplo, se você leitor disser que tem uma opinião diferente da minha acerca da situação 1, cientificamente falando o que isto implicaria? O resultado dessa divergência de opiniões e bastante severa visto que isso indicaria que você leitor considera um determinado conjunto de hipóteses e teorias diferentes das minhas como verdadeiras. Sendo assim, podemos definir opinião como o ato de aceitar como verdadeiro determinado conjunto de hipóteses e teorias (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, opiniões diferentes implicam na aceitação de hipóteses/teorias diferentes como verdadeiras. Voltando ao exemplo da situação 1, na minha opinião a hipótese “chuva” é verdadeira para o fato “calçada molhada”, no entanto, para você leitor a hipótese “Maria lavou a rua” é a verdadeira. Cientificamente falando, a opinião que for embasada em hipóteses que tiverem as melhores evidências deverá prevalecer a menos que novas evidências surjam. Mas afinal o que são evidências? Segundo Fetzer & Almeder (1993) evidência seria aquilo que demonstra que algo seja o caso, ou seja, observações, experimentos ou construções linguísticas na forma de premissas que suportam determinada hipótese. Sendo assim, toda opinião fundamentada por evidências (opinião justificada) forma aquilo que chamamos de Conhecimento (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, como só somos capazes de adquirir conhecimento a partir do momento que fundamentamos nossas opiniões com evidências, sendo assim, a opinião sempre precede o conhecimento (Williamson, 2000).
Quando nos baseamos em informações prévias adquiridas em nosso tempo de vida para propor uma hipótese para explicar a situação 1 ou mesmo para propor a situação 2, nós nos baseamos no conhecimento prévio, que são todas as opiniões aceitas como verdade em relação a condução de uma observação ou experimento (Fetzer & Almeder, 1993). Portanto, todas as teorias, leis e outras hipóteses de conhecimentos, juntamente com nossas vivências (coisas não diretamente relacionadas com o que tradicionalmente chamamos de ciência) compõem nosso conhecimento prévio. Por isso que, quando paleontólogos dizem que “um bom paleontólogo é aquele que viu mais ossos”, essa argumentação e bem fundamentada visto que quanto mais materiais vistos por ele maior será seu conhecimento prévio e, portanto mais evidências ele terá para sustentar suas opiniões.
Bom, mas vamos retomar a discussão sobre evidências. Tradicionalmente podemos reconhecer dois tipos distintos de evidência que possuem funções e são usadas em momentos e situações completamente distintas. O primeiro tipo seriam as evidências usadas para sugerir uma hipótese (Fitzhugh, 2006), por exemplo, na situação dois usamos os fatos da Fulana se negar a gastar dinheiro em diversas situações e a teoria ou concepção geral que temos acerca de “mão de vaca” e com base nisso propusemos a hipótese presente na situação 2. Nesse contexto, tanto os fatos quanto a teoria são evidências. O segundo tipo de evidências, também conhecidas como evidências de teste, são usadas como base para julgar a veracidade de uma hipótese (Fitzhugh, 2006; obs: veremos mais sobre elas na postagem sobre testes). Portanto, na situação2, todas outras evidências que não sejam do primeiro tipo, mas que podem ser usadas para julgar a veracidade da hipótese pertencerá a esse segundo tipo.
Por fim, me resta distinguir dois termos corriqueiramente usados no dia a dia e na ciência que são teoria e lei. Leis são sumarizações de fatos ou eventos que apresentem certa periodicidade ou tendência, portanto ainda falando da situação 2, podemos propor uma Lei para Fulana visto que sempre que possível ela age de forma a gastar a menor quantidade de dinheiro possível. Já as teorias são conceitos explanatórios que buscam estabelecer relações de causa-efeito, que podemos usar junto as nossas percepções para adquirir entendimento (conhecimento) acerca de determinados fatos. De tal forma, teorias são espacial e temporalmente irrestritas, inclusive permitindo graus de inferências. Portanto, Leis e Teorias não são as mesmas coisas e muito menos possuem funções parecidas, enquanto leis buscam descrever padrões as teorias buscam explicações para tais. Por exemplo, podemos propor a lei “quando a água entra em contato com objetos eles se molham”, na situação 1 essa lei faz parte do nosso conhecimento prévio e é uma evidência a ser usada para propor uma hipótese explanatória. Além disso, temos a teoria de que certos eventos meteorológicos possibilitam a precipitação de água dos céus (i.e., chuva). Sendo assim, unindo esses conhecimentos prévios de que a calçada esta molhada (situação 1), de que para estar molhado o objeto entrou em contato com água (lei) e que a água pode ter vindo do céu (teoria), podemos propor a hipótese de que em determinada hora choveu na região da calçada X. Uma conclusão bastante importante é que nesse contexto de definições uma hipótese nasce como uma hipótese e morrerá como uma hipótese, assim como as teorias nascem e morrem como tal, sendo, portanto, impossível que uma hipótese se torne uma teoria (discutirei mais sobre isso em uma postagem futura).
Bom pessoal era isso! Espero que tenham gostado do texto e que achem tal tipo de postagem interessante e pertinente ao blog. Sempre que possível darei continuidade a essa série! Obrigado a todos.
 
