{"id":4973,"date":"2022-12-09T10:36:22","date_gmt":"2022-12-09T13:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/?p=4973"},"modified":"2022-12-16T20:24:01","modified_gmt":"2022-12-16T23:24:01","slug":"sacos-aereos-evoluiram-multiplas-vezes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2022\/12\/09\/sacos-aereos-evoluiram-multiplas-vezes\/","title":{"rendered":"Sacos a\u00e9reos evolu\u00edram m\u00faltiplas vezes!?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\" eplus-wrapper\"><strong>A esp\u00e9cie humana est\u00e1 na Terra h\u00e1 apenas 300 mil anos. Somos jovens nesse pequena planeta azul e din\u00e2mico. Os dinossauros, por sua vez, est\u00e3o por aqui h\u00e1 pelo menos 233 milh\u00f5es de anos, desde o Per\u00edodo Tri\u00e1ssico e, n\u00e3o custa lembrar,  permanecem vivos at\u00e9 hoje na forma das aves. Esse grupo de animais tolerou e se adaptou a uma grande variedade de climas e mudan\u00e7as dram\u00e1ticas na configura\u00e7\u00e3o dos continentes ao longo do tempo. Por isso s\u00e3o um modelo excelente para estudarmos evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica. Eles t\u00eam muito a nos ensinar sobre os segredos da sobreviv\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Durante o auge do reinado dos dinossauros, na Era Mesozoica, o clima do nosso planeta era muito mais quente do que hoje. Uma das caracter\u00edsticas que favoreceu este grupo de animais foi a evolu\u00e7\u00e3o de sacos a\u00e9reos, um tipo de <em>upgrade<\/em> do sistema respirat\u00f3rio. Os sacos a\u00e9reos s\u00e3o estruturas conectadas aos pulm\u00f5es, que se espalham por toda cavidade tor\u00e1xica e abdominal desses animais, penetrando inclusive os ossos. Est\u00e3o presentes nas aves atuais e n\u00e3o apenas tornam sua respira\u00e7\u00e3o mais eficiente, mas tamb\u00e9m ajudam a deixar os seus esqueletos mais leves, o que favorece, por exemplo, o voo.  Apesar de muito caracter\u00edsticos das aves, os sacos a\u00e9reos n\u00e3o s\u00e3o uma exclusividade dos delas. Eles tamb\u00e9m estavam presentes nos dinossauros n\u00e3o-avianos (todos os outros dinossauros, que n\u00e3o as aves) muito antes da evolu\u00e7\u00e3o do voo. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large eplus-wrapper\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"812\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1024x812.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4974\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1024x812.png 1024w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-300x238.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-768x609.png 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-500x396.png 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-800x634.png 800w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image.png 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Esquema mostrando os sacos a\u00e9reos em aves atuais. Fonte: https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Sacos_a%C3%A9reos<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Imagina-se que os sacos a\u00e9reos originalmente favoreceram os dinossauros por funcionarem como um sistema eficiente de capta\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio e tamb\u00e9m por serem um sistema de refrigera\u00e7\u00e3o natural. Se voc\u00ea, hoje, fica ofegante fazendo exerc\u00edcios no ver\u00e3o quente, saiba que os dinossauros eram (e s\u00e3o!) muito mais eficientes que voc\u00ea em captar oxig\u00eanio e se refrigerar. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que eles sa\u00edram na frente na corrida evolutiva (enquanto nosso grupo, o dos mam\u00edferos, ficou por quase 150 milh\u00f5es de anos no banquinho de reservas evolutivo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">J\u00e1 \u00e9 bem sabido que dinossauros do Per\u00edodo Cret\u00e1ceo, como o <em>T. rex<\/em> e alguns pesco\u00e7udos, como o <em>Ibirania<\/em>, tinham um extenso sistema de sacos a\u00e9reos pelo corpo. Inclusive, bem parecido com os das aves atuais. S\u00f3 que a origem e evolu\u00e7\u00e3o deste sistema tem sido um enigma por v\u00e1rias d\u00e9cadas. Ser\u00e1 que os primeiros dinossauros, l\u00e1 do per\u00edodo Tri\u00e1ssico, j\u00e1 tinham sacos a\u00e9reos? <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">O que sab\u00edamos era que a pneumaticidade do esqueleto relacionada a um sistema de sacos a\u00e9reos estava presente tanto em dinossauros derivados, ou seja, aqueles que viveram durante o Per\u00edodo Cret\u00e1ceo, quanto em pterossauros, r\u00e9pteis voadores parentes pr\u00f3ximos dos dinossauros. Ambos os grupos seguiram um caminho evolutivo independente a partir do Per\u00edodo Tri\u00e1ssico. Uma explica\u00e7\u00e3o para a presen\u00e7a de sacos a\u00e9reos tanto em dinossauros quanto em pterossauros seria que a origem dessas estruturas se deu bem antes deles terem seguido seu caminho evolutivo independente, isto \u00e9, ainda em seus ancestrais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Por\u00e9m, a quest\u00e3o permaneceu em aberto. Faltavam estudos avaliando a presen\u00e7a dessas estruturas tanto em dinossauros mais antigos quanto em ancestrais dos pterossauros e dinossauros&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para nossa sorte, o Brasil t\u00eam os f\u00f3sseis dos mais antigos dinossauros e \u00e9 a\u00ed que entra o estudo publicado agora em Dezembro de 2022 pelo nosso grupo de pesquisa, na revista <em>Scientific Reports<\/em>:<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Para tentar solucionar este enigma, um grupo de pesquisadores brasileiros da Unicamp, UFRN, UFSCar e UFSM e um colaborador da <em>Western University of Health Sciences<\/em>, dos E.U.A., analisaram tr\u00eas f\u00f3sseis de alguns dos mais antigos dinossauros do mundo,  <em>Buriolestes<\/em>, <em>Pampadromaeus<\/em> e <em>Gnathovorax<\/em>, do Per\u00edodo Tri\u00e1ssico do Rio Grande do Sul. Estes s\u00e3o alguns dos dinossauros mais antigos conhecidos at\u00e9 o momento, com 233 milh\u00f5es de anos de idade!<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/zy8UPsTBYOMi0OkwySR_V1rUkYrhwxvDHMsJXzQs1QJrL2HFQm3GoVfmkQmiBOT2bHBG991uDRqpOQ_LokdeFIeBU91l_CdKdwWPvDuZH_K0LXceNkeLWi3cMchNuuze9BN3-MdAKLR2MCmv2mTQ4284rZzVK3lJq8yOz6cOS_0Xd4nAyxJf-ZElepzhVA\" alt=\"\" \/><figcaption>Reconstru\u00e7\u00e3o do dinossauro herrerassaur\u00eddeo <em>Gnathovorax<\/em>. Arte por M\u00e1rcio L. Castro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Foi poss\u00edvel notar que os ossos da coluna vertebral (v\u00e9rtebras) desses animais apresentavam pequenos orif\u00edcios nas laterais. Sabemos que os sacos a\u00e9reos ingressam no esqueleto atrav\u00e9s de estruturas semelhantes a isso. Por\u00e9m, os orif\u00edcios encontrados eram muito pequenos, o que talvez indicasse uma outra fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Realizamos, ent\u00e3o, tomografias de alta resolu\u00e7\u00e3o (micro-tomografias) para investigar a estrutura interna dos f\u00f3sseis. A an\u00e1lise revelou uma arquitetura bastante densa nas v\u00e9rtebras desses animais, bem diferente do que conhecemos em esqueletos permeados por sacos a\u00e9reos de dinossauros que viveram no Cret\u00e1ceo ou mesmo as Aves. Por\u00e9m, <em>Buriolestes<\/em> e <em>Pampadromaeus<\/em> mostraram uma vascularidade mais complexa no interior das v\u00e9rtebras, do que <em>Gnathovorax<\/em>. Uma vascularidade mais desenvolvida pode ter servido de alicerce para o surgimento das estruturas pneum\u00e1ticas conhecidas como c\u00e2maras e camelas, t\u00edpicas da invas\u00e3o das v\u00e9rtebras por sacos a\u00e9reos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lh6.googleusercontent.com\/H6PJHiV_JdPeTtoluIljCpDiCp35YmnL8ZP_Plbaz8PHNO-9ESAgaufv8neHN1h2-logXOYVqjio7E72P4DHw4XtR94_P25uwy6-k4ULzz1sTVr6fFwk7ddlB4orNHlAzV2eSC9nZ9YrpOo1jOMeBRuhuwhGqYgYAMSUQQ3yyv2LD9a3YfXfxrKDXdMqWg\" alt=\"\" \/><figcaption>Reconstru\u00e7\u00e3o do dinossauro <em>Pampadromaeus<\/em>. Arte por M\u00e1rcio L. Castro.