{"id":4988,"date":"2023-02-14T16:04:03","date_gmt":"2023-02-14T19:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/?p=4988"},"modified":"2023-02-14T17:53:53","modified_gmt":"2023-02-14T20:53:53","slug":"um-dinossauro-no-exilio-e-a-luta-contra-o-colonialismo-cientifico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/2023\/02\/14\/um-dinossauro-no-exilio-e-a-luta-contra-o-colonialismo-cientifico\/","title":{"rendered":"Um dinossauro no ex\u00edlio e a luta contra o colonialismo cient\u00edfico"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol\u00eamicas da Paleontologia nos \u00faltimos anos. Para bem ou para mal, \u201cUbirajara jubatus\u201d tem chamado a aten\u00e7\u00e3o como poucos f\u00f3sseis<\/strong> <strong>na hist\u00f3ria da Paleontologia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"732\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4989\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara.jpg 1000w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara-300x220.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara-768x562.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara-500x366.jpg 500w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/colecionadores\/wp-content\/uploads\/sites\/243\/2023\/02\/Saulo-Daniel_Ubirajara-800x586.jpg 800w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte de Saulo Daniel, publicada no Twitter.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando foi revelado ao mundo no dia 13 de dezembro de 2020, &#8220;Ubirajara jubatus&#8221; deveria ter sido visto como uma descoberta interessante do ponto de pista cient\u00edfico, pois tratava-se do primeiro dinossauro n\u00e3o-aviano com penas do Hemisf\u00e9rio do Sul. Contudo, <strong>a sua import\u00e2ncia foi rapidamente ofuscada por um emaranhado de problemas \u00e9ticos e legais. <\/strong>O estudo de &#8220;Ubirajara&#8221; representa um t\u00edpico caso de <strong>colonialismo cient\u00edfico<\/strong>: um f\u00f3ssil brasileiro que foi parar de maneira suspeita num museu alem\u00e3o (Museu Estadual de Hist\u00f3ria Natural de Karlsruhe) e uma pesquisa feita exclusivamente por cientistas estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de <strong>colonialismo cient\u00edfico<\/strong> foi definido em 1967 por Johann Galtung como <strong>\u201co processo pelo qual o centro de adquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento sobre uma na\u00e7\u00e3o est\u00e1 fora a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>. Isto se aplica ainda \u00e0 Paleontologia de v\u00e1rios pa\u00edses, cujas pesquisas, em pleno s\u00e9culo XXI, s\u00e3o predominantemente feitas por estrangeiros. <\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do Brasil, pa\u00edses como China, Mong\u00f3lia, Marrocos, Rep\u00fablica Dominicana e Myanmar, t\u00eam estado na mira, tanto de traficantes de f\u00f3sseis, como de pesquisadores sem escr\u00fapulos. Os f\u00f3sseis atraem a curiosidade do p\u00fablico e s\u00e3o um <strong>valioso recurso<\/strong> em muitos aspectos: <strong>cient\u00edfico, educacional, cultural<\/strong> e at\u00e9 <strong>econ\u00f4mico<\/strong>, gerando <strong>turismo e beneficiando o com\u00e9rcio local<\/strong>. Por\u00e9m, todos estes benef\u00edcios ficam num pa\u00eds estrangeiro, quando os f\u00f3sseis s\u00e3o levados (legal ou ilegalmente) ao exterior e terminam estudados por equipes de outros pa\u00edses, o que cria depend\u00eancia cient\u00edfica e perpetua desigualdades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, assim como em toda a Am\u00e9rica Latina e na maior parte dos pa\u00edses do mundo, os f\u00f3sseis pertencem legalmente \u00e0 Na\u00e7\u00e3o onde s\u00e3o encontrados. Durante d\u00e9cadas, contudo, milhares de f\u00f3sseis t\u00eam sa\u00eddo ilegalmente da regi\u00e3o do Araripe, no Nordeste do Brasil, regi\u00e3o muito rica em termos paleontol\u00f3gicos, mas com um baixo \u00edndice de desenvolvimento humano. Estes f\u00f3sseis s\u00e3o adquiridos a pre\u00e7os irris\u00f3rios por estrangeiros, chegam ilegalmente a feiras e leil\u00f5es na Europa e terminam em cole\u00e7\u00f5es privadas ou em museus estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Centenas destes f\u00f3sseis no ex\u00edlio t\u00eam sido estudados por cientistas estrangeiros de maneira impune nas \u00faltimas d\u00e9cadas. <\/strong>Este problema \u00e9 mais do que conhecido pela comunidade cient\u00edfica brasileira, por\u00e9m <strong>estamos acostumados a que as nossas vozes n\u00e3o sejam escutadas no exterior.