{"id":3851,"date":"2017-03-08T16:04:31","date_gmt":"2017-03-08T19:04:31","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/?p=3851"},"modified":"2017-03-08T16:04:31","modified_gmt":"2017-03-08T19:04:31","slug":"she-sells-seashells-on-the-seashore-mary-anning-a-colecionadora-de-ossos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/03\/08\/she-sells-seashells-on-the-seashore-mary-anning-a-colecionadora-de-ossos\/","title":{"rendered":"She sells seashells on the seashore &#8211; Mary Anning, a Colecionadora de Ossos"},"content":{"rendered":"<p>Ol\u00e1 a todos, hoje 08\/03\/2017, se comemora o dia internacional da mulher. Uma data criada para concientizar e proporcionar uma concientiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do <em>Homo sapiens<\/em> do sexo feminino (sim&#8230; mulheres e homens s\u00e3o da mesma esp\u00e9cie, ao contr\u00e1rio do que certos pesquisadores dizem por ai&#8230;) em nossa sociedade. Nada melhor para comemorar esse dia do que relambrarmos um pouco sobre um grande paleontologa que sofreu muito por causa de sua religi\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o financeira e sexo. Estou falando de\u00a0Mary Anning! O texto abaixo, escrito pelo estimado Giovanne Mendes Cidade (e uma vers\u00e3o deste texto j\u00e1 foi publicada no finado blog do G<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/grupo.fossilis\/\">rupo Fossilis<\/a>), retrata um pouco sobre a hist\u00f3ria e contribui\u00e7\u00f5es dessa valorosa mulher. Espero que gostem!<\/p>\n<hr \/>\n<p>Uma pessoa que nasceu numa fam\u00edlia pobre do interior, recebeu pouca educa\u00e7\u00e3o formal e teve que trabalhar desde crian\u00e7a para ajudar a sustentar a fam\u00edlia. Este certamente n\u00e3o \u00e9 o perfil da maioria dos paleontol\u00f3gos, ou mesmo dos cientistas em geral que n\u00f3s conhecemos. Quando se acrescenta que a pessoa em quest\u00e3o era uma mulher, e que viveu na Inglaterra do s\u00e9culo XIX, tudo parece ainda mais estranho. E quando, ainda por cima, ficamos sabendo que os achados dela representam alguns dos mais importantes de todos os tempos para a Paleontologia, isso come\u00e7a a parecer incr\u00edvel.<br \/>\nE quando percebemos que, apesar de toda essa hist\u00f3ria fant\u00e1stica, muitas pessoas que atuam na \u00e1rea podem nunca ter ouvido falar da pessoa em quest\u00e3o&#8230; a\u00ed, sim, tudo parece inacredit\u00e1vel.<br \/>\n<figure id=\"attachment_3852\" aria-describedby=\"caption-attachment-3852\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-1.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3852\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-1.jpg\" alt=\"Figura 1\" width=\"390\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-1.jpg 416w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-1-260x300.jpg 260w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3852\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1: Mary Anning com seu cachorro, Tray, nos afloramentos de Lyme Regis, Inglaterra (pintura de cerca de 1842)<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA pessoa em quest\u00e3o \u00e9 Mary Anning (1799-1847), considerada por alguns a \u201cmaior coletora de f\u00f3sseis que o mundo j\u00e1 conheceu\u201d. Nascida na pequena cidade da Lyme Regis, no litoral sul da Inglaterra, Mary Anning era filha de um carpinteiro chamado Richard, que teve dez filhos \u2013 embora apenas a pr\u00f3pria Mary e um irm\u00e3o, Joseph, sobreviveram at\u00e9 a idade adulta. A fam\u00edlia era pobre, e para piorar as coisas a Inglaterra n\u00e3o vivia os seus melhores dias na \u00e9poca. No entanto, a fam\u00edlia de Anning tinha um pouco de sorte: a cidade em que viviam, Lyme Regis, era (e ainda \u00e9) uma regi\u00e3o rica em f\u00f3sseis. L\u00e1, a Forma\u00e7\u00e3o Blue Lias, datada do Jur\u00e1ssico, aflora em cost\u00f5es rochosos ao redor da cidade, especialmente perto da praia, com seu sedimento formado principalmente por calc\u00e1rio e folhelho. No s\u00e9culo XVIII, a regi\u00e3o se tornou um grande destino tur\u00edstico e, de quebra, os f\u00f3sseis que apareciam na regi\u00e3o come\u00e7aram a ser explorados em grande escala. Essa explora\u00e7\u00e3o, no entanto, era feita principalmente por habitantes da pr\u00f3pria regi\u00e3o que coletavam os f\u00f3sseis para vend\u00ea-los. A princ\u00edpio, os f\u00f3sseis eram vendidos apenas como curiosidades para os turistas; depois, enquanto a geologia e a paleontologia iam se consolidando como ci\u00eancias, j\u00e1 no s\u00e9culo XIX, eles passaram a atrair o interesse dos nobres da \u00e9poca que atuavam como pesquisadores.