{"id":3541,"date":"2016-03-07T15:02:21","date_gmt":"2016-03-07T18:02:21","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/?p=3541"},"modified":"2016-03-07T15:02:21","modified_gmt":"2016-03-07T18:02:21","slug":"o-que-nos-dizem-as-rochas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2016\/03\/07\/o-que-nos-dizem-as-rochas\/","title":{"rendered":"O que nos dizem as rochas?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">Por Rafael Gomes de Souza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Como j\u00e1 dizia Raul Seixas \u201c<em>aprendi aprendi aprendi o segredo da vida&#8230; vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar<\/em>\u201d. Embora a terminologia mais acurada nesse contexto fosse rocha, esta frase nunca foi t\u00e3o verdadeira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mas afinal, o que \u00e9 uma rocha? E uma pedra?<br \/>\nBom, <strong>rochas <\/strong>seriam todos os produtos consolidados, resultante da uni\u00e3o natural de minerais. Como, por exemplo, rochas sedimentares que s\u00e3o formadas pelo ac\u00famulo de <strong>sedimentos <\/strong>(material s\u00f3lido desagregado origin\u00e1rio do intemperismo e com potencial a ser transportado e depositado) que por meio do processo diagen\u00e9tico s\u00e3o compactadas e modificadas se tornando produtos consolidados. J\u00e1 as <strong>pedras <\/strong>s\u00e3o, tamb\u00e9m, materiais minerais consolidados formados em conjunto com as rochas e que, em geral, apresenta valor comercial, como diamante e ouro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-1-copy.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3544\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3544\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-1-copy-620x136.jpg\" alt=\"Untitled-1 copy\" width=\"620\" height=\"136\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Imagem ilustrando, em ordem, uma rocha \u00edgnea, sedimentos de uma praia e uma pedra preciosa (diamante)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bom tendo esses conceitos mais ou menos fichados na mente, agora finalmente podemos nos perguntar: \u201c<em>Qual a sua rela\u00e7\u00e3o com a Paleontologia e o estudo da vida?<\/em>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A ci\u00eancia respons\u00e1vel por estudar as rochas desde sua origem at\u00e9 sua destrui\u00e7\u00e3o e todos os processos relacionados a isso \u00e9 conhecida como <strong>Geologia<\/strong>, enquanto que a ci\u00eancia respons\u00e1vel por estudar todos os vest\u00edgios org\u00e2nicos nelas preservadas \u00e9 conhecida como <strong>Paleontologia<\/strong>. Nesse contexto, fica evidente a interela\u00e7\u00e3o entre essas duas ci\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Nessa postagem irei me restringir apenas \u00e0 import\u00e2ncia que a geologia tem para todos os estudos paleontol\u00f3gicos. No entanto, que fique claro, como falei acima, a paleontologia tamb\u00e9m presta grandes servi\u00e7os para o entendimento da geologia como, por exemplo: o aux\u00edlio na data\u00e7\u00e3o de f\u00e1cies pela bioestratigr\u00e1fia; entendimento da forma\u00e7\u00e3o de paleosolos; estudo de rochas biologicamente depositadas ou alteradas; entre outros&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Talvez a \u00e1rea mais importante da paleontologia e que tenha uma maior depend\u00eancia do entendimento geol\u00f3gico seja a <strong>Tafonomia<\/strong>. A tafonomia foi inicialmente definida por Efremov (1940) como estudo das leis que governam a transi\u00e7\u00e3o dos restos org\u00e2nicos da biosfera para a litosfera. Ou seja, trocando em mi\u00fados, essa defini\u00e7\u00e3o nos mostra que sua principal preocupa\u00e7\u00e3o e entender os restos org\u00e2nicos que \u201csobreviveram\u201d a decomposi\u00e7\u00e3o e por meio de in\u00fameros processos. Ao fim destes processos tais materiais s\u00e3o transformados e preservados na forma de um material n\u00e3o mais org\u00e2nico e sim mineral, que pertence \u00e0 litosfera. Esses materiais s\u00e3o por n\u00f3s referidos como <strong>F\u00f3sseis<\/strong>. Na paleontologia definimos como f\u00f3ssil todo e qualquer restos e vest\u00edgios (por exemplo, ossos de animais, troncos, folhas, ovos&#8230;) ou evid\u00eancias de vida (por exemplo, pegadas, modifica\u00e7\u00f5es em substratos rochosos pret\u00e9ritos) do passado geol\u00f3gico com mais de 11.000 anos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A maioria esmagadora dos f\u00f3sseis encontra-se preservados em dep\u00f3sitos de rochas sedimentares, ou seja, bacias pret\u00e9ritas que apresentavam um potencial de ac\u00famulo de sedimentos por algum agente transportador como, por exemplo, rios, ventos, gravidade, ou v\u00e1rios fatores atuando em conjunto. Esses mesmos agentes transportadores tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis por acumular junto aos sedimentos restos org\u00e2nicos que ap\u00f3s a diageneses ser\u00e3o reconhecidos como f\u00f3sseis. Uma caracter\u00edstica bem interessante das rochas \u00e9 que elas guardam em si marcas de sua evolu\u00e7\u00e3o deposicional, ou seja, rochas sedimentares cujos sedimentos foram provenientes de rios apresentaram in\u00fameras caracter\u00edsticas em sua rocha que nos permitir\u00e1 reconhece-la como tal. A geologia nos equipa com a habilidade de reconhecer tais caracter\u00edsticas, como granulometria, composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, sucess\u00e3o de f\u00e1cies, elementos arquiteturais e entre outros. Com tais ferramentas conseguiremos oferecer uma explica\u00e7\u00e3o bem suportada quanto ao paleoambiente respons\u00e1vel pela deposi\u00e7\u00e3o de tal material sedimentar. Interpreta\u00e7\u00f5es paleoambientais s\u00e3o extremamente relevantes no entendimento da preserva\u00e7\u00e3o dos f\u00f3sseis e do ambiente onde tais animais viveram antes de sua morte.