Se março marcou a entrada da pandemia no cotidiano brasileiro, abril mostrou que o problema estava longe de ser apenas sanitário. O mês começa com o avanço acelerado dos casos, mas também com medidas econômicas, disputas políticas, dificuldades de acesso à informação e os primeiros sinais mais concretos de que o sistema de saúde poderia não dar conta da demanda.
A linha do tempo completa, com as análises e referências da pesquisa, está disponível na minha tese.
Na primeira postagem desta série, apresentei a linha do tempo e expliquei como ela foi construída durante minha pesquisa de doutorado. Agora, o convite é percorrê-la mês a mês, voltando aos acontecimentos e às informações que marcaram aquele primeiro ano da pandemia no Brasil.
Abril de 2020 — Uma avalanche de informações em meio à incerteza
Ao percorrer abril, fica mais evidente o que a tese identifica como crises entrelaçadas. A crise sanitária não permanece isolada: ela produz consequências econômicas, educacionais, políticas, comunicacionais e humanitárias. E essas crises não apenas acontecem simultaneamente; elas passam a interferir umas nas outras.
A disputa sobre o isolamento interfere na política e na economia. A falta de testes e de leitos interfere na capacidade de conhecer e enfrentar a crise. A desigualdade de acesso à internet interfere no acesso a políticas públicas e à educação. A circulação de informações falsas e a disputa sobre a ciência interferem nas possibilidades de uma resposta coletiva.
No 1º de abril, o Brasil já contabilizava 6.834 casos e 241 mortes. No mesmo dia, o governo sancionava o auxílio emergencial de R$ 600, enquanto o Ministério da Saúde ampliava a distribuição de testes e passava a recomendar máscaras para toda a população. A chegada do vírus também revelava desigualdades específicas: naquele dia, era registrado o primeiro indígena infectado por um profissional de saúde. A crise sanitária já produzia, simultaneamente, respostas econômicas e problemas humanitários.
No 2 de abril, uma contradição começava a ganhar forma. Enquanto o Ministério da Saúde orientava a população sobre máscaras e criava estratégias de monitoramento, o acesso ao auxílio emergencial dependia da internet, criando dificuldades para populações sem conectividade. Entre elas, indígenas que precisavam se deslocar até as cidades para receber o benefício. A crise, portanto, não atingia todos da mesma maneira.
Em 5 de abril, a velocidade da disseminação já deixava clara a mudança de escala: foram 25 dias para chegar aos primeiros mil casos, seis dias para alcançar dois mil e apenas uma semana para chegar a quatro mil. A cronologia começa a revelar uma característica importante da permacrise: o tempo de resposta torna-se cada vez menor diante de uma crise que se acelera.
É em 6 de abril, porém, que a dimensão política da crise ganha força. As divergências entre o então presidente da republica e o ministro da Saúde se tornam públicas, especialmente em torno do isolamento social. A disputa não era apenas sobre uma política de saúde: envolvia diferentes interpretações sobre a gravidade da doença, sobre a prioridade entre preservação da vida e atividade econômica e, consequentemente, sobre quais informações deveriam orientar a população.
No 7 de abril, surgem também sinais de uma crise estrutural no atendimento. Dados sobre a distância percorrida pela população para acessar serviços de saúde e projeções sobre a saturação das UTIs revelavam que a capacidade de resposta não era distribuída igualmente pelo território. O problema deixava de ser apenas quantos casos existiam e passava a envolver quem conseguiria ser atendido quando os casos aumentassem.
No dia seguinte, 8 de abril, essa tensão aparece novamente nos discursos públicos. O Ministério da Saúde defendia o isolamento amplo, enquanto o então presidente da republica atribuía aos governadores e prefeitos a responsabilidade pelas medidas restritivas e defendia a retomada do trabalho. A disputa sobre a pandemia também se tornava uma disputa sobre a narrativa da própria crise.
Em 9 de abril, outras dimensões entram definitivamente no quadro. Estados já apresentavam números elevados de casos e mortes; escolas começavam a recorrer à televisão e à internet para manter as atividades; uma jovem Yanomami morria de Covid-19; e a Anvisa desaconselhava o uso da hidroxicloroquina fora das indicações aprovadas. Saúde, educação, questão indígena e disputa em torno das evidências científicas apareciam lado a lado.
A demissão de Mandetta, em 17 de abril, representa outro ponto de inflexão. A troca do ministro, depois de semanas de divergências, evidencia a instabilidade política em meio à maior emergência sanitária recente. No mesmo momento, hospitais já enfrentavam falta de vagas e profissionais de saúde adoeciam. Em Manaus, contêineres frigoríficos eram utilizados para armazenar corpos; em São Paulo e no Rio de Janeiro, hospitais registravam dificuldades para atender a demanda. A crise política acontecia enquanto a crise sanitária começava a produzir imagens concretas de colapso.
No 18 de abril, carreatas contra o isolamento social mostravam que a disputa havia ultrapassado os espaços institucionais e chegado às ruas. No 20 de abril, uma declaração presidencial sobre o número de mortos reforçava a tensão em torno da forma como a morte e a própria gravidade da pandemia eram comunicadas. A crise comunicacional, na perspectiva da tese, não significa apenas excesso de informações: envolve também a disputa pela credibilidade e pela definição do que deve ser reconhecido como verdade.
Em 21 de abril, todos os estados brasileiros já registravam casos e mortes. UTIs apresentavam alto grau de saturação, Manaus recorria a covas coletivas e médicos denunciavam a falta de equipamentos de proteção. Ao mesmo tempo, um estudo realizado nos Estados Unidos começava a produzir resultados desfavoráveis ao uso da hidroxicloroquina. O mês avançava, portanto, com uma combinação de agravamento sanitário e incerteza sobre as respostas disponíveis.
No 23 de abril, a disputa em torno da ciência ficava ainda mais evidente. Enquanto o ministro da Saúde afirmava que não havia evidências suficientes para recomendar a hidroxicloroquina, o Conselho Federal de Medicina autorizava seu uso em situações específicas. A informação científica chegava ao público acompanhada de diferentes interpretações, recomendações e discursos de autoridade.
Em 25 de abril, estudos sobre a subnotificação colocavam em dúvida a própria dimensão conhecida da pandemia. A quantidade oficial de casos podia estar muito distante da realidade, revelando outro problema fundamental: não era possível enfrentar adequadamente aquilo que sequer conseguíamos medir.
No 27 de abril, famílias já recorriam à Justiça para conseguir vagas de UTI, diante da falta de transparência sobre a estrutura disponível. No dia seguinte, o país registrava um recorde de 474 mortes confirmadas em 24 horas. Enquanto o 2º Ministro da Saúde, Nelson Teich, reconhecia o agravamento da situação, o então presidente da republica reagia de outra maneira. Ao mesmo tempo, a Anvisa autorizava testes rápidos em farmácias. Mais uma vez, diferentes discursos e respostas coexistiam diante de uma mesma crise.
O mês termina em 30 de abril com um dado que ajuda a dimensionar o alcance desse entrelaçamento: o desemprego já atingia 12,9 milhões de pessoas. No mesmo registro aparece novamente a infodemia, definida pela OMS como o excesso de informações — algumas precisas, outras não — que dificulta encontrar fontes confiáveis. A desigualdade digital também aparece no campo educacional: enquanto a internet estava presente em grande parte das escolas urbanas, o acesso era muito menor nas escolas rurais.
Todas as referências podem ser encontradas na tese:
CARNEIRO, Erica Mariosa Moreira. Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. 2025. 1 recurso online (590 p.) Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: 20.500.12733/42537. Acesso em: 31 mar. 2026.
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