<br \/>\nAssim, o pai de Mary, Richard, atuou como coletor e vendedor de f\u00f3sseis para aumentar a renda da fam\u00edlia, e ensinou a pr\u00e1tica aos filhos. \u00c9 claro que, nos dias de hoje, comercializar f\u00f3sseis \u00e9 uma pr\u00e1tica conden\u00e1vel; mas, vivendo em uma \u00e9poca em que a import\u00e2ncia dos f\u00f3sseis ainda n\u00e3o era bem conhecida \u2013 e, sobretudo, vivendo em uma \u00e9poca de situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ruim, sendo obrigado a ver a sua fam\u00edlia com dificuldades e tendo um dos maiores dep\u00f3sitos de f\u00f3sseis do fundo dando sopa no seu quintal, com gente interessada em dar dinheiro por eles \u2013 quem poderia culp\u00e1-los?<br \/>\nNo entanto, aconteceu que o pai de Mary morreu em 1800, deixando a mulher e os dois filhos; Joseph com 14 anos e Mary com 11. E \u00e9 a\u00ed que a hist\u00f3ria de Mary Anning come\u00e7a a ficar impressionante. Apesar da pouca idade, ela e o irm\u00e3o continuaram com as atividades do pai. S\u00f3 que Mary faria muita mais do que apenas coletar f\u00f3sseis para vender.<br \/>\nEm 1811, Joseph encontrou um cr\u00e2nio de um tipo que eles nunca tinham visto por ali. Meses depois, Mary encontrou todo o resto do esqueleto do mesmo animal. Eles foram vendidos a colecionador por 23 libras (cerca de 88 reais, hoje). Aqueles f\u00f3sseis representavam, simplesmente, um dos primeiros achados de Ictiossauros do mundo \u2013 a esp\u00e9cie Temnodontosaurus platyodon, descrita por Conybeare em 1822 e que continua v\u00e1lida at\u00e9 os dias de hoje. Embora esse n\u00e3o tenha sido exatamente o primeiro f\u00f3ssil do grupo a ser encontrado, o esp\u00e9cime coletado por Joseph e Mary foi justamente o que primeiro chamou a aten\u00e7\u00e3o da comunidade cient\u00edfica para os Ictiossauros, que anos depois viriam a ser reconhecidos como r\u00e9pteis aqu\u00e1ticos.<br \/>\nDepois disso, Joseph se afastou um pouco da atividade de coletas de f\u00f3sseis, e Mary Anning se tornou praticamente a \u00fanica respons\u00e1vel pelo \u201cneg\u00f3cio da fam\u00edlia\u201d por assim dizer. Nos anos que se seguiram, ela realizou descobertas ainda mais incr\u00edveis, entre elas: outro esqueleto do mesmo ictiossauro, Temnodontosaurus platyodon, em 1821; um esqueleto parcial de Plesiosaurus dolichodeirus (novamente descrita por Conybeare em 1824), simplesmente o primeiro plesiossauro a ser descoberto no mundo, entre 1820 e 1821; em 1828, ela encontrou o esqueleto parcial do pterossauro Dimorphodon macronyx , o primeiro pterossauro descoberto fora da Alemanha, descrito formalmente por William Buckland em 1829; e, tamb\u00e9m em 1829, ela encontrou um f\u00f3ssil de peixe do g\u00eanero Squaloraja, um peixe cartilaginoso descrito por Woodward apenas em 1886 com caracter\u00edsticas intermedi\u00e1rias entre tubar\u00f5es e arraias, para ficar apenas nos achados que ganharam mais destaque.<br \/>\n<figure style=\"width: 355px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-2.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3853 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-2.jpg\" alt=\"Figura 2\" width=\"355\" height=\"550\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-2.jpg 354w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-2-194x300.jpg 194w\" sizes=\"(max-width: 355px) 100vw, 355px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Figura 2: Desenho e texto de Mary Anning contendo a descri\u00e7\u00e3o do f\u00f3ssil do Plesiosaurus dolichodeirus (1823).