<\/strong> Problema que n\u00e3o enfrentam, por exemplo, os autores do estudo de &#8220;Ubirajara &#8221; e de v\u00e1rios outros f\u00f3sseis extra\u00eddos irregularmente do Brasil. <strong>Eberhard Frey <\/strong>(ex-curador da cole\u00e7\u00e3o de vertebrados do museu onde ainda hoje est\u00e1 &#8220;Ubirajara&#8221;) era, at\u00e9 2021, nada menos que o presidente da Associa\u00e7\u00e3o Europeia de Paleontologia de Vertebrados (EAVP,  sigla em ingl\u00eas), enquanto que <strong>David Martill,<\/strong> tamb\u00e9m autor do estudo de &#8220;Ubirajara&#8221;, publicou <a href=\"https:\/\/researchportal.port.ac.uk\/en\/publications\/why-palaeontologists-must-break-the-law-a-polemic-from-an-apologi\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/researchportal.port.ac.uk\/en\/publications\/why-palaeontologists-must-break-the-law-a-polemic-from-an-apologi\">um artigo defendendo abertamente que os paleont\u00f3logos desrrespeitem as leis locais.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma luta que sempre tem sido desigual. Por\u00e9m, desta vez foi diferente. Estamos na era das redes sociais, da comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica online e das hashtags. O uso de hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo t\u00eam mostrado que as redes sociais podem unir esfor\u00e7os em torno de uma causa. #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil), criada no Twitter pela paleont\u00f3loga e divulgadora cient\u00edfica Aline Ghilardi, se espalhou como fogo na internet, poucas horas ap\u00f3s a not\u00edcia do novo dinossauro. No Youtube, foram feitas v\u00e1rias lives denunciando o caso, <a href=\"https:\/\/youtu.be\/Uf_QjXwbEDU\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/youtu.be\/Uf_QjXwbEDU\">uma delas<\/a>, pediu ao p\u00fablico pra desenhar &#8220;Ubirajara&#8221; e protestar nas redes usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. Em poucos dias este era o dinossauro mais desenhado do mundo: artistas, crian\u00e7as e p\u00fablico geral participavam da campanha. O ru\u00eddo produzido foi t\u00e3o alto que em duas semanas a revista <em>Cretaceous Research<\/em> retirou a pesquisa do ar e anunciou que investigava o caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2021, o museu de Karlsruhe contra-atacou, publicando no Instagram um comunicado no qual afirmavam que o dinossauro Ubirajara era \u2018propriedade do estado de Baden-W\u00fcrttemberg\u2019 e que n\u00e3o seria devolvido ao Brasil. Em poucos dias acumularam-se mais de 10 mil coment\u00e1rios pouco amig\u00e1veis de brasileiros usando a hashtag #UbirajaraBelongstoBR. O museu teve que desativar a sua conta no Instagram. Poucos dias depois, <a href=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/it-s-second-extinction-retraction-deepens-legal-and-ethical-battle-over-rare-dinosaur\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.science.org\/content\/article\/it-s-second-extinction-retraction-deepens-legal-and-ethical-battle-over-rare-dinosaur\">a revista Science revelou que &#8220;Ubirajara&#8221; foi importado pela Alemanha em 2006 por uma empresa privada e, ent\u00e3o, comprado pelo Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe, em 2009,<\/a> o que contradizia a alega\u00e7\u00e3o de Eberhard Frey, que afirmava tanto que ele mesmo tinha transportado o f\u00f3ssil para Alemanha em 1995, portando uma suposta autoriza\u00e7\u00e3o do governo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>No 15 de novembro de 2021, publicamos <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-021-01588-9\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41559-021-01588-9\">uma carta na revista Nature Ecology and Evolution<\/a>, na qual explicamos os problemas legais e \u00e9ticos envolvendo n\u00e3o s\u00f3 &#8220;Ubirajara&#8221;, mas v\u00e1rios outros f\u00f3sseis que encontravam-se no museu de Karlsruhe e em outros museus do pa\u00eds. Enviamos essa carta \u00e0 ministra de Ci\u00eancia e Cultura do estado alem\u00e3o de Baden-W\u00fcrttemberg e, um m\u00eas depois, ela nos respondeu<strong> prometendo investigar o caso e tomar a\u00e7\u00f5es contra os respons\u00e1veis. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rsos.210898\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/royalsocietypublishing.org\/doi\/10.1098\/rsos.210898\">Em mar\u00e7o de 2022 publicamos, ent\u00e3o, um amplo estudo onde denunciamos o colonialismo cient\u00edfico em centenas de estudos sobre f\u00f3sseis do Brasil e do M\u00e9xico.