{"id":3889,"date":"2017-04-26T21:50:00","date_gmt":"2017-04-27T00:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/?p=3889"},"modified":"2017-04-26T21:50:00","modified_gmt":"2017-04-27T00:50:00","slug":"com-um-frango-no-quintal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/04\/26\/com-um-frango-no-quintal\/","title":{"rendered":"Com um frango no quintal"},"content":{"rendered":"<p>Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar \u00e9 a de divulgar a ci\u00eancia, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulga\u00e7\u00e3o cientifica possibilita a aproxima\u00e7\u00e3o de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que \u00e9 o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulga\u00e7\u00e3o os pesquisadores nutrem a esperan\u00e7a de que pelo menos partes do conhecimento cientifico comece a integrar o conhecimento popular (e.g., teoria da gravidade, relatividade, alguns fatos sobre dinosauros, etc). A divulga\u00e7\u00e3o cientifica feita pelos pr\u00f3prios cientistas \u00e9 relativamente rara e no m\u00ednimo controversa, visto que pesquisadores divulgadores s\u00e3o vistos como &#8220;estranhos no ninho&#8221; por seus pares (ver <a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2016\/05\/o-preconceito-academico-com-os-divulgadores\/\">postagem<\/a>). No entanto, cada vez mais os org\u00e3os de fomento brasileiros est\u00e3o reconhecendo a import\u00e2ncia de divulgar os resultados das pesquisas por eles financiadas. Portanto, vem \u00a0se tornando cada vez mais comum a necessidade de direcionar parte do recurso solicitado, via projeto a um destes org\u00e3os, a divulga\u00e7\u00e3o direta de seus resultados.<br \/>\nCom o intuito de ilustrar a import\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia para a comunidade n\u00e3o-cientifica trago os relatos de dois pesquisadores que estiveram envolvidos no projeto de divulga\u00e7\u00e3o do <em>Tapuiasaurus<\/em> realizado em sua &#8220;cidade natal&#8221;, Cora\u00e7\u00e3o de Jesus.<br \/>\nEsta primeira postagem foi feita pela doutoranda\u00a0Mariana Galera Soler e a segunda postagem ser\u00e1 uma contribui\u00e7\u00e3o do doutorando Natan Santos Brilhante.<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<br \/>\nA divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma novidade da nossa sociedade. Desde o s\u00e9culo XVIII h\u00e1 extensos registros de a\u00e7\u00f5es de profissionais e amadores da ci\u00eancia buscando apresentar os seus resultados para plateias, muitas vezes selecionadas. Longe de ser uma a\u00e7\u00e3o altru\u00edsta, o processo de comunica\u00e7\u00e3o <em>dos resultados <\/em>de uma pesquisa \u00e9 fundamental para a valida\u00e7\u00e3o desta pesquisa pelo p\u00fablico que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, atende fun\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas (financiamento p\u00fablico e privado) e profissionais (forma\u00e7\u00e3o de novos profissionais e apoio social \u00e0 pesquisa).<br \/>\nJ\u00e1 na contemporaneidade, a partir da d\u00e9cada de 1970 houve um forte movimento intitulado <em>public undestanding of science<\/em>, que tem resultado nas a\u00e7\u00f5es de divulga\u00e7\u00e3o que conhecemos atualmente, como centros de ci\u00eancia mega-interativos, clubes de ci\u00eancias, jogos, livros, filmes etc. Neste per\u00edodo a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica passou a ter um car\u00e1ter de essencialmente educativo. Fala-se no meio acad\u00eamico em <em>letramento cient\u00edfico <\/em>ou <em>alfabetiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/em>, ou seja, informar as pessoas de modo que elas possam tomar suas decis\u00f5es de acordo com os conceitos cient\u00edficos vigentes. Em uma sociedade imersa em ci\u00eancia e tecnologia, como vivemos atualmente, parece um discurso coerente.<br \/>\nNo entanto, ao mesmo tempo que falamos em sociedade do conhecimento, hiperconectividade, redes sociais, ao abrirmos os jornais nos deparamos com uma chamada \u201ccrise dos direitos humanos\u201d, novos muros estabelecendo fronteiras f\u00edsicas, al\u00e9m dos \u201cfatos alternativos\u201d e da pseudoci\u00eancia. Conhecemos o corpo humano e o universo em um n\u00edvel de detalhamento que era impens\u00e1vel no s\u00e9culo XIX, mas questionamos a ci\u00eancia que nos deu acesso a estas informa\u00e7\u00f5es de uma forma que jamais pens\u00e1vamos no p\u00f3s-guerra.