<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNos invertebrados, suas contribui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram importantes. Nas suas investiga\u00e7\u00f5es sobre os f\u00f3sseis dos moluscos belemnitas (que, junto com os amonitas, eram os f\u00f3sseis mais abundantes da regi\u00e3o, e portanto os mais vendidos), Mary descobriu que alguns esp\u00e9cimes ainda preservavam suas bolsas de tinta, mesmo depois de milh\u00f5es de anos de fossiliza\u00e7\u00e3o. A tinta at\u00e9 chegou a ser usada por Mary e outros como material para fazer desenhos dos f\u00f3sseis no papel, mas a observa\u00e7\u00e3o de Mary de que as bolsas dos belemnitas eram muito parecidas com a de moluscos viventes \u2013 especialmente as s\u00e9pias \u2013 indicavam que os cefal\u00f3podes daquela \u00e9poca, como os de hoje, se utilizavam de eje\u00e7\u00f5es de tinta para se defender. Foi ela tamb\u00e9m quem primeiro desconfiou que aquelas bolas que de vez em quando apareciam nos afloramentos \u2013 e que as pessoas chamavam de \u201cpedras de bezoar\u201d \u2013 poderiam ser, na verdade, fezes fossilizadas. Em 1829, William Buckland, baseando-se entre outros fatos nas observa\u00e7\u00f5es de Mary, batizou essas bolas de \u201ccopr\u00f3litos\u201d.<br \/>\n<figure style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-3.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3854\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-3-620x234.jpg\" alt=\"Figura 3\" width=\"448\" height=\"169\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Figura 3: Um desenho e um texto feito por Mary Anning sobre um f\u00f3ssil de Plesiossauro.<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO exemplo acima mostra como Mary Anning realmente fez muito mais do que coletar f\u00f3sseis para vender. \u00c9 claro que ela os continuava comercializando, porque, como voc\u00eas j\u00e1 devem percebido, apesar de todo o esfo\u00e7o que ela fazia, dadas as suas condi\u00e7\u00f5es de vida, seria muito, mas muito dif\u00edcil, que ela tivesse um projeto aprovado pelo CNPq para ganhar uma bolsa. Muito menos se ela o escrevesse com a tinta fossilizada dos belemnitas.<br \/>\nMesmo assim, o fato \u00e9 que ela desenvolveu um real interesse pelos f\u00f3sseis que coletava, e mesmo sem nenhum tipo de educa\u00e7\u00e3o formal em anatomia, taxonomia ou qualquer outra disciplina coisa, ela se esfor\u00e7ou para ler toda a literatura cient\u00edfica que p\u00f4de, at\u00e9 adquirir um saber em anatomia e em geologia que apenas os <em>gentleman <\/em>riqu\u00edssimos de sua \u00e9poca poderiam ter; al\u00e9m disso, ela se especializou n\u00e3o s\u00f3 em coletar os f\u00f3sseis, mas em prepar\u00e1-los; realizava disseca\u00e7\u00f5es de animais viventes, principalmente peixes, para comparar seu esqueleto com os f\u00f3sseis, e era capaz de desenhar ilustra\u00e7\u00f5es dos f\u00f3sseis que coletava. Em suma, Mary Anning fazia tudo o que um bom paleont\u00f3logo faz hoje. Com a \u00fanica diferen\u00e7a de que ela era uma mulher pobre e sem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria vivendo numa sociedade machista e aristocr\u00e1tica &#8211; al\u00e9m de pertencer a uma minoria religiosa que era perseguida pela Igreja Anglicana, os Congregacionalistas.<br \/>\nIsto demonstra uma das li\u00e7\u00f5es que a hist\u00f3ria de Mary Anning pode nos ensinar: sobre como pode ser importante o trabalho de pessoas n\u00e3o-acad\u00eamicas, inclusive nos dias de hoje, no esfor\u00e7o de pesquisa e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edficas.<br \/>\n<figure id=\"attachment_3855\" aria-describedby=\"caption-attachment-3855\" style=\"width: 464px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-4.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3855\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-4.jpg\" alt=\"Figura 4\" width=\"464\" height=\"309\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-4.jpg 490w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-4-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 464px) 100vw, 464px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3855\" class=\"wp-caption-text\">Figura 4: Uma foto de uma praia de Lyme Regis nos dias atuais, mostrando uma impress\u00e3o de um f\u00f3ssil de Amonita em primeiro plano.