Darwin e Deus

Muito da discussão sobre o relacionamento entre darwinismo e religião, neste ano, provavelmente há de centrar-se no debate sobre as convicções pessoais de Charles Darwin. Embora interessante do ponto de vsita histórico e biográfico, essa questão é, ao fim e ao cabo, irrelevante para o problema da existência (ou não) de uma divindade — seja a divindade dos religiosos em geral (onipotente, onipresente, onisciente, que ouve e atende preces, criadora e sustentáculo do Universo, fonte da bondade e do dever moral, merecedora de culto e doração) dos teólogos (o “ser necessário”) ou dos filósofos deístas (o administrador impessoal do Universo).
Irrelevante, claro, porque não importa o que o cidadão Darwin pensava a respeito, fosse ele católico, anglicano, pagão céltico, satanista, agnóstico ou ateu; o que importa são as implicações lógicas de sua descoberta para a questão.
E quais seriam essas implicações? Abaixo, uma pequena lsita:
1. Complexidade pode emergir da simplicidade por meios estritamente naturais: isto é, é possível explicar a emergência de sistemas complexos sem a necessidade de recurso ao sobrenatural. Alguns filósofos dizem que o naturalismo é um pressuposto básico da ciência, mas isso não é exatamente verdade: é perfeitamente concebível que existam, em algum lugar, fenômenos perceptíveis na natureza, mas que sejam inexplicáveis dentro da natureza, da mesma forma que coisas que acontecem na minha casa podem ter explicações que vêm de fora (como a imagem da televisão, que surge a partir de um sinal externo).
2. É quase que inevitável que a complexidade surja da simplicidade: dado o processo de seleção natural com descendência, é perfeitamente natural que o complexo surja do simples. Para visualizar isso, imagine um ponto escolhido ao acaso no gráfico de complexidade versus tempo. Se ele começa na coordenada (0,0), daí ele só tem como aumentar – tanto no tempo quanto na complexidade. A partir de um certo momento, os sentidos “mais complexo” e “menos complexo” tornam-se equiprováveis, mas só depois de passado um bom tempo.
3. A natureza é moralmente neutra: antes que a distinção entre ciência, religião e literatura se cristalizasse, era comum que descrições “científicas” de fenômenos naturais assumissem forma poética que, em seguida, ganhavam significado moral. Santo Agostinho, se não me engano, escreveu algo sobre como o vento engravidava as éguas, e tirou algumas conclusões edificantes do “fato”.
A partir de Darwin, no entanto, surgiu uma chave objetiva para o estudo das relações entre os seres vivos e descobriu-se que a natureza é absolutamente indiferente, podendo premiar tanto comportamentos “elevados”, como atos de altruísmo e partilha, quanto as formas de predação e parasitismo mais execráveis.
O que essas três constatações sugerem quanto à ideia de uma divindade? A meu ver, duas coisas:
(a) que a divindade é desnecessária como chave explicativa do mundo;
(b) que o mundo não é coerente com a ideia de um criador bondoso e fonte de leis morais.
Claro, existe um milhão de maneiras de fugir dessas conclusões, ou de distorcê-las, ou de reinterpretá-las. Mas até hoje nunca encontrei um argumento contra elas que não fosse algo além disso: fuga, evasão, tentativas desesperadas de desconversar. Nada, jamais, que pudesse ser chamado de resposta à altura.

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