<br \/>\n<figure style=\"width: 465px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18136144_1315527271833833_886183950_n.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3890\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18136144_1315527271833833_886183950_n-620x349.jpg\" alt=\"18136144_1315527271833833_886183950_n\" width=\"465\" height=\"262\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">\u201cVivemos em uma sociedade extremamente dependente de ci\u00eancia e tecnologia, em que quase ningu\u00e9m sabe nada de ci\u00eancia e tecnologia\u201d \u2013 Carl Sagan. Fonte da imagem: http:\/\/bigthink.com\/words-of-wisdom\/carl-sagan-on-science-and-technology<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEnt\u00e3o, p\u00f5e-se em quest\u00e3o: <em>como falar de ci\u00eancia para p\u00fablicos que interessados em likes no Instagram<\/em>?<br \/>\nAtualmente falar de ci\u00eancia parece<em> cool<\/em>, ent\u00e3o vou focar em exemplos da Paleontologia. Desenhos de dinossauros estampam camisetas e geralmente grandes bilheterias no cinema. Mas, o que \u00e9 mesmo um f\u00f3ssil? Um dinossauro \u00e9 t\u00e3o antigo quando meu tatarav\u00f4? Eu posso ter um f\u00f3ssil em casa? Quando Pedro Alvares Cabral chegou no Brasil ainda existiam pregui\u00e7as gigantes?<br \/>\n<figure id=\"attachment_3891\" aria-describedby=\"caption-attachment-3891\" style=\"width: 378px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109476_1315527278500499_1666205460_n.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-1\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3891\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109476_1315527278500499_1666205460_n.jpg\" alt=\"18109476_1315527278500499_1666205460_n\" width=\"378\" height=\"487\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109476_1315527278500499_1666205460_n.jpg 540w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109476_1315527278500499_1666205460_n-233x300.jpg 233w\" sizes=\"(max-width: 378px) 100vw, 378px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3891\" class=\"wp-caption-text\">\u201cEm minhas veias corre o sangue dos Dinossauros. Dos dinossauros eu te digo!\u201d. Um dos meus memes favoritos sobre dinossauros! Por que divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tamb\u00e9m pode ser feita com likes e curtidas. Fonte: http:\/\/www.ifunny.com\/pictures\/veins-flows-blood-dinosaurs\/<\/figcaption><\/figure><br \/>\nEstas quest\u00f5es podem parecer bobas para quem \u00e9 da \u00e1rea, mas n\u00e3o s\u00e3o triviais para a maioria das pessoas. No contexto mais \u00f3bvio, o escolar, embora sejam assuntos apontados nos par\u00e2metros curriculares de todos os n\u00edveis da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica brasileira, s\u00e3o temas pouco explorados pelos livros did\u00e1ticos e na forma\u00e7\u00e3o dos profissionais da Educa\u00e7\u00e3o, de forma que a informa\u00e7\u00e3o sobre paleontologia n\u00e3o est\u00e1 evidente e os conte\u00fados paleontol\u00f3gicos aparecem dispersos nos curr\u00edculos escolares, quando aparecem.<br \/>\nEspa\u00e7os para aprender sobre Paleontologia no Brasil tamb\u00e9m s\u00e3o escassos. Por exemplo, em todo o estado de S\u00e3o Paulo h\u00e1 menos de uma dezena de museus que possuem f\u00f3sseis em exposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m alguns centros de ci\u00eancia, como o Catavento Cultural (em S\u00e3o Paulo\/SP), Sabina \u2013 Parque Escola do Conhecimento (Santo Andr\u00e9\/SP) ou o Museu de Ci\u00eancia e Tecnologia da PUCRS (Rio Grande do Sul \/ RS), mas dada as dimens\u00f5es brasileiras ainda s\u00e3o a\u00e7\u00f5es esparsas. O Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro\/RJ) \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o diferenciada neste aspecto, dado ao espa\u00e7o oferecido a uma exposi\u00e7\u00e3o permanente sobre as diferentes faunas paleontol\u00f3gicas brasileiras, como tamb\u00e9m por a\u00e7\u00f5es educativas desenvolvidas pela equipe e alunos do museu.