{"id":4363,"date":"2020-07-18T16:01:46","date_gmt":"2020-07-18T19:01:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/?p=4363"},"modified":"2021-09-24T11:22:16","modified_gmt":"2021-09-24T14:22:16","slug":"cara-de-mamifero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2020\/07\/18\/cara-de-mamifero\/","title":{"rendered":"Cara de Mam\u00edfero"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Texto por <strong><a aria-label=\"undefined (opens in a new tab)\" href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/a-equipe\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pedro H. Morais e Maur\u00edcio Rodrigo Schmitt<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou \u201ccomo era a cara dos nossos ancestrais, antes deles serem o que somos\u201d? Por exemplo, que cara teria o primeiro homin\u00eddeo? Ou o primeiro primata? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pergunta habita o nosso imagin\u00e1rio, principalmente quando diz respeito aos nosso ancestrais e, na maioria das vezes, quem pode nos ajudar a obter essas respostas s\u00e3o os pesquisadores que trabalham com o passado, como os paleont\u00f3logos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Onde sua imagina\u00e7\u00e3o te levaria se eu te perguntasse: que cara tinha o primeiro <strong>mam\u00edfero<\/strong>? Muitos talvez tenham pensado nos grandes mam\u00edferos do passado, como os mastodontes (como <em>Stegomastodon waringi<\/em>), ou os poderosos tigres-dentes-de-sabre (como <em>Smilodon<\/em>), ou ainda nas pregui\u00e7as enormes (como <em>Eremotherium<\/em> <em>laurillardi<\/em>) e tatus gigantes (como <em>Glyptodon<\/em> <em>clavipes<\/em>). Por\u00e9m, sinto lhe informar, que voc\u00ea viajou pouco no tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"383\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-1024x383.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4364\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-1024x383.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-300x112.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-768x288.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-1536x575.png 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/megafauna-2048x767.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Uma pregui\u00e7a gigante (Scelidodon sp.) e um tatu gigante (Doedicurus sp.), ambos encontrados na Am\u00e9rica do Sul em rochas datadas do Pleistoceno, entre 2,5 milh\u00f5es e 11,7 mil anos atr\u00e1s. Artes de Jorge Blanco (Forasiepi, Martinelli, 2007).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pensamos em um mam\u00edfero, o grande grupo de animais ao qual n\u00f3s, os seres humanos, pertencemos, fica dif\u00edcil escolher um modelo que represente o todo. Vemos hoje em dia, a enorme diversidade do grupo, que foi capaz de ocupar praticamente todos os ambientes do nosso planeta, das savanas quentes do Brasil e da \u00c1frica, \u00e0s geleiras mais frias do p\u00f3lo-norte, das montanhas mais altas do Himalaia, \u00e0s profundezas do oceano, dos c\u00e9us, ao interior de cavernas e do solo. Em todos esses ambientes voc\u00ea encontra um exemplo diferente de mam\u00edfero. Este grupo de animais se diversificou de tal forma e foi t\u00e3o moldado pelos ambientes que colonizaram, que \u00e9 dif\u00edcil considerar que um elefante, um morcego e um golfinho perten\u00e7am ao mesmo grupo e sejam parentes. Talvez, isso se deva ao fato de que a diversidade de formas dos mam\u00edferos hoje \u00e9 maior em rela\u00e7\u00e3o aos outros grupos de tetr\u00e1podes viventes. Pense nas aves ou nos lagartos ou nos crocodilos, que apresentam, na atualidade, uma variedade bem menor de formas e tamanhos do que os mam\u00edferos (no passado n\u00e3o foi assim, mas esta \u00e9 outra hist\u00f3ria). Pensando em tudo isso, qual animal voc\u00ea escolheria para representar os mam\u00edferos? Que mam\u00edfero vivo hoje voc\u00ea diria que se assemelha mais ao ancestral de <strong>todos<\/strong> os mam\u00edferos, ao <strong>primeiro<\/strong> mam\u00edfero?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Temos certeza que sua imagina\u00e7\u00e3o te deu v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es, mas, sem querer te decepcionar, a cara do primeiro mam\u00edfero seria mais parecida com a de um musaranho ou de uma cu\u00edca (n\u00e3o, n\u00e3o estamos falando do instrumento! Estamos falando do marsupial&#8230; Colocamos uma foto abaixo pra ajudar).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/edited-1400785_3683009891406_928983436_o.