Caro leitor, imagine voltar para janeiro de 2020 e acompanhar, dia após dia, as informações que circulavam sobre um vírus que ainda parecia bem misterioso e distante. O que começou como uma notícia sobre uma doença identificada na China rapidamente atravessou fronteiras, chegou ao Brasil e nos transformou.

Nessa série de postagens, vou percorrer essa linha do tempo diária do primeiro ano pandêmico no Brasil, construída durante minha pesquisa de doutorado e apresentada na tese Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19, defendida em 2025 pela Unicamp.

A proposta, porém, não é simplesmente reproduzir os dados, uma vez que a linha do tempo completa pode ser consultada a qualquer momento na tese. A cada mês, vou retomar os principais acontecimentos, acompanhados de uma breve análise já desenvolvida na pesquisa. Trazendo, assim, para o Especial Covid-19 do Blogs Unicamp, um espécie de fechamento dessa trajetória e, ao mesmo tempo, realizo um trabalho de divulgação científica da própria tese.

A pesquisa

A declaração da pandemia de Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em março de 2020, inaugurou um período de profunda incerteza.

A cada dia surgiam uma avalanche de novas informações. Em meio a esse excesso, também havia uma sensação igualmente forte de falta: faltavam respostas, faltavam certezas e, muitas vezes, faltavam referências capazes de orientar decisões cotidianas.

A pandemia, portanto, não foi apenas uma crise sanitária. Ela também foi atravessada por aquilo que tenho denominado como permacrise (CARNEIRO, 2025): compreendida como um estado prolongado de instabilidade no qual múltiplas crises se entrelaçam e se retroalimentam, dificultando a delimitação de respostas. Mais do que a sobreposição de urgências, a permacrise caracteriza-se pela permanência das instabilidades e pela dificuldade de estabelecer um horizonte de superação. Nesse sentido, a pandemia não se restringiu à dimensão sanitária, mas foi atravessada por condições contínuas de premência, marcadas pela coexistência de excessos e faltas e pelos efeitos dos contextos sociopolíticos locais.

Na tese, identifiquei seis dimensões de crises que se entrelaçaram a partir da crise sanitária: educacional, política, econômica, humanitária e comunicacional, além da própria dimensão sanitária que desencadeia esse processo.

Entre elas, dediquei meu olhar à crise comunicacional. No Brasil, as decisões relacionadas à gestão da pandemia foram continuamente atravessadas por disputas de narrativas e pela intensa circulação de desinformação. A crise sanitária coexistia, assim, com uma crise de referências: em quem acreditar? Qual fonte consultar? Como saber se uma informação era confiável? E o que fazer quando diferentes fontes apresentavam respostas distintas para a mesma pergunta?

Informar-se também virou um trabalho

Nesse cenário, veículos de comunicação e agências de checagem passaram a tornar mais visíveis os procedimentos utilizados para verificar as informações que circulavam, especialmente no ambiente digital, que ganhou ainda mais centralidade durante a pandemia.

Mais do que simplesmente dizer se uma informação era verdadeira ou falsa, essas iniciativas passaram a explicitar alguns dos caminhos utilizados para chegar a essa conclusão: verificar a origem de uma informação, identificar quem a produziu, conferir a data de publicação, comparar diferentes fontes, buscar documentos originais e observar o contexto em que determinado conteúdo havia sido produzido.

Esses procedimentos podem parecer banais quando apresentados separadamente. Durante uma crise, porém, eles ganham outra dimensão.

Tornar público como uma informação é verificada significa compartilhar com o público parte das ferramentas utilizadas para navegar por um ambiente informacional complexo.

Foi a partir dessa perspectiva que a pesquisa buscou olhar para a experiência de se informar durante a pandemia não como um ato passivo, mas como uma prática social.

E se o leitor repetisse esse caminho?

Durante o percurso metodológico desta investigação, experimentei a mesma sensação de excesso e escassez informacional que marcava aquele período. Havia informação demais circulando, mas nem sempre era fácil encontrar aquilo que realmente se procurava — e, principalmente, saber em qual dessas informações confiar.

A partir da etnometodologia (PSATHAS, 2004; MAYNARD; CLAYMAN, 1991), a Experiência do Usuário (CARNEIRO, 2025) foi utilizada como procedimento para reproduzir sistematicamente práticas de busca e verificação da informação, a partir de parâmetros divulgados por veículos de comunicação e agências de checagem durante a pandemia.