<br \/>\nEstas s\u00e3o a\u00e7\u00f5es pontuais e, geralmente, circunscritas a capitais e regi\u00f5es de grande circula\u00e7\u00e3o de pessoas. No entanto, quem usa <em>t-shirt<\/em> com a estampa do \u201cT-rex\u201d, em geral, tem acesso a um museu ou a internet e pode descobrir mais facilmente que aquele personagem t\u00e3o bravo do \u201cJurassic Park\u201d n\u00e3o passa de um frang\u00e3o desengon\u00e7ado e carniceiro. Voltando a sociedade hiperconectada, a informa\u00e7\u00e3o paleontol\u00f3gica nas redes sociais est\u00e1 dispon\u00edvel, e \u00e9 poss\u00edvel dar <em>likes <\/em>no Instagram de diversos museus, seguir canais no Youtube de divulgadores cient\u00edficos. O desafio \u00e9 descobrir onde est\u00e1 a informa\u00e7\u00e3o qualificada sobre a Paleontologia. E, neste sentido, as institui\u00e7\u00f5es e os termos \u201cestudos comprovam\u201d apresentam um peso de qualificadores.<br \/>\nNo entanto, esta \u00e9 uma quest\u00e3o j\u00e1 bem explorada por outros textos. Gostaria aqui de discutir uma outra situa\u00e7\u00e3o: como nos comunicar com quem encontra f\u00f3sseis nos seus quintais? Com quem est\u00e1 a margem destas grandes institui\u00e7\u00f5es, cuja ci\u00eancia se aprende tanto na pr\u00e1tica cotidiana quanto na escola. Como falar em tempo geol\u00f3gico, para aqueles que contam os per\u00edodos do ano entre as \u00e9pocas de chuva e seca?<br \/>\nPara esta quest\u00e3o, trago um outro referencial que ainda \u00e9 pouco explorado na Paleontologia brasileira, que \u00e9 o conceito do f\u00f3ssil como um patrim\u00f4nio. Embora legalmente reconhecido como tal desde a d\u00e9cada de 1940, e esta ser uma legisla\u00e7\u00e3o bastante conhecida pelos paleont\u00f3logos, a dimens\u00e3o cultural dos f\u00f3sseis ainda \u00e9 pouco explorada nas a\u00e7\u00f5es educativas.<br \/>\nEntender o f\u00f3ssil como um patrim\u00f4nio natural, implica em contextualizar estes materiais por meio de uma linguagem clara e objetiva, buscando estabelecer rela\u00e7\u00f5es entre as popula\u00e7\u00f5es locais onde os f\u00f3sseis foram encontrados e as equipes que pesquisam. Para al\u00e9m quest\u00f5es biol\u00f3gicas e geol\u00f3gicas diretamente relacionas aos f\u00f3sseis, a utiliza\u00e7\u00e3o do referencial da educa\u00e7\u00e3o patrimonial em Paleontologia fornece subs\u00eddios para que esses materiais fa\u00e7am parte da identidade local e sejam entendidos como um patrim\u00f4nio natural a ser preservado. Para que sejam efetivas estas pr\u00e1ticas, ou seja, para que a popula\u00e7\u00e3o local seja agente na conserva\u00e7\u00e3o de s\u00edtios paleontol\u00f3gicos e tamb\u00e9m possam compartilhar seu conhecimento, at\u00e9 mesmo indicando novos afloramentos, abrindo suas casas e propriedades ou hist\u00f3ricos da regi\u00e3o, \u00e9 fundamental que as a\u00e7\u00f5es atendam as demandas espec\u00edficas dos grupos locais.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 apostilas ou f\u00f3rmulas. H\u00e1 estudos de caso que demonstram que a parceria entre popula\u00e7\u00f5es locais e paleont\u00f3logos podem ser frut\u00edferas para ambos. Um exemplo ocorreu no ano de 2012, no munic\u00edpio de Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (MG). Nesta localidade foram encontrados f\u00f3sseis de dinossauros ter\u00f3podes e saur\u00f3podes da Bacia S\u00e3o-franciscana que datam do Per\u00edodo Cret\u00e1ceo Inferior, com idades em torno de 120 milh\u00f5es de anos. Esta regi\u00e3o tem sido objeto de estudo da equipe de paleontologia do Museu de Zoologia da USP (SP), desde 2005.<br \/>\n<figure id=\"attachment_3892\" aria-describedby=\"caption-attachment-3892\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18143112_1315527738500453_1834782978_n.png\" data-rel=\"lightbox-image-2\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-3892\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18143112_1315527738500453_1834782978_n.png\" alt=\"18143112_1315527738500453_1834782978_n\" width=\"349\" height=\"271\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3892\" class=\"wp-caption-text\">Em destaque, munic\u00edpio de Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, no norte do estado de Minas Gerais. Fonte: https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cora%C3%A7%C3%A3o_de_Jesus_(Minas_Gerais)<\/figcaption><\/figure><br \/>\nDe forma que, passados sete anos em que a popula\u00e7\u00e3o local convivia com a chegada de uma <em>pick-up<\/em> branca com emblema de uma universidade de outro estado, pessoas estranhas saiam cedo, iam para a \u00e1rea rural do munic\u00edpio e voltavam sujos de terra e com o carro cheios de rochas cobertas por gesso, muitas hist\u00f3rias foram criadas e situa\u00e7\u00f5es com a equipe. Dizia-se de tudo um pouco: havia um tal dinossauro na cidade, que foi vendido para os EUA h\u00e1 centenas de milhares de reais, os donos das terras onde os f\u00f3sseis foram encontrados ganharam dinheiro e as equipes de paleont\u00f3logos eram apelidados de \u201cosseiros\u201d.