{"id":4694,"date":"2021-01-15T10:28:01","date_gmt":"2021-01-15T13:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/?p=4694"},"modified":"2021-01-15T13:54:36","modified_gmt":"2021-01-15T16:54:36","slug":"um-grande-golfinho-predador-e-a-evolucao-dos-cetaceos-modernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2021\/01\/15\/um-grande-golfinho-predador-e-a-evolucao-dos-cetaceos-modernos\/","title":{"rendered":"Um grande golfinho predador e a evolu\u00e7\u00e3o dos cet\u00e1ceos modernos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Golfinhos e baleias atuais, junto com os peixes-boi e dugongos (Sir\u00eanios), s\u00e3o mam\u00edferos completamente adaptados ao ambiente aqu\u00e1tico. Suas atividades como alimenta\u00e7\u00e3o, locomo\u00e7\u00e3o, descanso e reprodu\u00e7\u00e3o dependem inteiramente desse ambiente. Eles n\u00e3o precisam, por exemplo, retornar \u00e0 terra para executarem essas a\u00e7\u00f5es, diferentemente do que ocorre em outros grupos de mam\u00edferos aqu\u00e1ticos, como le\u00f5es marinhos, focas ou lontras.<\/strong> <strong>Mas voc\u00ea j\u00e1 pensou em como esse processo aconteceu?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A origem dos primeiros <strong>cet\u00e1ceos<\/strong> (grupo que inclui golfinhos e baleias) se deu a partir de animais completamente terrestres. Formas extintas aparentadas aos <strong>artiod\u00e1ctilos<\/strong> (grande grupo que inclui cabras, bois, camelos, hipop\u00f3tamos, etc.) come\u00e7aram essa jornada h\u00e1 cerca de <strong>50 milh\u00f5es de anos atr\u00e1s<\/strong>. Eles se adaptaram, com o passar do tempo, \u00e0s diversas peculiaridades do ambiente aqu\u00e1tico, como a maior viscosidade, densidade, empuxo e press\u00e3o hidrost\u00e1tica. Entre as principais adapta\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelos cet\u00e1ceos, modifica\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas associadas \u00e0 <strong>nata\u00e7\u00e3o<\/strong> foram algumas das mais fundamentais para sua sobreviv\u00eancia nesse &#8220;novo&#8221; ambiente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Indohyus_BW.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4702\" width=\"747\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Indohyus_BW.jpg 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Indohyus_BW-300x134.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Indohyus_BW-768x343.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 747px) 100vw, 747px\" \/><figcaption>Indohyus major, um animal extinto do Eoceno, terrestre e herb\u00edvoro, relacionado aos primeiros cet\u00e1ceos. Arte de Nobu Tamura CC BY 3.0.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Nos cet\u00e1ceos modernos, diversas caracter\u00edsticas anat\u00f4micas e comportamentais permitem manobras na \u00e1gua e facilitam o deslocamento desses animais nos oceano, mares e rios. A evolu\u00e7\u00e3o de algumas caracter\u00edsticas pode ser rastreada nos f\u00f3sseis. Por\u00e9m, h\u00e1 uma falta consider\u00e1vel de informa\u00e7\u00f5es sobre uma parte delas. Uma rela\u00e7\u00e3o ainda pouco compreendida, por exemplo, \u00e9 como se deu a diverg\u00eancia entre os golfinhos (<strong>odontocetos<\/strong>) e as baleias (<strong>misticetos<\/strong>).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"585\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Cynthiacetus_and_Ambulocetus-1024x585.jpg\" alt=\"Cynthiacetus (esquerda), um cet\u00e1ceo completamente aqu\u00e1tico, e Ambulocetus natans, uma forma semi-aqu\u00e1tica de cet\u00e1ceo do Eoceno. Foto de Jean-Pierre Dalb\u00e9ra.\" class=\"wp-image-4696\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Cynthiacetus_and_Ambulocetus-1024x585.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Cynthiacetus_and_Ambulocetus-300x171.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Cynthiacetus_and_Ambulocetus-768x439.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Cynthiacetus_and_Ambulocetus.jpg 1365w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Cynthiacetus (esquerda), um cet\u00e1ceo extinto completamente aqu\u00e1tico do fim do Eoceno, e Ambulocetus natans, uma forma semi-aqu\u00e1tica de cet\u00e1ceo do in\u00edcio do Eoceno. Foto de Jean-Pierre Dalb\u00e9ra, CC BY 2.0.