A Covid-19 deixou de parecer um surto distante e passou a reorganizar decisões, discursos, rotinas e formas de acesso à informação no Brasil. A declaração de pandemia pela OMS marcou essa virada, enquanto diferentes crises cacesso à informação no Brasil. A declaração de pandemia pela OMS marcou essa virada, enquanto diferentes crises começavam a se entrelaçar.

É esse movimento que esta etapa da linha do tempo convida a acompanhar: não apenas o que aconteceu, mas sobretudo como fomos informados sobre o que estava acontecendo.

A linha do tempo completa, com as análises e referências da pesquisa, está disponível na minha tese.

Na primeira postagem desta série, apresentei a linha do tempo e expliquei como ela foi construída durante minha pesquisa de doutorado. Agora, o convite é percorrê-la mês a mês, voltando aos acontecimentos e às informações que marcaram aquele primeiro ano da pandemia no Brasil.

Março de 2020 — O mundo parou. A informação, não!

Março de 2020 marca uma mudança de escala. Se os meses anteriores registravam uma doença ainda distante e cercada de incertezas, em março a Covid-19 passa a ocupar o cotidiano brasileiro. A cada novo dia, aumentavam os casos, surgiam novas medidas de contenção e, ao mesmo tempo, multiplicavam-se disputas sobre o que era verdadeiro, necessário ou exagerado. A crise sanitária começava, assim, a produzir e a se conectar a outras crises.

O mês começa com uma notícia que contrasta com o cenário de incerteza: pesquisadores brasileiros conseguem sequenciar, em apenas 48 horas, o genoma do vírus identificado no primeiro caso da América Latina. O feito científico mostra a capacidade de resposta da pesquisa brasileira e evidencia a importância da ciência para compreender uma doença ainda pouco conhecida. Poucos dias depois, porém, o número de casos começa a crescer rapidamente. Em 5 de março, o país registra oito casos confirmados e a primeira transmissão interna.

7 de março: a crise também passa a ser informacional

Os sinais claros daquilo que, na tese, identifico como crise comunicacional, aparecem em 7 de março. Enquanto empresas começam a adotar o trabalho remoto, a OMS já utiliza o termo infodemia para descrever o excesso de informações, verdadeiras ou falsas, que dificulta o acesso a orientações confiáveis. A pandemia passa a ser também uma disputa pela informação.

No Brasil, essa dimensão fica evidente poucos dias depois. Em 9 de março, o Ministério da Saúde informa que havia recebido cerca de 9 mil mensagens sobre possíveis fake news desde janeiro, sendo 90% relacionadas ao coronavírus. Somente entre 28 de fevereiro e 1º de março, foram 4 mil mensagens, das quais 85% eram falsas. A desinformação não aparece, portanto, como um fenômeno secundário: ela acompanha a própria expansão da doença.

11 de março: a mudança de escala

Em 11 de março, a OMS declara a Covid-19 uma pandemia. A mudança não ocorre porque a doença tenha se tornado subitamente mais grave, mas porque sua disseminação geográfica havia alcançado uma escala global. A recomendação passa a envolver testes e medidas de isolamento.

Naquele momento, a pandemia deixa de ser apenas uma possibilidade futura para se tornar uma condição que exige decisões imediatas. No Brasil, isso se traduz rapidamente em medidas que atingem diferentes dimensões da vida social.

Em 12 de março, aparecem simultaneamente diferentes elementos dessa transformação: amplia-se a capacidade de testagem, são estabelecidas regras para isolamento e quarentena e é registrada a primeira morte que, posteriormente, seria identificada nos boletins oficiais como o primeiro óbito por Covid-19 no país. O mesmo registro reúne ainda o primeiro caso de transmissão local no Rio de Janeiro.

Esse episódio é particularmente importante para a análise da permacrise, porque mostra que a própria cronologia da pandemia não era estável. A primeira morte foi inicialmente anunciada como ocorrida em 17 de março, mas ajustes posteriores nos dados indicaram que o óbito havia acontecido em 12 de março.

A informação sobre a própria história da pandemia também precisaria ser revisada.

13 a 17 de março: o cotidiano começa a mudar

Entre 13 e 17 de março, a crise deixa de estar restrita ao campo da saúde. Rio de Janeiro e São Paulo suspendem aulas; a Unicamp interrompe suas atividades presenciais; escolas e universidades de diferentes estados passam a adotar medidas semelhantes. Em poucos dias, uma decisão sanitária transforma-se em crise educacional.

Em 16 de março, as atividades escolares começam a migrar para o ambiente digital em São Paulo. Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde libera recursos para ampliar leitos e reforçar o atendimento. A emergência sanitária passa a exigir respostas econômicas, educacionais e tecnológicas.