\u00a0 Depois de tanto tempo sem entender bem o que estava acontecendo, as rela\u00e7\u00f5es entre a popula\u00e7\u00e3o e a equipe come\u00e7aram a se tornar mais dif\u00edceis, ao ponto do prefeito da \u00e9poca ligar para o Museu de Zoologia e pedir explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nBem, tais explica\u00e7\u00f5es vieram na forma de um projeto educativo e uma exposi\u00e7\u00e3o itinerante. Como n\u00e3o era poss\u00edvel levar e fazer uma montagem do f\u00f3ssil original, foi montada a exposi\u00e7\u00e3o \u201cCabe\u00e7a Dinossauro: o novo tit\u00e3 brasileiro\u201d, ao redor da r\u00e9plica completa do dinossauro <em>Tapuiassaurus macedoi<\/em>. As a\u00e7\u00f5es educativas seguiram quatro linhas: (i) Curso de Forma\u00e7\u00e3o Continuada de Professores, em que os conhecimentos gerados a partir dos estudos na regi\u00e3o foram compartilhados com professores; tamb\u00e9m foram abordadas ferramentas da Educa\u00e7\u00e3o Patrimonial, para que os professores e alunos pudessem explorar a exposi\u00e7\u00e3o e o patrim\u00f4nio fossil\u00edfero regional. Participaram 118 professores e funcion\u00e1rios das escolas p\u00fablicas estaduais e municipais, urbanas e rurais. (ii) Oficinas nas escolas, que discutiram o trabalho do paleont\u00f3logo, por meio de desenhos, dobraduras, intera\u00e7\u00e3o com r\u00e9plicas e f\u00f3sseis e roda de conversa entre alunos e profissionais, intitulada \u201cConverse com um Paleont\u00f3logo\u201d. Em maio de 2012, foram realizadas oficinas para 10 escolas p\u00fablicas (urbanas e rurais), envolvendo mais de 600 alunos. (iii) Forma\u00e7\u00e3o de Monitores, como parte da parceria com as escolas, em que foram escolhidos 20 alunos do Ensino M\u00e9dio os quais atuaram como mediadores na exposi\u00e7\u00e3o entre os meses de maio e julho de 2012. Estes alunos realizaram um curso de forma\u00e7\u00e3o (dura\u00e7\u00e3o de 24 horas), em que se discutiram conceitos relacionados \u00e0 Paleontologia, museus e patrim\u00f4nio geopaleontol\u00f3gico. E, (iv) Curso de Extens\u00e3o Universit\u00e1ria, abordando aspectos gerais da Paleontologia e ratificando a import\u00e2ncia cient\u00edfica das descobertas regionais. Participaram do curso 16 estudantes, em agosto de 2012.<br \/>\n<figure style=\"width: 476px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18110384_1314742908578936_299249172_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-3\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3893\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18110384_1314742908578936_299249172_o-620x413.jpg\" alt=\"18110384_1314742908578936_299249172_o\" width=\"476\" height=\"317\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o \u201cCabe\u00e7a Dinossauro: o novo\u00a0tit\u00e3 brasileiro\u201d, em sua primeira montagem itinerante, em Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (MG), maio de 2012. Na foto, um grupo de estudantes da cidade \u00e9 atendido na exposi\u00e7\u00e3o por dois monitores (tamb\u00e9m estudantes da cidade que participaram do projeto educativo). Foto: Mariana Galera Soler<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nDurante todo este projeto, que durou cerca de 6 meses, os \u201cosseiros\u201d acabaram sendo pessoas conhecidas na cidade. Quando sa\u00edamos nas ruas (e aqui me incluo, pois fui coordenadora deste projeto e tamb\u00e9m uma das \u201cosseiras\u201d que estava na coleta dos f\u00f3sseis) \u00e9ramos convidados para entrar nas casas, conversar com as pessoas sobre o tal dinossauro. De elementos estranhos, passamos a fazer parte da hist\u00f3ria daquele local, materializado na forma do \u201ctal dinossauro\u201d entrar nas propostas de letra para um novo hino da cidade ou da \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d de uma lenda local***.