{"id":4085,"date":"2017-06-25T13:45:54","date_gmt":"2017-06-25T16:45:54","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/?p=4085"},"modified":"2017-06-25T13:45:54","modified_gmt":"2017-06-25T16:45:54","slug":"uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/06\/25\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/","title":{"rendered":"Uma fauna muito, muito grande, que chamamos de Mega"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong>Texto por Tha\u00eds Pansani<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando se fala de Paleontologia, muitos associam na sua imagina\u00e7\u00e3o automaticamente os dinossauros \u2013 n\u00e3o os culpo, pois muitas das ind\u00fastrias (especialmente a cinematogr\u00e1fica) apostam, tradicionalmente, na imagem do <em>T. Rex<\/em> e dos pesco\u00e7udos pra vender seus produtos e conquistar o p\u00fablico. Quantas hist\u00f3rias contadas voc\u00eas j\u00e1 ouviram sobre dinos na televis\u00e3o? Quantos desenhos com alguns mais coloridos, outros mais assustadores, nos cinemas? Quantas camisetas, canecas e at\u00e9 mesmo bichinhos de pel\u00facia? At\u00e9 o nome estegossauro \u00e9 familiar. Agora, tente se lembrar de quantos filmes sobre pregui\u00e7as-gigantes voc\u00ea j\u00e1 viu no cinema? Essa \u00e9 mais f\u00e1cil, porque temos o \u201cEra do Gelo\u201d (pra alegria dos pesquisadores). Mas e se eu te perguntar quantas pessoas na rua voc\u00ea j\u00e1 viu com uma camiseta de tigre-dentes-de-sabre ou quantos bichinhos de pel\u00facias de gliptodontes (um tipo de tatu gigante com armadura) voc\u00ea j\u00e1 viu? Aposto que n\u00e3o vai ser t\u00e3o f\u00e1cil agora. E se eu disser que o nome toxodonte n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o familiar assim (voc\u00ea provavelmente nunca ouviu falar nele, n\u00e3o \u00e9 mesmo?). Acontece que h\u00e1 uma hist\u00f3ria cheia de animais incr\u00edveis que existiram (e infelizmente hoje n\u00e3o existem mais), que vai muito al\u00e9m dos dinossauros. Nossos queridos dinos, t\u00e3o popularmente conhecidos, viveram apenas uma fra\u00e7\u00e3ozinha de tempo no nosso registro geol\u00f3gico da Terra, ocupando a Era Mesoz\u00f3ica, apenas. Eles viveram durante os per\u00edodos Tri\u00e1ssico, Jur\u00e1ssico (esse \u00e9 famoso!) e Cret\u00e1ceo, entre aproximadamente 230 e 66 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s. Antes e depois desse per\u00edodo de tempo, temos outras eras, divididas entre muitos outros per\u00edodos, os quais tinham as mais diversas esp\u00e9cies e em que ocorreram os mais diversos eventos ecol\u00f3gicos, geogr\u00e1ficos, geol\u00f3gicos e ambientais. Sinto que o que falta na Ci\u00eancia, s\u00e3o mais pesquisadores com desejo de difundir informa\u00e7\u00f5es sobre as esp\u00e9cies que estudam para o p\u00fablico geral. Quem sabe assim, quando se falasse de Paleontologia, aqueles (ainda uma por\u00e7\u00e3o pequena) que conhecem essa ci\u00eancia passariam a ter uma vis\u00e3o mais ampla sobre diversidade e evolu\u00e7\u00e3o da vida ao longo do tempo geol\u00f3gico. N\u00e3o desmerecendo a import\u00e2ncia dos dinos \u2013 nem paleontol\u00f3gica nem na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u2013 , mas quero falar aqui de uma outra fauna. Com alguns animais t\u00e3o grandes e impressionantes quanto os dinossauros e, o mais fascinante, t\u00e3o recentes, que alguns co-existiram com as primeiras popula\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/tempo-geolgico-1-638\/\" rel=\"attachment wp-att-4091\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4091\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/tempo-geolgico-1-638-620x878.jpg\" alt=\"tempo-geolgico-1-638\" width=\"296\" height=\"419\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na Era Cenozoica (era atual em que vivemos), a linhagem dos mam\u00edferos se diversificou. Muito do seu sucesso evolutivo se deu devido \u00e0 extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros, no final do per\u00edodo Cret\u00e1ceo (per\u00edodo que encerra a era anterior, a Mesozoica). Os animais que vamos tratar aqui, s\u00e3o especificamente do per\u00edodo Quatern\u00e1rio, a \u00faltima subdivis\u00e3o da Era Cenoz\u00f3ica, que se estende at\u00e9 a atualidade. Por\u00e9m, essa fauna incr\u00edvel, que voc\u00eas