{"id":4607,"date":"2020-11-28T15:55:19","date_gmt":"2020-11-28T18:55:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/?p=4607"},"modified":"2020-11-28T17:08:35","modified_gmt":"2020-11-28T20:08:35","slug":"a-rainha-das-cobras-cegas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2020\/11\/28\/a-rainha-das-cobras-cegas\/","title":{"rendered":"A rainha das &#8220;cobras-cegas&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f\u00f3ssil de uma esp\u00e9cie de &#8220;cobra-cega&#8221;, que viveu no Sudeste do Brasil h\u00e1 mais de 85 milh\u00f5es de anos. Al\u00e9m de o f\u00f3ssil ser muito importante para o entendimento da evolu\u00e7\u00e3o do grupo, a esp\u00e9cie \u00e9 a maior j\u00e1 encontrada entre as cobras-cegas vivas ou extintas. <em>Boipeba tayasuensis<\/em>, como foi batizada, tinha cerca de 1 metro de comprimento, e sua descoberta preenche uma  grande lacuna na hist\u00f3ria evolutiva das serpentes Scolecophidia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"725\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50-1024x725.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4608\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50-1024x725.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50-300x212.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50-768x544.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50-1536x1087.png 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.14.50.png 1916w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Boipeba tayasuensis, uma grande cobra-cega do Cret\u00e1ceo do Brasil. Arte de Jorge Blanco.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O f\u00f3ssil de <em>Boipeba<\/em> foi encontrado no munic\u00edpio de <strong>Taia\u00e7u<\/strong> no <strong>Oeste do Estado de S\u00e3o Paulo<\/strong>, pr\u00f3ximo \u00e0 <strong>Monte Alto<\/strong>, localidade j\u00e1 conhecida pela ampla ocorr\u00eancia de f\u00f3sseis do <strong>Per\u00edodo<\/strong> <strong>Cret\u00e1ceo<\/strong>. O principal respons\u00e1vel pelo estudo foi <strong>Thiago S. Fachini<\/strong>, estudante de doutorado, orientado pela Professora <strong>Annie S. Hsiou<\/strong>, ambos da <strong>USP<\/strong> de <strong>Ribeir\u00e3o Preto<\/strong>. O estudo ainda contou com a participa\u00e7\u00e3o de outros dois colegas brasileiros, Silvio Onary e M\u00e1rio Bronzati, e dois pesquisadores australianos.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho foi publicado dia 19 de novembro na revista <strong><em>iScience<\/em><\/strong> e baseia-se na descri\u00e7\u00e3o de uma v\u00e9rtebra bem distinta, grande, para uma &#8220;cobra-cega&#8221;, e com um formato notavelmente achatado. Da\u00ed o nome <em>Boipeba<\/em>, que significa &#8220;cobra-achatada&#8221; em Tupi-Guarani. O ep\u00edteto espec\u00edfico, &#8220;tayasuensis&#8221;, faz refer\u00eancia ao munic\u00edpio de Taia\u00e7u, assim, a combina\u00e7\u00e3o do nome da nova esp\u00e9cie f\u00f3ssil significa <strong>&#8220;cobra-achatada de Taia\u00e7u&#8221;<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"587\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.57.10-1024x587.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4609\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.57.10-1024x587.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.57.10-300x172.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.57.10-768x440.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2020\/11\/Captura-de-Tela-2020-11-28-a\u0300s-14.57.10.png 1210w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A distinta v\u00e9rtebra de Boipeba tayasuensis (Fachini et al. 2020).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><em>Boipeba tayasuensis<\/em> era uma serpente de m\u00e9dio porte, com comprimento estimado em 1 metro, tamanho bastante semelhante ao de outras cobras f\u00f3sseis do mesmo per\u00edodo. O interessante, todavia, \u00e9 o fato de <em>Boipeba<\/em> ser uma serpente Scolecophidia, ou seja, um tipo de &#8220;cobra-cega&#8221;. Atualmente, as cobras-cegas s\u00e3o pequenas serpentes escavadoras, de h\u00e1bitos essencialmente subterr\u00e2neos, que tem os seus olhos bastante reduzidos. As esp\u00e9cies atuais de Scolecophidia n\u00e3o ultrapassam 30 cm de comprimento, o que torna <em>Boipeba<\/em> <strong>uma