<br \/>\nDe porteiras fechadas nas regi\u00f5es dos afloramentos, fomos recebidos com caf\u00e9 e biscoito de toalha e conhecemos uma Cora\u00e7\u00e3o de Jesus absolutamente nova para n\u00f3s. Os resultados n\u00e3o foram \u201capenas\u201d a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados da pesquisa paleontol\u00f3gica, as pessoas de Cora\u00e7\u00e3o de Jesus sabiam nossos nomes e se interessavam pelo nosso trabalho, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos mais os \u201cosseiros\u201d. E de muitas hist\u00f3rias que podem ser contadas, uma frase de um professor no \u00faltimo dia do curso registrou fundamentalmente esta parceria: \u201c<em>Obrigado por ter nos ajudado a descobrir que a nossa cidade \u00e9 mais importante do que parece\u201d<\/em>.<br \/>\n<figure id=\"attachment_3895\" aria-describedby=\"caption-attachment-3895\" style=\"width: 231px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18090537_1314729801913580_623807731_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-4\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3895\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18090537_1314729801913580_623807731_o-620x827.jpg\" alt=\"18090537_1314729801913580_623807731_o\" width=\"231\" height=\"308\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3895\" class=\"wp-caption-text\">Nas visitas as escolas realiz\u00e1vamos diferentes oficinas, entre elas a constru\u00e7\u00e3o de dinossauros de origamis. Na imagem, um dos alunos das escolas rurais de Cora\u00e7\u00e3o de Jesus (MG) com seus dinossauros. Foto: Mariana Galera Soler<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<figure id=\"attachment_3894\" aria-describedby=\"caption-attachment-3894\" style=\"width: 419px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18110899_1314742585245635_1420950820_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-5\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3894\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18110899_1314742585245635_1420950820_o-620x465.jpg\" alt=\"18110899_1314742585245635_1420950820_o\" width=\"419\" height=\"315\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3894\" class=\"wp-caption-text\">Exposi\u00e7\u00e3o de trabalhos dos alunos em escola rural do munic\u00edpio de Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. A atividade de \u201ccriar f\u00f3sseis\u201d com a impress\u00e3o de folhas em argila foi uma das oficinas propostas para os professores durante o curso. Ao fundo, algumas reconstitui\u00e7\u00f5es dos animais extintos encontrados na regi\u00e3o, tamb\u00e9m feitas em argila por alunos. Foto: Mariana Galera Soler<\/figcaption><\/figure><br \/>\nEste \u00e9 apenas um caso, mas existem outros. Embora escassos, projetos focados em popula\u00e7\u00f5es locais e tratando os f\u00f3sseis como um patrim\u00f4nio e em parceria com as pessoas s\u00e3o um caminho poss\u00edvel para al\u00e9m da divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia mais \u00f3bvia, cheia de f\u00f3rmulas prontas e <em>high tech <\/em>de comunicar uma ci\u00eancia neutra e fechada em si, tratando os f\u00f3sseis como todos sendo um dinossauro sem penas que corre como um guepardo. Projetos locais e contextualizados s\u00e3o um caminho para a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio fossil\u00edfero <em>in situ <\/em>e para que a ci\u00eancia n\u00e3o seja apenas um conjunto de resultados empilhados, ass\u00e9pticos e descontextualizados, e produzida por homens brancos, de meia idade e jaleco branco (eventualmente, com a l\u00edngua de fora).<br \/>\n<figure style=\"width: 470px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18120198_1314743015245592_56950743_o.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-6\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3896\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18120198_1314743015245592_56950743_o-620x413.jpg\" alt=\"18120198_1314743015245592_56950743_o\" width=\"470\" height=\"313\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-caption-text\">N\u00e3o basta ser monitor tem que participar! Alunos do Ensino M\u00e9dio foram indicados por seus professores para atuar como monitores na exposi\u00e7\u00e3o. Para tanto participaram de um curso sobre Paleontologia e tamb\u00e9m de diversas atividades pr\u00e1ticas, entre elas ajudar na montagem da pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o. Foto: Marcia Fernades Louren\u00e7o<\/figcaption><\/figure><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n*** Cora\u00e7\u00e3o de Jesus teve nos anos 1960 \u2013 70 certa notoriedade na regi\u00e3o