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4367\" width=\"503\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/edited-1400785_3683009891406_928983436_o.jpg 1207w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/edited-1400785_3683009891406_928983436_o-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/edited-1400785_3683009891406_928983436_o-1024x769.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/edited-1400785_3683009891406_928983436_o-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 503px) 100vw, 503px\" \/><figcaption>Filhote de cu\u00edca (Didelphimorphia) &#8211; Foto dos autores.<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro mam\u00edfero era um bicho pequeno, mais ou menos do tamanho de um pequeno gamb\u00e1, correndo por entre as folhagens de uma floresta, durante uma noite quente do Jur\u00e1ssico (sim, a hist\u00f3ria dos mam\u00edferos come\u00e7a no Jur\u00e1ssico). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, por consenso, o t\u00e1xon apontado como o &#8216;primeiro mam\u00edfero&#8217; \u00e9 <em>Morganucodon<\/em>, um organismo f\u00f3ssil encontrado nos EUA, Europa e China. Queremos chamar a aten\u00e7\u00e3o aqui para a express\u00e3o \u201catualmente apontado\u201d, porque estes consensos taxon\u00f4micos podem mudar a luz de novos estudos, f\u00f3sseis e evid\u00eancias. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"501\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon-1024x501.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4368\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon-1024x501.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon-300x147.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon-768x376.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon-1536x751.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Morganucodon.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Reconstru\u00e7\u00e3o art\u00edsitica de <em>Morganucodon<\/em>. Seus f\u00f3sseis s\u00e3o encontrados principalmente em Wales (Reino Unido) e na China, al\u00e9m de outras partes da Europa e Am\u00e9rica do Norte, em afloramentos Jur\u00e1ssicos. Imagem de FunkMonk (Michael B. H.).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grupo chamado de &#8216;Mammalia&#8217; (ou \u201cmam\u00edferos\u201d, em bom portugu\u00eas), \u00e9 definido por um conjunto de caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas compartilhadas por todos os seus membros. Colocando de forma mais simples: pra voc\u00ea ser um mam\u00edfero, voc\u00ea tem que ter, ou ter tido, um conjunto de caracter\u00edsticas f\u00edsicas apontadas como \u201ccoisa de mam\u00edferos\u201d. Mas tem um problema aqui. V\u00e1rios organismos f\u00f3sseis, muito pr\u00f3ximos dos mam\u00edferos j\u00e1 tinham algumas dessas &#8220;caracter\u00edsticas t\u00edpicas de mam\u00edferos&#8221;. Isso \u00e9 um pesadelo para muitos pesquisadores, que acabam por discutir e rediscutir defini\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A defini\u00e7\u00e3o mais atual e com maior consenso, \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o filogen\u00e9tica de mam\u00edfero, que englobaria <em>Morganucodon<\/em> e todas as esp\u00e9cies viventes de mam\u00edferos (placent\u00e1rios, marsupiais e monotremados). Nessa defini\u00e7\u00e3o, varias esp\u00e9cies de mam\u00edferos extintos, que viveram durante a era Mesozoica, est\u00e3o inclusas no grupo. Basicamente, isso significa que todos os animais que s\u00e3o agrupados numa \u00e1rvore filogen\u00e9tica entre <em>Morganucodon<\/em> e os mam\u00edferos atuais, s\u00e3o considerados mam\u00edferos (calma, calma, a gente coloca uma figura, s\u00f3 olhar a\u00ed embaixo). Mas, essa defini\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 bastante discutida, principalmente porque <em>Morganucodon<\/em> foi &#8220;eleito&#8221; como o primeiro mam\u00edfero, ou seja, essa \u00e9 uma escolha arbitr\u00e1ria.  Essa problem\u00e1tica de &#8220;eleger um primeiro&#8221; n\u00e3o \u00e9 exclusiva dos mam\u00edferos, esse \u00e9 um conflito constante nos estudos sistem\u00e1ticos e evolutivos, j\u00e1 que as formas biol\u00f3gicas formam um cont\u00ednuo, quem tenta classific\u00e1-las em grupos artificiais somos n\u00f3s. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, cada novo achado acrescenta uma nova pe\u00e7a a esse quebra cabe\u00e7a da evolu\u00e7\u00e3o e as defini\u00e7\u00f5es se atualizam com o tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-1024x712.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4369\" width=\"512\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-1024x712.