{"id":367,"date":"2017-11-30T19:36:54","date_gmt":"2017-11-30T21:36:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/?p=367"},"modified":"2018-02-28T20:48:38","modified_gmt":"2018-02-28T23:48:38","slug":"arte-feia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/2017\/11\/30\/arte-feia\/","title":{"rendered":"Arte feia (V. 3, N. 11, 2017)"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/quem-tem-medo-de-artista-v-3-n-8-2017\/\"><em>post<\/em><\/a> falamos dos recentes ataques sofridos por artistas contempor\u00e2neos brasileiros, que tiveram sua express\u00e3o cerceada. De l\u00e1 para c\u00e1, a pol\u00eamica sobre a liberdade do artista \u2013 e da arte \u2013 cresceu, atingindo importantes institui\u00e7\u00f5es, como o <a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/ensaio-polemica-la-bete-mam\/\">Museu de Arte Moderna de S\u00e3o Paulo<\/a>.<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios dos que defendem essas a\u00e7\u00f5es incluem a ideia de que os artistas n\u00e3o fazem arte. Alguns afirmam tamb\u00e9m que a verdadeira arte se perdeu em algum momento do passado, em que as obras eram realmente bonitas. Para eles, o que se faz hoje \u00e9 feio e, portanto, n\u00e3o pode ser considerado art\u00edstico.<\/p>\n<p>Em outras palavras, tem-se a impress\u00e3o de que a arte do passado era bonita, e que a do presente \u00e9 feia. Mas ser\u00e1 que isso \u00e9 verdadeiro?<\/p>\n<p><strong>Primeiro de tudo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Beleza e feiura n\u00e3o s\u00e3o conceitos est\u00e1ticos, eles mudam conforme o momento hist\u00f3rico e a sociedade em que se desenvolvem. Cada cultura tem o seu belo e o seu feio. Eles n\u00e3o s\u00e3o id\u00eanticos aos de outras culturas e inclusive podem variar numa mesma sociedade, com o passar do tempo.<\/p>\n<p>Isso significa que algo hoje considerado feio, pode ser bonito no futuro, e inclusive art\u00edstico.<\/p>\n<p><strong>Uma falsa impress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Arte n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de beleza. Ela sempre se relacionou com o feio de alguma forma, em todos os momentos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>No senso comum, predomina a ideia de que, para algo ser art\u00edstico, deve retratar, de maneira bela, o que \u00e9 naturalmente belo. Por exemplo, uma paisagem natural, o retrato de uma crian\u00e7a, etc.<\/p>\n<p>Assim, s\u00f3 seria art\u00edstico algo tido como bonito no sentido da contempla\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, aquilo que \u00e9 \u201cbom de olhar\u201d, porque desperta em n\u00f3s sentimentos pac\u00edficos, como calma e bem-estar.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que o feio sempre esteve presente nas obras art\u00edsticas, como na pintura que segue.<\/p>\n<figure id=\"attachment_366\" aria-describedby=\"caption-attachment-366\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-366\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/rubens-medusa-co\u0301pia.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"368\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/rubens-medusa-co\u0301pia.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/rubens-medusa-co\u0301pia-300x173.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-366\" class=\"wp-caption-text\">Peter Paul Rubens, Cabe\u00e7a de Medusa, c. 1617.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nesse caso, podemos dizer que <a href=\"https:\/\/educacao.uol.com.br\/biografias\/peter-paul-rubens.htm\">Rubens<\/a>\u00a0, importante pintor do per\u00edodo conhecido como Barroco, pintou algo feio (no sentido de n\u00e3o ser bom de olhar) de uma forma bonita. Essa forma bonita era aquela tida como \u201ca correta\u201d em sua \u00e9poca e, portanto, aceita por todos.<\/p>\n<p>O feio, aqui, existe para referir-se a uma conhecida hist\u00f3ria: o mito da Medusa.<\/p>\n<p><strong>Modernismos&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Mas a arte n\u00e3o precisa apenas retratar o feio de forma bonita. Ela pode fazer isso \u201cde forma feia\u201d. \u00c9 o que come\u00e7a a acontecer, de maneira muito intensa, no per\u00edodo hist\u00f3rico conhecido como Modernismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que as pessoas, em geral, associam a arte moderna \u00e0 feiura. \u00c9 que, nesse momento hist\u00f3rico, artistas come\u00e7aram a se voltar contra a maneira de fazer arte tida como correta.