<\/figcaption><\/figure><br \/>\nE se isso n\u00e3o bastasse, ainda \u00e9 bom lembrar as condi\u00e7\u00f5es do local em que Mary Anning coletava seus f\u00f3sseis. As coletas nos cost\u00f5es rochosos de Lyme Regis eram mais produtivas durante o inverno, quando deslizamentos de terra expunham os f\u00f3sseis \u2013 que tinham que ser coletados rapidamente, antes que as ondas do mar os levassem. As rochas ficavam em contato direto com o oceano, e uma onda mais forte poderia facilmente arrastar qualquer um que estivesse se esgueirando pelos penhascos. E de fato, o cachorro de Mary, Troy \u2013 que sempre a acompanhava nas suas coletas \u2013 infelizmente encontrou este triste destino, e sua dona quase o acompanhou na ocasi\u00e3o. Isso certamente \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o, algo a se pensar para caras como eu, cuja maior dificuldade que j\u00e1 encontrei no campo foi sentir um pouco de calor e perceber que as nossas latas de Coca-Cola j\u00e1 tinham acabado.<br \/>\nApesar de todos os seus grandes achados e de sua hist\u00f3ria incr\u00edvel, o fato \u00e9 que hoje em dia at\u00e9 um paleont\u00f3logo fict\u00edcio como aquele cara do <em>Friends <\/em>\u00e9 mais conhecido do p\u00fablico, e provavelmente entre profissionais da \u00e1rea, do que Mary Anning. Isso se deve, em grande parte, ao fato de Mary nunca ter publicado nenhuma de suas descobertas (a \u00fanica pe\u00e7a que pode ser considerada como uma publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica de Mary Anning \u00e9 uma carta que ela escreveu \u00e0 revista cient\u00edfica Magazine of Natural History questionando se um f\u00f3ssil de tubar\u00e3o do g\u00eanero <em>Hybodus<\/em>, recentemente descrito naquela revista, representaria efetivamente um g\u00eanero novo \u2013 veja detalhes em Emling, 2009) e, claro, de ter vendido quase todas elas aos pesquisadores. Porque, apesar de todo o interesse e dedica\u00e7\u00e3o mostrados por ela, os f\u00f3sseis sempre lhe foram, sobretudo, aquilo que garantia o seu sustento. Por\u00e9m, \u00e9 importante notar que a maioria dos pesquisadores que publicaram pesquisas sobre f\u00f3sseis encontrados por ela n\u00e3o teve sequer a dec\u00eancia de citar o seu nome em seus trabalhos. Durante a vida, Mary chegou a vender f\u00f3sseis, se corresponder e trocar ideias e informa\u00e7\u00f5es com v\u00e1rios cientistas importantes de sua \u00e9poca, entre eles Richard Owen, Louis Agassiz, Henry de la Beche (cujo desenho <em>Duria Antiquor<\/em>, considerado o primeiro trabalho de paleoarte da hist\u00f3ria, foi feito baseado nos f\u00f3sseis encontrados por Anning), Charles Lyell e Adam Sedgwick \u2013 os dois \u00faltimos, professores de Charles Darwin.<br \/>\n<figure style=\"width: 463px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-5.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-4\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3856\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-5-620x405.jpg\" alt=\"Figura 5\" width=\"463\" height=\"303\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Figura 5: Na Inglaterra, as famosas \u201cBlue Plaques\u201d s\u00e3o usadas para homenagear lugares em que pessoas ilustres nasceram, residiram ou morreram. Esta placa est\u00e1 no local em que Mary Annig nasceu, em Lyme Regis, e que hoje est\u00e1 convertido em um museu.<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nTodos estes nomes s\u00e3o hoje conhecidos como precursores da geologia e da paleontologia; e todos contaram para isso com os achados de Mary Anning, que por sua vez caiu no esquecimento. E isso \u00e9 algo que, infelizmente, acontece at\u00e9 hoje; v\u00e1rios f\u00f3sseis, como se sabe, s\u00e3o encontrados por trabalhadores ou pessoas que est\u00e3o passando \u00e0 toa por um determinado lugar, e o pesquisador, depois de pesquisar e publicar seus resultados, se recusa at\u00e9 a citar o nome de quem encontrou o f\u00f3ssil! Muitos de n\u00f3s pensamos \u201cMas o que \u00e9 que um pedreiro ganha se eu agradecer a ele por ter achado um cr\u00e2nio completo enquanto trabalhava numa obra? N\u00e3o vai adiantar nada ele colocar isso no Curr\u00edculo Lattes dele!