gigante das cobras-cegas<\/strong>. Mesmo as outras formas f\u00f3sseis conhecidas n\u00e3o t\u00eam tamanho compar\u00e1vel ao da &#8220;cobra-achatada de Taia\u00e7u&#8221;. O fato de ela ser t\u00e3o grande d\u00e1 uma pista aos pesquisadores sobre as tend\u00eancias evolutivas do grupo. A &#8220;miniaturiza\u00e7\u00e3o&#8221; em Scolecophidia pode ter sido uma tend\u00eancia mais recente, acompanhando fatores ambientais e ecol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tamanho que torna <em>Boipeba<\/em> importante. F\u00f3sseis de serpentes s\u00e3o muito raros no Cret\u00e1ceo, ainda mais na Bacia Bauru, unidade geol\u00f3gica na qual ela foi encontrada. Outros f\u00f3sseis associados \u00e0 serpentes j\u00e1 haviam sido descobertos, mas este \u00e9 o <strong>primeiro descrito formalmente como esp\u00e9ci<\/strong>e. <em>Boipeba<\/em>, portanto, amplia o nosso conhecimento sobre a diversidade de organismos do Cret\u00e1ceo da Bacia Bauru e torna a rede ecol\u00f3gica deste antigo paleoambiente mais complexa. <\/p>\n\n\n\n<p>No Cret\u00e1ceo brasileiro, o \u00fanico outro registro inequ\u00edvoco de uma esp\u00e9cie de serpente \u00e9 de <em>Seismophis septentrionalis<\/em>, do Cenomaniano do Maranh\u00e3o (Bacia de S\u00e3o Lu\u00eds-Graja\u00fa). <em>Tetrapodophis amplectus<\/em>, comumente referida como a &#8220;cobra com patas&#8221; do Aptiano-Albiano da Bacia do Araripe, \u00e9 questionada por muitos autores e tem uma hist\u00f3ria bastante complexa (<a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2016\/11\/03\/tetrapodophis-amplectus-e-a-historia-sem-fim-da-cobra-de-quatro-patas-uma-perspectiva-interna\/\">leia mais sobre isso aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto que destaca a descoberta de <em>Boipeba<\/em> para a Ci\u00eancia \u00e9 a  idade do seu f\u00f3ssil. Ela \u00e9 a <strong>esp\u00e9cie mais antiga de cobra-cega j\u00e1 descoberta<\/strong>. Os registros mais antigos de Scolecophidia at\u00e9 ent\u00e3o encontrados, eram datados do final do Paleoceno e in\u00edcio do Eoceno da Europa e \u00c1frica (cerca de 56 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s). Contudo, an\u00e1lises moleculares estimavam o surgimento do grupo para o Cret\u00e1ceo. <em>Boipeba <\/em>confirma essa hip\u00f3tese. A diversifica\u00e7\u00e3o inicial das cobras-cegas pode ter acontecido na Am\u00e9rica do Sul e o Brasil pode ter sido um dos palcos principais deste evento evolutivo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Boipeba<\/em> estende o registro de Scolecophidia para o Cret\u00e1ceo Superior do Brasil, preenchendo uma lacuna no espa\u00e7o e no tempo para a compreens\u00e3o evolutiva do grupo. As previs\u00f5es moleculares agora ganharam sustento de evid\u00eancias paleontol\u00f3gicas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Boipeba<\/em> \u00e9 mais uma descoberta recente que demonstra como o territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 importante para a Paleontologia mundial. As contribui\u00e7\u00f5es que o artigo de <em>Boipeba<\/em> traz s\u00e3o fundamentais para os estudiosos de evolu\u00e7\u00e3o de serpentes e, com certeza, atrair\u00e3o a aten\u00e7\u00e3o de paleont\u00f3logos do mundo para os estratos rochosos do interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>NOTA: <\/strong>o grupo mais popularmente conhecido como &#8220;cobra-cega&#8221; s\u00e3o as cec\u00edlias, ou gimnofionas, que s\u00e3o um tipo de anf\u00edbio. As Scolecophidia, um grupo de serpente, todavia, tamb\u00e9m podem ser chamadas de &#8220;cobras-cegas&#8221; por conta de seus olhos reduzidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n\n\n\n<p>Fachini, T. S., Onary, S., Palci, A., Lee, M. S. Y., Bronzati, M., Hsiou, A. S. CRETACEOUS BLINDSNAKE FROM BRAZIL FILLS MAJOR GAP IN SNAKE EVOLUTION. iScience, 1-40. doi: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.101 \/j.isci.2020.101834\">https:\/\/doi.org\/10.101 \/j.isci.2020.101834<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores brasileiros em parceria com colegas australianos descreveram recentemente, o f\u00f3ssil de uma esp\u00e9cie de &#8220;cobra-cega&#8221;, que viveu no Sudeste do Brasil h\u00e1 mais de 85 milh\u00f5es de anos. 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