est\u00e3o para conhecer, apenas permaneceu viva at\u00e9 o final do Pleistoceno (cerca de 11 mil anos atr\u00e1s), extinta por alguns\u00a0fatores que vamos apresentar no desenrolar dessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Considera-se megafauna todo conjunto de grandes animais. E\u00a0quando digo grande, s\u00e3o grandes mesmo! Animais com mais de 50 kg, 100 kg, alguns com mais de 1000 kg. Ao longo da Era Cenoz\u00f3ica, uma distinta megafauna de mam\u00edferos evoluiu independentemente em v\u00e1rios cantos do planeta, ocupando os espa\u00e7os ecol\u00f3gicos deixados vagos pelos dinossauros. S\u00e3o centenas de organismos fascinantes, mas dessa vez, eu vou apresentar um pouco sobre a \u00a0fant\u00e1stica megafauna sul-americana:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/1-smithsonians\/\" rel=\"attachment wp-att-4100\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-4100 alignright\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/1-smithsonians-620x792.jpg\" alt=\"1-smithsonians\" width=\"264\" height=\"337\" \/><\/a>A Am\u00e9rica do Sul permaneceu muito tempo isolada ao longo da Era Cenozoica, e isso permitiu com que animais muito estranhos e \u00fanicos evolu\u00edssem por aqui nesse intervalo de tempo. A megafauna end\u00eamica de mam\u00edferos da America do Sul \u00e9 muito espec\u00edfica e alguns dos seus principais representantes foram <strong>as pregui\u00e7as-gigantes, os litopternos, os gliptodontes e os pampater\u00eddeos <\/strong>(vamos conhecer mais sobre eles j\u00e1 j\u00e1). Assim que o \u00cdstimo do Panam\u00e1 foi formado, houve um interc\u00e2mbio de animais entre Am\u00e9rica do Norte e do Sul, evento conhecido como \u201cO Grande Interc\u00e2mbio Bi\u00f3tico Americano\u201d ou GIBA, para os \u00edntimos. Durante o GIBA, alguns animais t\u00edpicos da megafauna de mam\u00edferos end\u00eamica norte-americana como os tigres-dente-de-sabre, os ursos, os cavalos e os poderosos probosc\u00eddeos vieram parar por aqui. Assim como alguns dos nossos megamam\u00edferos migraram para l\u00e1. Terminou, que no Pleistoceno estavam todos juntos&#8230; e algumas esp\u00e9cies se perderam nesse contexto, mas isso \u00e9 hist\u00f3ria para outra postagem. Vamos nos ater \u00e0 megafauna end\u00eamica da Am\u00e9rica do Sul:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">As maiores esp\u00e9cies de pregui\u00e7a-gigante que existiram na Am\u00e9rica do Sul podiam chegar a ter 6 metros de comprimento e alcan\u00e7ar at\u00e9 4 metros de altura, quando sobre duas patas. Elas tinham garras enormes que, entre outras coisas, ajudavam na sua prote\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, apresentavam uma pelagem espessa com pequenos oss\u00edculos embebidos na pele, formando uma esp\u00e9cie de armadura. O tamanho e o peso das pregui\u00e7as-gigantes variava muito entre os g\u00eaneros. <em>Nothrotherium,<\/em> por exemplo, podia ser considerada uma pregui\u00e7a-gigante \u201cnanica\u201d, mas te garanto que eram muito grandes se comparadas as \u2018preguicinhas\u2019 atuais, que vemos em cima das \u00e1rvores. Falando nisso, as pregui\u00e7as gigantes eram todas terr\u00edcolas, n\u00e3o arbor\u00edcolas! Nada de ficar de galho em galho descansando (conseguem imaginar o tamanho de uma \u00e1rvore pra conseguir isso?). As pregui\u00e7as-gigantes perambulavam pelas vegeta\u00e7\u00f5es abertas e podiam at\u00e9 fazer tocas com suas garras, seja pra descanso tempor\u00e1rio ou habita\u00e7\u00e3o. As pregui\u00e7as-gigantes foram os mam\u00edferos mais diversificados da Am\u00e9rica do Sul (considerando tamanho, peso, prefer\u00eancias alimentares, etc.), al\u00e9m de o grupo mais amplamente distribu\u00eddo geograficamente. Uma esp\u00e9cie espec\u00edfica, <em>Eremotherium laurillardi<\/em>, conseguiu alcan\u00e7ar do sul da Am\u00e9rica do Sul ao norte da Am\u00e9rica do Norte, sendo considerada uma esp\u00e9cie \u201cpan-americana\u201d. Pensa no sucesso para se estabelecer em todo canto das Am\u00e9ricas!<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/eremotherium\/\" rel=\"attachment wp-att-4104\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4104\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/eremotherium.jpg\" alt=\"eremotherium\" width=\"600\" height=\"315\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/eremotherium.jpg 600w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/eremotherium-300x158.