{"id":4189,"date":"2018-05-30T13:02:34","date_gmt":"2018-05-30T16:02:34","guid":{"rendered":"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/?p=4189"},"modified":"2020-07-19T15:47:02","modified_gmt":"2020-07-19T18:47:02","slug":"finalmente-o-mamifero-do-cretaceo-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2018\/05\/30\/finalmente-o-mamifero-do-cretaceo-do-brasil\/","title":{"rendered":"Finalmente, o mam\u00edfero do Cret\u00e1ceo do Brasil!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><strong><em>Brasilestes stardusti<\/em> \u00e9 o seu nome,\u00a0em alus\u00e3o ao Brasil e a Ziggy Stardust, um personagem criado\u00a0pelo m\u00fasico brit\u00e2nico David Bowie, falecido em 2016, ano em que o f\u00f3ssil foi descoberto.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2018\/05\/finalmente-o-mamifero-do-cretaceo-do-brasil\/brasilestes\/\" rel=\"attachment wp-att-4190\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4190\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Brasilestes.png\" alt=\"Brasilestes\" width=\"471\" height=\"436\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Brasilestes.png 471w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Brasilestes-300x278.png 300w\" sizes=\"(max-width: 471px) 100vw, 471px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O f\u00f3ssil em quest\u00e3o tem apenas 3,5mm e trata-se de um \u00fanico dente pr\u00e9-molar. Pode n\u00e3o parecer grande coisa, mas \u00e9 uma descoberta h\u00e1 muito tempo esperada. Tanto que, apesar de n\u00e3o escrever h\u00e1 muito tempo no blog, achei que isto, particularmente, merecia uma comemora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A publica\u00e7\u00e3o do material foi feita hoje, na revista cient\u00edfica\u00a0<em>Royal Society Open Science\u00a0<\/em>e conta com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores brasileiros da UFG, USP e Unicamp, al\u00e9m de\u00a0paleont\u00f3logos argentinos e estadunidenses. O estudo foi liderado\u00a0pela Dra. Mariela Castro (UFG), especialista\u00a0em mam\u00edferos f\u00f3sseis e, com certeza, uma grande f\u00e3 de Bowie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O pequeno dente, t\u00e3o importante,\u00a0foi encontrado\u00a0nas rochas ricas em f\u00f3sseis do interior do estado de S\u00e3o Paulo, mais especificamente, no munic\u00edpio de <strong>General Salgado<\/strong>, oeste paulista. Estas rochas datam\u00a0do final <strong>Per\u00edodo Cret\u00e1ceo<\/strong>,\u00a0entre\u00a080 e 75 milh\u00f5es de anos, \u00e9poca em que os dinossauros ainda reinavam soberanos\u00a0nos ecossistemas terrestres. Isso torna <em>Brasilestes<\/em> o mais antigo mam\u00edfero conhecido para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2018\/05\/finalmente-o-mamifero-do-cretaceo-do-brasil\/captura-de-tela-2018-05-30-as-09-01-17\/\" rel=\"attachment wp-att-4191\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4191 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Captura-de-Tela-2018-05-30-a\u0300s-09.01.17.png\" alt=\"Captura de Tela 2018-05-30 a\u0300s 09.01.17\" width=\"888\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Captura-de-Tela-2018-05-30-a\u0300s-09.01.17.png 888w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Captura-de-Tela-2018-05-30-a\u0300s-09.01.17-300x270.