<\/p>\n<p>Isso ocorreu porque as sociedades ocidentais mudaram muito profundamente, num curto per\u00edodo de tempo. E as formas de fazer arte que se desenvolveram at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o interessavam mais aos artistas.<\/p>\n<p>Numa sociedade urbana, industrializada, marcada pela velocidade do trem e dos autom\u00f3veis, e que em breve se veria diante de duas grandes guerras mundiais, n\u00e3o era mais poss\u00edvel ter uma atitude contemplativa e idealizada.<\/p>\n<p>Eles queriam tratar desse novo mundo de uma maneira inteiramente nova e que correspondesse ao que era vivido. Para isso, subverteram as artes tradicionais e passaram a <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/arte-contemporanea-e-assim-mesmo-v-3-n-6-2017\/\">incorporar novos materiais art\u00edsticos ao seu fazer<\/a>.<\/p>\n<figure id=\"attachment_371\" aria-describedby=\"caption-attachment-371\" style=\"width: 640px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-371\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/picasso-co\u0301pia.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"511\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/picasso-co\u0301pia.jpg 640w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/picasso-co\u0301pia-300x240.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-371\" class=\"wp-caption-text\">Pablo Picasso, A musa, 1935.<br \/>Para falar da sociedade em que viviam, artistas modernos subverteram a maneira tradicional de fazer arte.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em resumo, artistas modernos e contempor\u00e2neos n\u00e3o desejavam mais representar o mundo de maneira idealizada. Eles queriam falar sobre uma sociedade marcada pelo caos e pela ru\u00edna, usando a mat\u00e9ria oferecida por essa mesma sociedade.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que faz <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/galeria-de-artistas\/\">C\u00e9sar<\/a>, na s\u00e9rie de trabalhos intitulada <em>Car compression.<\/em> Ele se apropria de carca\u00e7as de carros descartadas para fazer esculturas.<\/p>\n<p>Ao utilizar o lixo da sociedade de seu tempo, C\u00e9sar constr\u00f3i um monumento a ela. Prop\u00f5e ao espectador n\u00e3o a contempla\u00e7\u00e3o, mas a reflex\u00e3o cr\u00edtica: o choque de ver, no lugar do belo, algo feio, mas que traduz o modo de viver contempor\u00e2neo, marcado pelo excesso de consumo e, consequentemente, de lixo.<\/p>\n<p>Essa talvez seja a principal chave para compreender a arte de hoje: ela n\u00e3o \u00e9 feita para a pura contempla\u00e7\u00e3o, mas para fazer sentir o nosso mundo e pensar sobre ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>ECO, Umberto. <em>Hist\u00f3ria da beleza<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 2004.<\/p>\n<p>ECO, Umberto. Hist\u00f3ria da feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo post falamos dos recentes ataques sofridos por artistas contempor\u00e2neos brasileiros, que tiveram sua express\u00e3o cerceada. 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Os coment\u00e1rios dos que defendem essas a\u00e7\u00f5es incluem a &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/2017\/11\/30\/arte-feia\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Arte feia (V. 3, N. 11, 2017)&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":255,"featured_media":412,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4,3,6,7],"tags":[9,21,24,22,25,23],"class_list":["post-367","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-contemporanea","category-artes-visuais","category-artistas","category-autores","tag-arte-contemporanea","tag-beleza","tag-cesar","tag-feiura","tag-medusa","tag-umberto-eco"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2017\/11\/Carros-comprimidos.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/users\/255"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=367"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":413,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/367\/revisions\/413"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/media\/412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}