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-300x209.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-768x534.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-1536x1068.png 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/filogenia-cinos-2048x1424.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption>Filogenia simplificada dos cinodontes. Aqui est\u00e3o apenas algumas poucas esp\u00e9cies da grande diversidade de cinodontes. Note que o grupo que <em>Morganucodon <\/em>\u00e9 considerado o in\u00edcio do grupo dos mam\u00edferos, portanto, todos que vierem depois deste grupo na \u00e1rvore filogen\u00e9tica s\u00e3o considerados mam\u00edferos. E um destaque para <em>Brasilitherium<\/em>, um f\u00f3ssil brasileiro que \u00e9 hoje tido como o f\u00f3ssil mais relacionado ao grupo dos mam\u00edferos. Modificado de Lautenschlager et al. 2016.<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quais s\u00e3o caracter\u00edsticas presentes hoje nos mam\u00edferos que definem o grupo como tal? Certamente voc\u00ea j\u00e1 ouviu que s\u00e3o as gl\u00e2ndulas mam\u00e1rias, os tr\u00eas oss\u00edculos do ouvido, entre outras. Mas para saber mais sobre elas, precisamos voltar no tempo. Mais precisamente, at\u00e9 os per\u00edodos Permiano e Tri\u00e1ssico (entre cerca de 298 a 201 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s), quando tais &#8220;caracter\u00edsticas de mam\u00edfero&#8221; come\u00e7am a ser observadas, gradualmente, em formas mais basais de animais aparentados dos mam\u00edferos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a transi\u00e7\u00e3o entre o Permiano e o Tri\u00e1ssico, a Terra passou pelo seu maior evento de extin\u00e7\u00e3o, conhecido como a <strong>Extin\u00e7\u00e3o Permo-Tri\u00e1ssica<\/strong>. Este evento foi bem maior do que a famosa extin\u00e7\u00e3o que dizimou os dinossauros. Essa tal Extin\u00e7\u00e3o Permo-Tri\u00e1ssica foi t\u00e3o grande, que causou um \u201creset\u201d na fauna e na flora do planeta. Durante o final do Permiano (cerca de 255 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s), os primeiros f\u00f3sseis de criaturas conhecidas como <strong>cinodontes<\/strong> s\u00e3o registrados. Por\u00e9m, \u00e9 durante o <strong>Tri\u00e1ssico<\/strong> que esses animais come\u00e7am a brilhar no cen\u00e1rio biol\u00f3gico. Infelizmente,  todos os holofotes acabam por se voltar para os dinossauros no final deste per\u00edodo, mas, o mundo d\u00e1 voltas, como voc\u00eas ver\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os cinodontes apresentavam uma grande diversidade de formas e tamanhos durante o Tri\u00e1ssico e alguns j\u00e1 apresentavam algumas das tais &#8220;caracter\u00edsticas mamalianas&#8221;. O curioso \u00e9 que essas caracter\u00edsticas n\u00e3o estavam presentes somente na linhagem que deu origem aos mam\u00edferos. Alguns grupos de cinodontes completamente extintos, de uma linhagem paralela a nossa (mammaliana), tamb\u00e9m apresentavam algumas dessas caracter\u00edsticas, que hoje, s\u00e3o consideradas como \u201ccoisa de mam\u00edfero\u201d. Essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual o debate sobre a origem dos mam\u00edferos est\u00e1 sempre se modificando atualmente&#8230; Uma vez que v\u00e1rios grupos paralelos apresentam caracter\u00edsticas mamalianas, \u00e9 dif\u00edcil associar com seguran\u00e7a, que determinado grupo de cinodontes deu origem aos mam\u00edferos ou n\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voltando para o assunto &#8220;que cara teria o primeiro mam\u00edfero?&#8221;, voc\u00ea deve estar se perguntando agora <strong>\u201cque cara teriam os cinodontes?\u201d.<\/strong> Se voc\u00ea pensou no musaranho ali em cima&#8230; voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 de todo errado, por\u00e9m se voc\u00ea prestou aten\u00e7\u00e3o neste texto, voc\u00ea j\u00e1 sacou que eles t\u00eam uma grande diversidade de formas, e pasmem, em termos f\u00f3sseis, o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que apresentam a maior diversidade de cinodontes do mundo! Todos eles provenientes do Rio Grande do Sul, o local que apresenta as forma\u00e7\u00f5es de idade tri\u00e1ssica mais fossil\u00edferas do pa\u00eds. O Brasil trouxe ao mundo, por exemplo, os Brasilodontideos, o atual grupo apontado como o clado de origem dos mam\u00edferos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Diversidade de Cinodontes Brasileiros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de tudo, a