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-2.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3546\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3546\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-2.jpg\" alt=\"Untitled-2\" width=\"560\" height=\"934\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-2.jpg 560w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-2-180x300.jpg 180w\" sizes=\"(max-width: 560px) 100vw, 560px\" \/><\/a><br \/>\n<em>Imagem mostrando o ambiente de rios meandrantes de alta sinuosidade e suas \u201cmarcas\u201d deixadas pelos e em seus sedimentos depositados (Fonte: Ghazi &amp; Mountney, 2009)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No entanto, tais bacias n\u00e3o s\u00e3o formadas pelo acaso muito menos os sedimentos que a preencheram. A geologia tamb\u00e9m nos mostra o qu\u00e3o din\u00e2mico \u00e9 nosso planeta! Hoje sabemos que as placas tect\u00f4nicas est\u00e3o em constante movimenta\u00e7\u00e3o, devido \u00e0s for\u00e7as geot\u00e9rmicas de nosso planeta. Toda essa movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a principal respons\u00e1vel por elevar na forma de montanhas ou rebaixar na forma de bacias rochas depositadas na crosta terrestre. Al\u00e9m disso, a constante destrui\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o das placas tect\u00f4nicas em suas regi\u00f5es de falhas \u00e9 uma das principais raz\u00f5es de perda do nosso registro geol\u00f3gico. Pois todas as rochas depositadas sobre uma placa s\u00e3o com elas destru\u00eddas caso volte ao manto do planeta. Outro fator extremamente importante para a din\u00e2mica terrestre \u00e9 a energia solar respons\u00e1vel por regular a pluviometria e a orienta\u00e7\u00e3o\/for\u00e7a dos ventos. Estes s\u00e3o agentes fundamentais para os processos de intemperismo e transporte de sedimentos. Sendo assim, o entendimento de tais din\u00e2micas e o ciclo das rochas a ela atreladas nos possibilitam entender e explicar as modifica\u00e7\u00f5es que aconteceram na Terra ao longo dos anos. Dados muito importantes para entender a evolu\u00e7\u00e3o da vida no planeta.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-3.jpg\" rel=\"attachment wp-att-3545\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-3545\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-3.jpg\" alt=\"Untitled-3\" width=\"500\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-3.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2016\/03\/Untitled-3-300x212.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n<em>Imagem esquematizando o ciclo das rochas (fonte: <a href=\"http:\/\/cienciasdavidaedaterra25.blogspot.com.br\/2011\/09\/ciclo-das-rochas.html\">http:\/\/cienciasdavidaedaterra25.blogspot.com.br\/2011\/09\/ciclo-das-rochas.html<\/a>)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Portanto, respondendo a pergunta do t\u00edtulo desta postagem e dando mais significado ao trecho da m\u00fasica de Raul Seixas, o estudo das rochas (geologia) nos possibilita acessar de diversas formas os eventos que aconteceram no passado e ficaram preservados. Gra\u00e7as a esse entendimento somos capazes de: reconhecer e entender a forma\u00e7\u00e3o de um f\u00f3ssil; interpretar e compreender os paleoambientes respons\u00e1veis pela deposi\u00e7\u00e3o dos sedimentos hoje preservados na forma das rochas que estudamos; compreender a din\u00e2mica do planeta Terra expressa pelo tectonismo e o ciclo das rochas; e, tantos outros tipos de dados e informa\u00e7\u00f5es que abordaremos ao longo de outras postagens. De tal forma, o conjunto dessas informa\u00e7\u00f5es nos possibilita compreender onde, como e quando certos organismos viveram na Terra, quais os ambientes que eles ocuparam e como tais ambientes juntamente com a Terra se modificaram ao longo do tempo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aproveito para desejar um Feliz dia do Paleont\u00f3logo a todo que os s\u00e3o de fato e aqueles que o s\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Algumas bibliogr\u00e1ficas para os interessados em prosseguir seus estudos:<\/em><br \/>\nCARVALHO, I.S. (2009). Paleontologia. 3a Edi\u00e7\u00e3o, volumes 1, 2 e 3, Editora Interci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">HOLZ, M. &amp; Sim\u00f5es, M.G. (2002). Elementos fundamentais de Tafonomia. Editora da<br \/>\nUFRGS, 231p.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">PRESS, F., SIEVER, R., GROTZINGER, J. &amp; JORDAN, T.H. (2006). Para entender a Terra. Bookman, Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">TEIXEIRA, W. TOLEDO, M.C.M. DE, FAIRCHILD, T.R. &amp; TAIOLI, F. (2000): Decifrando a Terra. Oficina de Textos, S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">EFREMOV, J. A. (1940). Taphonomy: new branch of paleontology. PanAm, Geol., V. 74, p. 81-93.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">GHAZI, S. &amp; MOUNTNEY, N. P. (2009) Facies and architectural element analysis of a meandering fluvial succession: The Permian Warchha Sandstone, Salt Range, Pakistan. Sedimentary Geology, 221: 99-126.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rafael Gomes de Souza Como j\u00e1 dizia Raul Seixas \u201caprendi aprendi aprendi o segredo da vida&#8230; vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar\u201d. Embora a terminologia mais acurada nesse contexto fosse rocha, esta frase nunca foi t\u00e3o verdadeira. 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