e grandes investimentos p\u00fablicos que geraram, por exemplo, a constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o esportivo e complexo de piscinas bem estruturados. Contudo, esse projeto foi abandonado e o munic\u00edpio voltou a ser apenas mais um dos pequenos lugares na borda do Vale do Jequitinhonha. Para explicar esta \u201cperda de <em>status\u201d<\/em>, os mais velhos costumavam dizer que no passado algu\u00e9m havia enterrado a cabe\u00e7a de um burro na cidade e por isso ela n\u00e3o \u201cia para frente\u201d. Com a descoberta do cr\u00e2nio (\u201ccabe\u00e7a\u201d) de um dinossauro (bicho antigo que viveu h\u00e1 muito tempo), diversas pessoas relacionaram o f\u00f3ssil a \u201ccabe\u00e7a do burro\u201d e viram nesta descoberta a chance da cidade voltar a progredir.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Mariana Galera Soler<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Forma\u00e7\u00e3o: Bi\u00f3<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109741_1315265438526683_809310084_n.jpg\" data-rel=\"lightbox-image-7\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3897 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18109741_1315265438526683_809310084_n-620x633.jpg\" alt=\"18109741_1315265438526683_809310084_n\" width=\"268\" height=\"274\" \/><\/a>loga pela Faculdade de Filosofia Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto (USP\/RP) e Mestre em Museologia pela USP\/SP. Estudante de doutorado em Hist\u00f3ria e Filosofia da Ci\u00eancia, com especializa\u00e7\u00e3o em Museologia pela Universidade de \u00c9vora \/ Portugal.<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>\u00c1rea de estudo: comunica\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; museus de hist\u00f3ria natural; exposi\u00e7\u00f5es e cole\u00e7\u00f5es cient\u00edficas.<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Mas onde entra Paleontologia em tudo isso? Desde a gradua\u00e7\u00e3o trabalhei o Laborat\u00f3rio de Paleontologia da USP Ribeir\u00e3o Preto. Depois fui ao Museu de Zoologia da USP \/ S\u00e3o Paulo, onde trabalhei na curadoria da cole\u00e7\u00e3o paleontol\u00f3gica, al\u00e9m de participar de outras atividades do Laborat\u00f3rio de Paleontologia.<\/em><\/strong><br \/>\n<strong><em>Bem tudo isso j\u00e1 faz algum tempo! Tamb\u00e9m j\u00e1 fui professora de biologia e ci\u00eancias e, nos \u00faltimos seis anos, atuei na coordena\u00e7\u00e3o do setor educativo do Museu Biol\u00f3gico do Instituto Butantan. O que n\u00e3o quer dizer que eu deixei a Paleontologia de lado. Continuo trabalhando no gerenciamento da base de dados paleontol\u00f3gicos brasileira LUND (<a href=\"http:\/\/www.lund.fc.unesp.br\/lund\">www.lund.fc.unesp.br\/lund<\/a>) e atuei em alguns trabalhos de divulga\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00f5es paleontol\u00f3gicas, em que uma das hist\u00f3rias conto aqui nesse texto.<\/em><\/strong><br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez uma das facetas mais importantes que um pesquisador pode desempenhar \u00e9 a de divulgar a ci\u00eancia, tanto o conhecimento por ele produzido quanto por seus pares. A divulga\u00e7\u00e3o cientifica possibilita a aproxima\u00e7\u00e3o de duas esferas tidas como tradicionalmente distantes que \u00e9 o conhecimento popular e o conhecimento cientifico, Por meio da divulga\u00e7\u00e3o os pesquisadores &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/04\/26\/com-um-frango-no-quintal\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Com um frango no quintal<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":511,"featured_media":3893,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[12,25,28,29,51,38,65,79,80,89],"tags":[],"class_list":["post-3889","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bacia-sanfranciscana","category-cretaceo","category-dinossauros","category-divulgacao-cientifica","category-mesozoico","category-geral","category-paleontologia-geral","category-sauropoda","category-sauropodomorpha","category-vertebrados"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/04\/18110384_1314742908578936_299249172_o.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/users\/511"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3889"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3889\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}