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Eremotherium, <em>arte de Jorge Blanco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/ground-sloth-size-comparison\/\" rel=\"attachment wp-att-4099\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4099\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/ground-sloth-size-comparison.jpg\" alt=\"ground-sloth-size-comparison\" width=\"618\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/ground-sloth-size-comparison.jpg 618w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/ground-sloth-size-comparison-300x109.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 618px) 100vw, 618px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Algumas pregui\u00e7as-gigante em escala.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os Litopternos s\u00e3o bem menos conhecidos, mas n\u00e3o menos interessantes. Eles eram de tamanho semelhante ao de um camelo e pesavam cerca de 1 tonelada. Tinham o pesco\u00e7o comprido, pernas longas com tr\u00eas dedos e uma estranha narina entre os olhos, que levou pesquisadores \u00e0 sugerirem a exist\u00eancia de uma tromba, semelhante \u00e0 da anta.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/%d0%b2%d0%b8%d0%ba%d0%b8\/\" rel=\"attachment wp-att-4103\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-4103 alignnone\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/unnamed-file.jpg\" alt=\"\u0412\u0438\u043a\u0438\" width=\"566\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/unnamed-file.jpg 566w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/unnamed-file-300x248.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Macrauchenia<em>, um litopterno, arte de Kobrina Olga.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Sabe aquele fusca azul, que a gente n\u00e3o resiste e d\u00e1 um soco no coleguinha por conta de uma brincadeira cl\u00e1ssica? (espero que ainda conhe\u00e7am essa brincadeira e eu n\u00e3o esteja ficando t\u00e3o velha). Ele \u00e9 do tamanho de um glitptodonte, um bicho parecido com um tatu, com uma carapa\u00e7a alta, cheias de osteodermos ornamentados, caudas robustas e garras capazes de cavar tocas que podiam servir como abrigo, prote\u00e7\u00e3o contra o frio ou at\u00e9 mesmo esconderijo de predadores. Na verdade, assim como as pregi\u00e7as-gigantes, existiram diversas esp\u00e9cies de gliptodontes!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/extinctglypt\/\" rel=\"attachment wp-att-4096\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4096\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/extinctglypt-620x398.jpg\" alt=\"extinctglypt\" width=\"620\" height=\"398\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Dois gliptodontes lutando. Arte de Peter Schouten.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Toxodontes, por sua vez, possu\u00edam um tamanho semelhante ao de um hipop\u00f3tamo, podendo chegar a 2 metros de altura. Tinham um cr\u00e2nio grande, pesco\u00e7o achatado, pernas curtas, com patas dianteiras menores que as posteriores e ouvidos na regi\u00e3o acima da cabe\u00e7a. Viviam por vezes associados a cursos de \u00e1gua e, supostamente, tinham h\u00e1bito semi-aqu\u00e1tico. Pelo que se sabe por meio do registro fossil\u00edfero, n\u00e3o chegaram na Am\u00e9rica do Norte, mas conseguiam sobreviver gra\u00e7as a seu h\u00e1bito generalista, alimentando-se de acordo com a sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/toxodon-01\/\" rel=\"attachment wp-att-4098\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4098\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/Toxodon-01-620x413.jpg\" alt=\"Toxodon-01\" width=\"620\" height=\"413\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em>Toxodonte. Arte de Jorge Blanco.