{"id":406,"date":"2018-06-12T17:01:48","date_gmt":"2018-06-12T20:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/?p=406"},"modified":"2018-06-12T17:05:35","modified_gmt":"2018-06-12T20:05:35","slug":"a-arte-a-fonte-e-o-mijadouro-v-4-n-6-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/2018\/06\/12\/a-arte-a-fonte-e-o-mijadouro-v-4-n-6-2018\/","title":{"rendered":"A arte, a fonte e o mijadouro (V. 4, N. 6, 2018)"},"content":{"rendered":"<p>Imagine que algu\u00e9m esteja indo a um museu, para ver uma exposi\u00e7\u00e3o, e uma das obras que essa pessoa encontra seja um&#8230; mijadouro. Isso mesmo, um urinol, objeto produzido com a finalidade de que nele se despeje urina.<\/p>\n<p>Pois isso aconteceu.\u00a0Em 1917, o artista franc\u00eas <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/galeria-de-artistas\/\">Marcel Duchamp<\/a> (1887-1968) inscreveu a obra <em>Fonte <\/em>(imagem anterior)\u00a0na exposi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o de Artistas Independentes de Nova Iorque. Depois de alguns desentendimentos entre os membros da comiss\u00e3o julgadora, o trabalho foi aceito, uma vez que a proposta do evento era expor todas as obras inscritas.<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio teve um grande impacto no mundo da arte, com consequ\u00eancias que se fazem sentir at\u00e9 os dias de hoje. Vamos entender por qu\u00ea?<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Primeiro de tudo: a fonte e a arte<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Devido a sua import\u00e2ncia na vida cotidiana e tamb\u00e9m a seus significados simb\u00f3licos, fontes foram constantemente retratadas na hist\u00f3ria da arte. Em alguns casos, elas pr\u00f3prias eram a obra, como a\u00a0<em>Fontana di Trevi<\/em>, na It\u00e1lia, muito visitada at\u00e9 hoje, por turistas de todo o mundo.<\/p>\n<figure id=\"attachment_415\" aria-describedby=\"caption-attachment-415\" style=\"width: 668px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-415 size-full\" style=\"font-weight: bold;color: #666666;font-size: 0.8125rem;font-style: italic\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/02\/Fontana-di-Trevi.png\" alt=\"\" width=\"668\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/02\/Fontana-di-Trevi.png 668w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/02\/Fontana-di-Trevi-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 668px) 100vw, 668px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-415\" class=\"wp-caption-text\">Fontana di Trevi, uma das mais importantes fontes da It\u00e1lia, idealizada no per\u00edodo Barroco (s\u00e9culo XVII), pelo artista Bernini.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"color: #333333;font-size: 1rem\">Naturais ou artificiais, as fontes sempre foram fundamentais para a vida nas cidades. Quando elas ainda n\u00e3o contavam com sistemas de abastecimento, era nas fontes que as pessoas iam buscar a \u00e1gua necess\u00e1ria para realizar as atividades di\u00e1rias. Assim, foram essenciais para organizar a vida urbana.<\/span><\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m desse papel social e hist\u00f3rico, fontes faziam \u2013 e ainda fazem\u2013 parte do imagin\u00e1rio das pessoas, que muitas vezes as associam \u00e0 sorte, \u00e0 magia e \u00e0 riqueza. Assim, era mais do que esperado que esse elemento da vida social e cultural sempre tenha estado presente nas manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, na maior parte das vezes simbolizando algo positivo ou importante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_457\" aria-describedby=\"caption-attachment-457\" style=\"width: 886px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-457 size-full\" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/anel.jpg\" alt=\"\" width=\"886\" height=\"576\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/anel.jpg 886w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/anel-300x195.jpg 300w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/anel-768x499.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-457\" class=\"wp-caption-text\">Anel etrusco datado de ap. 550 a.C. A cena nele representada &#8211; que inclui uma fonte com cabe\u00e7a de le\u00e3o &#8211; remete a um epis\u00f3dio da Guerra de Troia.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Arte e rebeldia<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Mas o que ser\u00e1 que Duchamp pretendia ao colocar um mict\u00f3rio no museu e ainda dar a ele o nome de fonte? Por que ele converteu um objeto que era visto de uma forma l\u00edrica e at\u00e9 idealizada, em outro,\u00a0cujo destino era receber dejetos?<\/p>\n<p>Para entender seus motivos, precisamos voltar ao contexto em que o artista estava inserido: o das vanguardas europeias, conjunto de movimentos art\u00edsticos que sacudiu a Europa nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Todos esses movimentos questionavam a arte como era feita at\u00e9 ent\u00e3o, predominantemente acad\u00eamica.<\/p>\n<figure id=\"attachment_465\" aria-describedby=\"caption-attachment-465\" style=\"width: 451px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-465 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/fonte-ingres-520x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"451\" height=\"888\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/fonte-ingres-520x1024.jpg 520w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/fonte-ingres-152x300.jpg 152w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/fonte-ingres-768x1512.