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Captura-de-Tela-2018-05-30-a\u0300s-09.01.17-768x692.png 768w\" sizes=\"(max-width: 888px) 100vw, 888px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com um tamanho reconstitu\u00eddo aproximado do de um gamb\u00e1 atual (cerca de 50cm de comprimento), <em>Brasilestes<\/em>\u00a0certamente\u00a0se esquivou\u00a0das passadas de gigantes pesco\u00e7udos herb\u00edvoros e fugiu das ferozes mand\u00edbulas de uma mir\u00edade de crocodilos terrestres, uma pequena amostra da paleofauna que habitava o interior de S\u00e3o Paulo no final do Cret\u00e1ceo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">At\u00e9 a presente data, nenhum vest\u00edgio corporal de mam\u00edfero f\u00f3ssil havia sido\u00a0apropriadamente descrito para\u00a0as rochas cret\u00e1cicas\u00a0do Brasil. Na verdade, para todas as rochas\u00a0da Era Mesozoica brasileira. O f\u00f3ssil &#8220;do tal mam\u00edfero&#8221;, sempre havia sido o &#8220;Santo Graal&#8221; da paleontologia brasileira, buscado incansavelmente por v\u00e1rios grupos de pesquisadores. Por isso, \u00e9 uma alegria ele ter sido finalmente encontrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Para n\u00e3o dizer que este \u00e9 realmente o primeiro registro corporal de mam\u00edfero cret\u00e1cico do Brasil, o f\u00f3ssil de um pequeno peda\u00e7o de mand\u00edbula com um \u00fanico dente inserido havia sido encontrado em rochas do mesmo contexto geol\u00f3gico na d\u00e9cada\u00a01990. Apesar de publicado h\u00e1 tempos, o material n\u00e3o foi\u00a0descrito\u00a0apropriadamente na \u00e9poca, e encontra-se, at\u00e9 hoje, inacess\u00edvel para a grande maioria\u00a0dos paleont\u00f3logos brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O outro registro\u00a0fossil\u00edfero atribu\u00eddo\u00a0a mam\u00edferos mesozoicos do Brasil ou, pelo menos, de organismos &#8220;mamaliformes&#8221;,\u00a0s\u00e3o as pegadas f\u00f3sseis da chamada Forma\u00e7\u00e3o Botucatu, <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sKKtSUMbXbo&amp;t=0s&amp;list=PLHPifkNwYyYYQ7TaH3uIcLdctL1BrQLru&amp;index=44\">uma unidade geol\u00f3gica que representa um antigo deserto que existiu no interior de S\u00e3o Paulo h\u00e1\u00a0 pelo menos 130 milh\u00f5es de anos<\/a>.\u00a0Estas pegadas (assista um v\u00eddeo nosso falando sobre isto <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ZE2cgiLUxg&amp;t=19s&amp;list=PLHPifkNwYyYYQ7TaH3uIcLdctL1BrQLru&amp;index=19\">aqui<\/a>) s\u00e3o mais antigas do que <em>Brasilestes,\u00a0<\/em>mas, infelizmente, nunca puderam\u00a0ser atribu\u00eddas com certeza a um mam\u00edfero verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><em>Brasilestes<\/em> \u00e9 muito importante, porque fornece a primeira identifica\u00e7\u00e3o mais precisa sobre um mam\u00edfero do Cret\u00e1ceo do Brasil. A\u00a0morfologia do dente encontrado indica que o mesmo pertencia a um mam\u00edfero Tribosphenida, ou seja, um mam\u00edfero do grupo que re\u00fane os placent\u00e1rios e marsupiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/scienceblogs.com.br\/colecionadores\/2018\/05\/finalmente-o-mamifero-do-cretaceo-do-brasil\/untitled\/\" rel=\"attachment wp-att-4192\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4192 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Untitled.png\" alt=\"Untitled\" width=\"867\" height=\"691\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Untitled.png 867w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Untitled-300x239.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2018\/05\/Untitled-768x612.png 768w\" sizes=\"(max-width: 867px) 100vw, 867px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os mam\u00edferos tribosf\u00eanidos contam com diversos registros no Cret\u00e1ceo do hemisf\u00e9rio norte. Por\u00e9m, no hemisf\u00e9rio sul, apenas haviam sido\u00a0encontrados\u00a0na \u00cdndia, em Madagascar e no norte da Am\u00e9rica do Sul.