No dia 17, a transmissão comunitária e a adoção de medidas de emergência deixam ainda mais evidente a mudança de cenário. O Rio de Janeiro decreta situação de emergência; o governo federal estabelece medidas relacionadas ao isolamento e à quarentena; o Censo é adiado; e mais de 776 milhões de crianças e jovens já estavam sem aulas no mundo.

Mas há outra camada que atravessa esses acontecimentos: a desigualdade na proteção. A linha do tempo registra, desde os primeiros dias, situações envolvendo povos indígenas e a insuficiência das medidas específicas para esses grupos. A pandemia não atinge todos da mesma maneira — e a crise humanitária começa a se revelar como parte constitutiva da crise sanitária.

19 e 20 de março: a disputa sobre o que fazer

Em 19 de março, a hidroxicloroquina entra no centro da circulação de informações sobre a pandemia. Uma declaração de Donald Trump sobre a substância provoca uma corrida às farmácias brasileiras, apesar da ausência, naquele momento, de evidências definitivas sobre sua eficácia. A informação circula mais rapidamente do que a própria capacidade da ciência de produzir respostas conclusivas.

No dia seguinte, o Ministério da Saúde reconhece a transmissão comunitária em todo o território nacional e o Senado aprova o estado de calamidade pública. A linguagem da pandemia muda: já não se trata apenas de identificar casos importados ou rastrear cadeias conhecidas de transmissão. O vírus passa a circular de maneira que as autoridades não conseguem mais acompanhar individualmente.

Aqui aparece com força uma característica central da permacrise: as respostas a uma crise passam a produzir novas frentes de crise e novas disputas. É preciso conter o vírus, manter o sistema de saúde funcionando, organizar o trabalho, preservar a economia, informar a população e, simultaneamente, disputar interpretações sobre quais medidas deveriam ser tomadas.

24 de março: a crise sanitária encontra a crise política e comunicacional

O pronunciamento presidencial de 24 de março representa um dos momentos mais emblemáticos da linha do tempo. Enquanto estados e municípios adotavam medidas de isolamento e especialistas defendiam o distanciamento social, o então presidente da republica minimizava a doença, criticava o fechamento de escolas e atacava a imprensa por produzir, segundo ele, uma sensação de pânico.

Para a análise da tese, esse episódio ultrapassa a dimensão de uma declaração política. Ele evidencia uma disputa sobre a própria definição da realidade: de um lado, instituições científicas e sanitárias recomendavam medidas de contenção; de outro, o discurso presidencial relativizava a gravidade da doença e questionava as informações veiculadas pela imprensa.

É nesse ponto que a dimensão comunicacional da permacrise se torna especialmente evidente. A informação deixa de ser apenas um instrumento para compreender a crise e passa a ser também um território de disputa política.

25 a 31 de março: a crise se acelera

Na última semana do mês, a velocidade dos acontecimentos aumenta. Os casos mundiais passam de 100 mil para 200 mil em 11 dias, depois para 300 mil em apenas três dias e para 400 mil dois dias depois. No Brasil, o Ministério da Saúde amplia recursos e passa a disponibilizar cloroquina para avaliação em pacientes graves. Também é publicado o guia para manejo de corpos no contexto da Covid-19 — um documento que revela como a pandemia já alcançava até os rituais de morte.

Em 26 de março, enquanto o governo federal insiste na defesa do isolamento vertical e questiona os efeitos econômicos das medidas de contenção, o Ministério da Saúde lança um canal de atendimento pelo WhatsApp para responder dúvidas e combater boatos. A mesma crise produz, portanto, discursos conflitantes e diferentes estratégias de comunicação.

No dia 29, a aceleração dos casos torna-se evidente: os primeiros mil casos levaram 25 dias para ser registrados; os dois mil seguintes apareceram em apenas seis dias. No mesmo período, o presidente rompe o isolamento e circula por comércios, contrariando as recomendações do próprio Ministério da Saúde.

O mês termina com a chegada dos primeiros 500 mil testes rápidos ao Brasil, a ampliação dos recursos digitais do aplicativo Coronavírus SUS e a autorização, em caráter compassivo, para o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes graves, enquanto os estudos sobre segurança e eficácia ainda estavam em andamento.

Todas as referências podem ser encontradas na tese:

CARNEIRO, Erica Mariosa Moreira. Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. 2025. 1 recurso online (590 p.) Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: 20.500.12733/42537. Acesso em: 31 mar. 2026.

A série completa – Uma linha do tempo em um mapa de informações pode ser encontrada no:


Erica Mariosa Carneiro

Pós-Doc em formação e análise de impacto da Divulgação Científica do INCTBio-LK (IQ/Unicamp); Doutora em Ensino de Ciências e Matemática (Pecim/Unicamp); Mestre em Divulgação Científica e Cultura e Especialização em Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp); Comunicação Social em Relações Públicas (PUC Campinas)

0 comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Acessar o conteúdo