\u201d. \u00a0\u00c9 evidente que o encontrar do f\u00f3ssil \u00e9 uma etapa que faz parte de todo um processo que vai at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 uma etapa sem a qual, simplesmente, o resto da pesquisa nunca existiria!<br \/>\n<figure style=\"width: 466px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-6.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-5\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3857\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-6-620x300.jpg\" alt=\"Figura 6\" width=\"466\" height=\"225\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Figura 6: \u201cGoogle Doodle\u201d celebrando o 215\u00ba anivers\u00e1rio de Mary Anning, em 2014.<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOutra reflex\u00e3o que a hist\u00f3ria de Mary Anning provocou em mim, particularmente, diz respeito ao o que ser um pesquisador realmente significa. Um cientista \u00e9, acima de tudo, algu\u00e9m que trabalha com um m\u00e9todo, com a raz\u00e3o, para obter as respostas \u00e0s perguntas que faz a si mesmo; mas nada disso faz sentido se n\u00e3o h\u00e1 uma emo\u00e7\u00e3o envolvida nisso. O cientista deve gostar do que faz, deve ver sentido naquilo que investiga, deve ter uma convic\u00e7\u00e3o de que o ele faz \u00e9 importante. E, na minha opini\u00e3o, s\u00e3o essas os motivos que devem mover o cientista a fazer o que faz, muito mais do que atingir um n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es ou arranjar empregos e financiamentos. \u00c9 claro que ningu\u00e9m pode condenar aqueles que colocam isso como prioridade \u2013 como ningu\u00e9m pode condenar Mary Anning por ter vendido f\u00f3sseis em sua \u00e9poca \u2013 mas eu acredito que, mais importante que preencher nossos curr\u00edculos e nossas vaidades, o cientista deve trabalhar tendo em mente que o que ele faz \u00e9 importante, faz sentido para o mundo, e que ele \u00e9 uma pessoa em que todos depositam a esperan\u00e7a de que seu trabalho far\u00e1 o ser humano entender melhor o mundo. Os t\u00edtulos acad\u00eamicos, por exemplo, n\u00e3o s\u00e3o uma coisa para se ficar exibindo para as nossas tias mas, ao inv\u00e9s disso, s\u00e3o apenas etapas na forma\u00e7\u00e3o de um profissional. O maior objetivo de um cientista em forma\u00e7\u00e3o, e de um cientista formado tamb\u00e9m, n\u00e3o deveria ser colecionar t\u00edtulos ou publica\u00e7\u00f5es, mas aprendizado e experi\u00eancia, coisas que dependem muito mais da pr\u00f3pria dedica\u00e7\u00e3o individual do que de qualquer outra \u2013 como provou Mary Anning, h\u00e1 mais de duzentos anos atr\u00e1s.<br \/>\nE hoje, especificamente em um 8 de mar\u00e7o, a hist\u00f3ria e a trajet\u00f3ria de Mary Anning se tornam ainda mais significativos pelo Dia da Mulher. Hoje, muito diferentemente da \u00e9poca de Mary Anning, as mulheres possuem bastante espa\u00e7o na comunidade cient\u00edfica, com v\u00e1rias mulheres se destacando como cientistas em v\u00e1rias \u00e1reas, incluindo a nossa Paleontologia. No entanto, ainda h\u00e1 muito que pode ser feito, e a hist\u00f3ria de Mary Anning nos alerta sobre como o conhecimento que a ci\u00eancia pode proporcionar \u00e0 humanidade fica prejudicado quando uma mulher \u00e9 discriminada simplesmente por ser mulher, ou quando qualquer pessoa \u00e9 discriminada seja por motivo de g\u00eanero, etnia, cor da pele, nacionalidade, ideologias, opini\u00f5es ou religi\u00e3o. Por isso, neste dia 8 de mar\u00e7o, que Mary Anning seja um exemplo de gana de conhecimento, sim, mas tamb\u00e9m de que o sexo ou g\u00eanero de um cientista simplesmente n\u00e3o t\u00eam nada \u2013 absolutamente nada \u2013 a dizer no que diz respeito \u00e0 sua capacidade como cientistas.<br \/>\n<figure style=\"width: 456px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-7.