Referências:
Fetzer, J. H. & Almeder, R. F. 1993. Glossary of Epistemology/ Philosophy of Science
Fitzhugh, K. 2006. The abduction of phylogenetic hypotheses. Zootaxa, 1145: 1-110.
Fitzhugh, 2008. Fact, theory, test and evolution. Zoologica Scripta, 37, 109–113.
Mahner, M. & Bunge, M. (1997). Foundations of Biophilosophy. New York: Springer-Verlag.
Williamson, T. 2000. Knowledge and its limits.
 
Sites recomendados para consultas de termos filosóficos:
Stanford Encyclopedia of Philosophy = http://plato.stanford.edu/entries/lawphil-nature/
Internet Encyclopedia of Philosphy = http://www.iep.utm.edu/

Tetrapodophis amplectus e a história sem fim da “cobra” de quatro patas: uma perspectiva interna.

Em 2015, um fóssil proveniente do Brasil veio à tona com uma publicação feita por Martill e colaboradores. A repercussão dessa publicação foi imensa por vários motivos, como por exemplo, o fato de se tratar de um espécime muito bem preservado de uma suposta cobra de quatro patas. No entanto, nem tudo foram flores, críticas acerca da procedência duvidosa do material e até mesmo da sua designação como uma serpente foram levantadas. Para sabermos um pouco mais sobre o assunto e a importância das discussões levantadas convidamos o Doutorando Tiago Rodrigues Simões, especialista no estudo da origem e evolução de Squamata (lagartos e cobras), para escrever o esclarecedor texto abaixo.

Obs: Agradeço ao colega João Francisco Botelho pela sugestão do tema, que me motivou a convidar o Tiago para redigir tal texto.

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 (TEXTO POR TIAGO SIMÕES)   

Tetrapodophis amplectus e a história sem fim da “cobra” de quatro patas: uma perspectiva interna

Fósseis espetaculares costumam chamar a atenção da comunidade científica e da mídia ao redor do mundo. Em parte pelo fascínio que a paleontologia como um todo (especialmente através dos dinossauros) causa em muitos, em parte pelas novas perspectivas que certos fósseis fornecem acerca da evolução dos seres vivos. Dentro desse último aspecto encontra-se um réptil fóssil denominado Tetrapodophis amplectus (Figura 1), da Formação Crato da Bacia do Araripe, que viveu a cerca de 115 milhões de anos atrás. A espécie, originalmente publicada como uma cobra de quatro patas (Martill, Tischlinger & Longrich, 2015) criou grande comoção na comunidade científica internacional no ano de 2015. Contudo, logo após a sua publicação, o estudo foi alvo de uma série de controversas envolvendo tanto a procedência do material, quanto a ciência por trás da descoberta. No relato abaixo, eu forneço um relato e as minhas perspectivas sobre o assunto do ponto de vista de um brasileiro, especialista em lagartos fósseis e diretamente envolvido na nova pesquisa sobre a Tetrapodophis.