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00c9 incr\u00edvel imaginar como a evolu\u00e7\u00e3o selecionou organismos t\u00e3o grandes e \u00e9 t\u00e3o incr\u00edvel que ainda se discute na academia o que os levaram \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. Algumas das sugest\u00f5es s\u00e3o: doen\u00e7as; altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e ambientais; a rela\u00e7\u00e3o com os seres humanos primitivos, afetando direta (ex: pela ca\u00e7a) ou indiretamente (ex: queimada e derrubada de \u00e1rvores afetando seus habitats) suas popula\u00e7\u00f5es; ou jun\u00e7\u00e3o de um ou mais desses fatores. Para cada continente, atribui-se um motivo mais prov\u00e1vel para a extin\u00e7\u00e3o desses animais. No caso do sul-americano, por falta de evid\u00eancias substanciais da intera\u00e7\u00e3o entre ser humano\/megafauna no registro paleontol\u00f3gico (diferente de na Am\u00e9rica do Norte, que esses ind\u00edcios s\u00e3o bem mais comuns), \u00e9 pressuposto que varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e na din\u00e2mica da vegeta\u00e7\u00e3o tenham sido os principais fatores que levaram esses organismos \u00e0 extin\u00e7\u00e3o. Entretanto, vale salientar que a Paleontologia \u00e9 uma ci\u00eancia relativamente nova, principalmente no continente sul-americano. H\u00e1 a possibilidade de que existam evid\u00eancias que ainda n\u00e3o investigamos ou encontramos, por falta de cientistas trabalhando com o tema ou por falta de explora\u00e7\u00e3o de novas \u00e1reas, coletas e\/ou organiza\u00e7\u00e3o de dados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Estudar a megafauna pleistoc\u00eanica possui uma s\u00e9rie de import\u00e2ncias. A come\u00e7ar pela compreens\u00e3o da grandiosidade que esse termo \u201cmegafauna\u201d carrega. Estamos falando de animais de grande porte que viveram espalhados pelo mundo todo at\u00e9 muito recentemente. Esses organismos passaram por evento de extin\u00e7\u00e3o significativo, que concentrou os seus \u00fanicos remanescentes atuais nas savanas africanas. Atualmente estamos passando por um processo muito semelhante de perda de esp\u00e9cies, o que significa, que estudar os efeitos da extin\u00e7\u00e3o desses animais no passado pode ser muito importante. Al\u00e9m disso, entender a diversidade e como eles se organizavam em comunidades pode nos ajudar a reconstruir todo um cen\u00e1rio ambiental de uma determinada \u00e9poca e\/ou de um determinado local. Tente fechar os olhos e imaginar como era a sua cidade h\u00e1 30 anos atr\u00e1s. Agora, volte um pouco mais no tempo e tente imaginar h\u00e1 300 anos atr\u00e1s. 3 mil anos atr\u00e1s. 30 mil anos atr\u00e1s. Expanda sua imagina\u00e7\u00e3o para todo seu estado ou a regi\u00e3o. Ser\u00e1 que o Brasil era desse exato jeitinho, caracterizado pelas mesmas florestas e cursos de rios e sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica h\u00e1 40 mil anos atr\u00e1s? Um dos maiores desafios dos paleoec\u00f3logos \u00e9 reconstituir um ambiente do passado com as informa\u00e7\u00f5es presenteadas pelos f\u00f3sseis. A partir da dieta inferida pela an\u00e1lise dos dentes da maioria dos animais da megafauna, por exemplo, conseguimos deduzir qual o tipo de vegeta\u00e7\u00e3o que predominava no ambiente em que este animal viveu, do que ele se alimentava, qu\u00e3o generalista ele era, etc. Fechamos os olhos e conseguimos imaginar um palco em que as cortinas se abrem e temos campos de matas abertas e clima muito mais seco do que o atual, algo completamente diferente do que existe hoje na Mata Atl\u00e2ntica, por exemplo. Onde pregui\u00e7as terr\u00edcolas andavam tranquilamente por uma vegeta\u00e7\u00e3o mais aberta e menos \u00famidas e alguns tatus-gigantes migravam em busca de comida e temperaturas mais amenas. Conseguimos tamb\u00e9m imaginar a din\u00e2mica das popula\u00e7\u00f5es desses animais, como se reproduziam ou interagiam com as outras esp\u00e9cies. Al\u00e9m disso, conseguimos associar fatores que tenham contribu\u00eddo para com que o espet\u00e1culo de diversidade deste palco imagin\u00e1rio tenha sido encerrado e estabelecer associa\u00e7\u00f5es com o que ocorre atualmente em nossa biodiversidade, nossas taxas de extin\u00e7\u00f5es e as consequ\u00eancias ambientais e ecol\u00f3gicas que o nosso modo de vida pode e j\u00e1 est\u00e1 acarretando. Afinal, vivemos em um constante conflito de uma nova \u00e9poca, que alguns cientistas j\u00e1 denominam como \u201cAntropoceno\u201d. E que talvez possa ter um desfecho diferente, se conseguirmos aprender com o passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 muito a ser descoberto em nossas cavernas mineiras, nossos tanques nordestinos e demais