Tomografia computadorizada de paciente com Covid-19 mostrando a abundância do padrão em “vidro fosco”. Há apenas uma pequena faixa de pulmão normal abaixo, à direita da imagem (à esquerda do paciente).

I

A transparência pode ser entendida como o atributo que têm as coisas que deixam ver através de si. Nem sempre uma virtude. Transparências por vezes são indesejadas e, por essa razão, o engenho humano as transforma em opacidades recatadas. Contudo, o caso do vidro é mesmo especial. Nascido da assombrosa fusão da sílica com a soda, elementos de propriedades visuais singelas, sua natureza é a translucidez obscena, a visão límpida e ao mesmo tempo intangível de uma realidade presente. Por isso o tornamos baço na esperança de que alguém, ao perceber o paradoxo dessa condição, surpreenda-se e que dessa surpresa possa surgir, quem sabe, algo como um sentimento de elegância, quando estamos no campo da estética, ou algo como o conhecimento, quando tratamos de descrições teóricas da natureza. Vai depender da chave cognitiva intencionada.

Em contrapartida, alguém uma vez já disse que a Medicina está imersa em metáforas e é verdade. Se por um lado, sua prática empresta seus termos à Filosofia desde o aparecimento de ambas na Grécia Antiga, de outro, também os médicos se utilizam de metáforas cotidianas para descrever seus achados – bons observadores que sempre foram. Que dizer, a título de exemplo, de termos como “murmúrio vesicular” (sons respiratórios normais) e “sopro” (sons cardíacos anormais)? As descrições radiológicas pulmonares, em especial, são ricas em comparações diversas. “Árvore em brotamento”, “favos de mel” e “vidro fosco”. Vejam só. Vidro fosco. Quando começaram a chegar as descrições de casos de um estranho e preocupante tipo de pneumonia na cidade de Wuhan (província de Hubei), na China continental, a partir de dezembro de 2019, ninguém poderia imaginar que o tal vidro fosco se tornaria quase que uma assinatura viral, impressa nos filmes radiológicos e nas telas dos computadores. 

Entrei em contato com as imagens pulmonares em vidro fosco no final do verão de 2020. A princípio chamavam a atenção pela exuberância incomum. Depois, pela repetição quase monótona dos padrões nos inúmeros pacientes que tivemos a oportunidade de acompanhar. A tal ponto que, mesmo com os exames comprobatórios negativos, tínhamos certeza de com quem estávamos lidando ali. Imagens radiológicas são produzidas pela impressão causada por raios invisíveis – os Raios X – em superfícies sensíveis de modo que, penetrando nas profundidades orgânicas dos corpos, fazem ver o opaco interior da vida. O pulmão é uma superfície marcadamente redobrada sobre si o que cria pequeninos espaços aéreos – os alvéolos – preenchidos por ar. O ar é altamente permissivo aos raios X, o que já não ocorre com os líquidos, a gordura e muito menos com os minerais ósseos. Tal diferença de densidade permite que os raios imprimam diferentes padrões nos filmes e forneçam uma miríade de tons que vão do branco-neve ao preto-carvão. O vidro fosco tomográfico é produzido por um aumento leve na densidade do pulmão que preserva a imagem dos brônquios e vasos pulmonares, proporcionando um aspecto branco “jateado” daquilo que, caso contrário, deveria ser escuro como a noite. Tem mais a ver com as finas membranas que constituem as paredes dos alvéolos que com os espaços aéreos por elas delimitados. Quando são estes últimos os principais acometidos, o padrão resultante é diferente, mais parecido com o de uma “condensação”, uma opacificação alva cuja homogeneidade só é quebrada pelos pobres brônquios imersos na inflamação mas preenchidos ainda por ar que, todavia, já não vai a lugar nenhum. Esse é o padrão característico das pneumonias chamadas “típicas”. Mortíferas desde sempre, sem escolher idade ou credo, mas pictoricamente bem diferentes da COVID-19. Se as imagens pulmonares produzidas pelo novo coronavírus não são propriamente originais, dado que suas primeiras descrições coincidem com a invenção dos tomógrafos de alta resolução, coisa da década de 80, o fascínio e o temor que provocam provém de sua monotonicidade e intensidade nos pacientes graves, como já se disse, mas também de sua quase completa ausência, na grande maioria dos casos acometidos que permanecem, assim, assintomáticos. Ainda não se conhecem os determinantes de tal comportamento, mas sabemos que são democraticamente distribuídos entre os vários segmentos da sociedade: em que pese a mortalidade ser comprovadamente maior nos menos favorecidos, isso se dá mais por dificuldades de acesso ao cuidado e maus tratos prévios que pela diferença de intensidade do processo patológico.

II

Envolvido que estava no cuidado aos pacientes, fui me dar conta apenas algum tempo depois da inusitada combinação de particularidades que constitui a COVID-19. As proporções globais e os números colossais, o contágio veloz e a vulnerabilidade imunológica, o isolamento social e a ausência de terapêutica, a marca radiológica cristalizada numa metáfora visual… Tal mistura de concepções bate de frente em nossa atual noção de mundo. Esse mesmo mundo tão vasto e acessível e que agora se torna difícil, restrito, frágil e perigoso. De todas as maneiras possíveis de penetrar nessa coesa estrutura que constitui o corpo conceitual da pandemia, escolhi logo a porta dos fundos. Não sou epidemiologista, nem tenho formação em sociologia. Me restam as imagens impactantes e seus nomes. Trata-se, portanto, de desvelar o que, num certo tipo de linguagem descritiva da realidade pretensamente literal, permanece oculto, na esperança de que tal desvelamento ponha a nu as mazelas às quais nos apegávamos inadvertidamente. Cabe perguntar, assim, o que na metáfora do vidro fosco presente nas tomografias computadorizadas dos pacientes acometidos pelo novo coronavírus embaça nossa visão? Qual realidade ela procuraria preservar como vidro opaco que é? Seria possível drenar dela algum tipo de elegância ou conhecimento? 

(continua..)


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Os argumentos expressos nos posts deste especial são dos pesquisadores, produzidos a partir de seus campos de pesquisa científica e atuação profissional e foi revisado por pares da mesma área técnica-científica da Unicamp. Não, necessariamente, representam a visão da Unicamp. Essas opiniões não substituem conselhos médicos.


editorial


Karl

técnico e moral do médico contemporâneo que me interessa. Seu pequeno mundo, suas certezas, seus deslizes, suas angústias. Sua relação com a Ciência e desta, com o mundo. Para que se possa tomar conhecimento de como um médico se torna o que é, nos dias de hoje. Eis o médico, pois. Ecce Medicus. Seja bem-vindo. Por Karl. Email: karl@lablogatorios.com.br

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