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Figura 1: Espécime (holótipo) de Tetrapodophis amplectus. Créditos: Michael W. Caldwell

Problemas na caracterização anatômica e classificação

A posição ocupada pela Tetrapodophis na evolução do grupo que compreende as cobras e lagartos (Squamata, ou escamados) é sem dúvida o aspecto mais problemático na interpretação científica do fóssil. No último encontro da Society of Vertebrate Paleontology (SVP) em Salt Lake City, nos EUA, um time de colaboradores liderados por Michael Caldwell (University of Alberta, Canadá), e que também inclui Robert Reisz (University of Toronto, Canadá), Randall Nydam (Midwestern University, EUA), Alessandro Palci (Flinders University, Austrália), além de mim (afiliação abaixo), apresentou uma série de dados novos sobre a Tetrapodophis. Em resumo, aspectos da morfologia dentária (Figura 2), craniana e das vértebras indicam que o indivíduo se parece mais com um grupo extinto de lagartos aquáticos denominados dolicossaurídeos (proximamente relacionados aos mosassauros) do que com qualquer cobra vivente ou fóssil conhecida. Um dos aspectos mais relevantes dos novos dados obtidos é que a informação anatômica presente na descrição original do espécime ou está errada, ou é impossível de ser visualizada. Além disso, partes do material preservam impressões da morfologia do crânio (Figura 3) que foram simplesmente ignoradas no estudo original. É de se espantar que tal informação não tenha sido incluída no estudo original, já que tais impressões em baixo relevo do crânio fornecem informações valiosas sobre alguns ossos que são importantes para a classificação dessa espécie dentre os escamados (Squamata).

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Figura 2: Imagem dos dentes presentes no holótipo de Tetrapodophis amplectus . a) material original; b) representação esquemática, enumerando os dentes. Créditos: Michael W. Caldwell

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Figura 3: Imagens do crânio de Tetrapodophis amplectus . Principais ossos preservados, bem como as impressões de ossos completa ou parcialmente destruidos. Créditos: Michael W. Caldwell

O leitor pode se perguntar como que erros em tamanho volume podem ter sido cometidos em um estudo publicado num periódico de tamanho escalão como a Science? Pois bem, você não é o único. Diversos outros especialistas em escamados presentes na reunião anual da SVP ficaram igualmente espantados sobre a falta de cuidado na correta interpretação anatômica da Tetrapodophis. Alguns já desconfiavam de diversos erros ao comparar as fotos publicadas com a descrição escrita do material no artigo original, mas somente agora com os novos dados fornecidos pelo nosso time de colaboradores puderam confirmar tais suspeitas (veja relato do Dr. Jason Head, Cambridge University: http://news.nationalgeographic.com/2016/11/snakes-tetrapodophis-fossils-ethics-science/).

Uma outra pergunta que aqueles que não são especialistas em cobras e lagartos podem fazer (e extremamente relevante nessa discussão) é: como um animal alongado e de patas curtas não é uma cobra? O que ocorre é que diversas linhagens de lagartos adquiriram um corpo alongado seguido de redução dos membros durante a sua história evolutiva, incluindo as cobras, dolicossaurídeos, anfisbênias, dibamídeos, pigopodídeos, diversas grupos de anguídeos, scincídeos, entre outros. Dessa forma, a redução de membros e presença de um corpo alongado estão longe de ser um aspecto exclusivamente observado nas cobras. Para se reconhecer uma cobra como tal, deve-se analisar a morfologia das vértebras e, em especial, do crânio. Sendo assim, a combinação de dados que foram mal-interpretados ou ignorados certamente influenciou os resultados apresentados por Martill e co-autores, inclusive a análise filogenética realizada pelos mesmos.

Problemas na interpretação do hábito de vida

A interpretação inicial do fóssil como um animal fossorial foi um dos pontos que mais me chamou a atenção na descrição por parte de Martill e colaboradores. O indivíduo possui os ossos do pulso e do tornozelo pouco ou não ossificados. Apesar de essa característica poder ser indicativa de um estágio juvenil em répteis, especialmente no estágio embrionário ou recém-nascido, nenhum outro aspecto da morfologia do animal indica um estágio de desenvolvimento tão jovem. Uma outra hipótese, no entanto, explica de forma mais parcimoniosa esse baixo grau de ossificação: um hábito de vida aquático, conforme observado em inúmeras linhagens de répteis que adquiriram um hábito aquático em sua história evolutiva (ex: mosassauros, plesiossauros, talatossauros, entre outros). Além disso, a baixa ossificação dos ossos do pulso e tornozelo tornariam as patas da Tetrapodophis pouco úteis para atividades como escavar ou escalar. Outros argumentos também foram utilizados em um estudo mais recente para demonstrar empiricamente que a Tetrapodophis não possui o leque de adaptações que normalmente se observa em lagartos ou cobras fossoriais (Lee et al., 2016).