sitios fossil\u00edferos espalhados pelo Brasil \u2013 muitos ainda desconhecidos. Acredito que h\u00e1 ainda muitas esp\u00e9cies a serem descritas, muitos paradigmas a serem derrubados e conclus\u00f5es que nem sequer come\u00e7amos a imaginar. N\u00e3o \u00e9 preciso uma dist\u00e2ncia de 100 ou mais milh\u00f5es de anos para nos sensibilizarmos com a maravilha que \u00e9 um mundo que n\u00e3o existe mais. Parece que foi ontem (em escalas de tempo geol\u00f3gico), mas o panorama que configurava a megafauna sul-americana h\u00e1 pouco mais de 10 mil anos atr\u00e1s foi completamente diferente do que temos hoje. E isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o apaixonante quanto imaginar grandes dinossauros? Espero que, ao final deste texto, a resposta seja sim, e que s\u00f3 n\u00e3o se tinha esse sentimento ainda por culpa nossa \u2013 de n\u00f3s, paleont\u00f3logos, que nos esquecemos de enaltecer as outras facetas da Paleontologia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2017\/06\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/thais\/\" rel=\"attachment wp-att-4105\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-4105 alignleft\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/thais-620x620.png\" alt=\"thais\" width=\"242\" height=\"243\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong><span style=\"color: #808080\">Sobre a autora:<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #808080\">Tha\u00eds Pansani \u00e9 bi\u00f3loga formada pela UFSCar Sorocaba, atualmente \u00e9 mestranda em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar S\u00e3o Carlos e trabalha com megafauna pleistoc\u00eanica sul-americana e suas rela\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e paleobiogeogr\u00e1ficas.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cartelle, 1994. Tempo Passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Cartelle, 2000. Pregui\u00e7as terr\u00edcolas, essas desconhecidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ghilardi et al. 2011.\u00a0Megafauna from the Late Pleistocene-Holocene deposits of the Upper Ribeira karst area, southeast Brazil. Quaternary International, 245: 369-378.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Oliveira et al. 2017.\u00a0Quaternary mammals from central Brazil (Serra da Bodoquena, Mato Grosso do Sul) and comments on paleobiogeography and paleoenvironments. Revista Brasileira de Paleontologia, 20(1):31-44.<\/p>\n<p>http:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/2005\/07\/01\/o-mastodonte-e-a-macrauquenia\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por Tha\u00eds Pansani Quando se fala de Paleontologia, muitos associam na sua imagina\u00e7\u00e3o automaticamente os dinossauros \u2013 n\u00e3o os culpo, pois muitas das ind\u00fastrias (especialmente a cinematogr\u00e1fica) apostam, tradicionalmente, na imagem do T. Rex e dos pesco\u00e7udos pra vender seus produtos e conquistar o p\u00fablico. Quantas hist\u00f3rias contadas voc\u00eas j\u00e1 ouviram sobre dinos na &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2017\/06\/25\/uma-fauna-muito-muito-grande-que-chamamos-de-mega\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Uma fauna muito, muito grande, que chamamos de Mega<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":489,"featured_media":4110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[16,38,46,50],"tags":[97,105,110,112,115,116,123,125],"class_list":["post-4085","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cenozoico","category-geral","category-mamiferos","category-megafauna","tag-cenozoico","tag-era-do-gelo","tag-mamiferos","tag-megafauna","tag-paleomastozoologia","tag-paleontologia-de-vertebrados","tag-pleistoceno","tag-quaternario"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2017\/06\/14f3e24261e55dcd64b84b4384accd87.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4085","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/users\/489"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4085"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4085\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4085"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4085"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4085"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}