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/fonte-ingres.jpg 886w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-465\" class=\"wp-caption-text\">A fonte, pintura de Jean-Auguste Dominique Ingres ligada ao Neoclassicismo, movimento da primeira metade do s\u00e9culo XIX, marcado por r\u00edgidas regras de representa\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os artistas das vanguardas acreditavam que essa arte, artesanal e cheia de regras, n\u00e3o correspondia mais \u00e0 sociedade em que viviam, marcada por grandes transforma\u00e7\u00f5es, como a urbaniza\u00e7\u00e3o e a industrializa\u00e7\u00e3o crescentes.<\/p>\n<p>Duchamp estava ligado ao Dada\u00edsmo, movimento que questionava, de maneira muitas vezes radical, o papel da arte e do artista nessa nova sociedade. E foi o que ele fez. Colocou algo &#8220;feio&#8221; no lugar de algo que sempre fora considerado bonito. Com isso, denunciou o esgotamento de toda uma tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica\u00a0 focada no prazer visual que a obra de arte poderia dar.<\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Ready-mades<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p>Mas as quest\u00f5es suscitadas pelo urinol n\u00e3o terminam a\u00ed. Ele choca n\u00e3o apenas por ser algo &#8220;feio&#8221; no museu, mas principalmente porque n\u00e3o foi feito pelo artista, e sim comprado numa loja. \u00c9 um objeto comum, de uso cotidiano, que qualquer pessoa poderia comprar.\u00a0Duchamp inaugurou o uso de objetos industrializados, produzidos em s\u00e9rie, no lugar da obra feita pelas m\u00e3os do artista. Criava, assim, a no\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>ready-made, <\/em>que teve grande impacto na arte.<\/p>\n<figure id=\"attachment_463\" aria-describedby=\"caption-attachment-463\" style=\"width: 479px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-463 \" src=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/roda-de-bicicleta-737x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"666\" srcset=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/roda-de-bicicleta-737x1024.jpg 737w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/roda-de-bicicleta-216x300.jpg 216w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/roda-de-bicicleta-768x1067.jpg 768w, https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/06\/roda-de-bicicleta.jpg 1181w\" sizes=\"(max-width: 479px) 100vw, 479px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-463\" class=\"wp-caption-text\">A Roda de bicicleta, de 1913, foi um dos primeiros ready-mades de Duchamp.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Porque, at\u00e9 ent\u00e3o, a habilidade em fazer algo com as pr\u00f3prias m\u00e3os era condi\u00e7\u00e3o para ser artista. Mas isso n\u00e3o correspondia mais a uma sociedade que produzia artefatos em s\u00e9rie, nas ind\u00fastrias. A arte precisou mudar para refletir as mudan\u00e7as ocorridas em seu tempo.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Duchamp e o contempor\u00e2neo<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A import\u00e2ncia das obras de Duchamp para a arte contempor\u00e2nea foi imensa.\u00a0Por exemplo, elas possibilitaram a introdu\u00e7\u00e3o de objetos da vida cotidiana no lugar dos materiais tradicionais, algo que \u00e9 muito comum nas pr\u00e1ticas art\u00edsticas da segunda metade do s\u00e9culo XX at\u00e9 hoje, como j\u00e1 vimos em algumas postagens do blog (clique <a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/arte-contemporanea-e-assim-mesmo-v-3-n-6-2017\/\">aqui<\/a>). Seria imposs\u00edvel pensar os trabalhos de hoje fora desse contexto de aproxima\u00e7\u00e3o entre arte e vida.<\/p>\n<p>Outro aspecto fundamental \u00e9 que, ao tirar o fazer art\u00edstico da esfera do artesanal, Duchamp transforma o artista num propositor de ideias e pr\u00e1ticas. A arte foi se tornando, assim, cada vez mais conceitual. E a obra de arte perdeu seu aspecto quase sagrado e \u00fanico,\u00a0 para converter-se em um jogo entre artista e p\u00fablico. Um desafio, muitas vezes cheio de ironia, que nos leva a pensar no que a arte de ontem e a de hoje podem vir a significar.<\/p>\n<p>Depois da <em>Fonte<\/em>, Duchamp ainda fez outras propostas, todas elas relevantes para a arte atual. Mas isso ser\u00e1 assunto para outras postagens&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine que algu\u00e9m esteja indo a um museu, para ver uma exposi\u00e7\u00e3o, e uma das obras que essa pessoa encontra seja um&#8230; mijadouro. 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Pois isso aconteceu.\u00a0Em 1917, o artista franc\u00eas Marcel Duchamp (1887-1968) inscreveu a obra Fonte (imagem anterior)\u00a0na exposi\u00e7\u00e3o &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/2018\/06\/12\/a-arte-a-fonte-e-o-mijadouro-v-4-n-6-2018\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;A arte, a fonte e o mijadouro (V. 4, N. 6, 2018)&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":255,"featured_media":411,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"pgc_sgb_lightbox_settings":"","_vp_format_video_url":"","_vp_image_focal_point":[],"footnotes":""},"categories":[4,3,6],"tags":[28,9,36,38,39,27,26,37],"class_list":["post-406","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte-contemporanea","category-artes-visuais","category-artistas","tag-a-fonte","tag-arte-contemporanea","tag-dadaismo","tag-fontana-di-trevi","tag-ingres","tag-marcel-duchamp","tag-ready-made","tag-vanguardas-artisticas"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-content\/uploads\/sites\/139\/2018\/02\/A-fonte.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/users\/255"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=406"}],"version-history":[{"count":26,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":493,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/406\/revisions\/493"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/media\/411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.blogs.unicamp.br\/contemporanea\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}