Problemas legais e éticos

O outro aspecto controverso sobre a Tetrapodophis, e que concerne de forma mais direta a paleontologia brasileira, é como esse material foi parar em uma coleção particular na Alemanha. A legislação brasileira proíbe, desde 1942, a venda de fósseis ou a sua retirada do país sem permissão legal. No entanto, toneladas de fósseis deixam o Brasil ilegalmente para serem vendidos no exterior, especialmente aqueles da bacia do Araripe (região de procedência da Tetrapodophis)—para mais detalhes sobre a legislação brasileira sobre os fósseis e o problema do contrabando de fósseis, veja Simões and Caldwell (2015). Os autores do trabalho relataram não saber sobre a exata época em que o fóssil saiu do Brasil (http://www.sciencemag.org/news/2015/07/four-legged-snake-fossil-stuns-scientists-and-ignites-controversy). Na realidade, depoimentos por parte do autor principal (Martill) sobre a saída do material do Brasil demonstram o quão preocupado com as normas éticas e legais o autor parecia estar no momento de sua publicação “pessoalmente, eu não dou a mínima para como e quando o fóssil saiu do Brasil” [tradução livre] (veja o relato de Martill no link anterior). Contudo, o fato do fóssil pertencer a uma coleção particular e devido ao longo histórico de tráfico de fósseis da região do Araripe criam uma situação muito suspeita acerca da procedência do material e as circunstâncias da sua saída do país. Isso levou a abertura de um processo criminal para se investigar a saída desse fóssil do Brasil (http://www.nature.com/news/four-legged-snake-fossil-sparks-legal-investigation-1.18116).

Um dos grandes problemas envolvendo coleções particulares e venda de fósseis é a perda de conhecimento sobre a biodiversidade pretérita devido a exemplares que terminam em gavetas de indivíduos particulares, ao invés de serem estudados por especialistas em museus e universidades. No caso da Tetrapodophis, o exemplar havia sido depositado em um museu na região de Solnhofen à época da publicação. Contudo, o material pertence a um colecionador particular e o dono detém os direitos de retirar o espécime do museu quando bem entender. Em algum momento entre o fim de 2015 e início de 2016, soubemos da notícia que o dono do material havia retirado o espécime do museu em Solnhofen e que, portanto, o holótipo e único espécime conhecido de Tetrapodophis não estava mais disponível para estudo. As observações do espécime feitas por Martill e co-autores, seguidas das realizadas por Caldwell e Reisz em uma visita ao museu logo após a publicação da espécie, poderão permanecer como as únicas existentes acerca desse material, talvez por muitos anos a frente. Nesse contexto, e ao meu entendimento, fica clara a resposta a pergunta: quem ganha com materiais científicos depositados em coleções particulares? Certamente, não é a ciência.

Referências para os artigos citados acima:

Lee MSY, Palci A, Jones MEH, Caldwell MW, Holmes JD, Reisz RR. 2016. Aquatic adaptations in the four limbs of the snake-like reptile Tetrapodophis from the Lower Cretaceous of Brazil. Cretaceous Research 66: 194-199.

Martill DM, Tischlinger H, Longrich NR. 2015. A four-legged snake from the Early Cretaceous of Gondwana. Science 349: 416-419.

Simões TR, Caldwell MW. 2015. Fósseis e legislação: breve comparação entre Brasil e Canadá. Ciência e Cultura 67: 50-53.

Dados sobre o autor:

12645264_10207058817362317_831737693683863186_nTiago Rodrigues Simões possui graduação e mestrado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente está concluindo o doutorado na University of Alberta (Edmonton, Canandá). A sua pesquisa consiste no estudo da origem e evolução de Squamata (lagartos e cobras), utilizando dados de espécies fósseis e viventes (https://www.researchgate.net/profile/Tiago_Simes2).