gente precisa entender como s\u00e3o separados os cinodontes. Basicamente, existem dois grandes grupos dentro do grande grupo Cynodontia, os <strong>Cynognathia<\/strong> e os <strong>Probainognathia<\/strong>. Calma, a gente vai explicar um pouquinho de cada grupo abaixo:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cynognathia<\/strong> inclui organismos completamente extintos. Eles eram em sua maioria herb\u00edvoros\/on\u00edvoros, com exce\u00e7\u00e3o de apenas uma esp\u00e9cie, que era carn\u00edvora. Eram bichos relativamente grandes, variando do tamanho de um cachorro pequeno at\u00e9 o maior de todos, que podia ter mais de 2 metros de comprimento e pesar cerca de 200kg. Neste grupo existem organismos que j\u00e1 apresentavam algumas caracter\u00edsticas que podem ser interpretadas como \u201ccoisa de mam\u00edfero\u201d, por exemplo, uma das principais caracter\u00edsticas do grupo (e que pode ser compar\u00e1vel a mam\u00edferos), \u00e9 a enorme complexidade dos dentes p\u00f3s-caninos. Os mam\u00edferos possuem um padr\u00e3o dent\u00e1rio altamente especializado, chamado de <strong>tribosf\u00eanico<\/strong>. Os Cynognathia, embora n\u00e3o tivessem padr\u00e3o tribosf\u00eanico, possu\u00edam especializa\u00e7\u00f5es dent\u00e1ria at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o encontradas em outros grupos de Synapsidas. Al\u00e9m da grande especializa\u00e7\u00e3o dos dentes, recentemente foi encontrado em um cinodonte Cynognathia, chamado de <em>Menadon<\/em>, com um padr\u00e3o de dente <strong>hipsodonte<\/strong>, de crescimento cont\u00ednuo, tipo os encontrado hoje em mam\u00edferos como o cavalo e roedores (se voc\u00ea n\u00e3o sabia disso, aqui vai mais uma curiosidade, o dente do seu ratinho cresce pra sempre&#8230;por isso ele est\u00e1 sempre roendo algo. N\u00e3o s\u00f3 ele, como v\u00e1rios outros animais). Essa ocorr\u00eancia de dente hipsodonte no <em>Menadon<\/em> \u00e9 \u00fanica, e este \u00e9 o \u00fanico g\u00eanero al\u00e9m dos mam\u00edferos com esse padr\u00e3o de dente. O mais interessante, \u00e9 que o grupo de <em>Menadon<\/em> foi completamente extinto, ent\u00e3o a caracter\u00edstica que era tida como exclusiva de mam\u00edferos, j\u00e1 tinha aparecido na hist\u00f3ria dos cinodontes muito tempo antes! Infelizmente, toda a linhagem de Cynognathia foi extinta, ent\u00e3o nunca teremos a oportunidade de ver um vivo e verificar como eles realmente seriam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"794\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-1024x794.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4372\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-1024x794.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-300x233.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-768x595.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-1536x1191.png 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynognathia-1-2048x1587.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Cynognathia, os f\u00f3sseis desse grupo s\u00e3o muito abundantes na Argentina, como o <em>Massetognathus pascuali<\/em>, e no Brasil, onde encontramos v\u00e1rias esp\u00e9cies em abund\u00e2ncia, como <em>Menadon<\/em> e <em>Santacruzodon<\/em>. Abaixo a reconstru\u00e7\u00e3o de duas esp\u00e9cies de Cynognathia em um t\u00edpico ambiente do Tri\u00e1ssico, com destaque pra apar\u00eancia que j\u00e1 lembraria muito a de um mam\u00edfero atual. Imagens: <em>Massetognathus<\/em> (foto do autor) <em>Menadon<\/em> (Melo et al. 2019) e a reconstru\u00e7\u00e3o art\u00edstica por Voltaire D. P. Neto.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo grupo, <strong>Probainognathia<\/strong>, abrange uma variedade de formas gigantesca, j\u00e1 que Mammalia est\u00e1 inclusa neste grupo. Mas, levando apenas os f\u00f3sseis em considera\u00e7\u00e3o, o grupo apresentava mesmo assim uma diversidade de tamanho e de h\u00e1bitos enorme, variando de um bicho com o tamanho de um cachorro grande (como o <em>Aleodon<\/em>, que podia ter mais de 1,5 metros), at\u00e9 os Brasilodont\u00eddeos (que tinham o tamanho de um pequeno gamb\u00e1, com cerca de 15cm). Os animais desse grupo s\u00e3o, em sua maioria, classificados como inset\u00edvoros ou seja, eles comiam insetos, por\u00e9m, alguns pesquisadores apontam que eles poderiam ser oportunistas (on\u00edvoros, assim como os gamb\u00e1s atualmente), com alguns exclusivamente carn\u00edvoros, como o <em>Trucidocynodon<\/em>. Neste grupo est\u00e3o inclu\u00eddos os Brasilodontidae, atualmente tido como grupo irm\u00e3o de mam\u00edferos, mas que pode ter sido o grupo de cinodontes que deu origem a n\u00f3s, os mam\u00edferos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"794\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-1024x794.