Isso significou experimentar a informação a partir do lugar de quem procura: buscar, selecionar, comparar, verificar e interpretar conteúdos. Em vez de considerar o público apenas como consumidor de informações, a proposta foi observar o ato de se informar como uma atividade socialmente construída, orientada por regras práticas que aprendemos e mobilizamos diante de situações concretas.

Um ano contado dia a dia

A investigação concentrou-se no primeiro ano da pandemia, entre 1º de janeiro de 2020 e 17 de janeiro de 2021.

O primeiro marco foi escolhido para acompanhar a circulação das primeiras informações que antecederam a chegada da pandemia ao Brasil e observar como o acontecimento foi sendo construído informacionalmente. O segundo corresponde à data em que a primeira pessoa foi vacinada contra a Covid-19 no Brasil, estabelecendo um novo horizonte diante da incerteza que havia marcado os meses anteriores.

Entre essas duas datas, foi construída uma cronologia diária das informações publicadas por meios digitais de imprensa e por iniciativas de divulgação científica.

Não se trata, portanto, de uma linha do tempo sobre tudo o que aconteceu durante a pandemia. É um mapa de sua circulação informacional: um registro de como determinados acontecimentos, perguntas, respostas, controvérsias e disputas foram aparecendo no ambiente público.

O resultado é um panorama informacional de um período em que informar-se deixou de ser apenas uma questão de encontrar notícias. Era preciso aprender a navegar por elas.

E talvez seja justamente por isso que olhar novamente para aquele primeiro ano da pandemia seja importante. Não apenas para lembrar o que aconteceu, mas para compreender como construímos nossas referências em meio à incerteza.

Nas postagens seguintes, a linha do tempo é apresentada mês a mês:

A proposta, agora, é voltar, ao longo desta série, ao primeiro ano da pandemia no Brasil para acompanhar, dia após dia, como acontecimentos, informações, dúvidas, descobertas e disputas se sucederam em um ambiente marcado, ao mesmo tempo, pelo excesso de informações e pela falta de respostas e referências confiáveis.

Essa trajetória será percorrida mês a mês, acompanhada de breves análises a partir do olhar desenvolvido na pesquisa. Abaixo, relaciono os links de cada mês e apresento um breve parágrafo sobre o que você encontrará em cada etapa dessa trajetória.

Janeiro de 2020 — A crise antes de a crise chegar ao Brasil

O ano começou com as primeiras notícias sobre uma nova doença respiratória identificada na China. Ainda distante da realidade brasileira, o que inicialmente parecia um acontecimento localizado passou a ganhar espaço no noticiário internacional. A cada novo informe, surgiam também novas perguntas sobre a origem, a transmissão e os possíveis impactos daquele vírus que ainda era pouco conhecido.

Janeiro marca, assim, o início desta linha do tempo e de um processo de construção informacional que acompanharia todo o primeiro ano pandêmico. Antes mesmo de a Covid-19 chegar ao Brasil, a circulação de informações já produzia expectativas, dúvidas e incertezas. Era o começo de uma crise que, nos meses seguintes, deixaria de parecer distante e passaria a atravessar o cotidiano brasileiro.

Fevereiro de 2020 — Quando o desconhecido começou a se aproximar

Fevereiro começa com o Brasil ainda sem casos confirmados, mas já mobilizado diante do avanço do novo coronavírus. Emergência sanitária, repatriação de brasileiros, novas medidas legais e critérios para identificar casos suspeitos mostram que a crise já produzia efeitos no país. Ao mesmo tempo, a definição da doença como Covid-19 e o caso de Li Wenliang evidenciam a importância da informação em meio à incerteza.

No fim do mês, os primeiros casos confirmados no Brasil aproximam definitivamente a crise.

Março de 2020 — O mundo parou. A informação, não.

A declaração da pandemia pela OMS mudou a dimensão do acontecimento. O vírus chegou ao cotidiano brasileiro, as medidas de restrição começaram a ser adotadas e a informação passou a ocupar um lugar ainda mais central nas decisões individuais e coletivas.

Abril de 2020 — Uma avalanche de informações em meio à incerteza

Com o avanço dos casos e das mortes, a incerteza se aprofundou. Dúvidas sobre prevenção, tratamentos, isolamento e os efeitos da pandemia passaram a conviver com uma circulação cada vez mais intensa de informações, opiniões e conteúdos enganosos.