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-6\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3858\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-7-620x427.jpg\" alt=\"Figura 7\" width=\"456\" height=\"314\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Figura 7: Reconstitui\u00e7\u00e3o do desenho Duria Antiquor (1830), de Henry de la Beche, baseado grandemente em f\u00f3sseis coletados por Mary Anning.<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<strong>Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica:<\/strong><br \/>\nEmling, Shelley (2009), The Fossil Hunter: Dinosaurs, Evolution, and the Woman whose Discoveries Changed the World, Palgrove Macmillan, ISBN 978-0-230-61156-6<br \/>\n<strong>Para saber mais:<\/strong><br \/>\nhttp:\/\/www.ucmp.berkeley.edu\/history\/anning.html<br \/>\nhttps:\/\/www.sdsc.edu\/ScienceWomen\/anning.html<br \/>\nhttp:\/\/www.macroevolution.net\/mary-anning.html<br \/>\nUm v\u00eddeo contando a hist\u00f3ria de Mary Anning:<br \/>\n<strong>Refer\u00eancias das Figuras:<\/strong><br \/>\n[1],[3]: http:\/\/www.bbc.co.uk\/schools\/primaryhistory\/famouspeople\/mary_anning\/<br \/>\n[2] https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Plesiosaurus<br \/>\n[4]: http:\/\/www.dorsetlife.co.uk\/2012\/05\/from-ancient-to-modern-lyme-regis-fossil-festival\/<br \/>\n[5], [6]: http:\/\/heavy.com\/news\/2014\/05\/mary-anning-215-birthday-google-doodle\/<br \/>\n[7]: https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Duria_Antiquior<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/02\/16735619_1201225939972881_1202071666_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-7\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3831 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/02\/16735619_1201225939972881_1202071666_o-620x412.jpg\" alt=\"16735619_1201225939972881_1202071666_o\" width=\"190\" height=\"126\" \/><\/a><em><strong>Giovanne Mendes Cidade<\/strong>, Bacharel em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU), Mestre e atualmente Doutorando em Biologia Comparada pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), campus de Ribeir\u00e3o Preto. Estuda principalmente crocodilianos f\u00f3sseis, com \u00eanfase em sistem\u00e1tica, taxonomia, biogeografia e anatomia de crocodilianos do Cenozoico, em especial do grupo dos Alligatoroidea. Tamb\u00e9m tem interesses diletantes em hist\u00f3ria da Paleontologia e em\u00a0filosofia da Ci\u00eancia como um todo, e da Biologia em particular, al\u00e9m de Evolu\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1 a todos, hoje 08\/03\/2017, se comemora o dia internacional da mulher. Uma data criada para concientizar e proporcionar uma concientiza\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do Homo sapiens do sexo feminino (sim&#8230; mulheres e homens s\u00e3o da mesma esp\u00e9cie, ao contr\u00e1rio do que certos pesquisadores dizem por ai&#8230;) em nossa sociedade. Nada melhor para comemorar esse dia &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/03\/08\/she-sells-seashells-on-the-seashore-mary-anning-a-colecionadora-de-ossos\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">She sells seashells on the seashore &#8211; Mary Anning, a Colecionadora de Ossos<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":511,"featured_media":3852,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[23,29,51,38,44,65,74,76],"tags":[],"class_list":["post-3851","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comercio-de-fosseis","category-divulgacao-cientifica","category-mesozoico","category-geral","category-jurassico","category-paleontologia-geral","category-pterosauria","category-repteis-marinhos"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/03\/Figura-1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3851","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/users\/511"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3851"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3851\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3852"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3851"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3851"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3851"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}