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4371\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-1024x794.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-300x233.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-768x595.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-1536x1191.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Probainognathia-2048x1587.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Probainognathia. Artes de Jorge Blanco (Martinelli <em>et al<\/em>. 2016; Guignard <em>et al<\/em>. 2019).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parte mais fant\u00e1stica disso tudo, \u00e9 que muitos desses bichos faziam parte da fauna tri\u00e1ssica do Brasil. Eles est\u00e3o entre os achados f\u00f3sseis do Rio Grande do Sul, onde \u00e9 encontrada <strong>a maior diversidade de Cynognathia do mundo<\/strong>, al\u00e9m de <strong>alguns dos registros mais importantes de Probainognathia, como os j\u00e1 mencionados Brasilodontideos<\/strong>. Talvez, devido ao pequeno tamanho, os cinodontes acabem por perder espa\u00e7o para os grandes dinossauros na m\u00eddia e tamb\u00e9m no imagin\u00e1rio das pessoas&#8230; Apesar disso, imaginar um &#8220;pequeno musaranho&#8221;, correndo de um dinossauro, numa noite quente do Tri\u00e1ssico, est\u00e1 carregado de informa\u00e7\u00f5es sobre como n\u00f3s, os mam\u00edferos, conseguimos nos tornar o que somos hoje. Enfim, agora voc\u00ea sabe como era &#8220;a cara dos primeiros mam\u00edferos&#8221; e tamb\u00e9m como os f\u00f3sseis do Brasil s\u00e3o importantes para contar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancias<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Forasiepi A, Martinelli A. Bestiario f\u00f3sil: mam\u00edferos del pleistoceno de la Argentina. Albatros; 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Guignard ML, Martinelli AG, Soares MB. The postcranial anatomy of Brasilodon quadrangularis and the acquisition of mammaliaform traits among non-mammaliaform cynodonts. PloS one. 2019 May 10;14(5):e0216672.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lautenschlager S, Gill PG, Luo ZX, Fagan MJ, Rayfield EJ. The role of miniaturization in the evolution of the mammalian jaw and middle ear. Nature. 2018 Sep;561(7724):533-7.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Martinelli AG, Soares MB, Schwanke C. Two new cynodonts (Therapsida) from the Middle-Early Late Triassic of Brazil and comments on South American probainognathians. PloS one. 2016 Oct 5;11(10):e0162945.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Melo TP, Ribeiro AM, Martinelli AG, Soares MB. Early evidence of molariform hypsodonty in a Triassic stem-mammal. Nature communications. 2019 Jun 28;10(1):1-8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto por Pedro H. Morais e Maur\u00edcio Rodrigo Schmitt Voc\u00ea j\u00e1 se perguntou \u201ccomo era a cara dos nossos ancestrais, antes deles serem o que somos\u201d? Por exemplo, que cara teria o primeiro homin\u00eddeo? Ou o primeiro primata? Essa pergunta habita o nosso imagin\u00e1rio, principalmente quando diz respeito aos nosso ancestrais e, na maioria das &hellip; <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2020\/07\/18\/cara-de-mamifero\/\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Cara de Mam\u00edfero<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":616,"featured_media":4394,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[11,33,46,82,89],"tags":[144,142,110,115,116,143],"class_list":["post-4363","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-bacia-do-parana","category-evolucao","category-mamiferos","category-triassico","category-vertebrados","tag-cinodontes","tag-evolucao","tag-mamiferos","tag-paleomastozoologia","tag-paleontologia-de-vertebrados","tag-triassico"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/07\/Cynodont.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/users\/616"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4363"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4884,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4363\/revisions\/4884"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4363"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4363"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4363"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}