Você lembra como era se informar em janeiro de 2020? E alguns meses depois, quando já não era mais possível separar a crise sanitária das disputas políticas, da desinformação, das mudanças na educação, da crise econômica e de tantas outras incertezas?
É esse percurso que venho propondo revisitar nesta série. Na postagem anterior, apresentei a linha do tempo e expliquei como ela foi construída durante minha pesquisa de doutorado. Agora, o convite é percorrê-la mês a mês, voltando aos acontecimentos e às informações que marcaram aquele primeiro ano da pandemia no Brasil.
Lembrando que a linha do tempo completa, assim como as análises e referências que fundamentaram a pesquisa, pode ser consultada na tese.
Janeiro: quando a incerteza começou a circular
Caro leitor, olhando para janeiro de 2020 com a distância que temos hoje, pode parecer que o mês foi apenas o início de uma sequência de acontecimentos que levaria à pandemia. Mas acompanhar os registros dia após dia permite perceber algo diferente: a crise já começava a se configurar também no modo como as informações eram produzidas, repetidas, corrigidas e interpretadas.
Nos primeiros dias, a própria descrição do acontecimento revelava essa instabilidade. Falava-se em uma “misteriosa pneumonia”, em uma doença ainda sem causa conhecida e, em diferentes momentos, as informações sobre quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia sido comunicada sobre os casos eram apresentadas e posteriormente corrigidas.
A cada nova informação, uma parte do quadro parecia se esclarecer, enquanto outra permanecia incerta.
A cronologia registrada na pesquisa evidencia justamente esse movimento: a informação não chegava pronta; ela era continuamente atualizada, complementada e, algumas vezes, repetida de maneiras que podiam produzir novas dúvidas.
Essa dinâmica ajuda a compreender uma das características da permacrise (CARNEIRO, 2025): não se trata simplesmente da existência simultânea de várias crises, mas da permanência de condições de instabilidade que dificultam a construção de um horizonte claro de resposta.
Em janeiro, a dimensão sanitária ainda estava sendo compreendida, mas já se entrelaçava à dimensão comunicacional. Não saber exatamente o que era aquele vírus significava também não saber, ainda, quais informações, medidas e interpretações deveriam orientar a ação. A ausência de respostas definitivas fazia parte da própria experiência de acompanhar a crise.
Da falta de respostas à necessidade de orientação
Ao longo do mês, a comunicação passa a cumprir também uma função pedagógica (Fischer, 1996). A OMS começa a explicar o que se conhecia sobre o novo coronavírus, apresenta sua relação com outros vírus da família, divulga recomendações de higiene e orienta países sobre identificação, testagem e manejo de possíveis casos. A imprensa, por sua vez, incorpora explicações sobre sintomas, transmissão, antecedentes como SARS e MERS e possíveis formas de origem do vírus.
É nesse ponto que aparece uma questão importante para esta pesquisa: informar não significava apenas transmitir uma novidade.
Era também necessário tornar compreensíveis conceitos, procedimentos e decisões que ainda estavam sendo construídos. A pedagogia da mídia, demarcada também nas minhas notas, aparece justamente nesse esforço de explicar o vírus, apresentar seus antecedentes, contextualizar números e traduzir recomendações para o público.
Ao mesmo tempo, aquilo que hoje pode parecer uma contradição — recomendar higiene enquanto ainda não havia consenso sobre transmissão entre pessoas ou necessidade de restrições de viagem — precisa ser compreendido dentro da própria temporalidade da ciência.
A informação científica também estava sendo produzida em condições de incerteza.
O problema, portanto, não era simplesmente haver informações que posteriormente seriam modificadas. O desafio estava em comunicar conhecimento provisório sem transformar a provisoriedade em ausência de referência.
O vírus atravessa fronteiras — e a crise também
A partir de 13 de janeiro, os primeiros casos fora da China fazem com que a dimensão internacional da crise se torne cada vez mais evidente. Tailândia, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos aparecem na cronologia, enquanto a transmissão entre pessoas passa a ser reconhecida e o número de mortes ganha espaço no noticiário.
No Brasil, a proximidade do acontecimento começa a mudar de significado no final do mês.
Em 27 de janeiro, ainda não havia casos suspeitos identificados, mas o país já criava um grupo de emergência e reforçava o monitoramento em portos e aeroportos. No dia seguinte, diante de casos suspeitos, o nível de alerta era elevado para “perigo iminente de entrada do vírus no País”. Dois dias depois, a OMS declarava uma emergência de saúde pública de preocupação internacional.
Janeiro termina, portanto, com uma mudança importante: o acontecimento deixa de ser “algo que está acontecendo em outro lugar” e passa a exigir preparação, monitoramento e interpretação local. E talvez seja justamente esse o aspecto mais importante deste primeiro mês.
Antes de a pandemia transformar radicalmente a vida cotidiana, ela já estava transformando a maneira como buscávamos compreender o mundo. A incerteza não era apenas uma característica da doença. Ela começava a fazer parte da própria experiência de se informar sobre ela.
Horas depois de a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretar “emergência sanitária global” por conta do coronavírus, o Facebook anunciou medidas para evitar a desinformação sobre o eventual surto.
Em comunicado, a empresa de Mark Zuckerberg afirmou que está “trabalhando para limitar a disseminação de informações erradas e conteúdo prejudicial sobre o vírus e conectar pessoas com informações úteis”.
A iniciativa se estende ao Instagram. “Nós também vamos começar a remover da plataforma conteúdo com falsas alegações e teorias conspiratórias que forem identificadas e denunciadas pelas principais organizações globais e autoridades locais e que possam causar mal para as pessoas que acreditarem nelas” em sua declaração oficial.
Além de Facebook e Instagram, o Twitter e o Google, também intensificaram os esforços durante a semana para orientar os usuários a verificar as fontes dos conteúdos. Ontem, o Google informou que atualizações da OMS vão aparecer no momento em que as pessoas buscarem informações sobre o coronavírus. Já o Twitter divulgou que vai começar a solicitar que os usuários que pesquisam o assunto, verifiquem, antes de qualquer coisa, os canais oficiais de informações sobre a doença.
Todas as referências podem ser encontradas na tese:
CARNEIRO, Erica Mariosa Moreira. Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. 2025. 1 recurso online (590 p.) Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Faculdade de Educação, Campinas, SP. Disponível em: 20.500.12733/42537. Acesso em: 31 mar. 2026.
0 comentário