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Abundantes esqueletos de cet\u00e1ceos do <strong>Eoceno<\/strong> ilustram a transi\u00e7\u00e3o da vida semiaqu\u00e1tica para a completamente aqu\u00e1tica, incluindo o desenvolvimento de um <strong>corpo alongado<\/strong>, <strong>cil\u00edndrico<\/strong> e <strong>com extremidades afiladas<\/strong> (corpo fusiforme). F\u00f3sseis do Eoceno tamb\u00e9m  demonstram o gradual processo de <strong>redu\u00e7\u00e3o das patas traseiras<\/strong> e a <strong>migra\u00e7\u00e3o das narinas em dire\u00e7\u00e3o ao topo da cabe\u00e7a<\/strong>. Entretanto, h\u00e1 uma raridade excepcional de esqueletos de cet\u00e1ceos em rochas do <strong>Oligoceno<\/strong>, o per\u00edodo geol\u00f3gico seguinte ao Eoceno, e isso tem dificultado muito os esfor\u00e7os para compreender a <strong>evolu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de nata\u00e7\u00e3o dos cet\u00e1ceos<\/strong>. No Eoceno, a nata\u00e7\u00e3o ainda era controlada parcialmente pelas patas traseiras, mas com o tempo ela passa a ser exercida exclusivamente pela cauda robusta.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2020 o pesquisador Robert W. Boessenecker, junto com outros colegas, publicaram a descri\u00e7\u00e3o de uma nova esp\u00e9cie de um <strong>raro golfinho f\u00f3ssil de grande porte<\/strong>, encontrado em estratos do <strong>Oligoceno do sul da Calif\u00f3rnia<\/strong> (E.U.A). Materiais deste animal j\u00e1 eram conhecidos desde o s\u00e9culo 19, mas eram muito fragmentados, o que impedia que pesquisadores conhecessem melhor a esp\u00e9cie. Boessenecker e colegas descobriram, na d\u00e9cada de 1990, <strong>um esp\u00e9cime surpreendentemente bem preservado<\/strong>, ainda que parcial, que permitiu n\u00e3o s\u00f3 batizarem adequadamente o animal <em>(Ankylorhiza tiedemani<\/em>), como  tamb\u00e9m estudarem a evolu\u00e7\u00e3o de algumas caracter\u00edsticas transicionais pouco conhecidas dos cet\u00e1ceos. <\/p>\n\n\n\n<p><em>Ankylorhiza tiedemani<\/em> possu\u00eda diversas <strong>caracter\u00edsticas compartilhadas entre as baleias e golfinhos<\/strong>, o que deu aos cientistas pistas preciosas sobre a evolu\u00e7\u00e3o destes grupos. O tamanho e outras caracter\u00edsticas do corpo animal indicam que ele<em> <\/em>era um <strong>predador ativo<\/strong>, de <strong>nata\u00e7\u00e3o r\u00e1pida<\/strong>, que <strong>dominou as \u00e1guas do seu tempo<\/strong>, ocupando um nicho semelhante aos das grandes orcas atuais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/sollH0Iou72Q9_dSAJmnHWWMDPO_uaGMXs35M0qi_hu26CvqqtK6dGzzvxk1Tv4SWcstjajQr3prYR4OrJ5i5Kfcnfu2sNrjr9THjVwMX8ZDFLNOwPteHPtTKN9KuA\" alt=\"\" \/><figcaption>Esqueleto de <em>Ankylorhiza tiedemani <\/em>(BOESSENECKER et al., 2020).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O primeiro material descrito para essa esp\u00e9cie foi um cr\u00e2nio muito incompleto recuperado por volta de 1880, que, na \u00e9poca, foi atribu\u00eddo ao g\u00eanero <em>Squalodon.<\/em> Com a descoberta do esqueleto mais completo, descrito por Boessenecker e colegas em 2020, novas an\u00e1lises foram feitas e descobriu-se que, na verdade, o material pertencia a um novo g\u00eanero, batizado de <em>Ankylorhiza. A. tiedemani <\/em>\u00e9 considerado, at\u00e9 o momento, o<strong> maior Odontoceto do Oligoceno<\/strong>, com aproximadamente <strong>4,8m de comprimento<\/strong>, tamanho n\u00e3o superado at\u00e9 o Mioceno, quando aparecem no registro fossil\u00edfero os primeiros grandes cachalotes.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A. tiedemani<\/em> possui o <strong>cr\u00e2nio e mand\u00edbula robustos<\/strong>, com uma <strong>denti\u00e7\u00e3o simplificada<\/strong> quando comparada com os basilossaur\u00eddeos, grupo de cet\u00e1ceos mais antigos, que tinham os <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Dorudon_atrox_skull_detail_-_Smithsonian.JPG\" data-rel=\"lightbox-image-0\" data-rl_title=\"\" data-rl_caption=\"\" title=\"\">dentes cheios de cristas e pequenas pontas acess\u00f3rias<\/a>. As caracter\u00edsticas dent\u00e1rias de <em>A. tiedemani<\/em> indicavam que ele se tratava de <strong>um ca\u00e7ador com elevada for\u00e7a de mordida<\/strong>, semelhante \u00e0s encontradas nos primeiros cachalotes. Seus dentes da parte frontal s\u00e3o um mist\u00e9rio, pois possuem um \u00e2ngulo estranho de inser\u00e7\u00e3o no cr\u00e2nio. Eles apontam para frente, o que indica que podem ter sido utilizados para competi\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos do mesmo sexo, <strong>como fazem as baleias-bicudas atuais<\/strong>, ou empregados na captura e abate de presas. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"513\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve-1024x513.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4697\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve-1024x513.jpg 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve-768x384.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve-1536x769.jpg 1536w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2021\/01\/Ziphius_cavirostris_Museum_de_Gene\u0300ve.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Baleia-bicuda (<em>Ziphius cavirostris<\/em>). Nos machos adultos podem ver-se dois dentes na ponta do maxilar inferior que est\u00e3o orientados para a frente. Foto de <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/User:Eveha\">Eveha<\/a> CC BY 3.0.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As nadadeiras peitorais de <em>A. tiedemani<\/em> possuem v\u00e1rias caracter\u00edsticas derivadas, incluindo ossos longos (\u00famero, r\u00e1dio e ulna) mais curtos quando comparados com os basilossaur\u00eddeos, por\u00e9m, mais alongados quando comparados com os Odontocetos atuais. Suas nadadeiras e coluna vertebral tamb\u00e9m possuem caracter\u00edsticas intermedi\u00e1rias, a maioria mais pr\u00f3xima de outros odontocetos basais, mas com algumas correla\u00e7\u00f5es com os misticetos. Isso coloca a esp\u00e9cie pr\u00f3xima \u00e0 base da \u00e1rvore evolutiva dos odontocetos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/9ZtDtf4EOQVJFmOe8dypqaNJqA57sYjBIO60sgntp93NXaCxYfOfhEbwEYGNErzVPLUB4ObcZZ1-9uy1jVEeXF2Y-MIM71_bGOF3RRGaG4DMMvhJacavpC8_1G3Cqg\" alt=\"\" \/><figcaption>Rela\u00e7\u00f5es filogen\u00e9ticas de <em>Ankylorhiza tiedemani<\/em> (BOESSENECKER et al., 2020).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A mobilidade de <em>A. tiedemani<\/em> seria semelhante \u00e0 das falsas-orcas e orcas atuais, indicando uma nata\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada, mais poderosa do que a dos basilossaur\u00eddeos (formas mais basais) de porte semelhante. Isso sugere que a esp\u00e9cie tinha <strong>velocidade suficiente para perseguir outros cet\u00e1ceos,<\/strong> <strong>sir\u00eanios, tartarugas, aves marinhas, tubar\u00f5es e outros peixes contempor\u00e2neos, <\/strong>incluindo esses organismos em sua dieta potencial.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A. tiedemani, <\/em>finalmente, trouxe um pouco de luz sobre como diversas adapta\u00e7\u00f5es convergentes estavam presentes em odontocetos e misticetos basais, principalmente no que diz respeito a sua mobilidade. Futuras descobertas de esp\u00e9cimes mais completos ou ainda de novas esp\u00e9cies provenientes dos mesmos estratos geol\u00f3gicos podem ser chave na <strong>compreens\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o de mais aspectos da locomo\u00e7\u00e3o dos cet\u00e1ceos modernos<\/strong>. Essas descobertas tamb\u00e9m podem <strong>auxiliar na elucida\u00e7\u00e3o de mais detalhes sobre como se deu a diverg\u00eancia entre baleias e golfinhos, <\/strong>um evento evolutivo fascinante e ainda pouco compreendido, que se deu nos mares do final do Eoceno e do in\u00edcio do Oligoceno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BOESSENECKER, Robert W. et al. Convergent evolution of swimming adaptations in modern whales revealed by a large macrophagous dolphin from the Oligocene of South Carolina. <strong>Current Biology<\/strong>, v. 30, n. 16, p. 3267-3273. e2, 2020.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Golfinhos e baleias atuais, junto com os peixes-boi e dugongos (Sir\u00eanios), s\u00e3o mam\u00edferos completamente adaptados ao ambiente aqu\u00e1tico. Suas atividades como alimenta\u00e7\u00e3o, locomo\u00e7\u00e3o, descanso e reprodu\u00e7\u00e3o dependem inteiramente desse ambiente. 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