\u00a0A descri\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Brasilestes stardusti\u00a0<\/em>veio preencher uma lacuna importante no registro de mam\u00edferos mesozoicos, ressaltando a import\u00e2ncia do Brasil para a compreens\u00e3o da hist\u00f3ria evolutiva do grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Por mais absurdo que possa parecer descrever uma nova esp\u00e9cie com base em um \u00fanico dente, essa \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito comum para mam\u00edferos f\u00f3sseis. O\u00a0registro fossil\u00edfero desse grupo \u00e9 relativamente raro e, majoritariamente baseado na\u00a0ocorr\u00eancia de dentes isolados, lembrando que dentes s\u00e3o elementos muito resistentes\u00a0e preservam-se\u00a0com maior facilidade\u00a0do que ossos. Por esta raz\u00e3o,\u00a0para mam\u00edferos f\u00f3sseis,\u00a0caracter\u00edsticas\u00a0da denti\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito utilizadas\u00a0como caracteres diagn\u00f3sticos de esp\u00e9cies<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A equipe envolvida no\u00a0trabalho tamb\u00e9m realizou outras an\u00e1lises no\u00a0f\u00f3ssil para ajudar em sua identifica\u00e7\u00e3o, como a avalia\u00e7\u00e3o da microestrutura do esmalte dent\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A cobertura de esmalte\u00a0encontrada, com cerca de 20 m\u00edcrons, \u00e9 bem mais fina do que a dos dentes de outros mam\u00edferos mesozoicos (entre 100 e 300 m\u00edcrons). Al\u00e9m disso, poucas esp\u00e9cies de mam\u00edferos atuais t\u00eam caracter\u00edstica semelhante, entre eles, alguns Xenarthra (ordem que inclui os tatus, tamandu\u00e1s e pregui\u00e7as). Esta observa\u00e7\u00e3o suscita uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre\u00a0<em>Brasilestes<\/em>\u00a0e este grupo de mam\u00edferos. A diverg\u00eancia (ou origem)\u00a0dos xenartros,\u00a0calculada por meio da t\u00e9cnica chamada de &#8220;rel\u00f3gio molecular&#8221;, teria se de dado exatamente nessa \u00e9poca, h\u00e1 pelo menos 85 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Os mam\u00edferos eram elementos relativamente raros em ecossistemas da Era Mesozoica. Ocupavam\u00a0nichos secund\u00e1rios, eram,\u00a0via de regra, pequenos e\u00a0predominantemente generalistas. A maioria, talvez tivesse h\u00e1bitos noturnos e fosse arbor\u00edcola ou fossorial.\u00a0Essas s\u00e3o algumas raz\u00f5es para os f\u00f3sseis de\u00a0<em>Brasilestes<\/em>\u00a0serem t\u00e3o raros.\u00a0Provavelmente estes organismos eram entidades pouco abundantes em seu paleoecossistema e\/ou tinham tamanhos muito pequenos\u00a0para que seus\u00a0elementos \u00f3sseos delicados\u00a0fossem preservados e\/ou vivessem longe da \u00e1rea favor\u00e1vel para preserva\u00e7\u00e3o de\u00a0f\u00f3sseis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tenho certeza de que esta publica\u00e7\u00e3o traz novas esperan\u00e7as aos paleont\u00f3logos brasileiros. Que mais f\u00f3sseis sejam encontrados em breve e ajudem a responder as quest\u00f5es que <em>Brasilestes<\/em> trouxe \u00e0 tona (veja mais <a href=\"http:\/\/agencia.fapesp.br\/mamifero_mais_antigo_do_brasil_viveu_no_tempo_dos_dinossauros\/27916\/\">aqui<\/a>).\u00a0Para fechar, vale sempre a pena lembrar, que os\u00a0mortos t\u00eam muita hist\u00f3ria para contar. Este, especificamente, marcou seu nome na &#8220;cal\u00e7ada da fama&#8221; da paleontologia nacional, tal qual o grande artista\u00a0David\u00a0Bowie deixou sua marca\u00a0no famoso passadi\u00e7o hollywoodiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Castro MC, Goin FJ, Ortiz-Jaureguizar E, Vieytes EC, Tsukui K, Ramezani J, Batezelli A, Marsola JCA, Langer MC. 2018 A late Cretaceous mammal from Brazil and the first radioisotopic age for the Bauru Group. <em>R. Soc. open sci. <\/em><strong>5<\/strong>: 180482.\u00a0 http:\/\/dx.doi.org\/10.1098\/rsos.180482<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasilestes stardusti \u00e9 o seu nome,\u00a0em alus\u00e3o ao Brasil e a Ziggy Stardust, um personagem criado\u00a0pelo m\u00fasico brit\u00e2nico David Bowie, falecido em 2016, ano em que o f\u00f3ssil foi descoberto. O f\u00f3ssil em quest\u00e3o tem apenas 3,5mm e trata-se de um \u00fanico dente pr\u00e9-molar. 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