<\/a> E, finalmente, em julho de 2022, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/07\/museu-alemao-tera-de-devolver-fossil-de-dinossauro-levado-irregularmente-do-brasil.shtml\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/07\/museu-alemao-tera-de-devolver-fossil-de-dinossauro-levado-irregularmente-do-brasil.shtml\">o Minist\u00e9rio de Ci\u00eancia e Cultura de Baden-W\u00fcrttemberg anunciou que o Museu Estadual de Historia Natural de Karlsruhe tinha atuado de maneira desonesta e ordenou a devolu\u00e7\u00e3o do f\u00f3ssil ao Brasil<\/a>. Al\u00e9m disso, solicitou ao museu que informasse sobre todos os f\u00f3sseis que se encontram irregularmente na sua cole\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Eberhard Frey aposentou-se prematuramente em 2022 e Norbert Lenz, tamb\u00e9m autor do estudo e diretor do museu, foi removido do seu cargo em julho de 2022. <\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 repercuss\u00e3o gerada pelo caso, algumas revistas acad\u00eamicas t\u00eam adaptado pol\u00edticas mais r\u00edgidas sobre a origem legal dos f\u00f3sseis nas suas publica\u00e7\u00f5es. Adicionalmente, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/02\/mobilizacao-por-dino-brasileiro-na-alemanha-inaugurou-era-de-negociacoes.shtml\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/02\/mobilizacao-por-dino-brasileiro-na-alemanha-inaugurou-era-de-negociacoes.shtml\">alguns pa\u00edses come\u00e7aram a retornar voluntariamente f\u00f3sseis ao Brasil,<\/a> como em outubro de 2021, quando <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/tecnologia\/fossil-de-aranha-que-homenageia-pabllo-vittar-e-devolvido-ao-brasil\/\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/tecnologia\/fossil-de-aranha-que-homenageia-pabllo-vittar-e-devolvido-ao-brasil\/\">uma universidade dos EUA entregou 36 aranhas f\u00f3sseis ao Museu de Paleontologia de Santana do Cariri,<\/a> e em <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/02\/fossil-de-pterossauro-brasileiro-e-devolvido-por-museu-da-belgica.shtml\" data-type=\"URL\" data-id=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/02\/fossil-de-pterossauro-brasileiro-e-devolvido-por-museu-da-belgica.shtml\">fevereiro de 2022, quando a B\u00e9lgica devolveu ao Brasil um pterossauro.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que estas linhas s\u00e3o escritas, seguimos esperando pela repatria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 do dinossauro &#8220;Ubirajara&#8221;, mas de centenas de outros f\u00f3sseis que se encontram irregularmente em Karlsruhe e em outros museus da Alemanha. Aconte\u00e7a o que acontecer, a Ci\u00eancia n\u00e3o ser\u00e1 a mesma ap\u00f3s este caso. <strong>&#8220;Ubirajara&#8221; est\u00e1 j\u00e1 no sal\u00e3o da fama dos maus exemplos na Paleontologia, junto a <em>Archaeoraptor<\/em> e ao Homem de Piltdown.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>*Este texto foi originalmente publicado em espanhol em <a href=\"http:\/\/saberesyciencias.com.mx\/2023\/02\/10\/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico\/\">http:\/\/saberesyciencias.com.mx\/2023\/02\/10\/dinosaurio-exilio-la-lucha-colonialismo-cientifico\/ <\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n\n\n\n<p>Smyth, R.S.H. et al. 2020. WITHDRAWN: A maned theropod dinosaur from Gondwana with elaborate integumentary structures. Cretaceous Research.<\/p>\n\n\n\n<p>Martill, D. 2018. Why palaeontologists must break the law: a polemic from an apologist. The Geological Curator 10: 641-649.<\/p>\n\n\n\n<p>Padilha, P. K. 2020. ROUBARAM mais um DINOSSAURO DO BRASIL #UbirajarabelongstoBR. https:\/\/youtu.be\/Uf_QjXwbEDU<\/p>\n\n\n\n<p>P\u00e9rez Ortega, R. 2021. Retraction is \u2018second extinction\u2019 for rare dinosaur. Science 374: 14-15.<\/p>\n\n\n\n<p>Cisneros, J.C. 2021. The moral and legal imperative to return illegally exported fossils. Nature Ecology &amp; Evolution, 6:2-3.<\/p>\n\n\n\n<p>Cisneros, J.C. 2022. Digging deeper into colonial palaeontological practices in modern day Mexico and Brazil. Royal Society Open Science 9:210898.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos imaginariam que um dinossauro do tamanho de um ganso desencadearia uma das maiores pol\u00eamicas da Paleontologia nos \u00faltimos anos. Para bem ou para mal, \u201cUbirajara jubatus\u201d tem chamado a aten\u00e7\u00e3o como poucos f\u00f3sseis na hist\u00f3ria da Paleontologia. 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