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">A  aus\u00eancia de pneumaticidade no esqueleto p\u00f3s-craniano desses dinossauros mais antigos contradiz a hip\u00f3tese de que os sacos a\u00e9reos invasivos presentes em dinossauros e pterossauros s\u00e3o hom\u00f3logos, ou seja, de que teriam surgido no ancestral comum desses animais. Isso indica que a pneumaticidade \u00f3ssea associada \u00e0 sacos a\u00e9reos evoluiu <strong>pelo menos tr\u00eas vezes independentemente<\/strong> em Avemetatarsalia, grupo que inclui dinossauros, pterossauros e seus parentes. Ou seja, evoluiu de forma independente em pterossauros, dinossauros ter\u00f3podes (grupo dos dinossauros carn\u00edvoros) e sauropodomorfos (grupo dos dinossauros pesco\u00e7udos).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full eplus-wrapper\"><img decoding=\"async\" width=\"685\" height=\"502\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4983\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1.png 685w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1-300x220.png 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2022\/12\/image-1-500x366.png 500w\" sizes=\"(max-width: 685px) 100vw, 685px\" \/><figcaption>Uma \u00e1rvore simplificada dos dinossauros e seus parentes mostrando a evolu\u00e7\u00e3o independente dos sacos a\u00e9reos em pterossauros, dinossauros ter\u00f3podes e sauropodomorfos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Essa descoberta muda a forma como compreend\u00edamos os dinossauros e seus parentes. Passo a passo estamos entendendo melhor a sua evolu\u00e7\u00e3o e o segredo do seu sucesso. \u00c9 poss\u00edvel que algum fator ambiental tenha sido o gatilho para a evolu\u00e7\u00e3o desse sistema sacos a\u00e9reos em diferentes grupos de avemetatarsalianos, mas isso s\u00e3o cenas para os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Gostar\u00edamos de agradecer as ag\u00eancias de fomento que tornaram poss\u00edvel esta pesquisa: o CNPq, a FAPESP e a FAPERGS. <\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">Acesse o artigo completo:  Aureliano et al. 2022. The absence of an invasive air sac system in the earliest dinosaurs suggests multiple origins of vertebral pneumaticity. Scientific Reports. <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-022-25067-8\">https:\/\/ww<\/a><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-022-25067-8\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">w.na<\/a><a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-022-25067-8\">ture.com\/articles\/s41598-022-25067-8 <\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\" eplus-wrapper\">E assista o v\u00eddeo de divulga\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/youtu.be\/8XenPxROthY\"><strong>https:\/\/youtu.be\/8XenPxROthY<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube eplus-wrapper\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Um dos grandes ENIGMAS da EVOLU\u00c7\u00c3O dos DINOSSAUROS SOLUCIONADO\" width=\"474\" height=\"267\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8XenPxROthY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A esp\u00e9cie humana est\u00e1 na Terra h\u00e1 apenas 300 mil anos. 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