Maio de 2020 — Quando a crise virou parte da rotina

A pandemia já fazia parte da rotina brasileira. Ao mesmo tempo em que os números avançavam, cresciam as disputas em torno das formas de enfrentar a crise, tornando cada vez mais difícil separar evidências científicas, posicionamentos políticos e desinformação.

Junho de 2020 — Ciência em construção, respostas em disputa

O Brasil atravessava uma fase crítica da pandemia, com aumento expressivo de casos e mortes. A necessidade de compreender os dados e acompanhar as orientações científicas contrastava com um ambiente público marcado por conflitos e disputas de narrativas.

Julho de 2020 — Quando viver em crise virou rotina

Com a pandemia prolongando-se sem uma perspectiva clara de encerramento, a crise começava a se incorporar à vida cotidiana. A informação continuava indispensável, mas o excesso de conteúdos tornava a tarefa de acompanhar e interpretar os acontecimentos cada vez mais complexa.

Agosto de 2020 — A esperança começa a aparecer no horizonte

Enquanto pesquisas e testes de vacinas avançavam no mundo, o Brasil permanecia imerso em uma crise sanitária e política. A possibilidade de uma resposta futura começava a aparecer no horizonte, mas ainda coexistia com a incerteza do presente.

Setembro de 2020 — Quando a emergência começa a parecer normal

Seis meses depois da declaração da pandemia, a excepcionalidade começava a se transformar em rotina. A permanência da crise colocava em evidência não apenas os efeitos da doença, mas também o desgaste provocado pela exposição contínua a informações, números e disputas.

Outubro de 2020 — Entre a promessa da vacina e a persistência da crise

A corrida pelas vacinas ganhava espaço no debate público, enquanto o Brasil enfrentava a continuidade da pandemia. Entre expectativas de uma solução e a persistência da crise, a circulação de informações seguia sendo fundamental para compreender o que estava por vir.

Novembro de 2020 — A vacina no horizonte, a pandemia no presente

Os resultados de pesquisas sobre vacinas começaram a produzir sinais concretos de esperança. Ao mesmo tempo, novas ondas de casos recolocavam a pandemia no centro das preocupações, mostrando que a possibilidade de uma vacina não significava o fim imediato da crise.

Dezembro de 2020 — A vacina chega mais perto. A crise continua.

Com vacinas sendo aprovadas em diferentes países, a perspectiva de imunização deixou de ser apenas uma promessa científica. No Brasil, porém, o debate sobre vacinação, planejamento e acesso revelava que a chegada da vacina também seria atravessada por disputas políticas e informacionais.

Janeiro de 2021 — O dia em que a vacina chegou ao Brasil

O primeiro ano desse percurso terminou com um acontecimento que alteraria o horizonte da pandemia: a vacinação. Em 17 de janeiro, a primeira pessoa foi vacinada contra a Covid-19 no Brasil, marcando o encerramento desta linha do tempo e o início de uma nova etapa na experiência da crise.

Mais do que uma cronologia

Vista em conjunto, essa linha do tempo permite perceber que a crise comunicacional não foi um acontecimento paralelo à pandemia. Ela fez parte da própria experiência de viver aquele período.

As informações ajudavam a orientar decisões, mas também podiam produzir dúvidas, disputas e incertezas. A cada novo acontecimento, era necessário reorganizar o que se sabia, rever interpretações e procurar novas referências.

É nesse movimento que a informação deixa de ser apenas conteúdo que circula e passa a ser compreendida como uma condição para a participação social e para a tomada de decisões.

Revisitar esse primeiro ano da pandemia, portanto, é também revisitar a maneira como aprendemos — ou fomos obrigados — a nos informar em meio a uma crise.

E, talvez, perceber que algumas das perguntas daquele período ainda permanecem abertas.

Referências

CARNEIRO, Erica Mariosa Moreira. Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. 2025. 1 recurso online (590 p.) Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: 20.500.12733/42537. Acesso em: 31 mar. 2026.


Erica Mariosa Carneiro

Pós-Doc em formação e análise de impacto da Divulgação Científica do INCTBio-LK (IQ/Unicamp); Doutora em Ensino de Ciências e Matemática (Pecim/Unicamp); Mestre em Divulgação Científica e Cultura e Especialização em Jornalismo Científico (Labjor/Unicamp); Comunicação Social em Relações Públicas (PUC Campinas)

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